Rei Chifre de Ouro
O Rei Chifre de Ouro é o menino que guardava a fornalha de ouro de Taishang Laojun, enviado, a pedido do Bodhisattva Guanyin, junto com cinco tesouros mágicos, para descer ao mundo e testar a equipe em busca das escrituras. Junto com seu irmão, o Rei Chifre de Prata, ocuparam a Caverna da Flor de Lótus, na Montanha do Topo Plano, possuindo cinco tesouros mágicos: a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo, o Vaso Puro de Jade Sebo de Carneiro, a Espada das Sete Estrelas, o Leque de Bananeira e a Corda da Ilusão Dourada — essa é a configuração demoníaca com o maior número de tesouros mágicos em uma única aparição em todo Jornada ao Oeste. Entre eles, o mecanismo da Cabaça Vermelha de Ouro Roxo — 'basta chamar o nome da pessoa para capturá-la' — criou uma das regras de combate mais singulares do livro. Sun Wukong não conseguiu vencer pela força, mas, valendo-se da arte da transformação, trocou secretamente os tesouros e usou as armas do adversário contra ele mesmo, protagonizando a mais espetacular batalha de astúcia de toda a jornada. Ao final, o próprio Taishang Laojun desceu ao mundo para recuperar os meninos e os tesouros, revelando que tudo não passara de uma prova cuidadosamente planejada.
"Se eu te chamar, você teria coragem de responder?" — Hoje em dia, essa frase é uma piadinha que todo mundo conhece na internet, mas no capítulo 33 de Jornada ao Oeste, ela é uma regra onde a vida está em jogo. Se você responde, é sugado para dentro de uma cabaça e vira um caldo nojento; mas, se não responder, quanto tempo consegue aguentar? Porque quem te chama não vai parar, não vai dar trégua, até que sua guarda baixe e você solte a voz sem pensar. O inventor dessa regra — ou melhor, quem a executa — é o Rei Chifre de Ouro, da Caverna da Flor de Lótus, na Montanha Pingtian. Esse demônio não vive de força bruta; ele tem nas mãos o arsenal de tesouros mais luxuoso de todo o livro, travando uma guerra baseada no esmagamento pelo equipamento. E o que dá um frio na espinha é o seguinte: a identidade desse bicho é falsa, a descida dele ao mundo mortal foi planejada, e até esses tesouros assustadores são emprestados. A briga de Sun Wukong na Montanha Pingtian não é um combate até a morte, mas sim uma prova — os examinadores são a Bodhisattva Guanyin e o Taishang Laojun, a questão da prova são cinco tesouros, e a nota de corte é conseguir sair de lá vivo.
Os dois meninos da fornalha de Taishang Laojun: identidades emprestadas
A verdadeira face do Rei Chifre de Ouro só aparece por completo no capítulo 35, quando o próprio Taishang Laojun desce ao mundo mortal. Laojun diz a Wukong: "Aqueles dois monstros, um é o meu menino que cuida da fornalha de ouro, e o outro é o meu menino que cuida da fornalha de prata." Com essa frase, os grandes demônios que passaram quatro capítulos virando mares e sacudindo montanhas voltam à sua forma original — nada mais que dois servis que cuidavam de fornos no Palácio de Tusita.
Esse abismo de status é a tensão central da história na Montanha Pingtian. Na Caverna da Flor de Lótus, o Rei Chifre de Ouro comanda as hordas de demônios, organiza as tropas e maneja cinco tesouros com uma pompa de quem é um verdadeiro rei demônio. Ele tem o Rei Chifre de Prata como parceiro, um bando de lacaios para fazer o serviço sujo e até uma raposa que chama de mãe adotiva — um elenco completo. Mas tudo isso não passa de um palco improvisado. No capítulo 35, quando Laojun recupera os tesouros, ele deixa claro: "Cada um desses é meu, roubados por esses dois bichos para ficarem aqui." Reparem na palavra "roubados" — depois ele muda o discurso e diz que Guanyin os "emprestou" — essa hesitação nas palavras é bem curiosa. Afinal, foi roubo ou empréstimo? O próprio Laojun não sabe dizer, ou prefere não dizer.
