Capítulo 75: Sun Wukong Dentro do Demônio — A Fuga do Vaso Mágico
Sun Wukong é capturado e enfiado num vaso mágico que dissolve seres vivos. Ele escapa furando o fundo do vaso com uma agulha transformada e volta a provocar o leão gigante que o engoliu.
A entrada da gruta era um vale de ossos.
Wukong caminhou pelo corredor sem piscar — havia visto pior ao longo de uma vida que incluía o interior do estômago de monstros maiores e os salões de tortura do Tribunal dos Mortos. Mas havia naquele lugar uma qualidade particular de acumulação: à esquerda, demônios menores cortavam carne com a eficiência dos que fazem aquilo todos os dias e desenvolveram para o trabalho o automatismo que o torna suportável. À direita, caldeirões fumegavam com aquele vapor espesso que tem cheiro de animal e metal. O chão era de pedra mas a pedra estava escura de umidade antiga que não era água. E a luz vinha de tochas que ardiam com uma chama de cor ligeiramente errada — amarela demais, sem aquele toque de laranja que as chamas comuns têm.
Passou pela segunda porta, onde o demônio havia tido o bom senso decorativo de criar um jardim. Flores e ervas, e o ar era mais limpo ali — aquela inconsistência dos poderosos que têm sensibilidade estética em partes da vida e brutalidade em outras. Depois pela terceira porta, que se abria para uma câmara maior, com teto suficientemente alto para acomodar o que Wukong via sentado no tablado elevado ao fundo.
Três figuras. Três presenças que preenchiam o espaço ao redor com a qualidade dos muito poderosos.
O primeiro e central era o maior — um leão de pelo azul-escuro que tinha aquela tonalidade específica do azul que absorve a luz em vez de refletir. Os dentes eram do tamanho que facões têm quando não há facão, apenas dente. Os olhos eram amarelos com a intensidade do âmbar iluminado por dentro. Quando respirava, as narinas se abriam com um som que era a antecâmara de um rugido — apenas a preparação, não o rugido em si, mas suficiente para fazer o ar na câmara vibrar levemente.
À esquerda, um elefante com presas douradas que arqueavam para cima como crescentes de marfim e uma tromba que tinha a espessura de uma coluna de templo. Movia a tromba com a lentidão dos muito grandes que desenvolveram a paciência dos que sabem que o tamanho resolve a maioria das situações sem que seja necessário apressar.
À direita, uma criatura de asas douradas e olhos de leopardo — o Peng, aquele grande pássaro do vento norte que, segundo as antigas narrativas, viajava dez mil li por dia em seu voo do norte para o sul. Tinha no olhar aquela qualidade dos predadores de ar: uma atenção multidirecional, o reconhecimento imediato de movimento, a avaliação constante de distâncias.
Ao redor do tablado, em dois fileiras, demônios de vários tamanhos e equipamentos — uma assembleia de subordinados com aquela presença coletiva dos guardas que existem para tornar óbvio que o poder no centro tem camadas de proteção.
Wukong entrou como patrulheiro — aquela postura específica de alguém que voltou de uma ronda, bateu os calcanhares no piso de pedra com o som que os subordinados fazem quando se reportam, e disse:
— Grande Rei! De volta da ronda. Nenhuma ocorrência.
Os três olharam para ele.
A atenção dos três ao mesmo tempo era uma coisa pesada. Wukong manteve a postura de patrulheiro com o esforço específico de quem sabe que esforço visível destrói o disfarce.
— Que ronda? — disse o leão, com uma voz que vinha de um peito suficientemente grande para ter reverberação própria. — Nenhum patrulheiro dessa turma voltou ainda.
— Fui o mais rápido.
— Seu rosto é familiar mas não reconheço o nome. Como se chama?
— Sou novo na patrulha. Promovido ontem.
O leão considerou isso. O elefante continuou movendo a tromba com a mesma lentidão imperturbável. Mas o Peng — a terceira figura, de asas douradas e olhos de leopardo que eram feitos para detectar o que outros olhos perdem — levantou-se de repente com o movimento brusco do predador que identificou algo.
— Esse não é da patrulha.
A voz era afiada, direcional, sem a lentidão calculada do leão.
