Capítulo 77: O Triunfo do Buda — Três Reis Demônios Subjugados
Buda Tathagata desce pessoalmente ao Monte Sito para subjugar o Grande Peng e os dois demônios montaria, libertando Tang Sanzang e seus discípulos da jaula de ferro.
O sol havia se posto sobre o Monte Sito quando Sun Wukong, sozinho no céu vazio, contemplou a extensão de sua impotência. Lá embaixo, na barriga escura da montanha, Tang Sanzang, Zhu Bajie e Sha Wujing apodreciam numa jaula de ferro, prisioneiros dos três Reis Demônios que governavam aquele pico maldito. O Macaco havia escapado por um fio — uma cambalhota levada pelo Grande Peng num voo de noventa mil li por batida de asa —, mas escapar não era o mesmo que vencer, e Sun Wukong sabia disso melhor do que ninguém.
O Monte Sito tinha três picos, e em cada um reinava um monstro diferente. No pico ocidental habitava o Rei Leão Azul — uma besta de crina negra que havia mordido o neckband de Zhu Bajie com um único estalo de mandíbula, arrancando-o do ar como quem apanha uma fruta. No pico oriental vivia o Rei Elefante Branco, cujas trombas eram longas como rios e fortes como colunas de templo — havia enrolado Sha Wujing com uma dessas trombas e o apertado até que o guardião perdera o fôlego e tombara. E no pico central — o mais alto, o que furava as nuvens com uma arrogância específica de quem nunca foi derrotado — reinava o Grande Peng, a ave colossal cujas asas cobriam noventa mil li a cada batida e que voava mais rápido do que o pensamento de qualquer criatura terrestre.
Tentara tudo. Havia convocado os Dragões dos Quatro Mares, os Generais dos Cinco Pontos Cardeais, os Deuses da Terra, os Imortais do Céu. Havia implorado ao Imperador de Jade, percorrido os corredores dourados do Palácio Celestial em busca de aliados, chamado reforços de cada canto do cosmos que conhecia. Mas o Grande Peng era veloz como nenhuma outra criatura debaixo do céu — nem mesmo o próprio Sun Wukong, com seus cento e oito mil li por cambalhota, conseguia distância suficiente para se livrar daquelas asas imensas que o apanhavam no ar como uma rede apanha um peixe. E os outros dois demônios tinham poder suficiente para deter qualquer força que chegasse pelo flanco.
Havia mesmo plantado um clone de pelos no interior da jaula para que os demônios acreditassem que o vigiavam, e usara insetos do sono — os qiaosnuichong conquistados dos guardas celestes no Portão Norte do Céu — para adormecer os dez vigilantes do forno onde pretendiam cozinhar os peregrinos. Convocara o Rei Dragão do Mar do Norte, Ao Shun, para soprar vento gelado pelas frestas do ferro e proteger os corpos de seus companheiros do calor das brasas. Mas isso era proteção, não salvação. O forno estava parado, mas a jaula ainda estava fechada, e o tempo corria com a indiferença específica do tempo diante de crises que não são suas.
A cidade que ficava aos pés da montanha fervilhava de rumores cruéis que subiam pela encosta como fumaça: diziam que o Mestre tinha sido devorado meio cru, que os ossos já estavam num caldo. Que os peregrinos do Leste haviam chegado ao fim de sua jornada não no templo sagrado do Lingjiu, mas na panela de um demônio com asas de noventa mil li. Sun Wukong escutou os rumores e sentiu no peito algo que raramente sentia — não medo do perigo, pois o perigo era seu elemento natural, mas o medo específico do fracasso irremediável, da missão que termina antes de terminar.
Engoliu a raiva. Fez o que jamais imaginara fazer num momento de crise — a coisa que seu orgulho imenso resistia como a pedra resiste à chuva. Virou as costas para a batalha e voou em direção à Montanha Espiritual.