A posição de Chifre de Ouro e Chifre de Prata no Reino Celestial define uma coisa: o objetivo deles ao descerem não era comer a carne de Tang Sanzang, mas sim criar uma situação perigosa o suficiente para que o grupo da jornada provasse sua capacidade no limite do desespero. No começo do capítulo 32, o Oficial de Mérito do Dia aparece disfarçado de lenhador para avisar Wukong que adiante "há um rei demônio com poderes imensos" — quando até o sistema de inteligência do Céu resolve dar a letra, fica claro que essa dificuldade foi "planejada". Se fosse um demônio querendo mesmo a vida de Tang Sanzang, o Céu jamais daria tal aviso.
Mas "planejado" não quer dizer "sem perigo". Os tesouros nas mãos de Chifre de Ouro e Prata são armas legítimas de Laojun: a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo engole tudo o que existe no céu e na terra, e o Vaso Puro de Jade Sebo de Carneiro transforma gente em caldo. Se Wukong errasse a mão, essa prova custaria a vida de alguém. É como um exercício militar com munição real: nas regras é um treino, mas no efeito pode matar. Depois, Laojun recupera tudo com a maior naturalidade, como se nada tivesse acontecido, mas naqueles quatro capítulos, Tang Sanzang foi capturado, Zhu Bajie foi amarrado, Sha Wujing foi preso e o próprio Wukong quase foi parar dentro da cabaça — para quem estava lá, o medo e o perigo eram bem reais.
Se esses dois meninos conseguiram causar tanto alvoroço no mundo mortal, o motivo é um só: os tesouros. Sem aquelas cinco peças, a arte marcial de Chifre de Ouro e Prata não era grande coisa — no capítulo 34, quando Wukong luta contra Chifre de Prata, eles trocam "trinta rounds" sem que ninguém vença, sem qualquer sinal de superioridade esmagadora. O problema da Montanha Pingtian não eram os demônios, eram os tesouros. Os dois meninos eram apenas os carregadores; a ameaça real vinha do Palácio de Tusita de Taishang Laojun.
Os cinco tesouros: o arsenal mais luxuoso do livro
Na maioria das vezes, os demônios de Jornada ao Oeste têm apenas um tesouro decente. O Menino Vermelho tem o Fogo Verdadeiro Samadhi, o Demônio do Vento Amarelo tem o Vento Divino Samadhi, o Espírito Escorpião tem seus espinhos venenosos — um demônio, um truque especial; esse é o padrão. Mas Chifre de Ouro e Prata quebraram a regra: eles desceram com cinco tesouros de uma vez.
Esses cinco tesouros são: a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo, o Vaso Puro de Jade Sebo de Carneiro, a Espada das Sete Estrelas, o Leque de Bananeira e a Corda da Ilusão Dourada.
A Cabaça Vermelha de Ouro Roxo e o Vaso Puro de Jade Sebo de Carneiro são as armas principais, com funções quase idênticas — chama-se o nome da pessoa, ela responde e é sugada, virando caldo em pouco tempo. Ter dois tesouros que fazem a mesma coisa parece repetição, mas é um design de "segurança dupla": se um for roubado, ainda resta o outro. De fato, Wukong roubou um primeiro, mas o outro continuou sendo uma ameaça — se não tivesse trocado os cinco, Wukong jamais venceria.
A Espada das Sete Estrelas é a arma de curto alcance. O texto diz que o Rei Chifre de Prata "empunhava a Espada das Sete Estrelas" ao enfrentar Wukong. Essa espada é a que menos chama atenção no monte de tesouros, mas ela preenche uma lacuna importante — quando não dá tempo de usar os tesouros (como numa briga corpo a corpo), a espada é a última linha de defesa.
O Leque de Bananeira aqui não é aquele da Princesa do Leque de Ferro na Montanha das Chamas, que "apaga o fogo, cria vento ou traz chuva", mas sim o que o próprio Laojun usava para atiçar o fogo na alquimia. No capítulo 35, Laojun diz: "Aquele leque de bananeira eu usava para atiçar o fogo." A função desse leque é criar ataques de fogo — na batalha da Montanha Pingtian, ele servia para combinar com os outros tesouros em ataques conjuntos.
A Corda da Ilusão Dourada... não, não é o bastão — a Corda da Ilusão Dourada era o cinto que Laojun usava para prender o robe. No capítulo 35, Laojun esclarece: "A Corda da Ilusão Dourada é um cinto que eu usava no robe." Um cinto que, nas mãos de um demônio, vira um tesouro para amarrar gente — essa transformação de função é pura imaginação. Na luta, a corda serve para controle: amarra o adversário, deixa ele imóvel, e aí é só usar a cabaça ou o vaso para recolhê-lo.