— Esse é Sun Wukong. Vi você rir agora há pouco, e por um segundo a forma do riso mostrou a boca verdadeira por baixo da máscara — aquela boca de Trovão que não se esconde completamente em nenhuma transformação.
Wukong percebeu que o riso havia quebrado o disfarce por uma fração de segundo insuficiente para ser visto por olhos comuns mas suficiente para os olhos do Peng, que existiam numa categoria diferente de percepção. Tarde demais para negar com credibilidade.
— Amarrem-no — disse o leão.
Trinta e seis demônios menores saltaram com cordas. Wukong lutou — o bastão funcionou por alguns segundos, derrubando os primeiros seis que chegaram. Mas a câmara era estreita para o bastão, os demônios eram muitos, e a tática de cerco não deixava ângulo de escape. Derrubaram-no com o peso coletivo dos números, amarraram os braços e as pernas cruzados com cordas que tinham nelas algo de mais do que fibra vegetal — tinham aquela resistência das amarras mágicas que crescem mais firmes quanto mais o preso resiste.
O terceiro demônio — o Peng, de asas parcialmente abertas — disse, com a voz de quem toma decisões práticas:
— Não comemos ainda. Guardem-no no vaso mágico. Amanhã, quando estiver dissolvido, bebemos.
O vaso foi trazido por trinta e seis demônios — um recipiente de dois palmos e quatro de altura com a proporção dos objetos que foram concebidos para uma função específica e foram bem-executados nessa concepção. Wukong foi jogado dentro com os braços e pernas ainda amarrados, a tampa foi assentada, e um papel de sigilo foi colado por cima com a pasta densa de uma tinta que cheirava a enxofre e permanência.
Dentro.
Escuro e quieto.
Bem. Disseram três horas para dissolver. Comecemos a contar.
A temperatura era surpreendente — fria. Não o frio do descuido mas o frio calculado, o frio que precede o calor em objetos que trabalham em fases. Havia algo de ameaça contida naquela frialdade, como a calmaria que os barqueiros reconhecem como antecâmara da tempestade.
Isso é estranho. Não está acontecendo nada imediato. Deveria começar com uma hora de geada, depois fogo. Pelo menos é o que esses tipos usualmente fazem.
Wukong ficou quieto e prestou atenção ao interior do vaso com aquela escuta que vai além dos ouvidos. Sentiu o vaso trabalhar — havia um mecanismo nele que estava em operação, que processava a presença do que estava dentro e ajustava as condições gradualmente. Mas havia também algo que os demônios não sabiam, ou não haviam levado em conta: cinco séculos no forno do Velho Senhor Lao haviam trabalhado o corpo de Wukong em algo que não era simplesmente carne. O fogo do Velho Senhor era o fogo de purificação — a mesma substância, o mesmo princípio. O frio era fácil.
Aguardo.
Depois de um tempo que era difícil de medir no interior de um vaso selado, o frio cedeu para o calor. Chegou devagar primeiro, depois de repente — aquela progressão dos processos que têm uma limiar depois do qual a mudança é rápida.
Ah. Aqui vem.
Tentou aumentar o tamanho do corpo para quebrar o vaso de dentro — a técnica que havia funcionado em outras confinamentos. Mas o vaso cresceu com ele, mantendo a distância entre as paredes e a pele constante. Tentou encolher para encontrar uma folga. O vaso encolheu também.
Maldição. Isso foi construído para isto especificamente. Segue minhas medidas.
Do fundo do vaso, como de uma semente que havia esperado o calor para germinar, quarenta serpentes de fogo surgiram — não serpentes físicas mas construtos de chama com forma serpentina, que enrolavam ao redor dos tornozelos e dos pulsos com aquela aderência do fogo que não arde a madeira mas arde a essência. Wukong as agarrou com as mãos ainda amarradas e as esmagou com aquela força que o forno do Velho Senhor havia colocado nos tendões. Morreram como tochas apagadas. Vieram três dragões de fogo — maiores, com mais substância, enrolando-se ao redor do torso com calor suficiente para fazer a própria rocha ressoar.
Isso sim está ficando ruim.
