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Rei Rinoceronte de Um Chifre

Também conhecido como:
Rei Rinoceronte Espírito Touro Verde Touro Verde

Antiga montaria de Taishang Laojun, este Touro Verde fugiu para a Montanha do Bolso Dourado levando consigo o Bracelete de Jade Diamante, um tesouro capaz de subjugar qualquer arma divina.

Rei Rinoceronte de Um Chifre Espírito Touro Verde Bracelete de Jade Diamante Montanha do Bolso Dourado Montaria de Taishang Laojun Rei Rinoceronte de Um Chifre e o Bracelete de Jade Diamante Espírito Touro Verde e Sun Wukong [object Object] Caverna Jindou Transformação de Bárbaros em Budas
Published: 5 de abril de 2026
Last Updated: 5 de abril de 2026

A Ruyi Jingu Bang sumiu, as pílulas de ouro dos Dezoito Arhats sumiram, o fogo do Senhor do Fogo sumiu, a água do Senhor da Água sumiu. Um único demônio, com um simples aro, esvaziou os arsenais do Palácio Celestial e da Lingshan. Esse demônio chama-se Rei Rinoceronte de Um Chifre, mora na Caverna do Bolso Dourado, na Montanha do Bolso Dourado; carrega uma lança de aço na mão e traz na cintura um aro de ferro reluzente — o Jingangzhuo. Ele não é nenhuma fera primitiva do caos, nem um deus demoníaco dos tempos antigos; ele é apenas aquele touro azul que o Taishang Laojun montou por quem sabe quantos milhões de anos. Um touro, que roubou um aro do dono, desceu ao mundo mortal para ser o rei da montanha por três anos, e conseguiu empurrar o Grande Sábio Igual ao Céu, Sun Wukong, para um dos becos mais escuros e desesperadores de toda a jornada em busca das escrituras.

A peculiaridade dessa batalha não está no quão forte o Espírito Touro Verde é — embora ele seja, de fato, poderosíssimo —, mas no fato de que a lógica do tesouro Jingangzhuo aniquilou completamente todas as estratégias de sobrevivência do Wukong. Não consegue vencer? Chama reforços. As armas dos reforços foram roubadas? Chama alguém mais forte. O tesouro do reforço mais forte também foi roubado? Chama outro. E quem veio depois também foi roubado. Diante da Montanha do Bolso Dourado, Wukong trouxe exércitos e falhou repetidamente; cada derrota era mais desesperadora que a anterior, pois ele percebeu que os recursos que podia mobilizar iam do topo do Palácio Celestial até a Lingshan, e mesmo as pílulas de ouro da Lingshan foram levadas por aquele aro. Quando até a solução de Rulai falhou, a luta deixou de ser sobre "subjugar um demônio" e virou "como quebrar esse impasse" — e a solução final não foi a força bruta, mas sim um velho puxando uma corda para levar seu touro de volta para casa.

O Touro do Palácio de Tusita: a montaria mais íntima de Taishang Laojun

A verdadeira forma do Rei Rinoceronte de Um Chifre é a de um touro azul, a montaria de Taishang Laojun. Na mitologia taoísta, a imagem de Laojun montando um touro azul ao sair pelo Passo de Hangu é um dos ícones mais clássicos — a anedota do "ar roxo vindo do oriente" está ligada a esse animal. Laozi partiu para o oeste montado em seu touro, deixou as cinco mil palavras do Tao Te Ching e desapareceu nos confins da história. Jornada ao Oeste incorpora esse mito diretamente na trama: o touro azul de Taishang Laojun não é um animal comum; ele acompanhou Laojun por eras incontáveis, respirando diariamente a aura imortal no Palácio de Tusita, e acabou se tornando um espírito cultivado.

No capítulo 52, quando Wukong descobre a origem do demônio, a reação de Taishang Laojun é curiosa. Primeiro ele fica atônito, depois corre para verificar: "Ao ouvir isso, Laojun apressou-se ao Palácio de Tusita e viu que, de fato, o touro azul partira e o Jingangzhuo sumira". Notem a ordem — ele pensou primeiro que "o touro partiu" e só depois percebeu que "o Jingangzhuo também sumiu". Isso mostra que, para Laojun, o touro não era apenas um meio de transporte, mas um companheiro com vontade própria. Sua partida não foi uma simples "fuga de animal", mas algo mais próximo de um indivíduo reprimido por muito tempo que aproveita a ausência do dono para escapar.

