Macaco de Seis Orelhas
Um demônio enigmático e idêntico a Sun Wukong em tudo, cuja existência desafia a própria noção de identidade e exige a intervenção do Buda Rulai para ser desvendada.
Se até o Diting não ousou revelar a verdade, será que a resposta sobre quem era o verdadeiro e quem era o falso Belo Rei dos Macacos é realmente confiável?
Essa pergunta atormenta os leitores há mais de quatrocentos anos. No capítulo 58, Diting, prostrado no chão após ouvir por um longo tempo, disse claramente ao Rei Yama: "Eu reconheci a verdadeira identidade do demônio, mas não posso dizer". Não é que ele não tenha reconhecido — é que ele não ousou falar. Uma criatura divina capaz de "ouvir o que acontece a oitocentos passos sentado e a três mil passos deitado", ao descobrir a verdade, preferiu calar a boca e empurrar os dois macacos idênticos para a Montanha Lingshan, entregando-os ao julgamento do Buda Rulai. A sentença de Rulai foi: este é o Macaco de Seis Orelhas, um dos Quatro Macacos Travessos do Mundo, que "possui ouvido perspicaz e razão discernente, conhece o passado e o futuro, e tudo no universo lhe é claro". Mal a frase foi dita, a tigela dourada desceu sobre ele, e Wukong o matou com uma pancada de seu bastão. O caso foi encerrado — mas será que a verdade realmente veio à tona? Ou será que apenas recebemos uma "resposta padrão emitida pela autoridade máxima"? O arco do "Verdadeiro e Falso Belo Rei dos Macacos" é a história mais inesquecível de Jornada ao Oeste não porque trouxe uma resposta, mas porque faz com que a gente nunca consiga acreditar plenamente nessa resposta.
O prenúncio do capítulo 56: Por que Wukong matou os bandidos?
Tudo começou com um crime no capítulo 56.
O grupo de peregrinação caminhava por uma montanha deserta quando foi interceptado por uma gangue de bandidos. No original, a descrição é direta — eram bandidos comuns, sem aura demoníaca, sem magia, apenas uns "ladrões de estrada". Tang Sanzang foi amarrado a uma árvore, e assim que Sun Wukong chegou, resolveu a parada com alguns chutes e socos, dispersando a gangue. A coisa poderia ter parado por aí. Mas Wukong não parou — ele alcançou o chefe dos bandidos que fugia e o matou com um golpe de bastão.
Não era um monstro, nem um espírito maligno; era um ser humano de carne e osso.
Houve um precedente parecido anteriormente. No capítulo 14, Wukong matou seis bandidos (chamados de "Alegria aos Olhos, Raiva aos Ouvidos, Amor pelo Olfato, Pensamento ao Paladar, Desejo da Mente e Preocupação do Próprio Corpo" — claramente uma alegoria aos seis sentidos e aos seis bandidos), e Tang Sanzang também o repreendeu. Mas, naquela vez, com a metáfora dos "seis sentidos", o leitor podia entender como a remoção de obstáculos no caminho da iluminação. No capítulo 56 é diferente — esses bandidos não tinham nomes alegóricos, nem significado simbólico; eram apenas mortais querendo roubar dinheiro. Depois de matar, Wukong ainda levou a cabeça do homem até Tang Sanzang. O monge, tremendo de medo, recitou um mantra para a alma do falecido e disse palavras duríssimas a Wukong — basicamente: "se você continuar matando assim, eu não quero mais você comigo".
A reação de Wukong também merece atenção. Ele não se humilhou nem pediu desculpas como costumava fazer; em vez disso, "deu um acesso" e soltou: "Se o mestre não me quer, eu volto para o Monte das Flores e Frutas e pronto". O subtexto aqui é: se você não me quer, tanto faz, eu tenho minha própria casa. Essa atitude enfureceu Tang Sanzang, que imediatamente recitou o Feitiço da Argola Apertada. Wukong, rolando no chão de dor, partiu furioso.
Essa cena é o verdadeiro ponto de partida de toda a história do "Verdadeiro e Falso Belo Rei dos Macacos". Wu Cheng'en usou um capítulo inteiro para preparar um conflito central: a ruptura entre a "natureza macaca" de Wukong (decisivo, letal, indomável) e a "natureza monástica" exigida do grupo (compaixão, não violência). Essa tensão já vinha se acumulando nos capítulos anteriores — cada vez que Wukong batia em um demônio, Tang Sanzang vinha com aquele sermão de "não tire vidas" — mas o capítulo 56 foi a primeira explosão total. A ruptura entre mestre e discípulo não aconteceu por causa de um monstro, mas por uma divergência ética sobre "o que deve e o que não deve ser morto".