Pensou no teto — tampa selada. Nas paredes — sem emenda, sem fissura visível. No fundo — metal de liga desconhecida. Todas as saídas óbvias eram exatamente as saídas que o vaso havia sido projetado para fechar.
Tem que ser diferente. Tem que ser pelo fundo, pela fissura que nenhum vaso tem mas que posso criar.
E então lembrou. Guanyin havia lhe dado, anos atrás na Montanha da Cobra Espiral, três pelos especiais que ela havia chamado de reserva para emergências genuínas. Havia dito que estariam no cérebro — não nos pelos comuns do corpo mas naqueles três específicos que tinham a qualidade dos objetos que esperam pelo momento em que são necessários.
Wukong, entre os dragões de fogo que tentavam enrolar-se ao redor do pescoço, passou os dedos pelos cabelos na parte de trás da nuca. Pelos comuns — duros, mas apenas comuns. Mais. Três pelos que tinham uma textura diferente, mais firme que o metal, com aquela qualidade dos objetos que foram feitos com intenção específica.
Arrancou-os com um movimento único.
Soprou no primeiro:
— Transforma-te em broca de aço.
O pelo mudou na mão — não cresceu nem se fundiu mas simplesmente foi diferente, da mesma forma que as melhores transformações acontecem: sem processo visível, apenas resultado. Uma broca de aço com a geometria certa para rotação.
No segundo:
— Transforma-te em arco de bambu.
No terceiro:
— Transforma-te em cordel de seda resistente.
Montou o conjunto com a precisão dos que trabalham no escuro por hábito — as mãos que sabem o que fazem independente dos olhos, que encontram os encaixes corretos pelo tacto e pela memória muscular. Bamboo como cabo, seda como mola, broca na ponta.
E perfurou o fundo do vaso.
A resistência era considerável — aquela liga de metal mágico havia sido forjada para não ser perfurada por nada comum. Mas a broca era de aço de Guanyin, que era uma categoria diferente de aço, e Wukong girou com a determinação de quem não tem alternativa e portanto não tem razão para parar. A broca entrou, resistiu, entrou mais, com aquele processo lento dos materiais que cedem por graus.
A essência yin-yang do vaso — aquele princípio de oposições que o havia mantido coeso e funcional — escapou pelo buraco como ar de um pulmão. A temperatura caiu imediatamente, do calor insuportável para o ambiente. O fogo se apagou. Os dragões dispersaram. Os dragões de fogo eram construtos da essência do vaso; sem ela, eram apenas a memória de chama.
Wukong transformou-se num jiao liao — um inseto tão pequeno que cabia confortavelmente numa agulha —, e saiu pelo furo que havia perfurado. O furo era do tamanho de um prego. O jiao liao era do tamanho de um grão de areia com asas. A saída foi fácil.
Do lado de fora, pousou na cabeça do leão, entre os pelos azul-escuros que eram suficientemente densos para criar cobertura. Os demônios comemoravam com vinho e carne na câmara larga. O leão levantou a taça com o gesto do anfitrião que celebra antes de verificar se há motivo para celebração.
— Aquele macaco já deve estar dissolvido.
— Ainda não — disse o segundo demônio. — Falta uma hora.
— Excelente. Quando o tempo chegar, traga o vaso. Quero ver o que sobrou.
Sun Wukong, sentado na cabeça do leão entre os pelos, murmurou para os pelos ao redor:
— Vocês acham.
O leão sentiu algo no pelo com aquela sensibilidade específica dos animais para o que toca sua pelagem.
— Que foi isso?
— Mosca — disse alguém.
— Trouxeram o vaso — disse o leão. — Quero ver.
Os trinta e seis demônios carregaram o vaso até a câmara central com a reverência dos que transportam um objeto de valor. O leão se levantou do tablado, desceu os degraus com a lentidão deliberada dos que têm tamanho suficiente para transformar cada passo em afirmação de presença, abriu a tampa com as garras.
Olhou para dentro.
O vaso estava vazio.
Não vazio de corpo-dissolvido, não vazio de cinzas ou resíduos — vazio com aquela limpeza que não é resultado de dissolução mas de ausência anterior. E havia no fundo um furo circular do diâmetro de um prego com as bordas perfeitamente polidas pela rotação.
