Seis Bandidos
Seis bandidos que surgem no capítulo 14 de Jornada ao Oeste, representando as seis percepções sensoriais do budismo e servindo como o primeiro grande teste de conflito entre Sun Wukong e Tang Sanzang.
"Um se chamava Alegria aos Olhos, outro Raiva aos Ouvidos, um Amor pelo Olfato, outro Pensamento ao Paladar, um Desejo da Mente e o último Preocupação do Próprio Corpo." — No capítulo 14, seis bandidos fecham o caminho de Tang Sanzang e de Sun Wukong, que acabara de sair da Montanha dos Cinco Elementos. Wu Cheng'en usa menos de cinquenta palavras para apresentar seis nomes; cada um com três caracteres, tudo bem arrumadinho, como se fosse uma lista de chamada. Mas essa lista não parece de bandidos de estrada — que tipo de malandro teria nomes como "Alegria aos Olhos" ou "Raiva aos Ouvidos"? Isso é puro termo de sutra budista. Aqueles seis não eram simples ladrões de caminho, eram a personificação dos "Seis Sentidos" — visão, audição, olfato, paladar, mente e corpo. Quando Wukong os mata, não está apenas tirando pedras do caminho, mas "cortando os seis sentidos": um macaco, recém-nomeado discípulo, anunciava com seu bastão de ferro a primeira lição de sua conversão ao Budismo.
Seis nomes: a literatura dos seis sentidos e seis desejos budistas
No Budismo, os "Seis Sentidos" são os órgãos e capacidades humanas de perceber o mundo exterior: olhos (visão), ouvidos (audição), nariz (olfato), língua (paladar), corpo (tato) e mente (pensamento). Quando esses sentidos tocam o mundo, surgem as "Seis Poeiras" — cor, som, aroma, sabor, toque e lei —, que por sua vez despertam todo tipo de desejo e angústia. Para o praticante se libertar, o primeiro passo é a "pureza dos seis sentidos" — fazer com que as seis percepções não sejam mais arrastadas pelas tentações externas.
Wu Cheng'en transformou esses conceitos abstratos do Budismo em seis bandidos de estrada, dando a cada um deles uma emoção ou desejo: Alegria aos Olhos (vê e se alegra), Raiva aos Ouvidos (ouve e se enfurece), Amor pelo Olfato (cheira e se apaixona), Pensamento ao Paladar (prova e sente saudade), Desejo da Mente (pensa e deseja) e Preocupação do Próprio Corpo (nasce com a angústia). Esses seis nomes correspondem exatamente à relação entre os sentidos e as emoções — não foi coisa inventada ao acaso, tem toda a lógica budista por trás.
Transformar conceitos filosóficos em personagens de romance é uma das maiores artes de Wu Cheng'en. A essência de Jornada ao Oeste é uma "adaptação secular de parábolas budistas", mas ele nunca deixa o leitor sentir que está lendo um sutra — ele embrulha a filosofia em histórias de briga e confusão, fazendo com que a gente aceite o pensamento por trás enquanto se diverte com o espetáculo. Os seis bandidos são o exemplo perfeito: se ele dissesse apenas que "Wukong cortou os seis sentidos", o leitor acharia abstrato demais; mas quando diz que "Wukong matou seis bandidos a bastonadas", todo mundo entende — e aí, ao olhar os nomes, percebe: "ah, então é isso que ele quis dizer".
O título do capítulo 14, "O Macaco da Mente retorna ao caminho certo; os seis bandidos desaparecem", é em si um resumo de expressões budistas. O "Macaco da Mente" refere-se a Wukong — o Budismo usa a expressão "macaco da mente e cavalo do pensamento" para descrever a instabilidade da mente; Wukong é justamente esse "coração" inquieto. "Retornar ao caminho certo" significa que ele foi integrado ao grupo da jornada e entrou na senda da virtude. "Seis bandidos desaparecem" indica que os seis sentidos foram domados e não causam mais confusão. O sentido do título é: quando a 'mente' segue o caminho correto, as angústias dos 'seis sentidos' somem. Matar os seis bandidos é, no plano budista, um ritual simbólico de "domar os seis sentidos pelo Macaco da Mente".
