Grande Peng de Asas Douradas
O Grande Peng de Asas Douradas é o demônio mais aterrorizante de Jornada ao Oeste — a única presença de todo o livro capaz de exterminar um reino inteiro. Ele é filho de uma fênix, irmão por parte de mãe do pavão, e tem laços de sangue com o Buda Rulai. Junto com o Leão Azul e o Demônio Elefante Branco, jurou irmandade e ocupou a Montanha do Leão Camelo, devorando toda a população do Reino do Leão Camelo, deixando ossos humanos espalhados por toda a cidade. Ali, a equipe em busca das escrituras enfrentou sua batalha mais desesperadora: Sun Wukong foi engolido no ventre do demônio, e mestre e discípulos foram todos capturados. Ao final, o próprio Buda Rulai desceu pessoalmente para subjugá-lo; Peng converteu-se ao budismo e tornou-se o Peng-Rei Brilhante de Asas Douradas, guardião do dharma sobre a cabeça do Buda Rulai — o salto identitário de rei-demônio exterminador de reinos a guardião do Buda é um dos desfechos mais absurdos e, ao mesmo tempo, mais profundos do livro.
As muralhas da cidade do Reino do Leão Camelo estavam entupidas de ossos humanos, e o ar era um sopro pesado de podridão. Não é cena de nenhum romance de fantasia sombria, mas a descrição literal do capítulo setenta e sete de Jornada ao Oeste. Quando Sun Wukong e Zhu Bajie se infiltraram na Cidade do Leão Camelo para espiar, o que viram foi um país devorado por completo por demônios — o rei fora comido, os oficiais fossem civis ou militares foram comidos, e todo o povo da cidade fora comido, restando apenas os soldados demônios patrulhando os palácios desertos. Esse é o único arco em toda a obra onde um povo inteiro é exterminado por monstros, e o culpado por tamanha desgraça não foi outro senão o Grande Peng de Asas Douradas.
Ele não era um demônio qualquer. Era filho da fênix, irmão do pavão e, por conta da linhagem, o Buda Rulai teria que chamá-lo de tio — em toda a Jornada ao Oeste, nenhum outro monstro ostenta um sangue tão absurdo. Sua arma era o halberdia Fangtian, suas asas se abriam por noventa mil léguas e sua velocidade no voo era tamanha que nem a Nuvem Cambalhota conseguia alcançá-lo. Das oitenta e uma provações do caminho, apenas na provação da Crista do Leão Camelo é que Tang Sanzang e seus três discípulos foram todos capturados, e até Sun Wukong acabou engolido de uma vez só — foi o momento em que o Grande Sábio Igual ao Céu chegou mais perto da morte.
Quem finalmente domou o Peng não foi nenhum bodhisattva, nem exército celestial, mas o próprio Buda Rulai. Em cem capítulos, as vezes que Rulai resolveu pessoalmente lidar com um demônio são contadas nos dedos de uma mão, e o Peng foi o único que fez o Buda vir especialmente da Montanha Lingshan. Não foi porque a força do Peng fosse impossível de vencer — embora fosse imensa —, mas porque esse parentesco fazia com que todos os outros deuses e budas não ousassem, não pudessem ou se sentissem constrangidos de agir. Após ser capturado, o destino do Peng foi ainda mais surreal: ele não foi morto, nem preso, nem banido ao mundo mortal, mas colocado no topo da cabeça de Rulai como protetor — o "Grande Peng de Asas Douradas Ming Wang". Um rei demônio que acabara de exterminar a população de um país tornou-se, num piscar de olhos, a divindade protetora mais próxima do Buda. Tamanha absurdidade não tem igual em toda a Jornada ao Oeste.