O momento escolhido pelo touro para descer ao mundo mortal também é intrigante. O texto original menciona que ele roubou o Jingangzhuo e fugiu enquanto Laojun estava "transformando bárbaros em budas". "Transformar bárbaros em budas" é um tema extremamente sensível na história religiosa chinesa — o taoísmo alegava que, após sair pelo Passo de Hangu, Laozi foi para Tianzhu, encarnou como o Buda e ensinou os bárbaros. Essa tese provocou disputas ferozes entre budistas e taoístas. Wu Cheng'en insere isso na história, superficialmente para explicar por que o touro teve a chance de roubar o objeto — o dono não estava em casa —, mas sugere algo mais complexo: quando Taishang Laojun foi "transformar bárbaros em budas", não conseguiu nem vigiar a própria montaria. Teria sido descuido ou haveria algo mais por trás?

Ao se estabelecer na Montanha do Bolso Dourado, o touro autodenominou-se "Rei Rinoceronte de Um Chifre". O "Sì" (rinoceronte) é uma criatura mítica de um único chifre descrita no Clássico das Montanhas e Mares, dotada de força descomunal e temperamento feroz. Ao escolher esse nome, o touro mostra que sua autopercepção mudou de "montaria de Laojun" para "rei demônio independente". Ele não se chamou de "Rei Touro Azul" nem de "Touro Fugitivo de Tusita"; ele escolheu o nome de uma fera ancestral — uma reconstrução total de sua identidade.

Jingangzhuo: o tesouro supremo que recolhe todas as armas do mundo

O Jingangzhuo é o coração de todo o arco da Montanha do Bolso Dourado e um dos tesouros mais desesperadores de toda a obra.

Sua função resume-se a uma palavra: laçar. Basta lançá-lo ao ar, um brilho dourado surge e, não importa o que o adversário esteja segurando, o aro o captura. Seja a Ruyi Jingu Bang, o pilão de subjugar demônios, a espada de cortar monstros ou as pílulas de ouro dos Dezoito Arhats — qualquer arma ou tesouro com forma física é recolhido pelo Jingangzhuo. Não importa a hierarquia, a facção ou o material; a única regra é: se você tem algo na mão, eu vou laçar e levar.

O terror desse poder reside na sua natureza indiscriminada. Outros tesouros de alto nível em Jornada ao Oeste possuem condições ou limites. A Cabaça de Ouro Roxo exige que o alvo responda ao chamado para capturá-lo; o Leque de Bananeira só consegue soprar fogo ou vento; a Bolsa das Sementes Humanas consegue prender pessoas, mas exige que se abra a boca na direção certa. O Jingangzhuo não tem restrição alguma — é o único tesouro do livro com "efeito incondicional". Não precisa de mantra, não precisa da cooperação do alvo, não exige pré-requisito; basta jogar.

No capítulo 50, no primeiro embate entre Wukong e o Espírito Touro Verde, a Ruyi Jingu Bang foi laçada. Esta é a primeira (e única) vez em todo o livro que Wukong perde permanentemente sua arma durante uma luta — não foi arremessada longe, nem esmagada, mas sim laçada por um aro e levada sem possibilidade de retorno. Para Wukong, a Ruyi Jingu Bang não era apenas uma arma; era a Agulha que Fixa o Mar do Palácio do Dragão do Mar do Leste, a base de seu combate estabelecida desde os tempos do Monte das Flores e Frutas. Sem ela, Wukong tornou-se como um general desarmado — ele ainda tinha as Setenta e Duas Transformações e a Nuvem Cambalhota, mas perdeu sua principal ferramenta de ataque.

O pior é que todas as armas que Wukong pegou emprestado do Palácio Celestial também foram recolhidas. Esse tesouro não é exigente — não importa a arma que você traga, ele a recolhe. Isso destruiu a estratégia de Wukong de "trocar por uma arma mais poderosa e tentar de novo".

A origem do Jingangzhuo também merece análise. Qual de todos os tesouros de Taishang Laojun ele era? No original, Laojun diz: "Aquele é o meu Jingangzhuo, também chamado de 'Aro de Diamante'. Naquela época, ao passar pelo Passo de Hangu para transformar bárbaros em budas, dependi inteiramente deste tesouro". Essa frase é reveladora: o Jingangzhuo não era apenas um objeto mágico, mas a ferramenta central usada por Laojun na "transformação de bárbaros em budas". Se esse ato envolvia a relação entre as facções budista e taoísta, o Jingangzhuo era, em certo sentido, a peça-chave que equilibrava a balança de poder — quem detivesse aquele aro teria a capacidade de "desarmar" qualquer adversário.

