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Espírito Escorpião

Também conhecido como:
Espírito Pipa

Uma temível criatura da Caverna Pipa que, com seu ferrão venenoso, desafiou até mesmo o Buda Rulai e deixou Wukong e Bajie sem saída.

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Published: 5 de abril de 2026
Last Updated: 5 de abril de 2026

Ela já tinha dado uma ferroada no Buda Rulai lá no pé da Montanha Lingshan. E olha que nem o Rulai deu jeito nela. No capítulo cinquenta e cinco, quando Sun Wukong foi ao Mar do Sul pedir ajuda à Bodhisattva Guanyin, a Guanyin deixou bem claro: "Eu também tenho medo dela". Antigamente, no Mosteiro do Trovão, enquanto ouviam as pregações do Buda, Rulai viu aquela escorpião e mandou ela ir embora. Mas a bicha não arredou o pé; pelo contrário, deu uma ferroada bem no dedo médio da mão esquerda do Buda, e o Rulai sentiu uma dor que não dava para aguentar. O Buda, o próprio Buda, foi picado por uma escorpião e ficou num sofrimento danado — e isso aqui diz muita coisa: significa que o veneno do Espírito Escorpião não é aquela força demoníaca comum, mas um tal de "veneno primordial" que nem a magia infinita de Rulai conseguiu anular. No catálogo de monstros de Jornada ao Oeste, ela é a única, do começo ao fim, que fez o Buda admitir que a coisa era "difícil". Ela pode não ser o demônio mais forte, mas é, com certeza, a mais "abusada" — o veneno dela não segue a lógica dos cinco elementos, não tem aquele "deus superior" que chega para resolver a parada com um golpe de mestre. A única coisa que dobra ela é o canto de um galo.

A Escorpião do pé da Montanha Lingshan: o bicho que mete medo até em Rulai

A origem do Espírito Escorpião é coisa rara: ela virou demônio cultivando bem ali, no pé da Montanha Lingshan. Lingshan é o terreiro do Buda Rulai, o coração do Paraíso Ocidental, o lugar mais sagrado de todo o universo budista. A maioria dos monstros fica encastelada em montanha bruta, lugar onde o vento assobia e ninguém passa, longe dos olhos do Céu e de Lingshan. Mas a escorpião fez tudo ao contrário; ela montou seu cafofo bem debaixo do nariz do Buda.

Isso nos diz duas coisas. Primeira: ela já está na atividade há eras. Para conseguir virar um espírito ali perto de Lingshan, ela não pode ser uma novata de uns poucos séculos — o Dharma é tão forte naquela região que, para uma escorpião comum despertar a inteligência, juntar energia demoníaca e ganhar corpo de gente, leva um tempo muito maior que o normal. Segunda: o veneno dela é dom, não é truque de magia aprendido. Quando Rulai pregava no Mosteiro do Trovão, ela já estava num nível que conseguia se misturar à multidão. E quando o Buda mandou ela sumir, ela não só ignorou, como ainda deu a ferroada nele. Isso não é comportamento de monstro qualquer — qualquer outro demônio, ao ver o Rulai, já teria a alma arrancada de susto. Quem consegue bater de frente com o Buda ou é maluco ou tem certeza de que está protegido. O Espírito Escorpião é do segundo tipo: ela sabe que o ferrão dela derruba até o Buda.

A reação do Rulai depois da picada é a parte mais curiosa. Ele não subjugou a escorpião na hora, nem mandou os Protetores Vajra ou as oito grandes Bodhisattvas para acabar com ela. Ele apenas "mandou os Vajras pegá-la", mas, pelo visto, não pegaram — porque a escorpião escapou inteirinha para a Caverna Pipa da Montanha do Inimigo Venenoso, onde continuou a vida mansa. O grande Buda Rulai, depois de levar uma ferroada, só mandou os subordinados buscarem a bicha, e os subordinados nem a viram. Esse causo ficou bem famoso em Lingshan, e a Guanyin sabe de cada detalhe — tanto que, ao contar a história para Wukong, ela falou com um tom de quem sabe do perigo: "Eu também tenho medo dela".