Mas a genialidade de Wu Cheng'en está aqui: ele não transformou esse "ritual" em uma cena religiosa solene, mas em uma baita confusão — Wukong acha os bandidos tagarelas demais, desce o bastão em todos e, depois, Tang Sanzang fica furioso, quase terminando a parceria ali mesmo. A filosofia é a filosofia, a história é a história, e Wu Cheng'en faz as duas caminharem juntas sem bater cabeça.
O primeiro conflito entre mestre e discípulo causado pela matança dos bandidos
No capítulo 14, os seis bandidos barram a passagem do mestre e do discípulo com toda a arrogância: "Este caminho eu abri, esta árvore eu plantei; se quiserem passar por aqui, paguem o pedágio!". Wukong não cai nessa. Troca algumas palavras com eles, saca o Ruyi Jingu Bang e, um por um, acaba com a vida dos seis. Rápido e certeiro, do mesmo jeito que fez com o Rei Demônio da Confusão.
Só que, desta vez, as consequências foram outras. O Rei Demônio da Confusão era um monstro, e matar monstro é lei; já os seis bandidos — ao menos aos olhos de Tang Sanzang — eram humanos, e matar humano é pecado. Ao ver os corpos espalhados pelo chão, Tang Sanzang empalidece. Ele solta a primeira bronca severa em Wukong: "Como pode ser tão cruel? Embora fossem bandidos, eram vidas humanas!".
Esse é o primeiro estouro do conflito entre mestre e discípulo em toda a obra. Wukong acha que fez tudo certo — os bandidos queriam roubar e agredir, se não os matasse, ficaria esperando para ser roubado? A lógica dele é "combater a violência com violência", simples e direta, sem peso na consciência. A lógica de Tang Sanzang é outra — ele é um discípulo budista, e "não matar" é o preceito mais básico. Mesmo que seja um ladrão, se puder não matar, não mata; se puder soltar, solta.
A estrutura profunda desse conflito é a eterna contradição entre a "solução pela força" e a "restrição moral". Wukong representa a "eficiência" — resolveu o problema sem enrolação; Tang Sanzang representa o "princípio" — qualquer ação deve estar dentro de um quadro moral. Essa contradição atravessa toda a Jornada ao Oeste, repetindo-se em episódios como o Trio de Batalhas contra o Demônio dos Ossos Brancos e o duelo entre o verdadeiro e o falso Rei Macaco. O caso dos seis bandidos é a "estreia" desse conflito, definindo o tom de todas as brigas futuras entre mestre e discípulo.
Mais importante ainda: o episódio dos seis bandidos levou diretamente ao uso do Feitiço da Argola Apertada. Após a bronca, Wukong, num acesso de raiva, parte nas nuvens — sentindo-se injustiçado, resolveu largar o serviço. Enquanto Tang Sanzang seguia viagem sozinho, encontrou uma velhinha (a encarnação da Bodhisattva Guanyin), que lhe deu um chapéu com flores douradas e o mantra da argola. Quando Wukong resolveu voltar, Tang Sanzang colocou o chapéu nele — e assim nasceu a argola dourada. A partir daí, Wukong passou a ter a tiara na cabeça; bastava Tang Sanzang recitar o mantra para que a cabeça do macaco quase explodisse de dor, impedindo-o de agir por conta própria.
Em outras palavras: matar os seis bandidos fez com que Wukong acabasse usando a argola — um instrumento de controle que o prenderia para sempre. Os seis bandidos foram o "estopim": não era pelo poder deles, mas porque o ato de matá-los revelou a natureza "indomável" de Wukong. Guanyin percebeu que, se não houvesse a argola, ele jamais seria controlado, e assim veio o arranjo final.
