Capítulo 34: O Rei Demônio Usa Astúcia para Prender o Macaco do Coração; O Grande Sábio Usa Engano para Roubar os Tesouros
Sun Wukong infiltra a Caverna do Lótus disfarçado de demônio menor, mata a mãe raposa dos demônios e rouba a corda dourada. Mas cai numa armadilha ao responder pelo nome 'Zhě Xíng Sūn' e é absorvido pela cabaça — da qual escapa transformando-se em inseto. Consegue então roubar a cabaça real trocando-a por uma cópia falsa.
Os dois demônios menores voltaram para a caverna com as mãos vazias.
A cabaça havia desaparecido — simplesmente desaparecida, como se nunca tivesse existido. O Inseto Esperto e o Demônio Astuto haviam verificado os bolsos, os cinturões, o chão ao redor dos pés, e não havia nada. O Velho Imortal da estrada havia levado as cabaças e sumido tão completamente que era como se o ar o houvesse engolido.
Entraram na caverna com passos lentos e relataram tudo ao Chifre de Prata.
O Chifre de Ouro ouviu e ficou imóvel por um momento com a expressão de alguém calculando o tamanho de uma catástrofe. Depois explodiu — não com raiva incontrolada, mas com a fúria fria de um general que acaba de perder dois batalhos de tropas por incompetência.
— Sun Wukong — disse ele. — Transformado em imortal. Ele escapou das montanhas e nos roubou as cabaças.
O Chifre de Prata, mais jovem e mais impulsivo, bateu o punho na mesa.
— Ele ainda tem os nossos tesouros?
— Dois deles. — O Chifre de Ouro fez as contas em voz alta. — Mas ainda temos três: a espada das Sete Estrelas, o leque de banana, e a corda dourada. A corda está com nossa mãe na Caverna do Dragão Subjugado. Se a trouxermos, podemos amarrar o macaco antes que ele cause mais estragos.
Mandaram dois pequenos demônios — Tigre da Montanha e Dragão do Oceano — buscar a mãe deles com a corda.
Sun Wukong, transformado em mosca, havia ouvido tudo pousado no pilar da porta.
Seguiu os dois demônios menores quando partiram pela floresta, mantendo distância suficiente para não ser percebido. Depois de três li, quando estava certo do caminho e da missão deles, voou na frente — e na bifurcação do caminho, transformou-se num terceiro demônio menor de aparência comum e os esperou.
— Irmãos! — chamou ele quando eles chegaram. — Os grandes reis me mandaram correr para avisá-los de que devem se apressar. O macaco já roubou dois tesouros e pode atacar a caverna antes que voltem com a corda.
Os dois demônios olharam para ele com suspeita.
— Não nos lembramos de você.
— Sou do turno da noite — disse Sun Wukong com total confiança. — Vocês dormem quando eu trabalho. Mas não percam tempo reconhecendo meu rosto — o Grande Rei disse que se demorassem mais de dois momentos, cortaria as orelhas de vocês.
A ameaça de orelhas cortadas funcionou melhor do que qualquer argumento. Os dois demônios aceleraram o passo.
Sun Wukong deixou-os ir um pouco à frente e depois matou os dois com um único golpe do bastão — discreto, limpo, sem barulho desnecessário. Arrastou os corpos para os arbustos. Transformou dois pelos da sua nuca em cópias exatas dos dois demônios mortos, soprou o fôlego da transformação neles, e os dois pelos se levantaram e caminharam pela floresta como se nunca houvesse acontecido nada de extraordinário.
Ele mesmo assumiu a forma de um dos demônios menores e seguiu.
A Caverna do Dragão Subjugado ficava numa floresta de pinheiros negros, escondida atrás de duas fileiras de pedras dispostas em ângulos estranhos, como dentes.
A mãe dos dois demônios — uma raposa de nove caudas que havia vivido milênios o suficiente para assumir a forma de uma velha senhora — estava sentada na câmara principal quando os "demônios" chegaram com o recado. Ficou satisfeita ao ouvir que os filhos haviam capturado o monge Tang.
— Meus filhos são tão dedicados — disse ela, levantando-se com a lentidão de alguém de muita idade real ou fingida. — Manda preparar o palanquim. Vou pessoalmente.