Filho da Fênix, Parentesco de Rulai: A Linhagem Sagrada de um Rei Demônio
A origem do Grande Peng de Asas Douradas foi revelada pelo próprio Buda Rulai no capítulo setenta e sete. Quando Sun Wukong voou até a Montanha Lingshan pedindo socorro, Rulai contou uma árvore genealógica chocante:
No início dos tempos, entre as feras, o Quirim era o maior, e entre as aves, a fênix. A fênix, movida pelo sopro da união, deu à luz ao pavão e ao Peng. O pavão, ao nascer, era a criatura mais maligna de todas e, no monte nevado, engoliu o Buda Rulai de um bote. Rulai rompeu o corpo do pavão por suas costas para nascer, e quis matá-la, mas os budas o impediram, dizendo que ferir o pavão seria como ferir a mãe do Buda. Assim, Rulai nomeou o pavão como "Bodhisattva Pavão Ming Wang, Mãe do Buda". Se o pavão era a mãe do Buda, então seu irmão mais novo, o Peng, era, por linhagem, tio do Buda.
O absurdo desse parentesco está na inversão — não foi Rulai quem criou o Peng, mas a família do Peng que, de certa forma, "criou" Rulai. Se o pavão não tivesse engolido Rulai, ele não teria nascido do ventre da ave, e o título de "Mãe do Buda" nem existiria. O Peng é um elo nessa corrente de causa e efeito: nasceu da mesma mãe que o pavão e compartilha o sangue da fênix. Rulai podia reconhecer o pavão como mãe, mas não podia negar que o Peng era de sua família materna.
Essa configuração de linhagem trouxe três consequências narrativas fundamentais.
Primeiro, explica por que o Peng ousou devorar o povo de um país sem que ninguém ousasse intervir. A maioria dos demônios em Jornada ao Oeste são montarias ou assistentes de algum imortal; quando fazem muita bagunça, o dono aparece para levá-los. O Leão Azul é montaria do Bodhisattva Manjushri, e o Elefante Branco é montaria do Bodhisattva Samantabhadra — seus donos podiam aparecer a qualquer momento. Mas o Peng não tinha dono. Não era montaria de ninguém, nem animal de estimação, nem subordinado. Ele era parente de Rulai — e parentes não respondem a nenhum bodhisattva, apenas ao próprio patriarca da família. Isso criou um vácuo de poder: todos os bodhisattvas e generais celestiais sabiam do parentesco do Peng com o Buda e ninguém queria se meter nessa confusão.
Segundo, explica por que Rulai precisou aparecer pessoalmente. Não era porque os outros não conseguissem vencer o Peng — embora ele fosse fortíssimo —, mas porque se tratava de um "assunto de família". O problema do Leão Azul e do Elefante Branco podia ser resolvido por Manjushri e Samantabhadra, mas o do Peng só Rulai podia resolver. Na hierarquia do budismo, o irmão da "Mãe do Buda" equivale ao tio do Buda, um posto mais nobre que o de qualquer bodhisattva. Se Rulai não aparecesse, ninguém mais teria autoridade suficiente.
Terceiro, explica por que o fim do Peng foi ser "protetor" e não "punido". Rulai não podia matar o Peng — matar o próprio tio seria negar a linhagem da Mãe do Buda, o que abalaria os alicerces do budismo mais do que o crime de exterminar uma cidade. Também não podia prendê-lo — prendê-lo seria admitir publicamente que sua família produziu um demônio capaz de aniquilar nações. A única saída era a cooptação: tornar o Peng um protetor, eliminando a ameaça e mantendo a face do budismo. O título de "Grande Peng de Asas Douradas Ming Wang" não foi um prêmio, mas uma forma elegante de prisão domiciliar.
Os Três Irmãos do Leão Camelo: A Aliança Incomum de Montarias do Budismo e Taoísmo
O Peng não lutava sozinho. Ele e o Leão Azul e o Elefante Branco se tornaram irmãos jurados e dominaram a Crista do Leão Camelo, autodenominando-se os "Três Demônios do Leão Camelo". O estranho nessa combinação é que a origem dos três é contraditória: o Leão Azul é montaria de Manjushri, o Elefante Branco é montaria de Samantabhadra, e o Peng é parente de Rulai — três membros de "departamentos" diferentes do budismo que, no mundo inferior, se uniram como demônios.
No capítulo setenta e quatro, a Estrela de Vênus, disfarçado de velho, esperava o grupo de peregrinos à beira da estrada para avisar que três grandes demônios estavam adiante. Ao descrever o Peng, usou o título de "Peng das Dez Mil Léguas do Caminho das Nuvens" e enfatizou que a ave tinha "asas que se abriam por noventa mil léguas" — um número gritante no livro. A Nuvem Cambalhota de Sun Wukong saltava cento e oito mil léguas; o Peng, com as asas abertas, já cobria noventa mil. A escala dos dois era quase a mesma. O tom da Estrela de Vênus era raramente aterrorizado: ele não estava apenas relatando a situação, estava tentando convencê-los a desistir.