As sucessivas falhas de Wukong: do Palácio Celestial à Lingshan, tudo em vão

Após ter sua arma roubada, Wukong iniciou o ciclo mais longo de "busca por reforços" de toda a jornada. Cada rodada desse ciclo era mais sofisticada que a anterior — as pessoas chamadas eram cada vez mais poderosas, e os resultados, cada vez mais trágicos.

Primeira rodada: Wukong busca ajuda no Palácio Celestial. Li Jing, Rei Celestial Carregador da Torre envia Nezha com o exército celestial. Nezha chega à Montanha do Bolso Dourado imponente, com seus seis instrumentos mágicos (espada, faca, corda, pilão, bola de seda e roda de fogo). O resultado? Não durou um único turno — o Jingangzhuo foi lançado ao ar e os seis instrumentos de Nezha foram todos capturados. Nezha, de mãos vazias, fugiu humilhado. A primeira onda do exército regular do céu: armas confiscadas, dano zero.

Segunda rodada: Wukong chama o Senhor do Fogo. O ataque de fogo é o método convencional contra demônios. O Senhor do Fogo desce com o Fogo Verdadeiro Samadhi, incendiando tudo ao redor da Caverna do Bolso Dourado. O Espírito Touro Verde, parado na entrada da caverna, sem pressa, lança o Jingangzhuo — e o fogo sumiu. O Fogo Verdadeiro Samadhi é o fogo puro dos cinco elementos, de imenso poder, mas diante do Jingangzhuo, não passou de uma vela. O Senhor do Fogo voltou derrotado.

Terceira rodada: Já que o fogo não funcionou, tentam a água. Wukong chama o Senhor da Água, que inunda a Montanha do Bolso Dourado. Enquanto as águas torrenciais avançavam sobre a caverna, o Espírito Touro Verde repetiu o truque: lançou o Jingangzhuo — e a água sumiu. A formação de água do Senhor da Água sofreu a mesma sorte que o fogo do Senhor do Fogo: qualquer força com forma física era anulada pelo Jingangzhuo.

A essa altura, Wukong já havia esgotado todos os meios convencionais do Palácio Celestial: força bruta (Nezha), fogo (Senhor do Fogo) e água (Senhor da Água); as três frentes foram derrotadas. A raiz do problema não era a falta de poder desses imortais, mas a lógica de contra-ataque do Jingangzhuo: "recolher tudo o que tem forma". Não importava o método de ataque; se o método dependesse de um objeto concreto (uma arma, uma chama, um fluxo de água), o Jingangzhuo o levaria. Era uma anulação em "nível meta": ele não anulava o ataque em si, mas o ato de "usar uma ferramenta para atacar".

Após três fracassos consecutivos, Wukong caiu em um verdadeiro impasse. O sistema de força do Palácio Celestial era totalmente inútil contra o Espírito Touro Verde. Agora, ele só tinha um caminho: buscar socorro em um lugar ainda mais alto — a Lingshan.

Até a areia dourada dos Dezoito Arhats foi levada: o fracasso do plano de Rulai

Wukong voou até Lingshan para pedir audiência com o Buda Rulai. A reação de Rulai foi curiosa: ele não botou a mão na massa, mas mandou os Dezoito Arhats descerem ao mundo para ajudar na luta, presenteando-os com um tesouro especial: a areia dourada.

No sistema de tesouros budistas, essa areia dourada é coisa de valor inestimável. Ao mandar os Dezoito Arhats com ela, Rulai deixou claro que acreditava que tal artefato seria o suficiente para domar o Espírito Touro Verde. Chegando à Montanha Jindou, os Arhats montaram a formação de areia dourada, transformando a poeira amarela do céu em uma luz dourada que envolveu o Espírito Touro Verde. Era o "plano de ataque de precisão" de Lingshan — nada de armas, apenas a formação de areia.

Só que o final foi o mesmo de sempre. O Espírito Touro Verde lançou o Bracelete de Jade Diamante e — zás! — toda a areia dourada foi sugada. Os Dezoito Arhats ficaram ali, parados, com cara de bobos.

Essa cena causou um impacto muito maior do que as três derrotas anteriores. Quando o fogo do Senhor do Fogo foi levado, o leitor podia pensar: "ah, o fogo não era forte o bastante". Quando a água do Senhor da Água sumiu, dava para dizer: "a água não era o ponto fraco dele". Quando as seis armas de Nezha foram roubadas, dava para pensar que "Nezha não estava no nível". Mas a areia dourada dos Arhats era a solução escolhida a dedo por Rulai. O próprio Buda analisou a situação, fez um diagnóstico profissional e escolheu o tesouro que, segundo ele, garantiria a vitória — e mesmo assim, o Bracelete de Jade Diamante engoliu tudo. Isso significava que até o julgamento de Rulai tinha falhado.