Wukong voou até a Bodhisattva Guanyin para reclamar. Pouco depois de sua partida, um macaco idêntico a ele apareceu diante de Tang Sanzang.
Os Quatro Macacos Travessos: Existências fora das dez categorias
No capítulo 58, Rulai disse algo fundamental aos Bodhisattvas e Arhats no Mosteiro do Trovão:
"Dentro do céu existem cinco imortais: o céu, a terra, os deuses, os homens e os fantasmas. Existem cinco insetos: as sanguessugas, as escamas, os pelos, as penas e os insetos. E existem quatro macacos que confundem o mundo, que não entram nas sementes das dez categorias."
Essas palavras são a nota final sobre a identidade do Macaco de Seis Orelhas. Todas as criaturas do universo são divididas em dez grandes grupos — os "cinco imortais e cinco insetos". Imortais têm registros, demônios têm cadastro, até as almas dos mortos estão numeradas no Livro de Vida e Morte do Palácio de Yama. Mas os "Quatro Macacos Travessos" não estão em nenhuma dessas dez categorias. Eles são existências fora do sistema de classificação, pontos cegos da ordem universal.
Os quatro macacos são: o Macaco de Pedra Espiritual (domina transformações, conhece o tempo do céu e a geografia da terra — Wukong), o Macaco de Bunda Vermelha (entende o yin e yang, conhece os assuntos humanos e sabe transitar entre mundos), o Macaco de Braços Longos (alcança o sol e a lua, encurta montanhas e distingue a sorte do azar) e o Macaco de Seis Orelhas (possui ouvido perspicaz, razão discernente, conhece o passado e o futuro, e tudo no universo lhe é claro). Cada um tem seus poderes, mas a característica comum é "não entrar nas dez categorias" — qualquer método de identificação baseado no sistema das "dez categorias" falha miseravelmente com eles.
Isso explica a pergunta que deixa os leitores perplexos: por que o Espelho Revelador de Demônios não funcionou? Por que não foi encontrado no Livro de Vida e Morte? Por que ambos sentiram dor com o Feitiço da Argola Apertada? — Porque todos esses métodos são baseados no sistema das "dez categorias". O espelho distingue o que é demônio e o que não é, mas o Macaco de Seis Orelhas não pertence à categoria de "demônio"; o livro registra seres com domicílio entre os "cinco imortais e cinco insetos", mas o Macaco de Seis Orelhas não tem registro; o feitiço da argola prende quem a usa, e a capacidade de "ouvir e discernir" do Macaco de Seis Orelhas permitiu que ele replicasse perfeitamente até a sensação da argola — ele não "estava usando uma argola", ele conseguia sentir a frequência vibratória do mantra e sincronizar a reação de dor.
"Não entrar nas dez categorias" é um conceito extremo nas visões de mundo budista e taoísta. As dez categorias abrangem tudo — do imortal mais alto ao inseto mais baixo, do vivo no mundo solar ao fantasma no mundo lunar. Dizer que algo "não entra nas dez categorias" é dizer que aquilo não existe nos livros contábeis do universo. Sem origem, sem pertencimento, sem registro. Simplesmente apareceu, como um bug no sistema.
Por que Wu Cheng'en desenhou tal existência? Uma resposta possível é: ele precisava de um adversário contra quem todos os métodos de identificação falhassem, para levar a questão do "verdadeiro e falso" ao limite. Se o espelho revelasse a verdade de primeira, a história acabaria em duas páginas. Somente quando todos os meios falham — Guanyin falha, Yama falha, Diting falha — e resta apenas Rulai para dar a resposta, é que a história toca no ponto que realmente quer discutir: em um mundo onde todos os padrões convencionais falham, quem detém o poder de definir o que é "verdadeiro"?
A Cópia Perfeita: Do Ruyi Jingu Bang ao Feitiço da Argola Apertada
A cópia que o Macaco de Seis Orelhas fez de Wukong chegou a um nível de dar calafrios.