A Guanyin ter medo dela... essas quatro palavras valem mais do que todas as lutas da escorpião. Que nível de poder tem a Bodhisattva Guanyin? Ela é a arquiteta de todo o plano da jornada, domou o Fogo Verdadeiro Samadhi do Menino Vermelho, subjugou o Espírito Urso Negro e o Espírito Carpa, e em Lingshan só está abaixo de Rulai. Uma Bodhisattva desse calibre, diante da escorpião, não diz "eu posso vencê-la", mas sim "eu também tenho medo". Isso prova que o ferrão da escorpião não é um dano físico ou um ataque demoníaco comum, mas um dano "fora das regras", algo que nem o Dharma consegue bloquear totalmente — é como o Fogo Verdadeiro Samadhi do Menino Vermelho que vence a água dos cinco elementos, só que pior: o fogo ainda podia ser apagado pela água de néctar da Guanyin, mas para o veneno da escorpião, a solução da Guanyin é "achar outra pessoa que saiba lidar com ela", preferindo não botar a mão no fogo.

Por isso, o lugar do Espírito Escorpião na hierarquia dos monstros de Jornada ao Oeste é único: em força bruta, ela talvez não esteja no top dez — em luta ela perde para o Rei Demônio Touro, em tesouros perde para o Rei Chifre de Ouro e o de Prata, e em transformações perde para o Macaco de Seis Orelhas. Mas no quesito "impossível de lidar", ela deve ser a campeã do livro. Não é porque ela é a mais forte, mas porque ninguém aguenta um golpe dela. Toda arte marcial tem seu ponto fraco, mas o ponto fraco da escorpião não está no mundo da "luta" — não é um poder maior ou um tesouro mais forte, é simplesmente o canto de um galo.

Caverna Pipa: um quarto de moça com nome de instrumento

O refúgio da escorpião fica na Caverna Pipa da Montanha do Inimigo Venenoso. "Montanha do Inimigo Venenoso" é um nome que já serve de aviso: tem veneno, é inimigo. Mas a "Caverna Pipa" tem outro clima. A pipa é um instrumento de cordas delicado, que na cultura clássica chinesa está sempre ligada às mulheres, à beleza e à melancolia. Na poesia de Bai Juyi, a mulher da pipa é uma artista caída em desgraça; nas pinturas de Dunhuang, as figuras celestiais dançam com pipas nas mãos. Um lugar chamado "Pipa" não sugere perigo, mas sim um boudoir, um espaço feminino.

O apelido de "Espírito Pipa" vem daí. Ela não é chamada assim porque sabe tocar o instrumento, mas por causa do formato do bicho — as duas pinças abertas parecem os suportes das cordas da pipa, e a cauda curvada parece o braço do instrumento. No imaginário popular, a própria escorpião é chamada de "inseto pipa". Esse nome junta a natureza dela (escorpião) com a identidade (demônia mulher), mostrando a mão firme de Wu Cheng'en na hora de batizar seus personagens.

O livro não detalha muito a decoração da caverna, mas pelas descrições de quando Tang Sanzang foi levado para lá, nota-se que é um lugar arrumado com capricho. No capítulo cinquenta e cinco, a escorpião prepara um banquete para Tang Sanzang: "serviu frutas e legumes vegetarianos" — ela preparou comida sem carne porque sabia que ele era monge. Esse detalhe é ouro: a maioria dos monstros, depois de pegar o Tang Sanzang, só pensa em como vai comer a carne dele, mas a escorpião pensou em como dar uma boa comida para ele. Ela não queria a vida do monge, ela queria o monge.

Lá na caverna também tinha "várias meninas" servindo de criadas. Diferente de outros covis de monstros, onde se vê matilhas de lobos e tigres num cenário brutal, a Caverna Pipa parece a casa de uma família rica — a dona da casa com suas aias, organizando banquetes para receber "visitas". O Espírito Escorpião não criou um covil de monstros, mas a ordem de um quarto de moça. Ela é uma das poucas demônias no livro que realmente cuida do seu refúgio como se fosse um "lar" — algo parecido acontece no Mosteiro da Folha de Bananeira da Princesa do Leque de Ferro, mas a princesa tinha marido; a escorpião mora sozinha.