A divisão de tarefas entre os três era rigorosa. O Leão Azul ficava no covil, coordenando quarenta e sete mil e oitocentos pequenos demônios — ele era o administrador. O Elefante Branco guardava a entrada, cuidando das emboscadas e patrulhas — ele era o executor. O Grande Peng de Asas Douradas ficava ao fundo, na Cidade do Leão Camelo; ele não agia por qualquer coisa, mas quando agia, decidia a luta com um único golpe — ele era o matador final. Esse arranjo de três linhas de defesa (frontal, média e retaguarda) nunca ocorreu com outros demônios. A maioria dos covis de monstros tinha uma estrutura rasa, com um rei e um bando de lacaios, mas a Crista do Leão Camelo tinha hierarquia, divisão de trabalho e profundidade, assemelhando-se à disposição de um exército regular.
A relação entre eles também não era apenas amizade fraternal. O Leão Azul e o Elefante Branco eram originalmente montarias budistas; descer ao mundo para ser demônio tinha um ar de "sair escondido para brincar" — seus donos, Manjushri e Samantabhadra, podiam buscá-los a qualquer momento. Mas o Peng era diferente: ele não tinha fugido, ele era um demônio legítimo. Não tinha dono para onde voltar, nem identidade budista anterior para recuperar. Entre os três, o Leão Azul e o Elefante Branco tinham saída; o Peng não. Essa diferença ficou clara no final: Manjushri levou o Leão Azul, Samantabhadra levou o Elefante Branco, e cada um voltou para sua casa. Mas o Peng não tinha casa — ele só pôde ser levado pessoalmente por Rulai.
Há outro detalhe que merece atenção: os três irmãos não dominaram apenas uma montanha, mas um país inteiro. Da Crista do Leão Camelo ao Reino do Leão Camelo, houve um salto de um "covil" para um "regime político". Outros demônios chegavam ao limite de serem reis da montanha — o Demônio do Vento Amarelo tomou a Crista do Vento Amarelo, os Espíritos Aranha a Caverna da Seda Enrolada, o Demônio dos Ossos Brancos a Crista do Tigre Branco — ninguém ousava tomar um país. O Peng não só tomou, como comeu o rei e todo o povo. Ele não foi um parasita dentro de uma nação; ele transformou a nação inteira em seu próprio estoque de comida.
A Tragédia do Reino de Shituo: O Capítulo Mais Sombrio da Obra
Em Jornada ao Oeste, tem-se muita gente de monstro comendo gente. O Monstro do Manto Amarelo comia as damas da corte, o Menino Vermelho queria engolir Tang Sanzang, e o Demônio dos Ossos Brancos cobiçava o grupo de peregrinos — mas todos esses casos de "comer gente" somados não chegam aos pés do que o Peng fez no Reino de Shituo. Pois, enquanto os outros monstros comiam algumas poucas pessoas ou algumas dezenas, o Peng devorou a população inteira de um país.
No capítulo setenta e cinco, quando Sun Wukong se disfarça para espionar a Caverna de Shituo, ele ouve os pequenos demônios falarem da pompa dos Três Reis: cozinhar gente no vapor, ferver gente e comer gente era como rotina de casa. Mas isso era apenas o terror no nível do acampamento da Crista do Leão Camelo. O cenário apocalíptico de verdade surge quando mestre e discípulos são capturados e levados para a Cidade de Shituo — Wukong e Bajie infiltram-se na cidade e descobrem que aquele país já não existia mais. O rei sumira, os ministros sumiram, o povo sumira; nas ruas, só caminhavam soldados demônios. Uma nação inteira foi corroída por dentro por três monstros e, depois, engolida até a última gota.