A força de combate dos seis bandidos era quase zero. Eram apenas humanos — sem magia, sem tesouros, sem qualquer poder sobrenatural. Wukong os matou como quem esmaga formigas. Mas foi justamente por serem tão fracos que a "matança" de Wukong pareceu "exagerada": você, o Grande Sábio Igual ao Céu, mata seis simples bandidos? Que mérito tem isso? A insatisfação de Tang Sanzang não era só pelo preceito de "não matar", mas tinha um subtexto: "com esse seu jeito impulsivo e sem noção, o que você vai fazer quando encontrar problemas de verdade?".
Personagens Relacionados
- Sun Wukong — O executor da matança dos seis bandidos, desencadeando o primeiro conflito com o mestre e, indiretamente, o uso da argola dourada.
- Tang Sanzang — Deu uma bronca severa em Wukong por matar os bandidos, fazendo com que o macaco partisse irritado.
- Bodhisattva Guanyin — Após o incidente, encarnou como uma velhinha para entregar o chapéu e o mantra, fazendo o movimento estratégico para controlar Wukong.
- Rei Demônio da Confusão — Outro adversário "aniquilado" por Wukong, mas que, por ser um demônio, não gerou dilema moral, servindo de contraste com os seis bandidos.
Perguntas frequentes
Qual o significado dos nomes dos Seis Bandidos e por que dizem que eles não são simples bandidos de estrada? +
Os Seis Bandidos chamam-se, respectivamente: Alegria aos Olhos, Raiva aos Ouvidos, Amor pelo Olfato, Pensamento ao Paladar, Desejo da Mente e Preocupação do Próprio Corpo. Cada nome corresponde às "Seis Raízes" do budismo (olhos, ouvidos, nariz, língua, mente e corpo) e às emoções e desejos que elas…
Qual o significado budista por trás do fato de Wukong ter matado os Seis Bandidos? +
O título do capítulo 14, "O Macaco da Mente retorna ao caminho certo e os Seis Bandidos desaparecem sem rastro", já entrega a resposta: Wukong é o "Macaco da Mente" e os Seis Bandidos são as "Seis Raízes". O ato de Wukong matar os bandidos simboliza o ritual espiritual de "domar as seis raízes" —…
Por que a morte dos Seis Bandidos causou a bronca severa de Tang Sanzang? +
Para Tang Sanzang, por mais que fossem bandidos, eles eram "vidas humanas". Wukong, ao matar, teria violado os preceitos budistas, e com todo aquele poder, não precisaria ter sido tão cruel. Esse foi o primeiro embate direto entre mestre e discípulo, revelando o conflito central de todo o livro: a…
Qual a relação de causa e efeito entre o episódio dos Seis Bandidos e a Argola Apertada? +
Depois de levar a bronca de Tang Sanzang, Wukong saiu voando em sua nuvem, possesso de raiva. Foi nesse momento que Guanyin, disfarçada de velha, entregou ao monge o chapéu de flores douradas e o Feitiço da Argola Apertada. Quando Wukong voltou, foi enganado e acabou com o chapéu na cabeça, e a…
A quais sentidos os Seis Bandidos correspondem e qual a base budista para isso? +
Alegria aos Olhos corresponde à cobiça visual; Raiva aos Ouvidos, à ira despertada pela audição; Amor pelo Olfato, ao apego trazido pelo cheiro; Pensamento ao Paladar, à saudade movida pelo gosto; Desejo da Mente, aos anseios nascidos do pensamento; e Preocupação do Próprio Corpo, à natureza sofrida…
Os Seis Bandidos são "demônios" de verdade na Jornada ao Oeste? +
Rigorosamente falando, não. Eles são apenas bandidos humanos, sem poderes mágicos, sem cultivo espiritual, sem transformações e nem sequer aparecem na lista oficial das "Oitenta e Uma Tribulações". A particularidade deles é a natureza alegórica: são a personificação de conceitos budistas, e não…