O contraste entre a brutalidade da "Montanha do Inimigo Venenoso" e a delicadeza da "Caverna Pipa" reflete bem a natureza da própria escorpião: no campo de batalha, ela é o veneno que deixa Wukong e Bajie sem saída; dentro de casa, ela é a anfitriã que serve comida vegetariana, cuida das meninas e arruma o quarto. Forte por fora, delicada por dentro, ou melhor — usa a forma suave para carregar um núcleo implacável.

Forçando o Casamento com Tang Sanzang: A Corte Mais Direta de Toda a Obra

Em Jornada ao Oeste, várias criaturas femininas botaram o olho em Tang Sanzang, mas cada uma com seus próprios motivos e jeitos. A Rainha do Reino das Mulheres queria de verdade que ele ficasse como seu esposo, com toda a doçura e sinceridade de um "pedido de casamento formal". Já os Espíritos Aranha só queriam a carne de Tang Sanzang; o desejo carnal era só um detalhe. A Demônio Coelho de Jade tinha outros planos, fingindo ser a princesa de Tianzhu para atrair o monge.

Mas o Espírito Escorpião é diferente de todas elas. A atitude dela com Tang Sanzang pode ser resumida em quatro palavras: forçar o casamento na marra. No capítulo cinquenta e cinco, depois de sequestrar o monge, ela "faz todo tipo de graça e sedução", declarando abertamente que queria que ele "se tornasse seu marido". Tang Sanzang disse não, e ela, longe de ficar brava, continuou insistindo. Ele recusou de novo, e ela não desistiu: serviu vinho e partiu para a provocação. Chegando ao capítulo cinquenta e seis, a coisa ficou séria e ela "agarrou Sanzang", partindo para o contato físico, deixando de lado as meras palavras.

Esse ataque foi o mais forte de todas as criaturas femininas do livro. A Rainha das Mulheres, embora quisesse o casamento, acabou soltando o monge diante da insistência dele; o desejo dos Espíritos Aranha era superficial; e a Demônio Rato, mesmo sequestrando o monge, preferia o caminho do mimo e da fragilidade. O Espírito Escorpião foi a única que, mesmo diante das sucessivas recusas de Tang Sanzang, foi subindo o tom — das palavras para os gestos, do convencimento para a coerção, num ritmo certeiro e implacável. A conversa dela não era "você quer ou não", mas sim "mais cedo ou mais tarde você vai aceitar".

O original descreve a reação de Tang Sanzang na Caverna Pipa de forma bem vívida. Ele estava "tremendo de medo", mas "simplesmente não aceitava". Wu Cheng'en deu a esse trecho um título bem sugestivo: "A malícia da luxúria brinca com Tang Sanzang, a retidão da natureza preserva o corpo" — a "malícia" é o Espírito Escorpião, e a "retidão" é Tang Sanzang. O coração dessa história não é a briga, mas a sedução contra a resistência. Entre as "oitenta e uma provações" da jornada, o sentido do desafio do Espírito Escorpião não era a ameaça física, mas sim o teste do "preceito da castidade" de Tang Sanzang.

Por que o Espírito Escorpião queria casar com Tang Sanzang? O livro não dá aquele motivo clássico de "comer a carne do monge para viver para sempre" — que era a lógica da maioria dos demônios homens. O desejo dela parece ser mais simples: "querer um marido de verdade". Ela vivia sozinha na Caverna Pipa, comandando apenas meninas, sem nenhum subordinado homem, nem registros de alianças com outros reis demônios. Sua caverna era um espaço puramente feminino, e Tang Sanzang — com sua aparência correta e status nobre (o peregrino, a reencarnação de Jin Chanzi) — era, aos olhos dela, o parceiro ideal. O desejo dela não vinha da ganância, mas de uma escolha: ela gostou do monge e decidiu que teria que tê-lo.