Esses cinco tesouros formam um sistema tático completo: a Corda da Ilusão Dourada controla (amarra), a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo e o Vaso Puro de Jade Sebo de Carneiro fazem a colheita (engolem), a Espada das Sete Estrelas cuida do combate próximo e o Leque de Bananeira faz o ataque em área. A lógica desse conjunto não parece briga de demônio, parece a organização de armas de um exército bem treinado — com alcance curto e longo, ataque e defesa, arma principal e reserva. Que dois meninos de fornalha conseguissem manejar tal sistema mostra que eles aprenderam muito mais do que apenas cuidar de fogo no Palácio de Tusita.
E o mais impressionante: todos esses cinco tesouros eram objetos pessoais de Taishang Laojun. A cabaça servia para guardar elixires, o vaso para água, a espada era de uso pessoal, o leque para o fogo e a corda para o robe — utensílios domésticos que, no mundo mortal, viraram armas letais. Isso sugere um fato assustador: os objetos do dia a dia do Reino Celestial são armas de destruição em massa para os mortais. Um leque que Laojun usa para atiçar fogo pode queimar uma montanha inteira na terra; um cinto que ele usa no robe pode amarrar o Grande Sábio Igual ao Céu até ele não conseguir se mexer. A diferença de poder entre os céus e os homens fica escancarada nesses cinco tesouros.
"Se eu chamar seu nome, você teria coragem de responder?": A regra de combate onde o som é a arma
As lutas em Jornada ao Oeste geralmente seguem um modelo básico: dois combatentes sacam suas armas e quem tiver a melhor técnica vence. De vez em quando, entram em cena os tesouros mágicos, mas ainda dentro de uma lógica física — o Ruyi Jingu Bang esmaga, o ancinho corta, a espada golpeia. No entanto, a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo e o Vaso Puro de Jade Sebo de Carneiro criaram um conjunto inteiramente novo de regras: o som como arma.
A regra é simples: segure a cabaça (ou o vaso) de cabeça para baixo e chame o nome do adversário. Se o outro responder com um "estou aqui" ou qualquer confirmação, será sugado instantaneamente para dentro do objeto. O capítulo 33 deixa isso bem claro: "(Yinjiao) virou a cabaça de cabeça para baixo, com a boca voltada para o chão, e gritou: 'Sun Xingzhe!'. O Peregrino não resistiu e respondeu; num piscar de olhos, homem e bastão foram sugados para dentro da cabaça." E o que acontece depois? "Em pouco tempo, transformam-se em sangue e pus."
Por que essa regra é tão aterrorizante? Porque ela ignora todos os indicadores tradicionais de poder. Não importa se sua técnica é suprema, se você domina mil transformações ou se sua Nuvem Cambalhota é a mais veloz; se você "responder", já era. É um ataque contra a própria identidade — não fere o corpo, mas ataca a reação instintiva de alguém ao ouvir o próprio nome. Quando alguém nos chama, a primeira reação é responder; isso está gravado no nosso instinto. O tesouro mágico explora justamente essa natureza humana.
Wukong caiu nessa armadilha logo na primeira vez. Ele sabia a regra da cabaça, mas "não resistiu e respondeu" — esse "não resistiu" é escrito com uma precisão cirúrgica. Não é uma questão de inteligência, é uma questão de instinto. Se você disser a alguém "não pisque", a pessoa piscará; se disser a Wukong "não responda", ele responderá. A ligação entre o nome e o "eu" é tão profunda que nem mesmo o Grande Sábio Igual ao Céu conseguiu cortar.
Mais tarde, Wukong descobriu a solução: mudar de nome. No capítulo 34, ao se transformar em um pequeno demônio para roubar a cabaça, o adversário quis testar se o objeto era real e chamou seu nome. Wukong inventou um nome falso na hora, "Xingzhe Sun", e quando foi chamado de "Sun Xingzhe", não respondeu — porque, naquele momento, ele não era "Sun Xingzhe", mas sim "Xingzhe Sun". Essa saída é genial: o tesouro reconhece a correspondência entre o nome e a pessoa; se você altera essa relação temporariamente, a magia perde o efeito.
