Capítulo 33: O Caminho Externo Confunde a Natureza Verdadeira; O Espírito Original Ajuda o Coração Essencial
Sun Wukong descobre que os demônios têm cabaças mágicas capazes de dissolver qualquer ser que seja chamado pelo nome. Disfarçado de imortal taoísta, ele rouba as cabaças dos demônios menores e depois as substitui por cópias falsas, preparando o resgate do mestre.
As duas cabaças mágicas brilhavam com uma luz vermelha e dourada que poderia ser bonita se não fosse pelo que faziam.
Sun Wukong havia descoberto o segredo através dos dois pequenos demônios — o Inseto Esperto e o Demônio Astuto — que haviam sido enviados para capturá-lo enquanto ele estava preso sob as três montanhas. Em vez de esperar que viessem até ele, havia escapado das montanhas com a ajuda dos deuses guardiões, transformado-se em mosca e seguido os demônios menores de volta até onde eles discutiam seu plano.
O plano era simples e aterrorizante: qualquer ser que respondesse quando chamado pelo nome seria imediatamente absorvido para dentro da cabaça. Uma vez dentro, um lacre com as palavras "Pelo decreto urgente do Velho Senhor Supremo" era colado na abertura. Após um tempo, o conteúdo da cabaça se dissolvia em líquido.
Sun Wukong, ouvindo isso escondido na forma de mosca, sentiu um calafrio peculiar — não de medo exatamente, mas do reconhecimento de uma ameaça genuinamente inteligente. Era o tipo de armadilha que explorava não força ou velocidade, mas o reflexo involuntário de responder quando alguém chama seu nome.
Bom, pensou. Isso significa que o problema tem solução.
A primeira parte da solução foi transformar-se num velho imortal taoísta de aparência tranquilizadora.
Sun Wukong escolheu a forma cuidadosamente: cheveux prateados presos num coque duplo, roupas de cem retalhos coloridos, uma flauta de bambu na cintura e uma expressão de serenidade que sugeria décadas de meditação em montanhas distantes. Posicionou-se na estrada e esperou.
Os dois demônios menores chegaram com as cabaças, tão focados em sua missão que quase passaram por ele sem notar. Quando Sun Wukong estendeu o pé e os fez tropeçar — delicadamente, como se fosse acidente — eles pararam e o encararam com a suspeita automática de criaturas que vivem num mundo de truques.
— Velho, por que está deitado no caminho?
— Descansando, meus jovens amigos. — Sun Wukong levantou-se com a lentidão calculada de alguém de muita idade. — De onde vêm com essas belas cabaças?
Os demônios ficaram desconfiados, depois lisonjeiros — havia algo no tom do velho que sugeria poder tranquilo. Contaram a história das cabaças. Sun Wukong ouviu com interesse genuíno, fazendo perguntas inteligentes que os encorajaram a elaborar.
— Interessante — disse ele quando terminaram. — Eu também tenho uma cabaça capaz de absorver o céu inteiro. A sua absorve apenas pessoas. A minha absorve o próprio cosmos.
O Inseto Esperto e o Demônio Astuto olharam um para o outro.
— Isso é impossível.
— Proponho uma aposta — disse Sun Wukong. — Vocês me deixam usar minha cabaça por um momento para demonstrar, e em troca vocês me mostram como as suas funcionam. Se minha cabaça absorver o céu, vocês me dão as suas como presente. Se não absorver, fico devendo um favor.
Era exatamente o tipo de aposta que faz sentido para qualquer criatura cujo sistema de valores inclui obter coisas boas às custas de quem se mostra inferior. Os dois demônios concordaram imediatamente.
Sun Wukong tirou uma cabaça da cintura — na verdade um pelo arrancado da nuca, transformado em cabaça de uma qualidade visual muito convincente — e jogou-a para o alto com uma palavra de poder.
A cabaça subiu. E subiu. E desapareceu na altitude das nuvens.
O céu ficou ligeiramente mais escuro por um momento — Sun Wukong havia convocado os Deuses dos Quatro Oceanos para segurar a luz do sol por um instante, produzindo o efeito de algo sendo absorvido.
