Capítulo 32: O Funcionário Celeste Avisa no Monte Plano; A Mãe Madeira Encontra o Desastre na Caverna do Lótus
Um funcionário celeste disfarçado de lenhador avisa sobre os demônios do Monte Plano. Zhu Bajie é enviado a explorar mas adormece; os demônios do Chifre de Ouro e Chifre de Prata capturam Tang Sanzang, Sha Wujing e o cavalo, enquanto Sun Wukong é esmagado por três montanhas.
A primavera havia chegado ao caminho do oeste, e com ela aquela qualidade particular da luz que torna até as montanhas perigosas parecerem convidativas. As flores abriam nas encostas com a indiferença das flores para com o que acontece abaixo delas. Os pássaros cantavam nos pinheiros sem consultar ninguém sobre a conveniência do momento. Tang Sanzang cavalgava no cavalo branco com a expressão relaxada de quem há muito aprendeu a encontrar paz nas estradas difíceis — não a paz da ausência de perigo, mas a paz mais profunda de quem decidiu que o perigo não era motivo suficiente para abandonar o propósito.
— Esta montanha tem nome? — perguntou o mestre, olhando para o pico que se erguia à frente como um punho fechado contra o azul do céu, suas encostas cobertas de uma vegetação que parecia intocada porque as coisas que viviam nela não precisavam tocar a vegetação para ser perigosas.
— Monte Plano — disse Sun Wukong, abrindo o caminho à frente com os olhos dourados varrendo as encostas com a constância de algo que não precisa de descanso para manter a atenção. — Não conhecia o nome, mas conheço a natureza: pedra, silêncio, e o tipo de sombra que tem coisas dentro dela. Coisas que preferem ser sombra a revelar o que são.
— Você está mais cauteloso ultimamente.
— Estou mais informado. — O Grande Sábio não parou de andar, mas havia uma qualidade diferente no ritmo dos seus passos. — São coisas diferentes. Cautela é medo reorganizado. Informação é luz onde havia escuridão.
Foi então que viram o lenhador.
Era um homem de meia-idade, com um chapéu de feltro azul desgastado que havia conhecido temporadas melhores e uma batina de pelo escuro cujas costuras falavam de muitos remendos feitos com atenção mas sem excesso. Carregava um feixe de lenha e uma machadinha de aço brilhante que refletia o sol com mais precisão do que o metal comum reflete, e olhava para eles com uma urgência que não combinava bem com a imagem do trabalhador rural que tivesse tempo para observar peregrinos.
— Viajantes do leste! — chamou ele da encosta, com uma voz que carregava distância sem esforço. — Parem um momento. Tenho uma palavra de aviso.
Tang Sanzang deteve o cavalo. O cavalo branco ficou imóvel com a qualidade de alguém que reconhece que a parada era necessária antes mesmo de ela ser pedida.
— Esta montanha — disse o lenhador, descendo até a estrada com passos que não perturbavam as pedras da maneira que passos humanos perturbam — tem uma caverna no seu interior. A Caverna do Lótus. Lá vivem dois demônios de poder extraordinário. Eles têm uma lista de nomes — um retrato falado de cada monge que viaja de leste a oeste — e no topo dessa lista está o nome Tang Sanzang. Foram instruídos a capturá-lo. Possuem cinco armas espirituais que não podem ser contrariadas por força comum.
Tang Sanzang ficou um pouco mais pálido. Havia uma qualidade específica na palidez do mestre diante do perigo — não a brancura do choque, mas a translucidez de alguém cuja fé está sendo testada em tempo real e que responde com uma firmeza que o próprio corpo não partilhava completamente.
Sun Wukong, por outro lado, ficou com a expressão de quem acabou de receber um problema interessante para resolver — o brilho específico nos olhos dourados que aparecia quando a situação era genuinamente difícil e portanto genuinamente digna da sua atenção plena.
— Quantos são? Quanto tempo têm nessa arte? Velhos ou jovens no domínio das suas habilidades?
O lenhador deu um passo para trás com uma risada que era mais desconcertada do que divertida.
— Você é bastante tranquilo para alguém sendo avisado de perigo mortal.