Essa lógica de "eu quero, logo eu tomo" é raríssima entre as criaturas femininas de Jornada ao Oeste. Quase sempre, as ações delas tinham a sombra de um homem por trás — a Princesa do Leque de Bananeira vivia para o marido, o Rei Demônio Touro, e para o filho, o Menino Vermelho; a Demônio Rato tinha o Li Jing, Rei Celestial Carregador da Torre como pai adotivo; os Espíritos Aranha e o Senhor Demônio dos Cem Olhos eram companheiros de estudos. O Espírito Escorpião não tinha esse tipo de dependência. Ela não pertencia ao território de nenhum demônio homem, não era esposa, filha ou irmã de ninguém — era um indivíduo totalmente autônomo, dona da própria montanha, lutando e decidindo tudo sozinha.

O Espinho Venenoso: O Golpe Fatal que Pegou Wukong e Bajie

A arma principal do Espírito Escorpião é o "Espinho Venenoso" — aquela ponta na cauda. Esse espinho é uma arma nata do escorpião, não é um feitiço aprendido nem um tesouro mágico que possa ser roubado ou anulado. O modo de ataque é peculiar: ela não o usa no ataque frontal, mas sim no meio da briga, desferindo um golpe surpresa pelas costas, pegando o adversário desprevenido.

No capítulo cinquenta e cinco, Sun Wukong e Zhu Bajie se juntam para enfrentar a criatura. Wukong gira seu Ruyi Jingu Bang e Bajie usa seu Ancinho de Nove Dentes, atacando em conjunto. O Espírito Escorpião revida com um tridente de aço; embora fosse boa de briga, claramente não era páreo para a força bruta dos dois juntos. Mas, no meio do combate, ela "revelou sua forma original e, com o gancho da cauda", cravou o espinho bem no couro cabeludo de Wukong. O macaco sentiu uma "dor insuportável", um fogo ardendo na cabeça, e foi obrigado a recuar.

Bajie, vendo o companheiro em apuros, partiu para cima com o ancinho e acabou levando a mesma ferroada, desta vez nos lábios. Ele ficou "fazendo caretas e gritando", rolando no chão de tanta dor. Dois dos grandes caminhantes — um com a cabeça latejando e outro com a boca ardendo — foram derrubados por um único espinho.

A malícia do espinho não está no tamanho do furo — que não passa de uma picada de agulha — mas na natureza do veneno. Wukong tem o corpo de diamante, cabeça de bronze e braços de ferro; aguentou quarenta e nove dias na fornalha de Taishang Laojun sem sofrer um arranhão, mas ficou derrubado por um espinho de escorpião. Bajie, que foi o Marechal Tianpeng antes de descer à terra e domina as Trinta e Seis Transformações, também não aguentou o golpe. Isso prova que o veneno do Espírito Escorpião não é um dano físico ou mágico comum — se fosse, a constituição de Wukong e Bajie teria resolvido a coisa. É um "veneno primordial" que ignora as defesas convencionais, o mesmo veneno que ela usou para picar o Buda Rulai em Lingshan.

O pior de tudo: não existe antídoto. Wukong não se curou com pílulas ou meditação, mas teve que aguentar a dor até conseguir ajuda. No mundo de Jornada ao Oeste, tesouros podem ser tomados, feitiços podem ser quebrados e até o Fogo Divino Samadhi pode ser apagado com água de néctar, mas para o espinho do escorpião, ninguém apresentou solução de "cura". Nem Guanyin, nem Rulai deram remédio; a única saída foi "matar o Espírito Escorpião". Isso significa que o espinho é um dano sem volta — a única opção é não ser picado.

Além do espinho, o Espírito Escorpião usava um tridente de aço e uma espada de lâmina azul. O tridente era sua arma de combate frontal e ela se saiu bem contra Wukong, conseguindo bloquear as pancadas do bastão, o que mostra que sua força e técnica eram de alto nível. A espada era apenas um acessório, aparecendo pouco na história. Mas essas armas comuns não eram seu trunfo — no soco, ela não vencia a dupla Wukong e Bajie. Seu verdadeiro xeque-mate sempre foi aquele maldito espinho.

Os Dois Cantos do Oficial Estelar Plêiades: O Auge da Lei dos Cinco Elementos

Wukong e Bajie foram feridos pelos espinhos venenosos; no soco, não davam conta, e o veneno não tinha cura. Wukong partiu para o Mar do Sul buscar Guanyin, mas ela soltou a bomba: "Eu também tenho medo dela". Aí o Wukong entrou em pânico — se nem Guanyin queria botar a mão, quem é que ia ajudar?