A aparência era idêntica — "mesma roupa, mesma face" (Capítulo 57), sem a menor diferença até na quantidade de pelos, na saia de pele de tigre ou nas botas de nuvens nos pés. A voz era a mesma — os dois macacos trocavam xingamentos diante de Guanyin, e ela mesma "tinha dificuldade em distinguir". As artes marciais eram iguais — lutaram centenas de rounds sem que ninguém vencesse, saindo do chão para o Palácio Celestial, do Palácio Celestial para o Submundo, e do Submundo para Lingshan, sem que um conseguisse levar a melhor sobre o outro.
Mais impressionante ainda foi a cópia dos equipamentos. O Ruyi Jingu Bang é a Agulha que Fixa o Mar do Palácio do Dragão do Mar do Leste, uma arma divina única no mundo — mas o "Soldado de Ferro do Coração" nas mãos do Macaco de Seis Orelhas era exatamente igual, mudando de tamanho conforme a vontade, com o mesmo peso e o mesmo poder. O livro original não explica a origem dessa arma. Não poderia ser outra Agulha que Fixa o Mar (já que o Palácio do Dragão só tem uma), nem teria sido roubada do arsenal do Céu (se o Céu tivesse perdido uma arma desse nível, teria caído um mundo). A explicação mais lógica é: a capacidade do Macaco de Seis Orelhas de "ouvir a razão e discernir a natureza de todas as coisas, passadas e futuras" não era apenas uma percepção de informação, mas uma cópia material — ele conseguia "ouvir" a essência do Ruyi Jingu Bang e, de algum modo, recriá-la.
O mais inacreditável, porém, foi o Feitiço da Argola Apertada. Essa argola foi colocada em Wukong pelas próprias mãos de Guanyin, e o mantra é controlado por Tang Sanzang, criando um vínculo único entre a peça e a pessoa. Mas o Macaco de Seis Orelhas também tinha uma argola idêntica na cabeça, e quando Tang Sanzang recitava o mantra, os dois gritavam de dor. A própria Guanyin recitou o Feitiço da Argola Apertada e, resultado: "os dois gritaram de agonia juntos" (do fim do Cap. 57 ao 58). A própria Guanyin ficou perplexa — ela mesma deu a argola, ela mesma desenhou o mecanismo de vínculo, e agora surgia uma cópia que nem ela conseguia distinguir.
Essa perfeição na cópia levanta uma questão profunda: se dois seres são completamente idênticos em todas as dimensões observáveis, onde fica a diferença entre o "original" e a "cópia"? No plano físico, não há diferença. No plano das habilidades, não há diferença. Na aparência, nada muda. Até mesmo no vínculo da magia, tudo é igual. A única diferença reside em um plano impossível de verificar: "quem apareceu primeiro". Mas mesmo essa distinção torna-se vaga diante da capacidade do Macaco de Seis Orelhas de "conhecer todas as coisas passadas e futuras": ele sabe tudo o que aconteceu no passado e pode reproduzir perfeitamente todas as memórias e experiências de Wukong. Com os dois macacos lado a lado, cada um contando sua história, cada detalhe batia; ninguém conseguia separá-los através de um "teste de memória".
Wu Cheng'en toca aqui em águas profundas da filosofia: uma versão extrema do problema do Navio de Teseu. Se uma cópia é idêntica ao original em todos os atributos, ela ainda é "falsa"? Se a definição de "verdadeiro" não depende de nenhum atributo observável, do que ela depende?
Guanyin não reconhece, o Rei Yama não ousa dizer, Diting não se atreve a falar
O processo de distinguir o verdadeiro do falso foi desenhado por Wu Cheng'en como uma corrente de falhas em três níveis, onde cada fracasso é mais profundo e inquietante que o anterior.
Primeiro nível: Bodhisattva Guanyin. Os dois Wukongs lutam até o Monte Potalaka, no Mar do Sul, e cada um defende sua versão diante de Guanyin. Ela é a inventora do Feitiço da Argola Apertada, o maior apoio de Wukong em sua jornada e, em Jornada ao Oeste, o símbolo da sabedoria, perdendo apenas para Rulai. O método que ela tenta é recitar o Feitiço da Argola Apertada — seu recurso mais seguro, já que ela mesma criou o vínculo da argola. O resultado? Os dois macacos rolam no chão segurando a cabeça. Guanyin admite na hora: "Eu também não consigo distinguir". O peso desse fracasso é enorme — significa que "o criador não consegue diferenciar seu próprio produto de uma imitação". Guanyin então pede que Muzha os leve ao Céu para testarem o Espelho Revelador de Demônios do Imperador de Jade. O espelho mostra que "a forma é a mesma, o Ruyi Jingu Bang é o mesmo, mudando apenas as orelhas" — o espelho confirma que existem dois, mas não diz qual é o verdadeiro.