— O perigo mortal é minha circunstância normal. — Sun Wukong se aproximou do lenhador com o passo direto de quem tem perguntas específicas e não quer gastar tempo com circunlóquios. — O que muda são os detalhes. Quantos demônios, quais armas, e a quantos li à sua direita ou esquerda fica a entrada da caverna?
O lenhador deu as informações que sabia — cinco armas espirituais, dois demônios principais, a caverna no flanco norte da montanha, seis ou sete centenas de li de caminho perigoso — e depois, inexplicavelmente, desapareceu. Não se afastou. Não entrou na floresta. Simplesmente deixou de estar presente, como vapor que o sol absorve antes que alguém decida observá-lo de perto.
Sun Wukong olhou para o espaço onde havia estado, depois para cima, onde uma faixa de nuvem alta passava com velocidade ligeiramente suspeita para um dia de vento leve.
— Era o Funcionário do Dia — disse ele para si mesmo, em voz baixa demais para o mestre ouvir. — Veio nos avisar pessoalmente. Quando o Funcionário Celestial sente necessidade de aparecer em forma corpórea para transmitir aviso direto, a situação é de um grau que não pode ser transmitido por canais normais. Isso significa que os demônios ali são poderosos o suficiente para que o Céu tenha decidido intervir de maneira tangível.
Ficou quieto, não contando ao mestre tudo que havia inferido. Tang Sanzang ficaria em pânico — não o pânico covarde que faz pessoas correrem, mas o pânico meditativo que o fazia recitar sutras com intensidade crescente e olhar para os discípulos com aquela expressão de responsabilidade partilhada que às vezes era mais difícil de suportar do que qualquer combate. Zhu Bajie já estava olhando para o horizonte com a expressão de alguém que calcula mentalmente a distância até a aldeia mais próxima e ensaia pretextos para ir na frente verificar o caminho.
Em vez disso, Sun Wukong esfregou os olhos com força até produzirem lágrimas convincentes — uma habilidade que havia desenvolvido não por hábito de falsidade mas por compreensão de que certas verdades precisam ser apresentadas em formas que os ouvintes possam absorver sem se despedaçar — e virou-se para o mestre com uma expressão pesarosa.
— Mestre, não sei se conseguiremos passar por esta montanha hoje. Os demônios são muitos e fortes. Talvez devêssemos dar a volta por outro caminho e aguardar condições mais favoráveis.
O efeito foi o pretendido: Tang Sanzang, que normalmente resistia à ideia de desvios com o argumento de que o caminho reto era também o caminho da determinação, ficou alarmado com a raridade de ver Sun Wukong demonstrar qualquer coisa parecida com hesitação. Em meses de peregrinação, o macaco havia enfrentado dragões, reis demônio, exércitos celestiais e a fúria do próprio Buda com a mesma expressão de quem estava fazendo algo levemente inconveniente. Lágrimas de Sun Wukong eram um sinal de emergência que ultrapassava qualquer outra forma de comunicação.
Zhu Bajie, que havia começado a compor mentalmente um discurso sobre a sabedoria estratégica de recuar para reagrupar, ficou imediatamente desconfiado da conveniência com que Sun Wukong havia chegado à mesma conclusão que ele próprio estava chegando.
— Por que você está chorando? — perguntou o porco-monge com seus olhos pequenos e agudos voltados para o macaco com a perspicácia de quem havia convivido o suficiente para reconhecer performance quando a via. — Você nunca chora a menos que esteja tramando alguma coisa ou queira que eu faça algo que não quero fazer. Essas duas coisas às vezes coincidem.
Sun Wukong ignorou o comentário com a tranquilidade de quem já havia calculado que ignorar era mais eficiente do que responder.
— Bajie — disse ele, com a voz de alguém dando uma ordem no tom de alguém fazendo uma sugestão razoável —, precisamos de informações antes de agir. Você vai explorar a montanha.
— Eu?
— Você. Entre na floresta, encontre a Caverna do Lótus, avalie quantos demônios há, observe suas armas e seus movimentos de patrulha, e volte para me informar. Informação é a arma que precede todas as outras.
Zhu Bajie olhou para a floresta, que tinha a qualidade de florestas em que demônios moram — densa onde deveria ser espaçada, silenciosa onde deveria haver pássaros, com sombras que não tinham as formas que correspondiam ao que estava acima delas. Olhou para Sun Wukong. Olhou para a floresta novamente com a expressão de alguém fazendo um cálculo cujas variáveis não gostava.
