Capítulo 74: A Montanha do Leão e do Elefante — Estrela da Manhã Traz Aviso
Os peregrinos chegam à Montanha Shituo com oitocentos li habitados por três demônios poderosos e dezenas de milhares de demônios menores. Sun Wukong se infiltra disfarçado para descobrir os poderes dos inimigos.
Atravessaram a floresta queimada. O outono chegou de novo — folhas amarelas nos bordes dos caminhos, grilos cantando nas pedras frias. Tang Sanzang cavalgava tranquilo quando levantou os olhos e viu à frente uma montanha que parecia não ter fim.
— Discípulos — disse ele, puxando as rédeas — aquela montanha à frente parece de uma altura impossível. Há caminho por ela?
— Há caminho por qualquer montanha — disse Sun Wukong. — Não se preocupe.
Tang Sanzang ergueu o espírito e esporeou o cavalo.
A alguns passos, um ancião os parou. Estava numa colina acima do caminho, de cabelos brancos e bengala comprida, e gritou para baixo:
— Monges que vêm do leste! Parem! Há demônios nessa montanha que comem gente!
Tang Sanzang freou o cavalo. Ficou branco. As pernas tremeram tanto que deslizou da sela e caiu de joelhos na grama antes que pudesse ser ajudado.
— Wukong — disse ele, com a voz pequena — vá perguntar a esse velho o que ele sabe.
Sun Wukong se transformou num monge jovem e bonito — rosto liso, manto limpo, postura respeitosa — e foi até o ancião com uma reverência:
— Pai, o que nos pode dizer sobre essa montanha?
O ancião olhou para o jovem monge com simpatia:
— Essa montanha tem oitocentos li de extensão e é habitada por três demônios maiores e dezenas de milhares de subordinados. Eles comem humanos. Não há caminho seguro.
— Esses demônios são poderosos?
— Uma carta deles chega ao Monte Espiritual e quinhentos arhat a recebem com reverência. Um bilhete aos céus e onze planetas maiores ficam atentos. Os quatro mares têm dragões que os chamam de amigos. As cavernas dos oito imortais acolhem suas visitas.
Sun Wukong riu:
— Então esses demônios são amigos de personagens que são como filhos para mim. Nada de extraordinário.
O ancião franziu o cenho:
— Você fala como se não tivesse visto o pior ainda.
— Eu vi muita coisa. Sou Sun Wukong, o Grande Sábio Igual ao Céu.
O ancião recuou um passo — e então Sun Wukong percebeu. O velho estava se aproximando do ar. Não havia sombra. Nenhuma marca de pé na terra.
— Estrela da Manhã — disse Sun Wukong, agarrando o ancião pelo pulso. — Li Chang Geng! Você poderia ter me dito isso na minha frente em vez de se fantasiar de velho da montanha!
O Senhor Estrela da Manhã riu:
— Não havia outra maneira de fazer você ouvir sem que o mestre entrasse em pânico antes do necessário. Estes demônios são de verdade muito perigosos. Use toda sua astúcia.
— E posso pedir reforços celestiais?
— Pode mandar mensagem. Com uma palavra sua, o Imperador de Jade envia dez mil soldados.
Despediram-se. Sun Wukong voltou ao grupo com ar despreocupado:
— Não é nada. Apenas um ou dois demônios exagerados pela fama da região.
Zhu Bajie foi ele mesmo perguntar ao ancião — que já havia desaparecido. Os discípulos forçaram Tang Sanzang a montar de volta e prosseguiram. Zhu Bajie foi ele mesmo falar com um raro passante, que lhe disse:
— Esta montanha chama-se Crista do Leão e do Elefante. No centro há a Gruta do Leão e do Elefante. Três demônios ali, com quase cinquenta mil seguidores. Comem gente todos os dias.
Zhu Bajie voltou correndo e ficou tão perturbado que defecou no caminho antes de conseguir relatar o que havia ouvido. Tang Sanzang ficou ainda mais pálido.
Sun Wukong estava descansado:
— Eu vou na frente explorar. Vocês guardem o mestre aqui. Sha Wujing cuida do cavalo e das bagagens. Você, porco gordo, fica ao lado do mestre e não pisca.
Subiu à nuvem e explorou a montanha de cima. Silêncio. Nem bicho nem vento. Isso é suspeito. Onde estão os cinquenta mil?
