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Capítulo 76: Sun Wukong Dentro do Leão — O Grande Pássaro Derrota Zhu Bajie

Sun Wukong deixa-se ser engolido pelo leão e o atormenta por dentro até arrancar a promessa de passagem segura. Zhu Bajie é capturado pelo pássaro Peng. Os demônios são finalmente obrigados a ceder.

Sun Wukong Zhu Bajie leão azul pássaro Peng Montanha Shituo barriga do leão

O leão maior saiu da gruta como uma parede de músculo e ira — duzentas braças de pelo azul-escuro erguido em cristas ao longo da espinha, dentes que cintilavam como facas, olhos que ardiam com a intensidade de dois sóis nascentes. Havia mandado fechar todas as portas, recolhido todos os subordinados, e o vento que varria o pátio da gruta cheirava a enxofre e metal aquecido. Os demônios menores que ainda circulavam na entrada recuaram ao vê-lo — não por medo, mas porque reconheciam que quando o Grande Rei entrava em postura de batalha, os pequenos faziam bem em se tornar invisíveis.

Sun Wukong e Zhu Bajie chegaram à porta da gruta e Sun Wukong gritou, com a voz que carregava a petulância de quem nunca aprendeu a ter medo:

— Abram! É o Avô Sun aqui fora querendo conversar sobre sua derrota!

O leão ouviu o chamado de dentro, endureceu o queixo com uma raiva que fazia tremer as paredes de pedra, e saiu. Havia algo admirável, de uma forma retorcida, na grandeza daquela criatura — a forma como o chão parecia curvar-se sob suas patas, a maneira como os subordinados que ficaram a distância segura seguravam a respiração.

A batalha que se seguiu durou cinquenta golpes — bastão de ouro contra machadão de aço que cantava no ar como sino partido — e não chegou a vencedor. Cada golpe de Sun Wukong era respondido com uma força que fazia vibrar os ossos do pulso; cada recuo do leão era apenas pausa para o próximo avanço, não fraqueza. O solo ao redor deles foi achatado, as pedras menores pulverizadas, e a poeira subia em colunas que obscureciam o meio da tarde.

Zhu Bajie não resistiu e entrou no combate, golpeando com o ancinho de nove dentes e gritando insultos que a criatividade, pelo menos, não lhe faltava. O leão recuou um passo ao ver dois adversários — e nisso Zhu Bajie interpretou como sinal de fraqueza e avançou com a energia imprudente que era a sua marca registrada.

O leão parou de recuar. Ficou absolutamente parado, como uma montanha que decidiu que não era mais uma montanha e era agora uma armadilha. Abriu a boca — uma abertura que era, objetivamente, o tamanho de uma gruta razoável, com o hálito quente e escuro de tudo o que havia devorado.

— Porco! Recua! — gritou Sun Wukong, mas a voz chegou um instante tarde.

O leão fechou a boca em torno de Zhu Bajie com um som que era, ao mesmo tempo, monumental e final. O ancinho de nove dentes desapareceu junto com o seu dono. Por um momento, o pátio ficou em silêncio.

Sun Wukong ficou do lado de fora, segurando o bastão, com a expressão de alguém que está calculando rapidamente se aquilo que acabou de acontecer era suficientemente grave para exigir preocupação imediata.

— Esse método não era suposto funcionar nos dois sentidos — disse ele, para ninguém em particular.

O leão, satisfeito com a aquisição involuntária de Zhu Bajie, virou e foi voltando para a gruta com passos que tremiam o chão.

Sun Wukong ficou parado por um instante. Correr atrás? Sim. Mas o que faria quando chegasse lá? Zhu Bajie estava dentro de um leão, e havia ainda o elefante e o pássaro Peng dentro da gruta, e mais alguns milhares de demônios menores, e toda a geometria desfavorável de uma batalha em espaço fechado.

Mesma estratégia de antes. Só que desta vez eu deixo ele me engolir de propósito.

A decisão formou-se como coisa sólida, com a clareza que Sun Wukong às vezes alcançava quando a situação era suficientemente impossível para tornar a solução óbvia.

— Leão! — ele chamou, com a voz que havia perturbado o Palácio de Jade. — Você não seria capaz de me engolir também!

O leão parou. Virou o pescoço enorme sobre o ombro.

— Por que não seria?

— Porque com o Avô Sun lá dentro, você teria um problema de estômago permanente.