Guanyin deu a letra: procure o Oficial Estelar Plêiades. O Oficial Estelar Plêiades é um dos Vinte e Oito Mansões, um imortal de escalão médio no Céu, nem de longe alguém do nível de potências como Guanyin ou Rulai. No começo, Wukong deve ter ficado com a pulga atrás da orelha: "Eu e Bajie juntos não vencemos, Guanyin disse que tem medo, será que um oficial de estrela vai dar conta do recado?".

Mas a jogada do Oficial Estelar Plêiades ao chegar na Montanha do Inimigo Venenoso foi de deixar qualquer um de queixo caído. No capítulo cinquenta e seis, ele pede para Wukong atrair o Espírito Escorpião para fora da caverna. A bicha sai para a briga, avançando com seu tridente de aço. O Oficial Estelar Plêiades nem entra na luta — ele fica parado na encosta da montanha e "revela sua verdadeira forma". E qual era a forma dele? Um galo de crista dupla, bem garboso.

O galo, em sua forma original, soltou um canto para o Espírito Escorpião. E não era um canto qualquer — no mesmo instante, o Espírito Escorpião "revelou sua verdadeira forma, tornando-se um escorpião do tamanho de uma pipa", voltando do humano para o bicho num piscar de olhos. O galo cantou a segunda vez, e o Espírito Escorpião "ficou mole, todo relaxado, e morreu ali mesmo na encosta".

Dois cantos de galo, e pronto. Um demônio que já tinha ferroado Rulai no Monte Lingshan, ferido Wukong e Bajie, e feito até Guanyin recuar, morreu assim, num vapt-vupt. Não foi capturado por tesouro mágico, nem derrotado para depois ser recrutado; foi morte súbita. Nos desfechos dos demônios de Jornada ao Oeste, ser "morto na hora" é o fim mais implacável que existe.

Isso é a aplicação mais pura e extrema da lei da superação dos Cinco Elementos no mundo da obra. O veneno do Espírito Escorpião era incurável não porque a magia dela fosse maior que a de Rulai — o que obviamente não era — mas porque aquele veneno era "inato", estava fora da dimensão do embate de poderes. Da mesma forma, o galo vence o escorpião não porque a "magia" do galo seja superior, mas por uma questão de natureza: galo come escorpião, escorpião tem pavor de galo. É a cadeia alimentar da natureza, não uma disputa de artes imortais.

Esse detalhe tem um peso enorme na história. Ele avisa ao leitor que, no mundo de Jornada ao Oeste, nem tudo se resolve "achando um deus mais poderoso". Existem relações de contraposição que atropelam qualquer hierarquia de poder — um galo pode ser insignificante em termos de magia, mas consegue fazer com o escorpião o que nem o Buda Rulai conseguia. É a forma extrema que Wu Cheng'en encontrou de expressar a filosofia chinesa de que "todas as coisas se geram e se combatem": o caminho do céu tem suas leis, e elas não mudam conforme a força do indivíduo. Se o Buda é forte, mas o escorpião ferroa, ele é ferroado; se o escorpião é venenoso, mas tem medo de galo, ele treme diante do galo.

A atitude do Oficial Estelar Plêiades depois da missão também é curiosa. Depois de matar o Espírito Escorpião, ele "fez descer a luz auspiciosa, recolheu sua forma original", voltou a ser humano, se despediu de Wukong e partiu para prestar contas no Céu — tudo com a maior naturalidade, como quem termina um serviço rotineiro. Para ele, era isso mesmo: galo come escorpião, é a lei da vida. Mas para Wukong, a cena deve ter sido um choque — ele, que não temia nada quando causou o caos no Céu e que derrubou quase todo mundo no caminho, ficou de mãos atadas diante de um escorpião. E a solução não veio das suas Setenta e Duas Transformações, nem do Ruyi Jingu Bang ou da Nuvem Cambalhota, mas de um galo que cantou duas vezes.