Essa regra é quase inédita na história da literatura. Na fantasia ocidental, existe o conceito do "nome verdadeiro" — saber o nome real de um elfo ou demônio permite controlá-lo. Mas ali, "saber o nome = obter poder". Já a lógica da Cabaça Vermelha de Ouro Roxo é "chamar o nome + resposta do outro = iniciar a colheita". Ambos participam; se faltar um, nada acontece. Não é um controle unilateral, mas uma armadilha que exige a "colaboração" da vítima. Narrativamente, isso cria uma tensão enorme: o público sabe que ele não pode responder, mas vê Wukong caminhando passo a passo rumo ao momento em que "não resistirá". É uma angústia que cenas de luta pura jamais conseguiriam provocar.
A série de TV de 1986 transformou esse trecho na frase clássica "Se eu chamar seu nome, você teria coragem de responder?", que se tornou onipresente no mundo chinês. Mas o horror do livro original é bem mais profundo: quem é sugado para a cabaça não fica apenas preso, mas é dissolvido em pus. Seu corpo, em um espaço escuro e selado, é decomposto gota a gota até virar líquido. Wu Cheng'en não detalha esse processo, mas a imaginação do leitor completa a cena automaticamente.
A rede de espionagem da Caverna da Flor de Lótus: O retrato de Sun Wukong
Um detalhe fácil de ignorar na história da Montanha do Topo Plano é que o nível de informação de Chifre de Ouro e Chifre de Prata sobre o grupo de peregrinação é muito superior ao de qualquer outro demônio.
No capítulo 32, dois pequenos demônios, o "Espírito Detalhista" e o "Inseto Esperto", recebem ordens para patrulhar a montanha. A missão dada pelo Rei Chifre de Ouro não é a simples tarefa de "prender qualquer monge que vir", mas sim a ordem clara de capturar o "Mestre Tang Sanzang do Grande Tang do Oriente e seus três discípulos". Mais impressionante ainda: o Rei Chifre de Prata apresenta um retrato — "com as feições de Tang Sanzang, Sun Xingzhe, Zhu Bajie e Sha Wujing" — para que os subordinados saibam exatamente quem procurar.
Como um grupo de demônios instalados na Montanha do Topo Plano teria retratos do grupo? Isso é único em toda a Jornada ao Oeste. Geralmente, outros demônios conseguem informações por boatos — ouvem dizer que "veio um monge do Oriente e que comer sua carne dá a imortalidade" — e ficam esperando a presa chegar. Já Chifre de Ouro e Chifre de Prata fizeram um trabalho de inteligência completo: sabem quantos são, como se parecem e como se chamam.
Essa precisão só tem uma explicação: veio do Reino Superior. Chifre de Ouro e Chifre de Prata eram originalmente meninos do Mosteiro de Laojun e, antes de descerem ao mundo mortal, já tinham todas as informações sobre a jornada — dados que eram públicos no Palácio Celestial, já que a missão era um projeto conjunto de Buda e Guanyin, conhecido por todos os imortais. Os dois meninos fizeram a lição de casa antes de descerem, desenharam os alvos e distribuíram aos capangas, executando a missão com um rigor quase militar.
A existência do retrato também cria um efeito dramático: as transformações de Wukong enfrentam um novo desafio. Antes, bastava ele assumir a forma de outra pessoa para enganar a todos, mas agora os capangas de Chifre de Ouro e Chifre de Prata têm imagens padrão, o que diminui a eficácia de seus truques. No capítulo 33, quando Wukong se transforma em um pequeno demônio para espionar, ele é extremamente cauteloso — ele não assume qualquer forma, mas escolhe a aparência de um demônio que já foi morto, evitando assim o erro fatal de aparecerem "duas pessoas iguais".
Além da inteligência, a estratégia militar de Chifre de Ouro e Chifre de Prata está acima da média. Eles não ficam sentados na caverna esperando o grupo chegar; eles tomam a iniciativa: enviam batedores, confirmam a posição do alvo, armam emboscadas e dividem as tarefas — Chifre de Prata vai para a luta, enquanto Chifre de Ouro coordena a retaguarda. Esse modo de operar, planejado e baseado em informações, torna a provação da Montanha do Topo Plano uma das mais "profissionais" entre as oitenta e uma dificuldades da obra.
Wukong e os três roubos: A vitória da astúcia sobre a força
A batalha na Montanha do Topo Plano é a luta com maior teor de estratégia em toda a obra. Wukong não vence derrotando Chifre de Ouro e Chifre de Prata no soco, mas roubando seus tesouros e usando as próprias armas dos inimigos contra eles.