Wu Cheng'en descreve esse trecho com uma contenção aterrorizante. Ele não escreve a carnificina sangrenta, mas sim o silêncio que vem depois do massacre — palácios vazios, monstros sentados no trono imperial vestindo mantos de dragão, uma corte com novos donos. Essa apresentação do "depois" é muito mais arrepiante do que o "durante": você não vê a matança, mas o resultado dela está em todo lugar.
Em todo o livro, existe uma régua invisível para o dano que os monstros causam à sociedade humana: o mais leve é o assalto na estrada (como os comuns demônios bandidos), um pouco mais grave é sequestrar alguém (como levar Tang Sanzang), mais grave ainda é devastar uma região (como o Demônio do Vento Amarelo, que deixou a Crista do Vento Amarelo sem um único fio de grama), e o nível máximo é a aniquilação de um país — e quem atingiu esse nível foram apenas o Grande Peng de Asas Douradas e seus dois irmãos. Nesse ponto, o Peng não representa uma mudança de quantidade, mas de qualidade. Ele já ultrapassou a categoria de "monstro" para entrar no nível de "catástrofe".
Esta é a única vez na jornada em que Tang Sanzang e seus discípulos não enfrentam o problema de "salvar uma pessoa" ou "eliminar um monstro", mas sim a questão de "encarar um genocídio já consumado". O povo do Reino de Shituo morreu todo — mesmo que os três monstros fossem domados, aquelas pessoas não voltariam à vida. É um momento raro na história da peregrinação, onde a redenção já chega tarde demais. O Budismo prega a salvação de todos os seres, mas os seres do Reino de Shituo já não existiam mais. Esse fato torna a ironia mais cortante quando, mais tarde, o Peng é nomeado "Rei Protetor do Dharma".
A Alabarda Celestial e a Envergadura de Noventa Mil Léguas: Um Poder Esmagador
A força bruta do Peng está no topo absoluto entre todos os monstros do livro; pode-se dizer que ele joga em uma liga própria. Seu poder não vem de algum tesouro mágico ou de uma habilidade especial, mas de atributos básicos que esmagam qualquer um.
Sua arma é a Alabarda Celestial — que, na literatura clássica chinesa, é a arma padrão dos generais de elite. O lendário Lu Bu usava a Alabarda Celestial. O Peng usou essa arma para enfrentar a Ruyi Jingu Bang de Sun Wukong, e o embate foi de igual para igual, num "tinir" constante de metal. Vale lembrar que a Jingu Bang pesa treze mil e quinhentos jin, é o ferro divino que estabiliza os mares do Palácio do Dragão do Mar do Leste e muda de tamanho conforme a vontade — Wukong usou esse bastão desde o Submundo até o Palácio Celestial, do Monte das Flores e Frutas até Lingshan, e raramente houve um monstro capaz de barrá-lo em um confronto direto de armas. O Peng não só barrou, como lutou páreo por páreo.
Mas a Alabarda Celestial é a habilidade menos impressionante do Peng. Seu verdadeiro trunfo é o voo. Com uma envergadura de noventa mil léguas e uma velocidade tamanha que nem a Nuvem Cambalhota consegue acompanhar — isso fica claro no capítulo setenta e sete. Após escapar da barriga do Peng, Wukong tenta fugir voando, e o Peng vem logo atrás. Wukong dá um salto de cem e oito mil léguas, olha para trás e vê o Peng ali, logo atrás dele. Esse detalhe destrói uma vantagem fundamental: em toda a Jornada ao Oeste, quando Wukong enfrenta um adversário que não consegue vencer, sua última saída é "correr" — um salto de cem e oito mil léguas e nenhum monstro consegue alcançá-lo. Mas o Peng alcançou. Quando a opção de fuga é anulada, Wukong enfrenta, pela primeira vez, um adversário verdadeiramente sem solução.
As garras do Peng são igualmente terríveis. Ele não mata com armas, mas com as garras. No capítulo setenta e sete, ele mergulha do céu e agarra Sun Wukong — um movimento típico de uma ave de rapina caçando. O modo de luta do Peng não é humano, é como o de uma águia gigante: mergulha das alturas, trava a presa com as garras e acerta em cheio. Sun Wukong passou a vida acostumado a brigar com monstros em forma humana e, diante desse padrão de ataque completamente diferente, não consegue se adaptar de imediato.