Quando nem mesmo o plano do Buda Rulai funcionava, Wukong não estava mais diante de um problema de "não conseguir vencer", mas de um problema "sem solução". O Palácio Celestial tentou, Lingshan tentou; armas não serviram, fogo não serviu, água não serviu, nem a areia dourada. O Bracelete de Jade Diamante era como um buraco negro, devorando tudo o que jogassem nele.

Foi nesse momento que o modo de "pedir reforços", tão comum no livro, foi completamente estraçalhado. Em outras batalhas, os reforços que Wukong trazia ao menos conseguiam empatar a luta ou achar a fraqueza do monstro. Mas na Montanha Jindou, cada novo grupo de ajuda era apenas mais "comida" para o Bracelete de Jade Diamante. A cada pedido de socorro, o "arsenal" do Espírito Touro Verde crescia — ele amontoava todas as armas e tesouros roubados na caverna, desde o Ruyi Jingu Bang até as rodas de fogo e a areia dourada; tinha de tudo. Wukong estava, na verdade, ajudando o demônio a expandir seu armamento.

Depois que a areia dourada falhou, Rulai deu a Wukong uma informação crucial: "Este monstro tem uma origem extraordinária; vá ao Palácio de Tusita perguntar ao Taishang Laojun". Essa frase é uma das formas mais sutis de "tirar o corpo fora" em todo o livro. O recado de Rulai foi claro: "O problema não é de Lingshan, é que um touro do próprio Taoísmo de vocês fugiu". Essa fala muda o rumo da história de "caçar um demônio" para "cobrar responsabilidades": de quem é o touro? De quem é o curral? Quem vai dar um jeito nisso?

O "Transformar Bárbaros em Budas" de Taishang Laojun: a frase que desencadeou a guerra secreta entre Buda e Tao

A expressão "Transformar Bárbaros em Budas" é a pista mais política de todo o arco da Montanha Jindou.

Quando Wukong chega ao Palácio de Tusita para questionar Taishang Laojun, o mestre revela a origem do Bracelete de Jade Diamante: "Anos atrás, ao cruzar a Passagem de Hangu, transformei bárbaros em budas, e tudo isso graças a este tesouro". No livro, isso passa como um comentário banal, mas, no contexto da história das religiões chinesas, essa frase é uma bomba.

A ideia central de "Transformar Bárbaros em Budas" era a de que o Budismo não era uma religião estrangeira, mas sim algo fundado por Laozi em Tianzhu após sua viagem ao oeste — ou seja, o Buda seria, na verdade, a encarnação de Laozi. Essa teoria surgiu no Oriente own Han e, no período das Dinastias do Norte e do Sul, virou uma guerra de palavras interminável entre budistas e taoistas, com artigos, ataques mútuos e até a intervenção do Imperador para julgar a questão. Historicamente, a disputa terminou com a vitória do Budismo — na dinastia Yuan, Kublai Khan ordenou a queima do "Sutra da Transformação dos Bárbaros", negando oficialmente tal teoria.

Wu Cheng'en não colocou esse tema sensível em Jornada ao Oeste, e ainda fez Taishang Laojun dizer isso, por acaso. Na estrutura da narrativa, quando Laojun diz que "transformou bárbaros em budas graças a este tesouro", ele está declarando abertamente para as duas facções que a fundação do Budismo deveu ao seu Bracelete de Jade Diamante. Se isso chegasse aos ouvidos de Lingshan, seria uma provocação descarada.

E o mais sutil é que, após o fracasso com o Bracelete, Rulai diz a Wukong: "Vá perguntar ao Taishang Laojun". Ele não demonstrou raiva, nem rebateu a teoria de Laojun. Esse silêncio é carregado de sentido. A atitude de Rulai pode ser lida de duas formas: ou ele não se deu ao trabalho de responder a essa "propaganda taoista", ou ele sabia muito bem a origem e o poder do Bracelete e reconhecia que realmente não podia fazer nada contra ele — afinal, o criador do objeto era o líder dos Três Puros, Taishang Laojun, e, em termos de "nível tecnológico", o tesouro era superior a qualquer coisa em Lingshan.

Do ponto de vista narrativo, a batalha na Montanha Jindou expõe uma verdade que o livro tenta evitar: na jornada pelas escrituras, as facções budista e taoista fingem cooperar (imortais taoistas ajudam a bater em monstros, Bodhisattvas budistas protegem o caminho), mas no fundo existe uma tensão irreconciliável sobre "quem manda mais". No instante em que o Bracelete sugou a areia dourada, essa tensão veio à tona — o tesouro do nível mais alto do Taoísmo subjugou, sem esforço, o tesouro do nível mais alto do Budismo. Não foi a vitória do Espírito Touro Verde, mas a aniquilação do "sistema tecnológico budista" pelo "sistema tecnológico taoista" representado pelo Bracelete.