As Mulheres e o Gênero: A Independência do Espírito Escorpião

O Espírito Escorpião é um dos personagens mais "independentes" entre as mulheres demônio de Jornada ao Oeste. Essa autonomia aparece em vários níveis.

Primeiro, ela não depende de homem nenhum. A Princesa do Leque de Ferro é esposa do Rei Demônio Touro, e sua vida gira em torno do marido; o Demônio Rato tem o Rei Celestial Carregador da Torre como pai adotivo para dar suporte; as aranhas e o Senhor Demônio dos Cem Olhos são irmãos de disciplina e se ajudam nas horas apertadas. O Espírito Escorpião não se apoia em ninguém. Ela manda sozinha na Montanha do Inimigo Venenoso, comanda a Caverna Pipa, luta sozinha e toma todas as decisões. Não tem marido, nem irmão, nem mestre — a Caverna Pipa é o reino dela e de mais ninguém.

Segundo, a força dela vem inteiramente de si mesma. Ela não usa tesouros mágicos — seu tridente de aço e sua espada são armas comuns, bem diferente da Cabaça Vermelha de Ouro Roxo do Rei Chifre de Ouro ou do Vaso Puro do Rei Chifre de Prata, que são relíquias do Céu. Ela não tem "quem indique" — não é como o Espírito Touro Verde que tem Taishang Laojun nas costas, ou o Grande Peng de Asas Douradas que é tio do Rulai. Todo o seu poder reside nos seus espinhos naturais e na arte da luta que ela mesma lapidou. Ela briga com o que tem, sem nenhum reforço externo.

Terceiro, a maneira como ela corre atrás de Tang Sanzang mostra um desejo ativo. Nos romances das dinastias Ming e Qing, uma mulher expressar abertamente seus desejos — especialmente pelos homens — era visto como "imoral" ou "lascivo". O título que Wu Cheng'en deu a esse capítulo, "A Luxúria Malvada Brinca com Tang Sanzang", carrega esse julgamento moral. Mas, se a gente tirar a moral da época, a lógica do Espírito Escorpião faz sentido: ela é uma mulher que vive só, se interessa por um homem que passa na estrada e vai atrás dele do jeito dela — embora o método seja "sequestrar para forçar o casamento", o que é violento, a motivação não é mais "maligna" do que a de qualquer demônio homem que sequestre mulheres no livro.

Vale notar como ela trata Tang Sanzang. Ela não usa a força bruta para obrigá-lo a aceitá-la — não diz "ou aceita ou eu te mato". A tática dela é a persuasão e a sedução: serve comida vegetariana, oferece bons vinhos, fala manso e usa o carinho. Embora o ato de "agarrar Sanzang" tenha passado dos limites da vontade do monge, comparada a outros demônios que queriam colocar o pobre homem no "vapor", o "índice de violência" do Espírito Escorpião é bem baixo. Ela é um demônio que usa o "soft power"; a força é só para defesa externa, mas entre ela e Tang Sanzang, ela escolhe a delicadeza.

O fim do Espírito Escorpião — morrer num instante por causa de dois cantos de galo — traz um sentido complexo na narrativa de gênero. Ela era uma mulher tão poderosa que até Rulai tinha receio, mas acaba sendo aniquilada por uma força "doméstica", de nível "ave de quintal". Isso pode ser lido como "a justiça do céu é para todos, todo forte tem um ponto fraco", ou então que uma mulher independente, que se recusou a depender de qualquer homem, acaba sendo eliminada pelas próprias leis da natureza, e não pelo poder de qualquer deus masculino.

Entre as mulheres demônio do livro, o Espírito Escorpião é uma das poucas que tem um fim trágico de morte — não é domada para virar serva (como o Menino Vermelho que virou Menino Sudhana), nem volta à forma original para ser solta (como alguns demônios menores), mas morre de vez. A frieza desse desfecho faz um contraste incômodo com a independência que ela teve em vida: quanto mais independente e incontrolável é a mulher demônio, mais drástico é o seu fim. Pode ser que Wu Cheng'en não tenha planejado isso conscientemente, mas, na prática, a história do Espírito Escorpião deixa um espaço rico para pensar sobre a autonomia feminina.