O primeiro roubo: a Corda da Ilusão Dourada. No capítulo 33, Wukong se infiltra na Caverna da Flor de Lótus disfarçado de demônio e rouba a corda. Porém, ele não sabe como usá-la: "sabia amarrar, mas não sabia soltar", e acaba perdendo o objeto de volta para Chifre de Prata. Esse fracasso é fundamental — mostra que não basta ter o tesouro; é preciso conhecer as palavras e os gestos mágicos. Wukong conseguiu roubar o objeto, mas não roubou o manual de instruções.
O segundo roubo: a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo. Este é o momento mais brilhante da história. No capítulo 34, Wukong se transforma em um velho taoísta, carrega uma cabaça falsa e procura os capangas de Chifre de Ouro e Chifre de Prata, alegando que sua cabaça consegue "guardar o céu". Os demônios não acreditam, então Wukong faz a demonstração: ele combina previamente com o Rei Dragão do Mar do Norte para que este escureça metade do céu; então, Wukong sopra na cabaça e o céu "entra" nela (na verdade, o Rei Dragão apenas cessou o feitiço e a luz voltou). Convencidos de que uma cabaça que guarda o céu deve ser superior à de seus mestres, os demônios trocam a verdadeira pela falsa.
A genialidade desse golpe está no fato de Wukong explorar a ganância dos monstros. Embora os mestres sejam espertos, seus subordinados têm visão limitada — a ideia de "guardar o céu" é tão impactante que eles esquecem de verificar a autenticidade do objeto. Aqui, a técnica de transformação de Wukong não serve para a luta, mas para um ataque de "engenharia social" — ele não derruba as muralhas da caverna, mas rompe a linha de percepção dos demônios.
O terceiro roubo: o Vaso Puro de Jade Sebo de Carneiro. Com a mesma lógica — transformação, engano e exploração da diferença de informação — Wukong consegue enganá-los e roubar também o vaso. A partir daí, as duas armas mais letais de Chifre de Ouro e Chifre de Prata estão nas mãos de Wukong.
Com a troca de posse dos tesouros, a situação se inverte completamente. Wukong pega a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo e grita para o Rei Chifre de Ouro: "Rei Chifre de Ouro!". O Rei não resiste diante de seu próprio tesouro — a mesma regra, a mesma reação instintiva, o mesmo "não resistiu e respondeu" — e, num vapt-vupt, é sugado para dentro do objeto de que tanto se orgulhava.
O desfecho é carregado de ironia: o Rei Chifre de Ouro foi derrotado por sua própria arma. Toda a arrogância anterior — ter capturado Tang Sanzang, amarrado Bajie e Wujing e quase ter pego Wukong — termina em total humilhação. E a forma como ele é capturado é idêntica à que ele usava com os outros: chamar o nome, ouvir a resposta, sugar. O processo forma um ciclo perfeito: quem criou a regra foi aniquilado por ela.
A vitória de Wukong na Montanha do Topo Plano é uma das raras vezes em que ele vence "sozinho", sem ajuda externa. Ele não pediu socorro a Guanyin, não convocou generais celestiais nem usou tesouros de Bodhisattvas — contou apenas com sua técnica de transformação, sua lábia e sua rapidez de raciocínio. Essa batalha prova que, quando a vantagem do adversário está toda nos equipamentos, roubar os equipamentos é roubar a vitória. E quem consegue fazer isso em toda a Jornada ao Oeste é apenas o Sun Wukong.
A Descida de Laojun para a Recuperação: Uma Prova com Roteiro Pronto
No trigésimo quinto capítulo, bem na hora que Wukong usava seus tesouros para subjugar Chifre de Ouro e Chifre de Prata, todo satisfeito e pronto para seguir viagem, Taishang Laojun desceu dos céus. Ele não veio para dar uma mãozinha — veio para recolher a mercadoria.
A entrada de Laojun é curiosa. Ele não desceu vagarosamente montado em seu touro verde, mas chegou "com toda pressa" — como se tivesse medo que Wukong quebrasse seus preciosos tesouros. Ao ver Laojun, a primeira reação de Wukong não foi de respeito, mas de cobrança: "Como pôde deixar seus dependentes virarem demônios para prejuditar os outros?". O que ele quis dizer nas entrelinhas foi: você sabia muito bem que seus meninos imortais desceram ao mundo mortal como monstros, então por que não fez nada?