Segundo nível: Palácio do Rei Yama. Os dois macacos lutam do Céu até o Submundo. O Rei Yama consulta o Livro de Vida e Morte, mas não encontra nada — o Macaco de Seis Orelhas "não pertence às dez categorias", não há registro dele no livro. Então entra em cena Diting. Esta fera divina, que serve ao Bodhisattva Ksitigarbha, é descrita como o ser de audição mais aguçada de todo o universo — "ouve oitocentos sentado, ouve três mil deitado". Diting encosta no chão, escuta com atenção e sussurra ao Rei Yama: "Embora o nome do monstro possa ser distinguido, não se deve revelá-lo abertamente. Primeiro, porque o demônio é astuto; segundo, porque o Grande Sábio tem três irmãos, e o Rei Dragão, o Rei Yama e os soldados celestiais podem ser convocados a qualquer momento. Se eu falar, o demônio entrará em fúria e o Submundo não aguentará. Melhor deixá-los ir para Lingshan, onde o Buda saberá distinguir".
A carga de informação nessa fala de Diting é assustadora. Primeiro, ele descobriu — "embora o nome possa ser distinguido" é bem claro. Segundo, ele não ousou falar — porque a consequência seria o Macaco de Seis Orelhas causando um caos no Submundo, e o Submundo não teria poder para subjugá-lo. Terceiro, ele fez um julgamento político — isso só poderia ser resolvido por Rulai, pois apenas Rulai teria poder e força militar suficientes para encerrar a questão.
A ausência de um terceiro nível é justamente a parte mais instigante. Diting sabe a verdade, mas escolhe o silêncio, entregando o poder de decisão a Rulai. Essa escolha é moralmente questionável — ele poderia ter revelado tudo na hora, mas escolheu a "segurança acima de tudo". O silêncio de Diting reflete uma realidade cruel: no mundo do poder, o valor da verdade não depende da verdade em si, mas de "quem tem a capacidade de arcar com as consequências de revelá-la". Diting não podia arcar, então a verdade foi arquivada no Submundo até ser entregue a um juiz poderoso o suficiente.
De Guanyin ao Rei Yama e depois a Diting, a capacidade de identificação aumenta gradualmente: Guanyin não vê nada, o sistema do Rei Yama não encontra nada, Diting ouve a verdade, mas não ousa falar. Esse design de progressão é primoroso — não é apenas uma repetição de "não consigo distinguir", mas a exibição de três níveis diferentes de "impotência": falta de capacidade (Guanyin), falha do sistema (Yama) e saber, mas ter medo (Diting). O terceiro é o pior, pois significa que a verdade já existia, mas foi ativamente suprimida pelo medo.
O Julgamento de Rulai: A Sentença Final sob a Tigela Dourada
Os dois macacos lutam do Submundo até Lingshan, continuando a briga diante do Grande Salão do Tesouro. Rulai, sentado em seu trono de lótus, faz aquele longo discurso sobre os "Quatro Macacos Travessos do Mundo" e, então, muda o tom — "Vejo que o falso Wukong é, na verdade, o Macaco de Seis Orelhas".
Assim que as palavras são ditas, o Macaco de Seis Orelhas fica "aterrado" e se transforma em uma abelha para fugir. Rulai, com um movimento de mão, vira a Tigela Dourada sobre ele, prendendo a abelha lá dentro. Ao levantar a tigela, revela-se a forma original do Macaco de Seis Orelhas. Wukong levanta o Ruyi Jingu Bang e, com um golpe, mata o impostor.
Todo o processo de julgamento é extraordinariamente rápido. Do momento em que Rulai abre a boca até a morte do Macaco de Seis Orelhas, o livro original gasta menos de duas páginas. Comparado às dezenas de páginas de falhas anteriores, a decisão de Rulai é tão direta que chega a ser suspeita.
Como Rulai distinguiu? O livro não oferece nenhuma explicação técnica. Ele não usou o Espelho Revelador, não recitou o Feitiço da Argola, não consultou o Livro de Vida e Morte, nem pediu para Diting ouvir — ele apenas "observou" e anunciou o resultado. Essa "observação", no contexto budista, tem um significado especial — a visão do Buda que enxerga todas as formas do Dharma — mas, para o leitor, é essencialmente um argumento circular: "ele consegue ver porque é Rulai".
