Capítulo 57: O Verdadeiro Wukong Chora no Monte Potalaka — O Falso Macaco Copia Documentos na Caverna das Flores
Depois de ser expulso, Wukong vai ao Monte Potalaka confessar sua dor à Bodhisattva Guanyin. Enquanto isso, um ser misterioso assume sua aparência e ataca Tang Sanzang.
Sun Wukong não voltou para o Monte das Flores e Frutos.
Considerou. O Monte das Flores e Frutos era seu lugar — a pedra de onde havia nascido, a cachoeira atrás da qual havia construído um lar, os macacos que o chamavam de rei mesmo quando ele estava ausente há séculos. Mas havia naquela consideração um empecilho que não era logístico: os macacos o olhariam com aqueles olhos que conhecem a história toda, e haveria no olhar deles — por mais leais que fossem — a memória de quantas vezes ele havia partido e voltado e partido de novo, e desta vez havia algo na partida que não queria ser visto.
Considerou o Palácio de Jade. Não. O Imperador tolerava-o mais do que o apreciava, e aparecer ali em estado de derrota emocional seria fornecer munição a quem preferia que ele nunca houvesse sido solto da Montanha dos Cinco Elementos.
Considerou as Três Ilhas dos Imortais, os velhos que o haviam conhecido antes de tudo que havia acontecido depois. Mas havia vergonha naquela direção também — a vergonha específica de quem não quer ser visto na hora em que é menos do que foi.
Por fim, como sempre que estava perdido, foi ao único lugar onde a humilhação parecia suportável.
O Monte Potalaka no Mar do Sul era uma ilha de bambus brancos e pedras cobertas de musgo azul-esverdeado, e as águas que o cercavam eram daquela transparência que não é vazia mas cheia de algo que não tem nome em nenhum idioma humano. Guanyin estava lá como sempre estava — sentada no trono de lótus com aquela expressão que significava tudo a um tempo: compreensão, compaixão, um gentil eu sabia que você viria que nunca tinha nele julgamento nem triunfo, apenas o reconhecimento sereno de que o sofrimento encontra o caminho que precisa encontrar.
Mu Cha o recebeu na entrada do jardim de bambus com a cortesia de quem espera visitas desta natureza regularmente.
— Grande Sábio — disse ele, inclinando-se. — Para onde?
— Quero ver a Bodhisattva.
Mu Cha o guiou sem mais palavras, o que era exatamente o que a situação pedia.
E Wukong prostrou-se diante de Guanyin e começou a falar.
E chorou.
Não havia conseguido chorar desde que saíra da estrada — havia voado pela altura do mundo com os dentes cerrados, recusando as lágrimas com a teimosia de alguém que não quer dar a nenhum vento a satisfação de levá-las. Mas no Monte Potalaka, diante da Bodhisattva da Grande Compaixão, as palavras e as lágrimas vieram juntas numa mistura que seria embaraçosa em qualquer outro contexto mas era perfeitamente adequada aqui. Aqui, chorar era simplesmente dizer a verdade com outra parte do corpo.
Contou tudo: os bandidos, a batalha breve, os mortos. O encantamento que veio depois — aquelas palavras que chegavam como ferro que aperta, que não deixavam espaço para argumento ou apelo, que simplesmente transmitiam uma intenção clara através do canal mais direto disponível. O mestre que não olhou para trás. O caminho vazio que ficou atrás dele.
Guanyin ouviu tudo sem interromper, com aquela qualidade de atenção que não é passiva mas ativa — a atenção de quem está recebendo cada palavra no lugar exato onde ela precisa ser recebida.
Quando ele terminou, ficou em silêncio por um momento.
— Você fez errado — disse ela, finalmente.
— Sei — disse Wukong, com mais dificuldade do que esperava. A palavra ficou pesada na língua de quem está acostumado a justificar.
— E também sabe que Tang Sanzang foi mais duro do que precisava ser?
— Sei — disse Wukong, e desta vez havia alívio na sílaba — o alívio específico de ouvir alguém colocar em voz alta o que havia estado girando em silêncio no interior.
— Fique aqui — disse Guanyin. — Observe. O mestre precisará de você em breve. Mais cedo do que pensa.
Wukong se sentou no jardim de bambus e esperou.
Esperou com a impaciência que era sua natureza, que cinco séculos de disciplina haviam amolecido mas não extinto — ficou de pé, sentou, ficou de pé de novo, examinou os bambus como se tivessem segredos novos, olhou para o mar que cercava a ilha com os olhos de quem procura movimento no que está quieto. Guanyin observava de longe com a paciência do oceano que nunca está apressado porque tem todo o tempo necessário.