Mais assustador ainda é sua capacidade de devorar. O Peng engole Sun Wukong de um bocado — essa cena não é a primeira no livro; a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo do Rei Chifre de Ouro e os Címbalos Dourados do Monstro da Sobrancelha Amarela já haviam prendido Wukong. Mas aqueles eram poderes de tesouros mágicos; o Peng usa o instinto do corpo. Ele não precisa de tesouros, pois seu próprio corpo é a arma mais poderosa — esse tipo de dominação primitiva e física é algo que monstros dependentes de tesouros jamais possuem.
Resumindo, o arsenal de combate do Peng é: no corpo a corpo, usa a Alabarda Celestial sem medo da Jingu Bang; na distância, usa a velocidade de voo para alcançar a Nuvem Cambalhota; no ataque surpresa, usa as garras para acertar em cheio; e como recurso final, engole o adversário. Ele não tem fraquezas óbvias nem pontos cegos que possam ser explorados. Em todo o livro, não existe um segundo monstro capaz de fazer tudo isso.
Wukong Engolido: O Momento Mais Sombrio do Herói
Nas oitenta e uma provações da jornada, Sun Wukong caiu em dificuldades em cada uma delas — foi feito rolar no chão pela Argola Apertada, foi colocado numa cabaça por Chifre de Ouro e Chifre de Prata, foi preso nos Címbalos Dourados pelo Monstro da Sobrancelha Amarela ou teve sua identidade roubada pelo Macaco de Seis Orelhas. Mas todas essas crises somadas não chegam ao desespero da provação na Crista do Leão Camelo. Pois, nas outras crises, Wukong tinha ao menos a opção de "buscar reforços" — ir ao Palácio Celestial procurar o Imperador de Jade, ir ao Mar do Sul procurar Guanyin ou ir a Lingshan procurar Rulai. Na Crista do Leão Camelo, até essa opção quase sumiu.
O processo de batalha do capítulo setenta e cinco ao setenta e sete é uma curva de queda constante. Primeiro, Wukong se disfarça para espionar a caverna, é descoberto, luta um pouco e consegue escapar com dificuldade — isso ainda é normal. Depois, ele enfrenta os três monstros lado a lado fora da caverna e descobre que não consegue vencer os três juntos — aqui a coisa começa a ficar feia. Então, ele é agarrado pelo Peng e engolido — este é o ponto mais baixo de toda a peregrinação.
A descrição de ser engolido é extremamente opressiva. Wukong usa todos os seus truques dentro da barriga do Peng — cutuca com a Jingu Bang, cresce para esticar as paredes, diminui para tentar furar — mas o corpo do Peng parece infinito, e não importa o que Wukong faça, ele não consegue sair. Essa sensação de asfixia por estar preso em carne é completamente diferente de ser preso por um tesouro mágico: tesouros são objetos externos e podem ser desvendados; mas ser engolido por outro ser vivo, esse medo de ser envolvido, digerido e assimilado, é algo instintivo.
O pior é o que vem depois. Wukong consegue finalmente escapar da barriga do Peng e tenta fugir voando — o Peng o alcança. Ele dá um salto para abrir distância — o Peng o alcança de novo. Esta é a única vez no livro em que Sun Wukong descobre que não consegue vencer e nem consegue fugir.
A cena em que os quatro companheiros são todos capturados na Cidade de Shituo é o momento mais próximo de uma "derrota total" em toda a jornada. Tang Sanzang é amarrado ao lado de uma panela, pronto para ser cozido no vapor; Zhu Bajie e Sha Wujing estão pendurados em postes; e Sun Wukong, embora não esteja amarrado, está impotente para mudar a situação — cercado pelos três monstros e mais de quarenta mil pequenos demônios, ele sozinho não consegue romper o cerco. Nesse instante, a missão da peregrinação está verdadeiramente à beira do abismo.
A escolha final de Wukong é: ir a Lingshan pedir ajuda a Rulai. Essa escolha por si só prova a gravidade do problema — em toda a jornada, Sun Wukong só foi a Lingshan procurar Rulai duas vezes (a outra foi no caso do Macaco de Seis Orelhas), e ambas foram em situações de total desespero. Ir a Lingshan não é apenas "buscar reforços" — o caminho do Reino de Shituo até Lingshan significa deixar o mestre e o irmão nas mãos dos monstros, apostando que Rulai agirá a tempo e que os monstros não comerão Tang Sanzang enquanto ele estiver fora. Uma aposta dessas nunca tinha acontecido em nenhuma das provações anteriores.