Mais crucial ainda é a reação do Macaco de Seis Orelhas. No instante em que Rulai pronuncia "Macaco de Seis Orelhas", o falso Wukong imediatamente demonstra pavor — esta é a primeira e única vez em todo o livro que o Macaco de Seis Orelhas reage de forma diferente de Wukong. Antes disso, fosse diante de Guanyin, do Rei Yama ou dos generais celestiais, ele se manteve tão calmo e impecável quanto Wukong. Mas, ao ouvir Rulai, ele desmoronou. Há duas interpretações: primeira, a capacidade de percepção de Rulai realmente supera tudo, e o Macaco de Seis Orelhas soube que não poderia mais se esconder; segunda, não foi que Rulai "viu", mas que a autoridade de Rulai em si constitui a sentença — quem ele diz que é falso, é falso, sem necessidade de prova.
O detalhe de o Macaco de Seis Orelhas se transformar em abelha para fugir também é significativo. Até então, ele lutava e xingava Wukong com toda a convicção, afirmando ser o verdadeiro. Se ele realmente "ouvia a razão e conhecia todas as coisas", deveria saber que Rulai o descobriria — então por que vir a Lingshan? Ele errou no julgamento? Ou ele simplesmente não tinha escolha — quando dois macacos lutam até o fim, Lingshan é o único lugar capaz de encerrar a disputa, e vir ou não vir resultaria em morte?
Após ser preso pela tigela, Wukong o mata com um golpe. Rulai não impediu. Isso é completamente diferente de como ele lidou com outros demônios — o Grande Peng de Asas Douradas foi mantido ao seu lado, o Rei Demônio Sobrancelha Amarela foi levado por Buda Maitreya, e até mesmo um pequeno demônio como o Espírito dos Ossos Brancos recebeu mantras de libertação de Tang Sanzang. Mas o Macaco de Seis Orelhas? Morto na hora, sem libertação, sem subjugação, sem qualquer chance. Rulai disse apenas um "Sadu, sadu" — um termo budista usado no momento em que uma vida é apagada por um golpe, com uma calma que beira a crueldade.
Um Golpe Fatal: O Fim Mais Direto de Todos os Demônios
O Macaco de Seis Orelhas é o demônio com o desfecho mais seco de toda a Jornada ao Oeste. Não houve rendição para ser levado de volta ao Céu, não foi libertado após ter sua forma original revelada, nem foi trancado em alguma caverna ou artefato mágico para uso futuro — foi um golpe só, morto na hora.
O que choca nesse final é a sua "absolutidade". Na Jornada ao Oeste, a grande maioria dos demônios não termina em morte. O Rei Demônio Touro foi domada a narina e enviado ao Monte Lingshan para se redimir; o Menino Vermelho foi acolhido por Guanyin como o Menino Sudhana; o Demônio do Vento Amarelo foi subjugado pelo Bastão do Dragão Voador do Bodhisattva Lingji; já o Espírito Escorpião só foi morto depois que o Oficial Estelar Plêiades neutralizou seu veneno — e isso porque o mal daquela criatura era realmente impossível de curar. A maioria dos demônios com "pedigree" acaba voltando para o dono: se era a montaria, o assistente ou o bichinho de alguém, esse alguém vinha buscá-lo. Só os demônios sem origem é que eram abatidos sem dó.
Mas o Macaco de Seis Orelhas não era qualquer coisinha. Ele era um dos "Quatro Macacos Travessos do Mundo", alguém do mesmo nível que Wukong. Só que ele não tinha dono, não tinha origem, não tinha ninguém para reivindicá-lo. Rulai disse que ele "não se encaixava em nenhuma das dez categorias" — e o outro lado dessa frase é: não havia deus ou buda que respondesse por ele, nem qualquer força do sistema que pudesse interceder. Ele era um "estranho ao quadro", um fora do sistema, por isso sua morte não exigiu burocracia — nem decreto, nem aprovação, nem acerto de contas. Um golpe de Wukong, e a conta estava paga.