O leão ficou mudo por um momento. Depois disse, quase para si mesmo, com aquela voz de quem processa algo que ainda não tem categoria disponível:
— O vaso está vazio.
Sun Wukong, ainda na cabeça do leão, disse em voz normal, direcional, para dentro das orelhas do leão:
— Sai voando foi.
Todos ouviram.
O tumulto que se seguiu foi de proporções consideráveis — demônios com vassouras e forquilhas tentando acertar algo que ninguém estava conseguindo localizar, o leão agitando a cabeça com movimentos amplos na tentativa de desalojar o que sentia nos pelos, o elefante levantando a tromba para farejar a posição do intruso, o Peng de asas abertas varrendo o ar na câmara com rajadas que faziam os demônios menores tropeçar.
Wukong aproveitou o tumulto — a técnica da confusão criada, que havia usado mais vezes do que conseguia contar — para saltar da cabeça do leão para a altura da porta, desfazer a forma de inseto no ar, aparecer em tamanho normal com o bastão já nas mãos e aquela expressão de quem está genuinamente satisfeito com o resultado de um plano bem executado.
— Seus demônios idiotas! — gritou da entrada, com a voz projetada para carregar pela câmara inteira. — Seu vaso tem um furo agora. Adequado para uso como privada.
E sumiu antes que a primeira forquilha chegasse à metade do percurso.
Tang Sanzang estava no sopé da montanha com o rosário nos dedos e os lábios em movimento de oração — aquela oração específica de quem não sabe o que está acontecendo lá cima mas tem prática suficiente para sustentar a fé sem a informação. Quando Wukong pousou ao lado dele, o mestre ergueu os olhos com aquela mistura de alívio e acusação que era a expressão característica de Tang Sanzang depois de esperas longas demais.
— Wukong! Sumiu tanto tempo. Achei que—
— Apenas explorei a situação — disse Wukong. — Há três demônios poderosos. Um leão de pelo azul, um elefante de presas douradas, e um Peng de asas douradas. Muitos subordinados. Mas já aprendi como operam, e aprendi pela via direta.
— Pela via direta significa que você foi capturado.
— Significa que obtive informação de dentro — disse Wukong, com o tom de quem escolhe a enquadramento correto para o que aconteceu.
— Vou precisar de ajuda — disse Wukong, antes que o mestre pudesse prosseguir no tema. — Do Imperador de Jade. A Estrela da Manhã disse que posso pedir soldados celestiais quando a situação ultrapassar o que quatro pessoas conseguem resolver.
Tang Sanzang suspirou com aquele alívio que tinha nele também o reconhecimento de que o caminho ainda era longo.
Zhu Bajie, que havia ficado sentado numa pedra comendo algo que encontrara num arbusto com a concentração de quem trata a refeição como meditação, ergueu a cabeça para olhar para Wukong.
— Vens com dois planos e um furo no vaso do inimigo. Podia ser pior.
— Venha comigo, porco — disse Wukong.
— Por quê eu?
— Porque dois são mais que um e o mestre pediu.
— O mestre não pediu nada.
— O mestre vai pedir — disse Wukong, com a confiança de quem conhece as tendências do mestre — se você ficar aí sentado comendo.
Bajie guardou o que restava do arbusto nas dobras da roupa e levantou-se com o suspiro de alguém que já sabe que vai ir mas quer que fique registrado que não foi de bom grado.
Os dois subiram juntos pela encosta da Montanha do Leão enquanto Tang Sanzang ficava abaixo com Sha Wujing, os olhos fechados, as mãos firmes no rosário, contando cada conta como um respiro que aguardava resposta. A montanha era uma montanha de aparência comum — pinheiros, pedras cinza, o riacho que descia com o som pacífico de água sobre pedras. Mas havia nela, para quem sabia olhar com a atenção certa, aquela qualidade de poder contido que os lugares dos muito poderosos têm: uma leveza errada no ar, uma qualidade diferente da sombra sob os pinheiros.
Wukong caminhou em frente com o bastão no ombro. O próximo confronto seria diferente. Ele havia estado dentro, havia visto o que havia para ver, havia aprendido o que havia para aprender da maneira que ele aprende — pelo corpo, pelos erros, pela fuga que é também reconhecimento.
Estava pronto.