A Descida do Próprio Rulai: Por que só o Buda em pessoa podia domá-lo
O clímax do capítulo setenta e sete não está na briga, mas naquela conversa depois que o Rulai aparece. Sun Wukong voou até Lingshan, caiu de joelhos e contou tudo, tintim por tintim, sobre a situação na Crista do Leão Camelo. A reação do Rulai é de deixar qualquer um pensativo — ele não se enfureceu de imediato, nem mandou algum Bodhisattva resolver a coisa; em vez disso, contou com toda a calma a história da origem da Fênix, do Pavão e do Peng.
Essa conversa não era para dar aula de história, mas para marcar território: antes de agir, o Rulai explicou para todo mundo que estava ali "por que esse assunto tinha que ser resolvido por mim mesmo". Ele não podia mandar outro — não porque os outros não dessem conta da briga, mas porque a linhagem do Peng era especial demais. Mandar o Manjushri domar o Peng? Manjushri é Bodhisattva, com que direito mandaria no irmão da Mãe Buda? Mandar a Guanyin? Por mais alta que fosse a posição dela, na ética budista ela não estava acima do "irmão da Mãe Buda". Mandar a turma do Céu? Aí é que não — o Peng era um problema de família do Budismo, e se o Céu se metesse, o Budismo passaria vergonha.
A chegada do Rulai ao Reino do Leão Camelo é, de longe, a aparição mais imponente do Buda em todo o livro. Ele não ficou sentado no Mosteiro do Trovão esperando o problema bater à porta, como fez com o Macaco de Seis Orelhas; ele foi por vontade própria até o terreno do demônio. Esse "ir por vontade própria" diz muita coisa — em toda a obra, é a única vez que o Rulai deixa Lingshan para resolver um problema em algum lugar.
A reação do Peng ao ver o Rulai também foi bem peculiar. Ele não resolveu resistir até o fim nem tremer de medo como os outros demônios — ele reagiu mais como um sobrinho que dá de cara com um tio que ele não queria ver. Ele sabia que não era páreo para o Rulai, mas não achava que tinha feito nada errado. Na cabeça do Peng, ele era apenas um pássaro grande; comer gente era natureza, dominar território era instinto, e isso não tinha nada a ver com moralidade.
A maneira como o Rulai domou o Peng foi completamente diferente de como lidou com os outros demônios. Não teve luta, não teve feitiço, nem usou a Montanha dos Cinco Elementos para esmagá-lo como fez com Sun Wukong. Ele usou a "submissão pelo Dharma" — as palavras do texto original são vagas e cheias de sentido. Não foi uma conquista pela força, mas sim uma repressão de autoridade dentro da família: "você é meu parente, mas eu sou o Buda, então você tem que me ouvir".
Por que o Rulai não matou o Peng? Além da questão da "honra da família" que já vimos, tinha um motivo bem mais prático: o Peng era forte demais para ser desperdiçado. Com asas de noventa mil léguas e uma velocidade que alcançava a Nuvem Cambalhota, esse poder de combate, se fosse usado pelo Budismo, seria o protetor mais forte de todos. O Rulai é um administrador sagaz e não joga fora recurso útil. Colocar o Peng como seu protetor, logo acima de sua cabeça, resolveu a ameaça, ganhou um capanga de primeira e ainda manteve a paz na família — matou três coelhos com uma cajadada só.
Mas, por trás desse "sucesso", ficaram as almas penadas de uma cidade inteira no Reino do Leão Camelo. Aquele povo que foi engolido pelo Peng foi completamente esquecido nessa transação. Ninguém falou deles, ninguém rezou por eles, ninguém cobrou o crime de massacre do Peng. O Rulai se preocupava com a ordem da família, não com a justiça; Wukong se preocupava em salvar o mestre, não em vingança. Os mortos do Reino do Leão Camelo foram as vítimas mais silenciosas desse jogo de poder.