A Montanha Lingjiu — o Abutre — ergue-se acima de toda névoa, acima de todo nuvem, num silêncio que não é ausência de som, mas presença de algo maior que o som. Sun Wukong pousou diante do Grande Salão da Virtude com o coração partido entre a fúria e a vergonha. Prostrou-se perante Buda Tathagata e expôs tudo: os três demônios do Monte Sito, a jaula de ferro, os companheiros aprisionados, a impotência do Bastão de Ouro diante de asas que cobriam noventa mil li de céu.
— Peço que Vossa Onisciência liberte meu Mestre — disse ele, e havia na voz do Macaco algo raro: humildade genuína. — E, se for da sua vontade, que me liberte também desta argola de ouro que ainda pesa em minha testa. Deixai-me voltar ao Monte das Flores e Frutos. Deixai-me ser apenas o que era.
Buda Tathagata olhou para ele com aquela serenidade que não julga nem absolve, mas simplesmente vê.
— Wukong — disse ele —, sabes quem é o Grande Peng?
Sun Wukong ergueu os olhos, surpreso.
— É o terceiro demônio do Monte Sito. O mais poderoso deles. O que voa noventa mil li por batida de asa e não pode ser alcançado por nenhuma criatura do céu ou da terra.
— Sim — concordou Buda. — E sabes de onde ele vem?
Um silêncio longo. Depois, com uma serenidade que era ao mesmo tempo revelação e instrução, Buda Tathagata falou:
— O Grande Peng nasceu do mesmo ventre que a Bodhisattva Pavo — a Princesa do Pavão, a que chamam de Grande Rei Luminoso. São irmãos por sangue. E eu próprio, em tempos antigos, fui engolido por aquela ave colossal quando meditava junto ao rio. Precisei rasgar suas costas com a força do Dharma para sair. Por isso, no mundo dos céus, a Pavo é honrada como minha mãe espiritual — pois me conteve dentro de si. Ferir o Grande Peng seria ferir o irmão da minha mãe espiritual.
Sun Wukong piscou. Nos cinco séculos de sua existência turbulenta, poucos momentos o haviam deixado genuinamente sem palavras.
— Então... não posso matá-lo?
— Não devo. Mas isso não significa que devo deixá-lo fazer o que lhe apetece. Levanta, Wukong. Vamos ao Monte Sito.
O que se seguiu ficou gravado nas memórias dos deuses por eras incontáveis.
Buda Tathagata desceu do Lingjiu acompanhado de quinhentos Arhats iluminados, dos Bodhisattvas Manjushri e Samantabhadra, e de Sun Wukong voando ao seu lado com o Bastão de Ouro reluzindo no sol da tarde. Quando as nuvens se afastaram sobre o Monte Sito e os demônios olharam para o céu, o que viram não foi um exército — foi o próprio Dharma encarnado descendo sobre eles.
O Leão Azul reconheceu seu dono: era a montaria de Manjushri, o Bodhisattva da Sabedoria. Diante daquele sábio, o leão enorme curvou a cabeça imensa e deixou que a corrente dourada fosse colocada em seu pescoço sem resistência. Manjushri montou nele com a naturalidade de quem retoma o que sempre foi seu.
O Elefante Branco reconheceu Samantabhadra, o Bodhisattva da Prática. Era sua montaria também — havia fugido do Céu em busca de experiências que o mundo mortal não devia oferecer. Samantabhadra simplesmente estendeu a mão e o elefante dobrou os joelhos imensos, submisso.
Mas o Grande Peng — o irmão da Pavo, a ave que cobrira noventa mil li com um único bater de asas — não curvou a cabeça. Olhou para Buda Tathagata com aqueles olhos enormes que haviam visto o mundo antes dos homens e antes dos deuses, e desdobrou as asas num gesto que era metade desafio, metade orgulho.
— Não me prostro diante de ninguém — disse o Grande Peng.
— Eu sei — respondeu Buda Tathagata.
E então fez algo que nenhum dos presentes esperava: abriu a palma da mão, e sobre ela apareceu uma isca — carne e sangue, simples e real. O aroma que exalava não era de comida mortal; era de algo que o Grande Peng conhecia desde antes de ter consciência de conhecer. Era o cheiro do sagrado, do poder primordial, do que existia antes do céu e da terra.