Então ouviu ao norte: batidas de madeira, sons metálicos, brados de vozes. Um pequeno demônio descia a encosta com uma bandeira e um tambor na cintura, batendo o tambor enquanto andava e recitando em voz alta:
— Todos os patrulheiros: fiquem alertas para Sun Wukong. Ele se transforma em mosca varejeira.
Sun Wukong, que já estava a ponto de se transformar em mosca, parou.
Ele sabe que me transformo em mosca? Então os grandes demônios já ouviram falar de mim. Perigoso se me reconhecerem logo.
Mas havia algo mais. O demônio menor estava apenas repetindo palavras de ordem — não havia visto Sun Wukong de verdade. Era precaução, não reconhecimento.
Vou continuar e ver.
Transformou-se em pequeno demônio da patrulha — mesma altura, mesma roupa, mesma bandeira — e correu atrás do original, chamando-o:
— Espere! Sou novo aqui. Me ajude a encontrar minha rota.
O demônio virou:
— Você é... novo. Não reconheço sua face.
— Fui promovido ontem. Estava na cozinha, me promoveram para patrulheiro. Rosto novo, né?
— Ah. Sim. Nomes?
— Meu nome? Ah, você sabe — fui promovido tão rápido que ainda não gravei meu próprio nome direito. Deixa eu ver minha plaquinha.
Sun Wukong havia visto a plaquinha do outro — dourada, com a inscrição Pequeno Vento Perfurante. Arranhou um pelo da cauda e o transformou numa plaquinha idêntica, só com o nome Grande Vento Perfurante.
— Ah, estou aqui — mostrou. — Grande Vento Perfurante. Sabe, me fizeram supervisor de toda a sua turma.
O demônio ficou surpreso:
— Um supervisor novo? Como assim?
— O Grande Rei viu que sou bom com fogo na cozinha e me promoveu para gerenciar a ronda. Cada um na sua turma tem que me pagar cinco taéis de prata por inspeção.
O demônio nunca havia ouvido isso, mas a plaquinha e a postura de autoridade convencem na hora.
Sun Wukong conversou mais um pouco, descobrindo o que precisava: a montanha tinha três líderes. O primeiro — um leão — havia certa vez aberto a boca e engolido dez mil soldados celestiais de uma só vez. O segundo — um elefante — enrolava inimigos com a tromba. O terceiro — um grande pássaro que voava cem mil li por dia — tinha um vaso mágico que dissolvia qualquer ser vivo em três horas.
O vaso é o mais perigoso. Preciso cuidado com isso.
Descoberta a informação, Sun Wukong matou o demônio menor com um golpe de bastão — arrependeu-se um instante, o pequeno havia sido honesto — e depois se lembrou que havia cinquenta mil demônios esperando para comer seu mestre. Arrependimento dissolvido.
Pegou a plaquinha do morto, assumiu a aparência dele, marchou até a entrada da Gruta do Leão.
Havia fileiras de demônios em formação na entrada — bandeiras, lanças, drumores. A organização militar impressionou Sun Wukong. Esses três sabem o que estão fazendo.
Antes de entrar, pensou:
Os grandes demônios sabem meu nome e sabem que me transformo em mosca. Se entrar agora e alguém me reconhecer, não vou conseguir sair. Mas se ficar aqui fora, nunca sei o suficiente para proteger o mestre.
Solução: usar meu próprio nome para assustá-los antes de entrar.
Gritou, em voz rouca de patrulheiro, enquanto se aproximava das fileiras:
— Atenção! Aviso de inteligência! Sun Wukong foi visto afiando o bastão de ferro no riacho lá embaixo. O bastão já tem quarenta metros de comprimento e está ficando mais afiado. Ele disse que vai usá-lo primeiro nos demônios da porta!
As fileiras de demônios se agitaram como formigueiro perturbado. Os sussurros correram de fila em fila. Olhos grandes e assustados.
Sun Wukong continuou, cada vez mais alto:
— E disse mais! Que o bastão vai rolar pela montanha sul e matar cinco mil! Depois rolar pela norte e matar mais cinco mil! E depois do leste para o oeste vai matar o resto! E disse que os grandes demônios são os primeiros!
O resultado foi imediato. Os cinquenta mil demônios com nomes e plaquinhas simplesmente viraram e correram — para as florestas, para as rochas, para as cavernas menores, para qualquer lugar longe da entrada da gruta.
Sun Wukong ficou sozinho na estrada em frente à Gruta do Leão.
Funcionou. Agora vem a parte difícil.
Entrou.