O Rei Mingdoce das Asas Douradas: De Demônio Devorador a Protetor do Buda
"Rei Mingdoce das Asas Douradas" — esse foi o título que o Peng ganhou depois de ser domado. O Rulai o colocou como protetor sobre sua cabeça, proibindo-o para sempre de causar mal ao mundo. Do ponto de vista da narrativa, esse final completa uma reviravolta extrema de identidade: num segundo ele estava cozinhando o Tang Sanzang para comer, no outro já estava servindo de guarda-costas na cabeça do Buda.
Esse desfecho é único entre os finais dos demônios de Jornada ao Oeste. No livro, os demônios geralmente têm quatro destinos: o primeiro é morrer na pancada (Demônio dos Ossos Brancos, Espíritos Aranha e outros sem padrinho), o segundo é serem levados de volta pelos donos (como o Leão Azul e o Elefante Branco, que eram montarias do Céu), o terceiro é serem recrutados como subordinados baixos do Budismo ou do Céu (Menino Vermelho virando Menino Sudhana, Rei Demônio Touro se rendendo ao Budismo), e o quarto é o caso do Peng — que saltou direto para o coração da estrutura de poder budista.
O Menino Sudhana é só um assistente da Guanyin, e o cargo do Rei Demônio Touro depois de se render não é claro, mas com certeza não era alto — já o Peng virou o protetor pessoal do Rulai. Essa diferença de tratamento não foi porque o Peng se comportou melhor (ele dizimou um país, foi quem pior se comportou), mas sim por causa do sangue. Dentro do Budismo, ser "irmão da Mãe Buda" vale mais que qualquer mérito ou pecado. É um final baseado puramente em "quem indica" e linhagem familiar.
Olhando pelo lado do Peng, ser o "Rei Mingdoce Protetor" é glória e corrente ao mesmo tempo. Ele fica parado no topo da cabeça do Rulai, sem poder voar, sem poder caçar, sem poder abrir aquelas asas de noventa mil léguas para tapar o sol. Um pássaro que nasceu para cruzar o céu foi fixado para sempre no topo de uma estátua de Buda — isso é essencialmente igual ao que aconteceu com Sun Wukong sob a Montanha dos Cinco Elementos: usaram uma força irresistível para prender uma alma livre em um espaço minúsculo. A única diferença é que, para Wukong, foi um castigo; para o Peng, foi uma "recompensa".
Esse final ainda guarda uma ironia profunda. O protótipo do Grande Peng de Asas Douradas vem do Garuda da mitologia indiana, montaria de Vishnu e um dos Oito Grupos do Budismo. No sistema budista, o pássaro dourado já era, por natureza, um protetor. Ao transformar o Peng de "demônio" em "protetor", Wu Cheng'en na verdade o fez voltar ao seu papel original na mitologia. Ou seja, a "queda" do Peng (virar um monstro que destrói nações) e o seu "retorno" (virar protetor do Buda) formam um círculo completo — ele acabou virando aquilo que deveria ser. Só que esse "ser" foi imposto, não foi escolha dele.
Em toda a Jornada ao Oeste, a história do Peng levanta a pergunta mais cruel de todas: quando o poder é grande demais, a justiça ainda faz sentido? O Peng matou o povo de um país inteiro e o preço foi zero — ele não só escapou da punição como foi promovido. O Rulai usou os laços de família para apagar todos os crimes e, com um título de "protetor", transformou um carrasco em guardião. Isso não é uma história de redenção, é uma história de como o poder funciona. E, nessa história, os pobres cidadãos mortos do Reino do Leão Camelo não tiveram nem nome.
Personagens Relacionados
- Espírito Leão Azul: Irmão jurado mais velho do Peng, na verdade o Espírito Leão de Crina Azul, montaria do Bodhisattva Manjushri que desceu ao mundo como demônio. Dos três irmãos, ele era o responsável pelo comando dentro da caverna, dominando a Crista do Leão Camelo e o Reino do Leão Camelo junto com o Peng e o Espírito Elefante Branco. No fim, foi levado de volta por Manjushri.