Enquanto isso, na estrada para o oeste, Tang Sanzang havia ficado com apenas Bajie e Sha Wujing, e os três avançavam com a cautela de quem conhece a diferença entre ter proteção e não ter. O mestre sentia o peso da ausência mais do que esperava — e não queria admiti-lo, porque admitir seria como desfazer a decisão que havia tomado com tanta firmeza. Havia algo na presença agitada de Wukong que preenchia o ar ao redor de todos eles, e sem ela o ar parecia mais vazio, os sons da floresta mais ameaçadores, o horizonte mais incerto.
Em certo ponto, Tang Sanzang teve fome e enviou Bajie em busca de comida. O porco partiu com o passo largo de alguém que tem um propósito claro e planos para ele. Depois enviou Sha Wujing buscar água, porque o pote estava quase vazio e o calor do caminho tornava a sede mais urgente a cada hora.
O monge esperou sentado numa pedra.
E então veio o som de passos, e alguém apareceu na curva do caminho.
Era Sun Wukong.
Ou parecia ser Sun Wukong — mesmo rosto de maçãs salientes e olhos dourados que viam além do comum, mesma postura ágil de quem nunca fica completamente parado mesmo quando está parado, mesma expressão entre irritada e afetada que era a expressão padrão de Wukong em qualquer circunstância onde era esperado que ele demonstrasse humildade. Carregava um pote de água fresca e frutas na mão, e os ofereceu a Tang Sanzang com a formalidade contida de alguém que quer se redimir sem pedir perdão diretamente.
Tang Sanzang, aliviado com aquela familiaridade reconhecível, pegou o pote.
E então o Wukong que havia chegado levantou o bastão.
O golpe nas costas do mestre não foi mortal — mas foi calculado. Suficiente para derrubar, para aturdir, para deixar no chão enquanto duas mãos rápidas apanhavam o pacote dos documentos de viagem do interior das dobras da veste. E depois os passos se afastavam com a velocidade de uma nuvem que se dissipa, e o caminho ficou vazio e silencioso.
Sha Wujing chegou correndo ao som da queda.
Tang Sanzang estava no chão, atordoado mas consciente, com os olhos ainda tentando encontrar foco.
— Foi Sun Wukong — disse ele, com a voz de quem está relatando algo que não acredita completamente enquanto relata.
Sha Wujing olhou para a curva do caminho, para onde a figura havia desaparecido. Havia algo errado — não no que havia visto mas no que não fazia sentido no que havia visto. Sun Wukong poderia ser violento por impulso, podia matar bandidos com excessiva facilidade, podia ser difícil de governar — mas o mestre era a última pessoa que ele atacaria. O mestre era o centro ao redor do qual toda a violência de Wukong girava como proteção, não como alvo.
— Isso não foi o irmão mais velho — disse Sha Wujing.
— Mas era ele. Eu vi.
— Ou alguém que parece ele.
A diferença entre as duas afirmações era a diferença entre um problema e um abismo.
Bajie voltou com comida e encontrou o mestre no chão e os documentos desaparecidos e Sha Wujing com aquela expressão de cálculo contido que significava que ele estava pensando em algo perturbador. A situação foi explicada. Bajie processou com aquela velocidade específica — rápida nas conclusões práticas, mais lenta nas implicações filosóficas.
— Então ou o irmão mais velho enlouqueceu e mordeu a mão que o alimentava — disse Bajie —, ou há algo usando o rosto dele. Nenhuma das opções é boa.
— Vou ao Potalaka — disse Sha Wujing. — Ver se o irmão mais velho está lá.
Foi pela rota mais rápida — voando sobre o mar do sul com o passo urgente de quem carrega uma pergunta que precisa de resposta antes de mais danos. Chegou ao jardim de bambus e encontrou Wukong de fato lá — sentado numa pedra com a expressão de alguém que foi interrompido num processo de espera impaciente.
— Irmão — disse Bajie, que havia chegado minutos depois por uma rota paralela —, o mestre diz que você o atacou e roubou os documentos.
Wukong ficou de pé com uma velocidade que assustou até os bambus ao redor.
— Eu estive aqui o tempo todo! — disse ele. — Desde que vim falar com a Bodhisattva. Guanyin pode testemunhar.
— Eu sei — disse Bajie, pesaroso. — Mas algo com sua aparência não estava.
A expressão de Wukong passou por várias coisas em rápida sucessão — incredulidade, raiva, e depois algo mais frio e mais sério, o tipo de atenção que ele dava às situações que ainda não tinha categorias para explicar.
— Então quem foi?