Esse jeito de resolver as coisas sugere uma lógica cruel: no universo da Jornada ao Oeste, a maneira como se morre depende do lugar que se ocupa na hierarquia. Quem tem cargo — a montaria perdida do Céu, o assistente desertor do Budismo — não morre, porque tem quem proteja. Quem não tem cargo — o Demônio dos Ossos Brancos, os Espíritos Aranha, as diversas criaturas selvagens — pode morrer, mas geralmente há um ritual (uma prece, uma coleta de alma). Já o Macaco de Seis Orelhas nem sequer "estava fora do quadro" — ele era a anomalia, o inexistente no registro civil do universo. Matar algo que não existe nem sequer conta como "matar um ser vivo".
Depois que Wukong matou o Macaco de Seis Orelhas, Rulai soltou um "Santi, santi" e pediu que Guanyin levasse Wukong de volta para continuar a busca pelas escrituras. O acerto de contas resumiu-se a essa frase. Não houve investigação sobre a origem do Macaco de Se six Orelhas, nem estudo sobre como ele cultivou poderes iguais aos de Wukong, nem reflexão sobre por que todo o sistema de vigilância do Céu e do Submundo falhou com ele. Um ser capaz de enganar o Espelho Revelador de Demônios, ludibriar o Feitiço da Argola Apertada e que não constava no Livro de Vida e Morte foi morto com um golpe, e todos voltaram para casa aliviados. Esse "não querer saber" é, por si só, uma mensagem: morreu, acabou, não procurem mais.
A Questão do "Coração Dividido": A Metáfora Zen de Wu Cheng'en
O título do capítulo 58 diz: "Dois corações perturbam o Grande Universo, um único corpo luta para alcançar a verdadeira extinção". Essas palavras são o esboço filosófico de todo o arco da história.
O "coração dividido" (ou "dois corações") é um conceito central no Zen. No Sutra da Plataforma do Sexto Patriarca, fala-se em "um coração que não gera dois pensamentos"; o objetivo final da prática budista é a "mente imperturbável" — ter apenas um pensamento, a consciência plena. No momento em que surge um segundo pensamento, temos o "coração dividido", a raiz das ilusões, dos apegos e das malvadas intenções. Qual era o "segundo coração" de Wukong? Era aquele desejo de "não querer ser mandado, querer voltar ao Monte das Flores e Frutas para ser rei". No capítulo 56, após matar os bandidos, ele diz a Tang Sanzang: "Se você não me quer, eu volto para o Monte das Flores e Frutas" — essa frase é a materialização do "coração dividido". Ele dizia que queria as escrituras, mas no fundo guardava sempre a porta aberta para "largar tudo e ir embora".
Wu Cheng'en transformou esse conflito interno em um ser físico: o Macaco de Seis Orelhas. Ele não era um inimigo vindo de fora, mas a projeção do interior de Wukong. Ferir Tang Sanzang, roubar a bagagem, voltar ao Monte das Flores e Frutas para montar um grupo falso de peregrinos — tudo isso era exatamente o que Wukong mais quis fazer no capítulo 56, quando sua mente estava agitada. No instante em que foi expulso por Tang Sanzang, esses pensamentos devem ter passado pela sua cabeça: "Que tal bater no monge, pegar as coisas e voltar a ser o grande rei no meu monte?". Ele não agiu conforme esses impulsos, mas eles se condensaram no Macaco de Seis Orelhas.
As palavras de Rulai, após revelar a verdade, sustentam essa leitura. Ele não tratou o Macaco de Seis Orelhas como um invasor, mas definiu a situação como um problema de cultivo do próprio Wukong. O sentido do que ele disse foi: se o seu coração não for puro, surgirão esses obstáculos demoníacos; somente com "um único coração" se alcança a "verdadeira extinção". Em outras palavras, o Macaco de Seis Orelhas não era um inimigo a ser derrotado, mas a parte de si mesmo que Wukong precisava vencer.
Sob esse ângulo, o golpe fatal de Wukong ganha um novo sentido: ele não estava matando um demônio, mas matando o "coração dividido" dentro de si. Depois do capítulo 58, a personalidade de Wukong muda visivelmente — ele fica mais obediente, discute menos com Tang Sanzang, sente menos vontade de matar. Aquele Grande Sábio Igual ao Céu, arrogante e pronto para chutar o balde a qualquer momento, foi desaparecendo aos poucos. Do ponto de vista do cultivo, foi o sucesso em "eliminar o segundo coração e retornar ao pensamento único"; do ponto de vista do personagem, parece mais uma perda — uma alma vibrante que teve suas arestas mais afiadas lixadas.