- Espírito Elefante Branco: Segundo irmão jurado do Peng, na verdade o elefante branco, montaria do Bodhisattva Samantabhadra que desceu ao mundo como demônio. Dos três, ele cuidava das emboscadas na montanha, usando sua tromba longa para capturar as pessoas. No fim, foi levado de volta por Samantabhadra.
- Buda Rulai: Parente de sangue do Peng — a Fênix deu à luz o Pavão e o Peng; depois que o Rulai nasceu do ventre do Pavão, nomeou-o como Mãe Buda, tornando o Peng seu parente. Foi o único capaz de domar o Peng, descendo pessoalmente ao Reino do Leão Camelo para subjugá-lo e nomeá-lo como o Rei Mingdoce das Asas Douradas, seu protetor de topo.
- Sun Wukong: Principal adversário do Peng em combate direto; foi engolido pelo pássaro e enfrentou a batalha mais desesperadora de toda a jornada. No fim, não teve jeito e teve que voar até Lingshan para pedir a ajuda do Rulai.
- Bodhisattva Pavão: Irmã ou irmão do Peng, filha da Fênix. Engoliu o Rulai, que rompeu seu corpo saindo pelas costas; por isso, foi nomeada Bodhisattva Pavão, a Mãe Buda. É através do Pavão que se estabelece o parentesco entre o Peng e o Rulai.
- Bodhisattva Manjushri: Dono do Espírito Leão Azul, que recuperou sua montaria após os eventos na Crista do Leão Camelo.
- Bodhisattva Samantabhadra: Dono do Espírito Elefante Branco, que recuperou sua montaria após os eventos na Crista do Leão Camelo.
Perguntas frequentes
Qual é a relação entre o Grande Peng de Asas Douradas e o Buda Rulai? +
A Fênix deu à luz ao Pavão e ao Peng. Depois que Rulai nasceu do ventre do Pavão, ele a nomeou como a Bodhisattva Rainha do Brilho do Pavão, a Mãe do Buda. Por isso, o Peng e o Pavão são irmãos de mãe, o que torna o Peng, por linhagem, tio de Rulai. Esse é um dos parentescos mais absurdos de todo o…
O que o Peng fez no Reino do Leão Camelo e quais foram as consequências? +
Depois de se tornar irmão jurado do Leão Azul e do Espírito Elefante Branco, ele tomou o Reino do Leão Camelo e devorou todo mundo, do rei aos plebeus. A cidade ficou tomada por ossos brancos. Foi a única tragédia de nível de extermínio nacional em toda a Jornada ao Oeste e o arco mais sombrio de…
Por que o poder de combate do Peng é considerado o maior entre todos os demônios do livro? +
Com asas que se abrem por noventa mil léguas, ele consegue alcançar a Nuvem Cambalhota num piscar de olhos. Sua arma, a Alabarda Celestial, bate de frente com a Ruyi Jingu Bang, e suas garras são letais em mergulhos para capturar presas, sendo capaz até de engolir Sun Wukong com uma única bocada.…
Como Sun Wukong conseguiu escapar depois de ter sido engolido pelo Peng? +
Wukong causou um verdadeiro alvoroço dentro da barriga do Peng, mas não conseguia sair. No fim, ele deu um jeito de escapar do corpo do bicho, mas logo percebeu que nem a Nuvem Cambalhota era rápida o suficiente para despistar o Peng. Sem alternativa, teve que correr para Lingshan e pedir que o…
Por que a captura do Peng exigiu a presença do próprio Rulai, e não de outros Bodhisattvas? +
O Peng é tio de Rulai, e dentro do budismo não existe Bodhisattva com status superior ao de "irmão da Mãe do Buda"; mandar outro Bodhisattva resolver isso seria usurpar autoridade. Além disso, como o Peng não tinha mestre a quem prestar contas, só Rulai, com a autoridade da família, podia domá-lo.…
Qual foi o destino final do Peng? Ele foi punido? +
Depois de domá-lo, Rulai o nomeou como "Rei do Brilho do Grande Peng de Asas Douradas" e o colocou para servir de protetor acima de sua própria cabeça; não foi executado nem preso. Um rei demônio que dizimou nação inteira acabou promovido em vez de punido por causa dos laços de sangue. As inúmeras…
Aparições na história
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