Guanyin, que havia ouvido o relatório de Sha Wujing em silêncio, disse com aquela voz que tinha o peso específico de quem conhece a resposta antes de dada a pergunta:
— Há no mundo criaturas de transformação que não são deuses nem demônios comuns. Algumas nasceram como ecos de possibilidades — seres que surgem não de uma criação deliberada mas da ressonância de algo que poderia ter existido. Este ser é um deles. Conhece cada aspecto do que é Sun Wukong porque é, de certa forma, uma possibilidade de Sun Wukong que tomou forma própria. — Uma pausa. — Vão ao Monte das Flores e Frutos. O que procuram está lá.
Wukong e os dois irmãos voltaram à estrada primeiro para verificar o mestre. Tang Sanzang, ao ver Wukong, recuou com um gesto que era mais reflexo do que decisão — aquele recuo físico de quem associa uma forma a uma dor recente.
— Não se aproxime!
— Mestre, eu estava no Monte Potalaka durante todo este tempo — disse Wukong, e havia na sua voz uma paciência que mascarava — mas não completamente — uma agitação profunda. A situação tinha aquela qualidade de insuportabilidade específica: ser acusado do que não fez e não ter prova imediata da inocência, porque a inocência não deixa marca visível, enquanto a culpa deixa o rastro de corpos no caminho.
— A Bodhisattva pode testemunhar — disse Sha Wujing. — Eu estava lá. Ele estava sentado no jardim quando cheguei.
Tang Sanzang olhou de Sha Wujing para Wukong e de volta, com aquela expressão de alguém que quer acreditar mas que a memória do golpe nas costas ainda está presente no corpo como um argumento físico contra a crença.
— Então quem foi?
— Isso é o que vou descobrir — disse Wukong.
Foi ao Monte das Flores e Frutos. A Caverna Atrás da Cachoeira estava mais agitada do que de costume — macacos corriam entre câmaras carregando papéis e objetos com a urgência de quem prepara algo importante. E no centro da caverna, sentado no trono de pedra que havia sido do próprio Wukong em outras vidas, estava uma figura que usava o seu rosto com a precisão assustadora de um espelho que decidiu agir por conta própria.
Os dois se encararam.
Não havia como distingui-los por olho. Mesma altura, mesma postura, mesmo bastão dourado que captava a luz da cachoeira e a distribuía em fragmentos sobre as paredes de pedra.
Atacaram simultaneamente.
A batalha foi a mais estranha que qualquer ser havia testemunhado — era como observar uma criatura guerreando contra seu próprio reflexo numa água agitada. Cada golpe foi parado por um bloco idêntico. Cada feint foi previsto porque o outro conhecia os mesmos feints. Os dois Wukongssubiam e desciam pelas nuvens sobre a montanha, cada um gritando que o outro era o impostor, cada um soando exatamente como o verdadeiro.
Foram ao Palácio de Jade. O Espelho Celestial que revela toda forma verdadeira foi trazido pelos guardas com aquela reverência específica dos objetos que só aparecem em situações extraordinárias — e produziu duas imagens perfeitamente idênticas. O Rei Guangmu olhou de uma para a outra com a expressão de quem foi convocado para resolver um problema que não tem solução nos manuais disponíveis.
Foram ao Tribunal dos Mortos. Foram ao Palácio do Dragão. Em cada lugar, as medições e verificações e consultas de registros produziam o mesmo resultado impossível: igual em substância, igual em aparência, igual em cada aspecto mensurável.
Por fim, ambos foram ao Monte Potalaka, e Guanyin olhou para os dois com aquela paciência que nunca parece perturbada por nada — a paciência de quem existe em relação ao tempo de uma forma diferente dos que estão urgentes.
— Há apenas uma instância de poder com visão suficiente para resolver isso — disse ela. — Vão ao Grande Templo do Trovão. O Buda Tathagata vê através de qualquer forma, qualquer disfarce, qualquer eco de possibilidade.
E enquanto os dois Wukongs partiam para a Montanha dos Abutres com a urgência combinada de dois seres que querem cada um provar que o outro é falso, Tang Sanzang, na estrada do oeste, rezava com as mãos juntas e os lábios movendo-se em silêncio.
Havia no fundo de sua alma, sob o recuo físico e a suspeita razoável, uma certeza que não conseguia explicar. O ser que havia o atacado não era Sun Wukong. O verdadeiro Wukong, por todas as suas falhas e violências e dificuldades de governo, havia repetidamente escolhido pôr o corpo entre o mestre e o perigo — havia escalado montanhas e descido oceanos e enfrentado demônios de todos os tipos com a consistência de alguém para quem aquela missão havia se tornado algo mais do que obrigação. Um ser assim não atacaria o mestre nas costas. Não poderia.
Mas às vezes a certeza do coração não é suficiente para impedir os eventos de seguirem seu curso.
E o curso seguia, rumo ao Templo do Trovão, onde uma resposta esperava numa forma que seria ao mesmo tempo mais simples e mais complicada do que qualquer um dos envolvidos esperava.