A resposta de Laojun é a explicação final de toda a história da Montanha do Topo Plano: "A Bodhisattva do Mar me pediu emprestado três vezes, e só então eu consenti". Ou seja, a Bodhisattva Guanyin pediu gente emprestada três vezes até que ele aceitasse soltar dois meninos imortais no mundo mortal. Esse verbo "emprestar" define a natureza de todo o episódio como uma transação: Guanyin precisava de um problema difícil para testar o grupo da peregrinação, mas não tinha cartas suficientes na manga (ou não era conveniente que ela mesma agisse), então pediu a Laojun dois meninos e cinco tesouros.
Essa explicação levanta algumas questões fundamentais.
Primeiro, por que Guanyin quis emprestado o pessoal de Laojun? Ela tinha seus próprios subordinados, como o Menino Sudhana e a Donzela Dragão, além do Caminhante Huian; por que não mandou os seus? A resposta deve ser que, se fosse gente da casa, seria fácil demais de desmascarar. A "dificuldade" no caminho da peregrinação precisava parecer real; se Wukong descobrisse que o monstro era alguém de Guanyin, a prova perderia todo o sentido. Usar o pessoal de Laojun tinha uma vantagem: existe distância suficiente entre o sistema taoísta e o budista para que Wukong não associasse a coisa a um "arranjo prévio".
Segundo, por que Laojun concordou? O fato de ter sido "pedido três vezes antes de consentir" mostra que, a princípio, ele recusou — afinal, entregar dois meninos e cinco tesouros pessoais para outra pessoa manejar era um risco considerável. Ele acabou aceitando por alguns motivos: primeiro, porque não dava para dizer não para Guanyin (Budismo e Taoísmo estavam em parceria no projeto da peregrinação); segundo, porque isso também era bom para ele — se os dois meninos passassem por algumas experiências no mundo mortal, poderiam voltar mais comportados. Olhando depois, a atitude de Laojun ao recolher os meninos foi a de quem busca dois pirralhos travessos que foram pegos, sem aplicar castigo rigoroso algum.
Terceiro, será que Chifre de Ouro e Chifre de Prata sabiam que eram peões? O original não deixa isso claro. Mas, pelo comportamento deles no mundo mortal, eles agiam como se "estivessem sendo demônios de verdade" e não "encenando uma peça": eles queriam mesmo comer a carne de Tang Sanzang (o capítulo 33 menciona claramente que queriam "cozinhá-lo no vapor"), queriam mesmo matar Wukong e até adotaram a Raposa de Face de Jade como mãe adotiva para expandir seu poder. Se tudo fosse teatro, a atuação teria sido realista demais. A explicação mais lógica é que, ao descerem, foram contaminados pelos desejos mundanos; a natureza de meninos imortais deu lugar à ambição de reis demônios. Quando Laojun os recolhe e os chama de "bestas", não é tanto um xingamento por terem roubado os tesouros, mas sim por terem esquecido quem eram.
O processo de recuperação dos tesouros foi simples e direto: "Com um gesto para os dois meninos, estes se transformaram num instante em duas correntes de qi verdadeiro e voaram para dentro da manga de Laojun". Sem luta, sem resistência — porque, no fundo, eram extensões de Laojun, e ele os recolheu com a naturalidade de quem recolhe a própria sombra. Os cinco tesouros também voltaram aos seus lugares: a cabaça voltou a guardar elixires, o vaso puro a conter água, o leque a atiçar o fogo, a corda a prender as vestes e a espada a adornar a cintura — a ordem cotidiana do Reino Celestial foi restaurada, como se aquela batalha emocionante no mundo mortal jamais tivesse existido.
O Pedido de Guanyin e a Cooperação de Laojun: Uma Transação nos Bastidores do Budismo e Taoísmo
A superfície da história da Montanha do Topo Plano é a luta de Wukong contra os demônios, mas a base é uma operação de poder fruto da cooperação entre Budismo e Taoísmo. Analisando bem, essa operação ocorre em três níveis.
O primeiro nível é a "elaboração da prova". A Bodhisattva Guanyin é a diretora executiva do projeto da peregrinação — o Buda Rulai definiu a direção geral da jornada ao Oeste, e Guanyin ficou encarregada da operação detalhada. As oitenta e uma provações do caminho são a sua "lista de questões". Mas, como os recursos de Guanyin eram limitados, ela não podia organizar cada provação pessoalmente, então precisava "terceirizar" parte das questões para outros sistemas. A prova da Montanha do Topo Plano foi terceirizada para o sistema taoísta.