Os dois demônios olharam para cima boquiabertos.
— Absorveu o céu?
— Temporariamente — disse Sun Wukong com modéstia. — Vou liberá-lo daqui a pouco. Mas como veem, funciona. Agora mostrem-me as suas.
Conseguiu examinar as cabaças, trocá-las por cópias fabricadas dos seus pelos durante o momento em que os demônios olhavam para o céu esperando o retorno da luz — e quando a luz voltou (os Deuses do Oceano liberando o sol novamente), os dois demônios estavam segurando cópias falsas sem perceber.
A única coisa que Sun Wukong não havia planejado perfeitamente: quando os demônios voltaram à caverna e relataram ao Demônio do Chifre de Prata que havia um velho imortal na estrada com uma cabaça que absorvia o céu, o Chifre de Prata ficou imediatamente alarmado. Transformou-se num taoísta velho e foi pessoalmente verificar.
Sun Wukong e o Chifre de Prata ficaram cara a cara na estrada. Cada um com a aparência de um velho sábio. Cada um sabendo perfeitamente que o outro era uma ilusão.
— Grande Sábio — disse o demônio com a voz do velho taoísta, com uma inclinação de cabeça que era quase respeitosa. — Você tem as minhas cabaças.
— Talvez — disse Sun Wukong. — O que você tem do meu mestre?
— Meu jantar, eventualmente.
— Então temos muito a discutir.
A batalha que se seguiu foi breve mas intensamente técnica — não um combate de força bruta, mas uma série de trocas de transformações e contra-transformações, cada um tentando chegar a uma forma que a outra parte não pudesse imitar ou neutralizar. O demônio era um shapeshifter competente. Mas Sun Wukong havia praticado setenta e duas transformações com o próprio criador dessas artes, e havia um abismo de experiência entre "competente" e "mestre".
O Chifre de Prata recuou para a caverna com as cabaças falsas, não percebendo ainda a troca.
Sun Wukong ficou na estrada por um momento, segurando as cabaças reais — a vermelha e a dourada, ambas pesando mais do que deveriam, pulsando com um poder que ele reconhecia como autêntico e perigoso — e considerou o próximo passo.
O mestre estava preso. Os demônios tinham três outras armas espirituais que precisavam ser neutralizadas. E havia uma questão mais profunda que o Funcionário do Dia havia mencionado: esses dois demônios não eram criaturas comuns. Havia algo no padrão das suas armas — a cabaça de jade, a cabaça dourada, a venda de ouro, a corrente — que Sun Wukong reconhecia de algum lugar que ainda não conseguia nomear claramente.
De onde vieram esses monstros?
A resposta, quando viesse, seria mais surpreendente do que qualquer batalha.
Por enquanto, havia o trabalho imediato: usar as cabaças capturadas para neutralizar o poder dos demônios antes que descobrissem a troca. Cada minuto que o mestre ficava na caverna era um minuto a mais de risco.
Sun Wukong guardou as cabaças na manga, transformou-se numa mosca e voou de volta para a encosta, onde Zhu Bajie estava cuidando do burro — digo, do cavalo —e tentando parecer que havia estado alerta o tempo todo.
— Onde você esteve? — perguntou Zhu Bajie.
— Trabalhando — disse Sun Wukong. — Agora vá buscar o Deus da Terra local. Precisamos de mais informações sobre esses demônios antes de entrar naquela caverna.
— Por quê? Você já tem as cabaças.
— Tenho duas das cinco armas. Há ainda a venda de ouro, a corrente dourada, e a espada das Sete Estrelas. — Sun Wukong olhou para a entrada da caverna lá em cima na encosta. — E há algo mais. Esses demônios conhecem meu nome de forma muito específica. Alguém os treinou para me enfrentar em particular. Quero saber quem.
Havia uma qualidade na sua expressão que Zhu Bajie raramente via — não preocupação exatamente, mas algo mais próximo da concentração que precede um esforço muito grande. O tipo de concentração que Sun Wukong reservava para situações que eram genuinamente difíceis, não apenas perigosas.
O porco-monge foi buscar o Deus da Terra.