Sun Wukong ficou de pé junto à porta de fora enquanto o palanquim era preparado. Olhou para a velha raposa e sentiu algo próximo ao desconforto — não de medo, mas de uma objeção moral que havia cultivado ao longo de anos de peregrinação. Esta criatura passou séculos construindo uma ilusão de família com dois demônios que capturam humanos para comer. O desconforto é adequado.
Mas o trabalho era necessário.
Quando o palanquim estava a cinco li da caverna — longe o suficiente para que nenhum demônio menor pudesse testemunhar — Sun Wukong encontrou um pretexto para parar. Falou de cansaço nas costas. Os carregadores pararam. E então, com uma velocidade que não deixou tempo para gritos, despachou os carregadores e a velha raposa com o bastão.
A velha raposa morreu revelando sua forma verdadeira: uma raposa cinza de nove caudas, cada cauda ainda faíscando com magia acumulada em séculos de vida.
Sun Wukong encontrou a corda dourada enrolada em seda vermelha dentro de uma caixa de madeira lacada. Guardou-a na manga. Depois transformou alguns pelos em cópias dos carregadores e da velha, e assumiu ele mesmo a forma da mãe raposa — usando a experiência de milhares de transformações para capturar não apenas a aparência, mas o modo de andar levemente curvado, os gestos lentos e deliberados, a expressão de alguém que sabe que é respeitada e espera que isso continue.
Sentou-se no palanquim e disse: — Vamos.
A recepção na Caverna do Lótus foi elaborada.
O Chifre de Ouro e o Chifre de Prata haviam ordenado incenso, música, a mesa do banquete posta com os melhores pratos. Quando o palanquim chegou à entrada da caverna, os dois ajoelharam-se com uma deferência que Sun Wukong não havia visto em nenhum deles até então.
— Mãe! — disse o Chifre de Prata. — Perdoem a falta de hospitalidade nas últimas semanas. Capturamos o monge Tang Sanzang. Queremos oferecer a mãe a honra do primeiro sabor.
Sun Wukong-como-mãe sentou-se na cadeira central com a postura adequada de uma matriarca.
— Meus filhos são muito gentis. — Fez uma pausa calculada. — Mas ouvi dizer que as orelhas do porco-monge são especialmente saborosas. Talvez como aperitivo antes da refeição principal?
Lá em cima, pendurado no caibro, Zhu Bajie ficou subitamente muito desperto.
— Problema — murmurou ele para Sha Wujing ao lado. — Aquela velha quer minhas orelhas.
— Quieto — disse Sha Wujing.
— Não estou quieto porque quero. Estou quieto porque minhas orelhas estão em perigo.
A conversa, embora sussurrada, chegou aos ouvidos aguçados de Sun Wukong lá embaixo — e foi o suficiente. Zhu Bajie havia notado algo. E nesse momento, dois demônios menores da guarda noturna entraram correndo pela porta com a notícia de que haviam encontrado dois corpos nos arbustos da floresta — os verdadeiros Tigre da Montanha e Dragão do Oceano, mortos a bastão.
O Chifre de Prata ergueu os olhos e olhou para a "mãe" com uma suspeita que crescia rapidamente.
Sun Wukong não esperou que a suspeita se tornasse certeza. Soltou a transformação — um flash de luz vermelha que preencheu a caverna — e estava de volta à sua própria forma, o bastão na mão e a corda dourada guardada na manga.
— Obrigado pela hospitalidade! — gritou ele.
E sumiu pela porta antes que qualquer demônio conseguisse reagir.
Lá fora, no ar acima da encosta, Sun Wukong contou seus tesouros.
Duas cabaças. Uma corda dourada. Três das cinco armas dos demônios.
Faltavam o leque de banana e a espada das Sete Estrelas — ambas ainda com os demônios. Mas com três armas nas mãos, havia alavancagem suficiente para negociar ou para atacar.
O Chifre de Prata saiu da caverna com a espada erguida e o rosto vermelho de raiva.
— Macaco miserável! Devolvam os tesouros da nossa mãe!
— Sua mãe era uma raposa que nunca deveria ter chegado a esse ponto — disse Sun Wukong do ar. — Quanto aos tesouros, eles agora têm um novo dono. Devolva meu mestre e os discípulos e talvez eu deixe você ir embora com o que restou da sua orgulhosa caverna.