O leão considerou. Havia algo nos olhos daquela criatura — não exatamente pensamento, mas algo funcional que passava por pensamento — e depois abriu a boca. Enorme. Fétida como um abismo com clima próprio. Escura como caverna onde nunca chegou luz. Avançou.

Sun Wukong guardou o bastão, dobrou os braços sobre o peito com a postura cuidadosa de quem sabe exatamente o que está fazendo e por isso não precisa de postura dramática, e se deixou engolir.


Dentro do leão era um mundo de calor e escuridão e movimento — as paredes de músculo contraindo ao redor, os sucos que ardiam levemente onde tocavam a pele (e que não faziam nada de verdade a um ser imortal de carne endurecida pelo fogo), o som dos batimentos como tambores de guerra ao redor.

Sun Wukong acendeu uma pequena chama espiritual na ponta do dedo — apenas suficiente para ver.

— Ei, porco! Você aqui?

— Aqui! — a voz de Zhu Bajie veio de algum lugar mais fundo, à esquerda e abaixo, com o tom inconfundível de quem está desconfortável mas tentando não admitir o quanto. — Que lugar horrível. Tem qualquer coisa me mordendo. Parece que tem dentes até na barriga.

— São as enzimas digestivas. Não vai machucar você de verdade enquanto eu estiver aqui. Agora fica quieto e não se mova para nenhum lado.

Sun Wukong não perdeu tempo. Plantou os pés na parede do estômago do leão com a firmeza de quem está tomando posse de território e começou. Saltou contra o teto estomacal. Mergulhou em direção ao fundo. Fez estrelas no escuro com as mãos abertas como leque, batendo em tudo que pudesse ser um órgão. Agarrou o fígado do leão — enorme, denso, quente como brasa — e balançou sobre ele como barra de ginástica, uma, duas, três voltas. Correu de uma parede interna à outra chutando simultaneamente. Escalou lentamente, agarrando as paredes musculares, até perto onde deveria estar o coração, e bateu palma forte duas vezes — não palmas normais, mas as palmas de quem tem os membros endurecidos por décadas de cultivo espiritual.

O leão, do lado de fora, curvou-se em dois como árvore no temporal. Seus subordinados correram de todas as direções.

— Grande Rei! O que aconteceu? Onde está ferido?

— Esse macaco — disse o leão, com a voz que havia perdido metade da autoridade — está fazendo acrobacias lá dentro. Com alegria. Acho que ele está... cantando.

— Beba água quente com sal. Pode forçá-lo a vomitar.

Era o melhor conselho que um demônio menor sabia dar. Trouxeram água com sal num balde do tamanho de um barril. O leão bebeu. Vomitou. Sun Wukong e Zhu Bajie, à espera desse momento, subiram até a garganta e bloquearam o caminho — não saíam, dois rolhões vivos numa garrafa que preferia estar vazia.

O leão vomitou três vezes, cada vez mais fraco, cada vez mais verde de cara, até que estava deitado no chão com a dignidade completamente perdida, gemendo para o céu que havia escolhido a forma mais humilhante possível de derrota.

— Avô Sun — disse o leão finalmente, e havia naquela voz a rendição genuína que acontece quando uma criatura percebe que já não tem mais escolha — você é cruel. Fui eu quem me engoliu; não devia ter feito isso.

— Então manda o macaco sair — sugeriu um subordinado, tentando ser útil.

— Não saio — disse Sun Wukong de dentro, com a voz amplificada pela câmara do estômago. — A menos que você me dê garantia de passagem para meu mestre. Garantia real, não a palavra de uma criatura que tentou me morder na saída da última vez.

— Dou, dou. Qualquer coisa. Só sai.

— Você vai usar a tática de morder na saída, não vai. Abrir a boca grande, esperar eu aparecer, fechar os dentes no último instante.

— Não vou. Juro pela minha natureza de espírito cultivado.

Sun Wukong considerou. Arrancou um pelo da cauda, soprou o sopro que transformava, e o pelo se tornou uma corda — tão fina quanto cabelo humano mas com a força de corrente de ferro, e longa o suficiente para o que precisava. Com uma extremidade prendeu no coração do leão, o nó feito com a precisão de quem conhece anatomia de dentro para fora, literalmente. A outra extremidade ficou na mão de Sun Wukong quando ele saiu pela garganta — primeiro empurrou Zhu Bajie, depois veio ele próprio.

Do lado de fora, o ar da tarde jamais havia parecido tão agradável ao tato.