O segundo nível é a "alocação de recursos". Guanyin não pediu a Laojun apenas dois meninos, mas um "kit de prova" completo: dois examinadores e cinco instrumentos de teste. Essa escala de recursos é rara entre as oitenta e uma provações — na maioria das vezes, o "autor da questão" era uma montaria que descia do céu (Espírito Touro Verde era o touro de Laojun, o Hou de Pelo Dourado era a montaria de Guanyin), e um demônio com um tesouro bastava. Na Montanha do Topo Plano, foram investidos dois demônios e cinco tesouros de uma vez; tamanha especificação mostra que essa questão tinha um "peso" enorme — não exigia apenas força bruta, mas inteligência para ser superada.
O terceiro nível é a "cumplicidade entre Budismo e Taoísmo". A peregrinação é um projeto budista, e o taoísmo, nominalmente, é um observador. Mas a história da Montanha do Topo Plano revela que a participação taoísta no projeto é muito mais profunda do que parece. Laojun não apenas emprestou pessoas e tesouros, como também escolheu o momento exato para descer e recolhê-los — nem cedo, nem tarde, logo após Wukong subjugar Chifre de Ouro e Chifre de Prata com os tesouros. Se tivesse vindo um pouco antes, Wukong não teria a chance de mostrar sua astúcia; se tivesse vindo um pouco depois, Wukong poderia ter aberto a cabaça e transformado Chifre de Ouro em lama (e aí Laojun teria perdido um menino de verdade). Esse controle preciso do tempo mostra que Laojun estava "assistindo à luta" — ele sabia de tudo o que acontecia no mundo mortal e esperava o momento certo para intervir.
A questão mais profunda é: por que tanto trabalho? Guanyin não poderia simplesmente criar um obstáculo para o grupo? Por que envolver Laojun? Um motivo possível seria "evitar conflito de interesses" — Guanyin é, ao mesmo tempo, quem elabora a prova e quem protege o grupo; se ela mesma organizasse e resolvesse as provações, o valor das oitenta e uma dificuldades diminuiria. Ao introduzir Laojun como terceira parte, ela trouxe um "examinador independente": a questão é minha, mas o examinador não é do meu círculo, e se o aluno passa ou não depende do julgamento do examinador. Isso dá mais credibilidade ao processo do exame — ao menos nos registros do Palácio Celestial.
Esse mecanismo de cooperação entre Budismo e Taoísmo aparece repetidamente em Jornada ao Oeste, mas a história da Montanha do Topo Plano é onde ele fica mais evidente. A tragédia de Chifre de Ouro e Chifre de Prata (se é que se pode chamar de tragédia) é que eles achavam que eram reis demônios, quando na verdade eram peões; achavam que lutavam uma batalha de vida ou morte, quando na verdade estavam apenas cumprindo um protocolo para dois figurões. A ferocidade deles era real, o medo era real, o fracasso era real — mas tudo isso aconteceu dentro de uma moldura com o final já escrito.
Personagens Relacionados
Rei Chifre de Prata: Irmão do Rei Chifre de Ouro e o menino da fornalha de prata de Taishang Laojun. Os dois desceram ao mundo mortal e se instalaram na Caverna da Flor de Lótus, na Montanha do Topo Plano; enquanto o Rei Chifre de Prata cuidava das batalhas lá fora, o Rei Chifre de Ouro comandava o refúgio. Com uma arte marcial um pouco superior à do irmão, ele foi quem encarou a maior parte dos embates diretos com Wukong. No fim das contas, ambos foram recolhidos por Taishang Laojun de volta ao Reino Celestial.
Taishang Laojun: O antigo mestre de Chifre de Ouro e Prata, e o verdadeiro dono dos cinco tesouros mágicos. Ele concordou em emprestar os meninos e os artefatos para Guanyin, a fim de testar o grupo da jornada, e desceu prontamente ao mundo mortal para recuperar tudo assim que Wukong saiu vitorioso. O papel de Laojun nessa história foi o de "provedor de recursos" e "juiz final" — ele forneceu as ferramentas para a prova e decidiu a hora de encerrá-la.
Bodhisattva Guanyin : A verdadeira mentora por trás das tribulações na Montanha do Topo Plano. Ela pediu três vezes a Taishang Laojun que lhe emprestasse os meninos e os tesouros, com o intuito de criar um desafio rigoroso o suficiente para o grupo. Guanyin não apareceu diretamente nos acontecimentos, mas foi a mão invisível que moveu tudo — o impulso inicial para que Chifre de Ouro e Prata descessem à terra veio do seu "pedido".