"Um único corpo luta para alcançar a verdadeira extinção" — o "único corpo" refere-se ao fato de que Wukong e o Macaco de Seis Orelhas eram, na verdade, a mesma coisa. Os dois macacos não eram seres independentes, mas as duas faces de uma mesma existência. Matar o Macaco de Seis Orelhas foi matar metade de si mesmo. O preço do caminho espiritual foi tornar-se um eu incompleto.
Talvez essa seja a tragia mais profunda da história do "Verdadeiro e Falso Belo Rei dos Macacos": não importa quem tenha morrido, aquele que sobrou já não está mais inteiro.
Um Mistério de Quatro Séculos: Quem Foi Realmente Morto?
Voltando à pergunta do início: se nem Diting ousou dizer a verdade, será que a resposta de Rulai estava necessariamente correta?
Existe uma interpretação popular muito difundida que diz: quem morreu foi o verdadeiro Wukong, e quem sobreviveu foi o Macaco de Seis Orelhas. Quem defende isso costuma dar as seguintes razões: primeiro, o Macaco de Seis Orelhas "ouvia bem os sons e discernia a razão", ele deveria saber que ir ao Monte Lingshan era morte certa, então por que iria? A menos que quem fosse fosse o verdadeiro Wukong, acreditando que Rulai lhe faria justiça. Segundo, a mudança drástica de personalidade de Wukong após o capítulo 58, sem qualquer espírito rebelde — isso não combina com um Grande Sábio que não se dobrou nem após quinhentos anos sob uma montanha. Terceiro, Rulai precisava de um peregrino obediente, e o Macaco de Seis Orelhas era muito mais útil para ele do que o indomável Wukong original.
Essa leitura é difícil de sustentar no texto — o original descreve claramente o processo de identificação de Rulai, e o Macaco de Seis Orelhas revelou sua forma original após ser capturado pela Tigela Dourada — mas ela sobrevive porque toca em uma ferida real da história: não temos como verificar a decisão de Rulai. Em todo o processo, não houve uma testemunha independente que pudesse confirmar se Rulai estava certo. Diting ouviu a resposta, mas não a disse; Rulai anunciou o veredito, mas não explicou. Em termos jurídicos, foi uma "sentença final irrecorrível". Você pode acreditar nela, mas não pode prová-la.
Essa "autoridade inquestionável e inverificável" é, na verdade, o design narrativo mais brilhante de Wu Cheng'en. Ele deixa o leitor em um estado eterno de "meio acreditar, meio duvidar" — quem acredita em Rulai acha que o caso está encerrado; quem duvida acha que a verdade foi abafada pelo poder. As inúmeras discussões ao longo de quatrocentos anos provam o sucesso da história: ela criou um mistério que jamais poderá ser totalmente fechado.
O Macaco de Seis Orelhas é também a indagação mais extrema sobre o conceito de "identidade" na Jornada ao Oeste. Em um universo onde tudo tem sua categoria, ele é o único que "não se encaixa em nenhuma". Em uma história onde cada um tem sua identidade clara, ele é o único impostor. Em um sistema moral de bem e mal bem definidos, a moralidade dele depende inteiramente de "quem Rulai diz que ele é". Depois de ser morto com um golpe, ninguém rezou por ele, ninguém lembrou seu nome — a única prova de que ele existiu foi o fato de que Wukong, a partir dali, tornou-se um macaco muito mais "bonzinho".
Personagens Relacionados
- Sun Wukong — O alvo da impostura do Macaco de Seis Orelhas; ambos são Macacos de Pedra Lingming entre os Quatro Macacos Travessos do Mundo. O duelo final entre os dois se estende do capítulo 56 ao 58, terminando quando Wukong resolve tudo com uma única pancada de seu bastão. Nas metáforas budistas, o Macaco de Seis Orelhas é visto como a materialização do "segundo coração" de Wukong.
- Tang Sanzang — A vítima direta da confusão entre o verdadeiro e o falso Rei Macaco. No capítulo 56, ele expulsa Wukong por ter matado pessoas; no 57, é ferido pelo falso Wukong, que rouba sua bagagem e seu passaporte. O conflito entre mestre e discípulo foi o gatilho para o surgimento do Macaco de Seis Orelhas.
- Bodhisattva Guanyin — A primeira tentativa frustrada de identificação. Como criadora do Feitiço da Argola Apertada, ela recita o mantra e, ao ver que ambos os macacos sentem a dor na cabeça ao mesmo tempo, admite na hora: "eu também não consigo distinguir", sugerindo que procurem Rulai.