— Por que eu? Você tem os olhos dourados que enxergam trezentos li. Por que não simplesmente olhar daqui?
— Porque você é o segundo discípulo, robusto, com boa habilidade de combate quando está acordado e engajado, e porque se eu fosse, o mestre ficaria com apenas Sha Wujing de guarda. — Sun Wukong fez uma pausa calculada. — Além disso, você tem o rastelo de nove dentes. É uma presença considerável.
Era lógico suficiente para ser irrespondível e injusto suficiente para ser irritante. Bajie fez os cálculos disponíveis e concluiu que não havia saída honrosa do pedido, o que significava que a única saída era a desonrosa — ir e fazer mal feito. Pegou o rastelo com a expressão de alguém aceitando uma missão que considera maldesenhada, e partiu pela floresta fazendo barulho suficiente para alertar qualquer criatura dotada de audição num raio considerável.
Sun Wukong transformou-se imediatamente num inseto minúsculo — tão pequeno que o vento o carregava antes que ele precisasse de asas — e seguiu, pousando na orelha grande do porco-monge sem que o pelo grosso registrasse a chegada.
Zhu Bajie, como Sun Wukong havia previsto com uma precisão que era menos clarividência do que conhecimento cuidadosamente acumulado de um caractere específico ao longo de meses de convivência, não foi a lugar nenhum em particular.
Caminhou uns oito li pela floresta com o rastelo no ombro e a expressão de alguém fazendo o mínimo necessário para poder dizer que havia feito alguma coisa. Não encontrou nenhuma aldeia. Não encontrou nenhum caminho que levasse a uma caverna demoniaca com placa indicativa. Encontrou sim uma clareira ensolarada com relva macia e aquecida pelo sol da tarde que entrava entre os pinheiros em colunas douradas de luz, e decidiu — com a lógica interna do cansaço que sempre soava razoável de dentro — que a melhor estratégia de reconhecimento era descansar por um momento breve antes de continuar. O solo estava quente. O murmúrio de um riacho soava de algum lugar próximo. O rastelo serviria de travesseiro se girado corretamente.
Enterrou o focinho na grama perfumada e adormeceu em menos de dois minutos com a consciência limpa de alguém que havia tentado o que era razoável.
Sun Wukong, pousado na orelha do porco-monge como um grão de poeira com vontade própria, ouviu os primeiros roncos com o cansaço de quem havia esperado exatamente isso e mesmo assim havia mantido uma esperança mínima de que desta vez fosse diferente. Voou de volta para o mestre em segundos, passando pela floresta em linha reta como só os insetos e os espíritos fazem.
Mas não antes de subir ao alto de uma rocha que o vento havia descarnado de vegetação, e observar do ângulo que os olhos dourados tornavam produtivo a grandes distâncias: na encosta leste, saindo da Caverna do Lótus, dois demônios. Um jovem com um chifre dourado no elmo que refletia o sol de tarde como um sinal de presença. Outro com um chifre de prata que não refletia nada — absorvia, com a qualidade de metal que havia sido forjado para tomar e não devolver. Atrás deles, uma fileira de demônios subordinados em formação com propósito definido. Conheciam a rota dos peregrinos. Estavam em movimento de caça.
Sun Wukong voltou. Chegou ao caminho a tempo de ver a armadilha já parcialmente executada, mas não a tempo de impedi-la.
O demônio do Chifre de Prata havia se transformado num velho taoísta caído no meio do caminho, com uma perna ensanguentada e um gemido que carregava a nota exata de dor que ativa o instinto de compaixão antes que a razão tenha tempo de formular perguntas. Tang Sanzang havia descido do cavalo — havia descido porque era Tang Sanzang, porque a compaixão era nele a primeira resposta e não a última, porque um homem caído no chão com sangue na perna era mais presente e mais real do que qualquer aviso sobre demônios que escolhiam formas de velhos indefesos.
— Mestre, não! — gritou Sun Wukong, chegando voando da encosta.
Mas Tang Sanzang já estava de joelhos ao lado do velho, as mãos estendidas.