Personagens Relacionados

Adversários Diretos

  • Sun Wukong: Teve o couro cabeludo atingido pelos espinhos venenosos do Espírito Escorpião; a dor era tamanha que não conseguiu vencer, precisando buscar a ajuda do Oficial Estelar Plêiades.
  • Zhu Bajie: Foi atingido nos lábios pelos espinhos venenosos e ficou rolando no chão de tanta dor; assim como Wukong, ficou totalmente sem saída diante do Espírito Escorpião.

Quem a Subjugou

  • Oficial Estelar Plêiades: Uma das Vinte e Oito Mansões, cuja forma original é a de um galo de crista dupla; com apenas dois cacarejos, aniquilou o Espírito Escorpião, sendo a "caça ao demônio" mais eficiente de todo o livro.

Personagens Vinculados

  • Tang Sanzang: O alvo raptado pelo Espírito Escorpião para um casamento forçado; manteve-se firme na Caverna Pipa, preservando a pureza de seu corpo e espírito.
  • Bodhisattva Guanyin: Declarou abertamente: "Eu também tenho medo dela", e orientou Wukong a procurar o Oficial Estelar Plêiades.
  • Buda Rulai: Já havia sido ferido no polegar da mão esquerda pelo ferrão do Espírito Escorpião em Lingshan; enviou os Guardiões Vajra para capturá-la, mas sem sucesso.

Personagens Comparáveis

Perguntas frequentes

Qual a força do "Espinho Venenoso do Cavalo Caído" do Espírito Escorpião, e por que nem mesmo Sun Wukong conseguiu resistir? +

O Espinho Venenoso do Cavalo Caído é o ferrão natural na cauda do Espírito Escorpião, que surge de repente das costas durante a luta. Trata-se de um veneno primordial, que não segue as regras do sistema de cinco elementos. Wukong, com sua cabeça de bronze e braços de ferro, que aguentou quarenta e…

Por que dizem que o ataque do Espírito Escorpião ao Buda Rulai é o feito mais incomum de um demônio em todo o livro? +

Enquanto ouvia as escrituras no Mosteiro do Trovão, em Lingshan, ela se recusou a ir embora e, quando Rulai a mandou sair, ela deu uma ferroada no polegar da mão esquerda do Buda, fazendo com que Rulai sentisse uma "dor insuportável imediata". A própria Guanyin deixou claro: "Eu também tenho medo…

Qual a origem do Espírito Escorpião e como ela conseguiu cultivar seus poderes perto de Lingshan? +

Ela é o Espírito Escorpião da Caverna Pipa da Montanha do Inimigo Venenoso. Cultivou por longos anos aos pés de Lingshan e foi justamente por estar mergulhada na energia espiritual de um lugar tão sagrado que conseguiu despertar a inteligência e assumir forma humana. Ela não estava lá por acaso —…

O que o Espírito Aranha queria ao raptar Tang Sanzang, e qual a característica da sua forma de cortejá-lo? +

Ela queria que Tang Sanzang "se tornasse seu esposo". Para isso, preparou um banquete vegetariano, serviu vinho e usou palavras e gestos para convencê-lo repetidamente. Quando Tang Sanzang recusou, ela intensificou a ofensiva até "agarrar Sanzang". Comparada a outras demônias, ela é a mais direta e…

Como o Oficial Estelar Plêiades derrotou o Espírito Escorpião, e por que logo um galo foi eficaz? +

O Oficial Estelar Plêiades revelou sua verdadeira forma — um grande galo de crista dupla — e soltou dois cacarejos para o Espírito Escorpião: o primeiro fez com que ela revelasse sua forma original, e o segundo a deixou mole, matando-a na hora, sem precisar de tesouros ou feitiços. Isso acontece…

O Espírito Escorpião acabou sendo morta ou subjugada, e o que isso tem de especial no contexto da obra? +

Ela foi morta ownamente pelos dois cacarejos, revelando sua forma original e caindo morta no local — não foi transformada em serva, nem levada ao Reino Superior, mas morreu completamente. Entre os destinos das demônias independentes do livro, este é o mais drástico. Isso cria uma simetria com a…

Aparições na história

Tribulações

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