- Diting — Montaria do Bodhisattva Ksitigarbha, dono de uma audição prodigiosa capaz de "ouvir oitocentos sentado e três mil deitado". Após ouvir atentamente, ele identifica quem é o verdadeiro e quem é o falso, mas, com medo de que o Macaco de Seis Orelhas causasse um alvoroço no Submundo, não ousa revelar a verdade e deixa a decisão final para Rulai.
- Rei Yama — A segunda tentativa frustrada de identificação. Ao vasculhar o Livro de Vida e Morte, não encontra registro algum do Macaco de Seis Orelhas — já que ele "não pertence às dez categorias", esse nome simplesmente não existia no sistema de registros do Submundo.
- Buda Rulai — O juiz supremo. Ele revela a existência dos "Quatro Macacos Travessos do Mundo" e usa sua Tigela Dourada para capturar o Macaco de Seis Orelhas, forçando-o a revelar sua verdadeira forma. É o único ser em todo o livro capaz de identificar e subjugar o impostor.
- Zhu Bajie — O Macaco de Seis Orelhas usou seus clones para criar falsos Bajie, Sha e Tang Sanzang, montando no Monte das Flores e Frutas uma versão pirata do grupo de peregrinação. Quando o verdadeiro Bajie descobre a farsa, ele corre para avisar, acelerando o processo de descobrir quem era quem.
- Sha Wujing — O primeiro membro a notar que algo estava errado. No capítulo 57, Sha Wujing vai investigar o Monte das Flores e Frutas e vê com os próprios olhos a existência do grupo falso, passando então a buscar ajuda em diversos lugares, sob a orientação de Guanyin, para resolver o mistério.
Perguntas frequentes
Quem é o Macaco de Seis Orelhas e por que dizem que ele "não pertence às dez categorias"? +
Ele é um dos Quatro Macacos Travessos do Mundo, um primata ancestral do mesmo nível que o Macaco de Pedra da Iluminação (Wukong). Dizem que ele "possui ouvidos perspicazes e razão discernente, conhece o passado e o futuro, e tudo no universo lhe é claro". O fato de "não pertencer às dez categorias"…
Até que ponto o Macaco de Seis Orelhas copiou Sun Wukong? Por que até o Feitiço da Argola Apertada funciona igual? +
A aparência, a voz, as artes marciais e a Ruyi Jingu Bang são idênticas. O que mais espanta é que ele também tem uma tiara dourada na cabeça, e quando Guanyin recita o Feitiço da Argola Apertada, os dois macacos gritam de dor ao mesmo tempo — até a ligação mística foi copiada com perfeição. O motivo…
Por que Guanyin, o Rei Yama e Diting não conseguiram distinguir o verdadeiro do falso? O que cada falha representa? +
Guanyin representa a "falta de capacidade" — ao recitar o feitiço que ela mesma criou, ambos sentiram dor; nem a inventora conseguiu distinguir a cópia. O Rei Yama representa a "falha do sistema" — como o Macaco de Seis Orelhas não pertence às dez categorias, não há registro dele no Livro de Vida e…
Como Rulai conseguiu distinguir os dois e por que o processo de julgamento não convence totalmente? +
Rulai apenas "observou" e declarou que o Macaco de Seis Orelhas era o falso, sem dar qualquer explicação técnica. Todo o processo ocorreu sem testemunhas terceiras que pudessem verificar a prova; no fundo, foi uma "sentença final e irrecorrível proferida pela autoridade máxima". O leitor não…
Qual o significado profundo de "O Verdadeiro e o Falso Rei Macaco" sob a ótica do Zen? +
O título do capítulo 58, "Dois corações perturbam o grande universo, um único corpo dificilmente alcança a verdadeira extinção", deixa claro: o Macaco de Seis Orelhas é a materialização do "segundo coração" de Wukong. Quando Wukong foi afastado, surgiu em sua mente o pensamento de "largar tudo e…
Por que existe a teoria popular de que "quem foi morto era o verdadeiro Wukong"? Há base no texto para isso? +
Essa interpretação surge de dois pontos: primeiro, após o capítulo 58, a personalidade de Wukong muda drasticamente, tornando-se obediente demais, o que destoa de sua imagem rebelde de outrora. Segundo, como o Macaco de Seis Orelhas "conhece o passado e o futuro", ele teria previsto que ir ao…
Aparições na história
Tribulações
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