O que aconteceu depois aconteceu com a velocidade que os planos bem preparados executam quando chegam ao momento certo. O demônio, que havia ouvido o grito e identificado a aproximação de Sun Wukong, calculou que o tempo disponível estava se encerrando e recitou o encantamento do Feitiço das Três Montanhas sem se levantar, com a voz transformada num sussurro que não era menos poderoso por ser baixo — havia sons que derrubavam montanhas em murmúrio.
Do céu desceram três montanhas.
Não pedras comuns. Montanhas espirituais — condensações de poder geomântico invocadas de regiões celestes, cada uma com o peso de algo que havia sido pedra antes de ser mais do que pedra, cada uma obedecendo a uma ordem de destino que as físicas terrestres não contestavam. A primeira caiu sobre o ombro esquerdo de Sun Wukong com um impacto que sacudiu a terra num raio de li. A segunda sobre o ombro direito, multiplicando o peso por uma proporção que superava qualquer aritmética física. A terceira — o Monte Tai, o mais sagrado e pesado entre as cinco montanhas celestiais, o pico que os imperadores visitavam para anunciar ao Céu os seus reinados — caiu diretamente sobre a cabeça de Sun Wukong com a precisão fria de algo guiado por intenção.
O Grande Sábio ficou de joelhos. O solo cedeu sob ele com o gemido da pedra que encontra peso superior. Depois foi ao chão — não caiu como as coisas comuns caem, com o abandono total da queda livre, mas desceu com a lentidão de algo que resiste ao inevitável enquanto pode, cada músculo de setenta anos de cultivo demoníaco recusando a derrota até o último momento disponível.
Estava preso.
Vivo — Sun Wukong não morria de peso, havia suportado o Monte Wu Xing por quinhentos anos debaixo do qual o próprio Buda o havia selado, e havia saído de lá com o mesmo corpo que havia entrado — mas completamente preso, com o rosto contra a terra fria e o peso das três montanhas espirituais acima dele como uma sentença renovada. O que ouvia chegava até ele mas ele não podia agir sobre nada do que ouvia.
O demônio do Chifre de Prata, livre da resistência do único ser que poderia tê-lo parado, avançou sobre Tang Sanzang com a eficiência calma de quem tinha tempo e preparação suficientes. Sha Wujing tentou resistir — o bastão de madeira de sândalo encontrou o ar onde o demônio havia estado um instante antes, e depois foi neutralizado pelos demônios subordinados que chegavam em número. O cavalo branco relinchou com o som de algo que compreende e não pode mudar a compreensão em ação. Toda a bagagem, os sutras, as provisões e os instrumentos de viagem — tudo varrido num vento dirigido em direção à Caverna do Lótus com a velocidade de algo que não ia voltar facilmente.
O silêncio que se seguiu era do tipo que as florestas fazem depois que algo grande aconteceu e ainda não decidiram como reagir.
Zhu Bajie, acordado pelo estrondo das montanhas caindo, chegou correndo à cena com o rastelo em posição de combate e a expressão de alguém pronto para um inimigo que já havia partido. Olhou para o caminho vazio. Olhou para as três montanhas sobrepostas no meio do caminho, cada uma maior que a última. Olhou para o espaço onde Tang Sanzang havia estado.
— O que... aconteceu aqui? — disse ele, muito devagar.
— Você estava dormindo — disse Sun Wukong de baixo das montanhas, com uma voz surpreendentemente clara e surpreendentemente controlada para alguém sob um peso que desafiaria qualquer medida convencional. Havia no controle daquela voz algo que era pior do que raiva — era a calma de quem decidiu que a raiva seria inútil. — Isso aconteceu enquanto você dormia na clareira. O mestre foi capturado. Sha Wujing foi levado. O cavalo e toda a bagagem também. E eu estou aqui embaixo.
— Posso tentar tirar —
— Não pode. Essas são montanhas espirituais convocadas por encantamento demoníaco de alto nível. Apenas o encantamento inverso as remove, ou a autoridade dos deuses guardiões do território a quem esse demônio obrigou a servir. Você precisa encontrar o Deus da Terra local. Ele vai conhecer o feitiço.