A batalha começou no ar — espada contra bastão, trinta rodadas sem que nenhum dos dois cedesse. O Chifre de Prata era tecnicamente competente; seus ataques tinham ritmo e intenção, não apenas força bruta. Sun Wukong bloqueou cada golpe com o conforto de alguém que há muito aprendeu a distinguir entre um oponente perigoso e um oponente impossível.
Perigoso. Não impossível.
Num momento de abertura, Sun Wukong tirou a corda dourada da manga e a jogou em arco sobre a cabeça do Chifre de Prata. A corda dourada era um tesouro que obedecia ao seu mestre original — mas agora estava nas mãos de Sun Wukong, e quando ele murmurou as palavras de poder que havia deduzido observando como a corda funcionava, ela se apertou.
O Chifre de Prata pronunciou a contra-palavra rapidamente — e a corda afrouxou, voltando à sua forma original e enrolando-se de volta para o seu próprio pescoço.
Sun Wukong ficou preso.
A corda tinha uma memória que reconhecia seu dono original — e ele não era o dono. Ficou imobilizado enquanto o Chifre de Prata o arrastava de volta à caverna com a expressão de quem acabou de recuperar algo valioso depois de uma longa procura.
Dentro da caverna, pendurado no pilar ao lado de Zhu Bajie e Sha Wujing, Sun Wukong teve tempo para pensar.
— Você chegou a nos trazer a corda — disse Zhu Bajie com uma amabilidade que mal disfarçava o schadenfreude. — Pena que não deu certo.
— Deu exatamente como planejei — disse Sun Wukong.
— Você está amarrado a um pilar.
— Temporariamente.
O Chifre de Ouro e o Chifre de Prata celebravam lá dentro com vinho. Os demônios menores iam e vinham com jarras e pratos. A atenção estava dividida — e Sun Wukong aproveitou o momento em que o guarda mais próximo virou as costas.
Transformou o bastão num fragmento de aço na forma de uma lima e trabalhou silenciosamente na corda. A lima era menor do que uma agulha, mas o aço era o mesmo aço que havia resistido ao yunque de ferro de Lao Zi — a corda, por mais mágica que fosse, encontrou seu limite.
A corda cedeu.
Sun Wukong transformou um pelo numa cópia de si mesmo, deixou-a amarrada ao pilar como substituta, e assumiu a forma de um demônio menor — o mesmo que havia sido usado duas vezes naquele dia.
Estava dentro da caverna, em forma de demônio, num grupo de servos que carregavam pratos de frutas para a mesa dos grandes reis.
Os dois demônios bebiam e comemoravam. O Chifre de Ouro tinha a cabaça dourada apoiada ao lado direito. O Chifre de Prata segurava a sua na mão esquerda enquanto gesticulava com a direita.
Sun Wukong aproximou-se devagar, serviu vinho com a diligência de um servo cuidadoso, e esperou.
O momento certo chegou quando o Chifre de Ouro se levantou para fazer um brinde e entregou a cabaça ao demônio mais próximo para segurar. O demônio mais próximo era Sun Wukong.
Ele a guardou na manga em menos de um segundo. Tirou um pelo, soprou fôlego de transformação, e o pelo tornou-se uma cabaça idêntica — mesma cor, mesmo peso, mesmo brilho. Entregou-a ao Chifre de Ouro quando ele estendeu a mão de volta.
O Chifre de Ouro nem olhou. Colocou-a ao lado como antes e continuou o brinde.
Sun Wukong recuou devagar, saiu pela porta lateral, e no pátio da caverna voltou à sua forma verdadeira.
Tinha as duas cabaças, a corda, e a satisfação de ter enganado os mesmos demônios quatro vezes no mesmo dia.
Ainda faltavam a espada e o leque. Mas a noite ainda era jovem.
— Macaco miserável! — a voz do Chifre de Prata ecoou lá de dentro. Haviam descoberto a troca.
Sun Wukong já estava no ar, rindo.
— Amanhã continuamos! — gritou de volta, e voou para o acampamento onde os Deuses Guardiões do lugar esperavam por notícias.
Havia muito trabalho ainda por fazer. Mas três dos cinco tesouros eram seus agora — e isso era o suficiente para esta noite.