Sun Wukong: O maior adversário de Chifre de Ouro e Prata. Na batalha da Montanha do Topo Plano, Wukong mostrou o ápice de sua astúcia em todo o livro — não apostou apenas na força bruta, mas usou suas transformações e truques para roubar um a um os cinco tesouros, dando a volta por cima e usando a Cabaça Vermelha de Ouro Roxo para capturar o Rei Chifre de Ouro.
Rei Raposa Sete: A madrasta adotiva de Chifre de Ouro e Prata no mundo mortal, um espírito raposa. A presença dela mostra que, ao descerem à terra, os dois se integraram rapidamente à sociedade dos monstros, criando sua própria rede de contatos locais — adotando parentes e marcando território, agindo exatamente como qualquer outro demônio faria.
Tang Sanzang: O alvo de Chifre de Ouro e Prata — ao menos na aparência. Tang Sanzang foi capturado e levado para a caverna, mas não sofreu nenhum dano real. Sob a ótica de um "exame", a captura do mestre era parte da questão: o teste era saber se Wukong conseguiria manter a calma e agir com lucidez sob a pressão de ter o mestre sequestrado.
Zhu Bajie: Durante a batalha na Montanha do Topo Plano, foi quase morto ao ser esmagado pelas montanhas Sumeru, Emei e Tai, que o Rei Chifre de Prata trouxe usando magia. Bajie deixou escapar suas fraquezas nessa luta, como a preguiça ao vigiar a montanha e a facilidade com que foi enganado pelos monstros, criando um contraste gritante com a esperteza de Wukong.
Sha Wujing: Foi capturado junto com Tang Sanzang e levado para a Caverna da Flor de Lótus. O papel de Sha Wujing na história da Montanha do Topo Plano segue o padrão de sempre — fiel, porém sem a capacidade de resolver os problemas sozinho, servindo mais como alguém que precisa ser resgatado.
Perguntas frequentes
Qual é a verdadeira identidade do Rei Chifre de Ouro? +
Ele é o menino da fornalha de ouro do Palácio de Tusita, de Taishang Laojun. Junto com seu irmão, o Rei Chifre de Prata, ele desceu ao mundo mortal a pedido da Bodhisattva Guanyin, levando cinco tesouros mágicos. Eles se instalaram na Caverna da Flor de Lótus, na Montanha do Topo Plano; por fora,…
Como funciona a mecânica de "chamar pelo nome" da Cabaça Vermelha de Ouro Roxo? +
Segurando a cabaça com o fundo para cima e a boca voltada para o chão, basta gritar o nome do adversário. Se a pessoa responder "estou aqui" ou "sim", é sugada para dentro da cabaça e, em pouco tempo, vira um caldo de pus. Esse truque se aproveita da reação instintiva de quem ouve o próprio nome;…
Quais são os cinco tesouros mágicos que o Chifre de Ouro e o Chifre de Prata carregam? +
A Cabaça Vermelha de Ouro Roxo (que suga pessoas e as transforma em sangue), o Vaso Puro de Jade Sebo de Carneiro (com função semelhante), a Espada das Sete Estrelas (para combate corpo a corpo), o Pequeno Leque de Bananeira (para ataques de fogo) e a Corda da Ilusão Dourada (para controle e…
Como Sun Wukong conseguiu anular os tesouros e virar o jogo? +
Ele não venceu em um combate direto. Em vez disso, usou suas transformações para se infiltrar na Caverna da Flor de Lótus, trocou a cabaça verdadeira por uma falsa e usou um truque de ilusão, fingindo que o céu estava desabando, para enganar o Chifre de Prata e fazer com que ele entregasse o vaso…
A descida do Chifre de Ouro e do Chifre de Prata ao mundo mortal foi obra de demônios reais ou uma provação planejada? +
As duas coisas. A descida deles foi um mecanismo de teste emprestado por Guanyin a Taishang Laojun. Os tesouros eram reais, o perigo era real, e a angústia de Tang Sanzang ao ser capturado e a pressão sobre Wukong eram sofrimentos bem reais — mas a moldura de toda a história era a de um exame com o…
Como Taishang Laojun recuperou o Chifre de Ouro e o Chifre de Prata no final? +
No capítulo 35, Laojun chega à Montanha do Topo Plano e, com um simples gesto, aponta para os dois meninos; num piscar de olhos, eles se transformam em duas correntes de energia pura e voam para dentro da manga de Laojun. O processo foi tão natural quanto recolher a própria sombra, sem necessidade…
Aparições na história
Tribulações
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