Bajie colocou as duas mãos sob a borda da menor montanha e empurrou com a força dos seus braços, que haviam carregado as bagagens de quatro peregrinos pelas encostas da China durante meses e meses. As montanhas não se moveram — não resistiram ao esforço, o que seria uma forma de reconhecimento; simplesmente não perceberam o esforço, da mesma forma que uma montanha real não percebe uma formiga empurrando.
— Não pode — confirmou Bajie, soltando as mãos com uma expressão de alguém que acaba de ter uma teoria confirmada de forma desfavorável.
— Já disse isso.
Bajie partiu em busca do Deus da Terra, o rastelo tilintando contra as pedras do caminho com o barulho de alguém que precisava que o próprio movimento expressasse o peso da situação.
Sun Wukong ficou deitado sob as três montanhas com o rosto contra a terra e pensou. Havia nessa posição forçada — a imobilidade absoluta, a escuridão, o peso acima — uma clareza estranha que o movimento constante normalmente impedia. Sem poder agir, havia apenas o pensamento, e o pensamento sem urgência de ação tomava rotas mais longas e mais completas.
Os demônios tinham o mestre. Tinham Sha Wujing. Tinham o cavalo. E tinham cinco armas espirituais cujas propriedades o Funcionário do Dia havia considerado relevantes o suficiente para mencionar. Cinco armas num covil de demônios que haviam sido instruídos especificamente a capturar Tang Sanzang não era coincidência — era estratégia. Alguém havia preparado aquela armadilha com conhecimento específico da peregrinação.
De onde vieram esses demônios?, pensou Sun Wukong. E quem os armou?
A resposta, quando chegasse, seria mais surpreendente do que qualquer batalha que o precedesse. Por enquanto, havia o trabalho imediato.
Os deuses do lugar chegaram com a velocidade dos que sabem que foram convocados por uma situação que os envolve de formas que prefeririam não ter sido envolvidos. Vieram curvados com o peso específico da culpa — não culpa de covardia pura, mas culpa de quem havia sido dominado e depois obrigado a servir ao dominador, realizando encantamentos de proteção para um covil de demônios toda manhã enquanto os peregrinos que deveriam proteger se aproximavam sem saber. Chegaram e ficaram diante das montanhas que cobriam o Grande Sábio com a expressão de quem sabe que o que fez não pode ser desfeito mas precisa igualmente ser explicado.
— Grande Sábio — disse o maior, curvando-se até que a testa quase tocasse o chão —, pedimos perdão. O demônio da Caverna do Lótus subjugou-nos há meses e nos obrigou a recitar encantamentos de proteção para o seu covil todas as manhãs. Não tínhamos poder para resistir à sua força.
— Entendo essa situação — disse Sun Wukong com uma paciência que surpreendeu o deus, que havia esperado raiva imediata. — Mas agora precisam me tirar dessas montanhas. As explicações e os ajustes de conta vêm depois.
Os deuses cantaram os encantamentos de reversão em sequência — as palavras que desfaziam o vínculo entre a montanha espiritual e o ponto de queda, depois as que liberavam a pressão geomântica que a mantinha no lugar, depois as que devolviam cada massa ao plano de origem. O Monte Tai foi o último a partir, e quando foi, o céu acima de Sun Wukong era completamente azul, limpo, sem peso, sem nada além do ar da tarde de primavera que cheirava a pinheiro e à terra perturbada pela queda das montanhas.
Sun Wukong levantou-se.
Sacudiu a poeira com dois golpes de mão. Verificou o bastão. Estendeu os membros um por um. Ficou parado por um momento no caminho vazio, olhando para a encosta norte onde a Caverna do Lótus ficava escondida atrás da vegetação, e deixou que a situação se organizasse completamente no seu entendimento antes de tomar qualquer decisão.
O mestre estava preso. Dois discípulos estavam presos. Havia cinco armas espirituais que precisavam ser neutralizadas antes que qualquer resgate fosse possível, e havia uma questão mais profunda ainda não respondida sobre quem havia armado aqueles demônios com armas específicas contra ele.
— Me conta sobre as cinco armas — disse ele ao Deus da Terra. — Tudo que você sabe.
E o deus, que estava ansioso para compensar a sua involuntária cumplicidade com qualquer utilidade que pudesse oferecer, contou tudo. O trabalho real estava começando.