Sun Wukong ficou à distância calculada, com a corda na mão. O leão estava no chão, a corda passando por dentro como lembrança permanente das escolhas que havia feito. Cada respiração do leão puxava levemente o nó.

— Se você se mover contra mim, eu puxo — disse Sun Wukong, com a leveza de quem explica uma regra simples.

— Eu entendi — disse o leão, com a humildade de quem entendeu de fato.

— E o elefante e o pássaro?

— Não posso falar por eles. São meus irmãos, não meus servos.

Sun Wukong puxou. Apenas um pouco. O leão soltou um grito que fez a montanha tremer — não o grito guerreiro de antes, mas algo mais alto e mais despido de qualquer pretensão.

— Eu... vou tentar convencê-los...

— Não tente. Garanta.

Os outros dois demônios vieram correndo ao som dos gritos, esperando encontrar Sun Wukong em desvantagem. O que encontraram foi o irmão mais velho no chão, uma corda saindo da boca, e Sun Wukong do outro lado com a expressão de quem ganhou o jogo antes que os outros soubessem que havia um jogo.

O elefante e o pássaro Peng se ajoelharam na terra. Era aquele tipo de rendição que acontece quando se percebe que o adversário foi mais inteligente por completo, de um jeito que a força não consegue desfazer.

Grande Sábio — disse o elefante, com uma voz que era grave como trovão distante — deixe nosso irmão. Garantimos passagem para o seu mestre.

— Garantia escrita.

— Não temos papel aqui.

— Então acompanhem vocês mesmos meu mestre pela montanha. Escolta pessoal.

Zhu Bajie resmungou, aparando baba de enzima digestiva da orelha:

— Eu não confiaria nesses três por nada. Nem que eles jurassem pelo próprio nome.

Sun Wukong concordou por dentro — completamente. Mas precisava de tempo. Tempo para que Tang Sanzang atravessasse a parte mais perigosa da subida, tempo para invocar reforços celestiais que tornassem qualquer traição impossível de ser rentável.

Mandou Zhu Bajie voltar ao mestre e guiá-lo para o início da subida pela montanha. Ele próprio ficou segurando a corda com uma mão, o bastão na outra, enquanto os três demônios ficavam parados com a imobilidade dos que não têm escolha e esperam que a situação mude.

Quando viu o branco do cavalo de Tang Sanzang aparecer na curva da estrada abaixo, uma mancha pálida que se movia entre os pinheiros, Sun Wukong soltou a corda.

E então os três demônios juntos decidiram que haviam suportado humilhação suficiente.

Atacaram ao mesmo tempo — o leão com o machadão, o elefante com a tromba que golpeava como catapulta, o pássaro Peng com as asas que criavam vento capaz de arrancar pedras. O que se seguiu foi uma batalha que durou até o anoitecer e cobriu a Montanha Shituo de ponta a ponta, sem resultado claro. O elefante era lento mas os seus golpes, quando chegavam, tinham o peso de uma casa. O pássaro era rápido demais para acertar mas difícil de atingir. E o leão, com a corda há muito arrancada, havia recuperado o vigor e o orgulho ferido era combustível adicional.

Ao anoitecer, os três voltaram para a gruta e fecharam os portões de pedra. Sun Wukong voltou ao mestre. Tinha um corte na testa, uma costela que palpitava com desagrado, e a convicção de que precisava de ajuda que não estava no inventário terreno.

Tang Sanzang disse, resignado, sentado numa pedra com o manto ainda imaculado de alguma forma:

— Então não passamos hoje.

— Amanhã teremos reforços — disse Sun Wukong. — Vou pedir ao céu esta noite. Há uma conta a ser aberta com o Imperador de Jade há algum tempo, e este me parece o momento adequado para cobrá-la.

Passaram a noite ao relento. O cavalo branco ficou amarrado a uma árvore de pinheiro curvada pelo vento da altitude, os quatro acampados numa clareira onde a pedra ainda guardava algum calor do dia. Zhu Bajie dormiu com a facilidade dos que nunca encontraram situação suficientemente grave para interferir com o sono. Sha Wujing meditou. Tang Sanzang rezou.

Sun Wukong subiu ao ar, deixando o corpo do acampamento para trás, e enviava sua mensagem para o Palácio de Jade — onde o Imperador, numa sede que ouvia tudo, teria de decidir se a ajuda que o macaco pedia valia o custo de concedê-la. Sol poente. Montanha silenciosa. A noite fazia seus próprios preparativos para o dia seguinte.