O Grande Peng hesitou. E nessa hesitação estava toda a sua perdição.
Mergulhou. As asas dobraram-se num voo de ataque, a garra imensa se abriu — e Buda fechou a mão, e os tendões das asas do Grande Peng ficaram paralisados, e a ave colossal caiu de joelhos no pico do Monte Sito como uma montanha que finalmente cede à gravidade.
— Teu orgulho é legítimo — disse Buda, sem crueldade. — Mas não é ilimitado.
A jaula de ferro foi aberta. Tang Sanzang, que jamais havia sido devorado — havia sido trancado na Pavilhão de Jade Perfumado pelos próprios demônios, que preferiam guardar a iguaria para um momento especial —, emergiu pálido e trêmulo mas inteiro. Zhu Bajie esfregou o pescoço onde a mordida do Leão Azul havia deixado marca. Sha Wujing tossiu e cuspiu poeira de ferro.
Sun Wukong olhou para o seu Mestre por um longo momento. Depois olhou para a testa — ainda sentia o peso da argola, mesmo que Buda não a tivesse removido. Não a removera, de fato. Mas também não havia dito que ela ficaria para sempre.
— Mestre — disse Sun Wukong, e sua voz era estranha, mais suave do que de costume —, estais bem?
Tang Sanzang o olhou com aqueles olhos que haviam chorado no escuro da jaula, e respondeu com a serenidade de quem aprendeu que o sofrimento tem fim:
— Estou, meu discípulo. Graças a ti, e graças ao Buda.
Sun Wukong abriu a boca para fazer alguma réplica espirituosa — era o que sempre fazia — mas desta vez não disse nada. Apenas fez um gesto com a cabeça, virou-se e começou a descer o monte. Os outros o seguiram. O caminho para o Oeste continuava.
O Grande Peng foi levado de volta ao Lingjiu, para ficar sob os cuidados da Bodhisattva Pavo, sua irmã. O Leão Azul voltou para o Céu com Manjushri. O Elefante Branco, com Samantabhadra. O Monte Sito ficou vazio e silencioso, como montanhas ficam quando os seus donos partem.
E na estrada empoeirada que levava para o Oeste, quatro peregrinos e um cavalo branco retomaram o passo — levemente, como se o peso que carregavam houvesse diminuído um pouco, ou como se eles próprios houvessem crescido o suficiente para carregá-lo com mais graça.
Zhu Bajie esfregou o pescoço mais uma vez e disse, com aquele tom que pretendia ser casual mas não era:
— Então o Grande Peng era irmão da Bodhisattva Pavo e o Buda mesmo o capturou com uma isca de carne.
— Sim — disse Sun Wukong, sem se voltar.
— E o Leão Azul era a montaria de Manjushri.
— Sim.
— E o Elefante Branco era a montaria de Samantabhadra.
— Sim.
Uma pausa. O cavalo branco bateu um casco na pedra.
— Irmão mais velho — disse Bajie, com uma delicadeza que era incomum nele —, quando estávamos na jaula de ferro e os guardas apagaram o forno com aquele vento gelado, eu sabia que eras tu. O vento cheirava a dragão do mar do norte, e só tu terias pedido ao Ao Shun que soprasse pelas frestas. Não disse nada por causa dos guardas, mas sabia.
Sun Wukong não respondeu imediatamente. Caminharam mais alguns passos.
— Estavas acordado — disse ele, por fim.
— A jaula de ferro deixa muito tempo para pensar — disse Bajie.
Sha Wujing, atrás de ambos, carregava o fardo em silêncio como sempre fazia. Mas havia um leve sorriso no canto de sua boca de guardião — o sorriso de quem ouve uma conversa que confirma o que sempre soube sobre os irmãos com quem caminha.
O sol da tarde dourou a estrada à frente. O Oeste continuava — mais curto agora do que havia sido na véspera, mais próximo do fim que havia sido o propósito desde o início. E os quatro peregrinos seguiram em direção a ele com o passo um pouco mais leve do que qualquer passo que haviam dado antes naquela longa e impossível estrada.