Puxado pelo nariz: o final padrão para demônios de montaria

Quando Taishang Laojun chega à Montanha Jindou, a maneira como ele doma o Espírito Touro Verde é de uma simplicidade extrema: primeiro, ele usa o leque de bananeira para soprar um fogo verdadeiro, forçando o demônio a revelar sua forma original — um touro azul gigantesco. Então, Laojun caminha até ele, passa uma corda pelo anel de ferro no nariz do bicho e o leva embora, puxando-o.

Não houve luta. Não houve duelo de magias. Nem discussão. Foi apenas um senhor levando seu touro fugitivo de volta para casa.

O sentimento de "anticlímax" aqui é fortíssimo. Antes disso, quantos reforços Wukong trouxe? Veio Nezha, veio o Senhor do Fogo, veio o Senhor da Água, vieram os Dezoito Arhats. O céu e a terra se esvaziaram de divindades; tentaram fogo, água, areia, e tudo falhou. Todo o sistema militar dos três reinos estava de mãos atadas diante daquele touro. Aí chega Laojun — sem exército, sem generais, sem tesouros mirabolantes — trazendo apenas um leque de bananeira e uma corda. O leque revelou a forma original, a corda passou pelo nariz e pronto. Como um camponês recuperando seu animal de carga.

Esse final revela a natureza exata dos "demônios de montaria" em Jornada ao Oeste: o poder deles não vem de si mesmos, mas de tesouros roubados. Sem o Bracelete de Jade Diamante, o Espírito Touro Verde era apenas um touro forte — ele sabia lutar, mas não o suficiente para parar os três reinos. O Bracelete era a verdadeira ameaça. E, no fim das contas, o tesouro pertence ao dono; quando o dono chega, ele recupera o que é seu. Portanto, a chave para domar o Espírito Touro Verde não era "derrotá-lo", mas "encontrar seu dono".

Esse padrão se repete no livro. O Rei Chifre de Ouro e o Rei Chifre de Prata roubaram a Cabaça de Ouro Roxo e o Vaso Puro de Jade de Laojun, e no fim Laojun veio buscar. O Rei Demônio Sobrancelha Amarela roubou a Bolsa das Sementes Humanas e os Címbalos Dourados de Maitreya, e no fim Maitreya veio buscar. O Espírito Touro Verde roubou o Bracelete de Laojun, então, claro, Laojun veio buscar. O direito de propriedade decide o final — não importa o estrago que o demônio faça com o tesouro roubado, tudo volta ao zero quando o dono aparece.

Mas o destino do Espírito Touro Verde tem uma camada a mais de significado. O ato de Laojun passar a corda pelo nariz não é apenas "recuperar a montaria", é um símbolo de domesticação. O anel de ferro no nariz do boi é a marca da domesticação humana — touros selvagens não têm anel; apenas aqueles que foram domados para o trabalho são marcados assim. Ao recolocar o anel no nariz do touro, Laojun reafirma uma ordem que havia sido quebrada: "você é o animal, eu sou o dono". Você fugiu, brincou de ser rei por três anos, gozou de liberdade e poder, mas no seu nariz sempre haverá um furo esperando por uma corda.

Wukong, assistindo a tudo aquilo, deve ter sentido um aperto no peito. Ele também já foi "domado" — a argola em sua cabeça e o anel no nariz do touro são, na essência, a mesma coisa. A única diferença é que Wukong a colocou "voluntariamente" (embora tenha sido enganado), enquanto o touro foi forçado. Mas, seja por vontade ou por força, a função é a mesma: fazer você agir dentro de um limite e, se tentar pular a cerca, há uma corda para te puxar de volta.

Enquanto Laojun levava o touro de volta ao Palácio de Tusita, ele aproveitou para recolher o Bracelete de Jade Diamante. O Ruyi Jingu Bang e as outras armas roubadas também voltaram aos seus donos. A tempestade passou. A Montanha Jindou voltou a ser uma montanha comum, e a caverna ficou vazia, sem nem a sombra de um pequeno demônio.

Se esse touro, lá no Palácio de Tusita, ainda se lembra de ter sido o "Rei Rinoceronte de Um Chifre" por três anos, o livro não diz. Mas aquele anel estará sempre lá, lembrando a ele — e ao leitor — que, no mundo de Jornada ao Oeste, a liberdade tem um preço, e o preço para uma montaria é aquele furo no nariz.

Personagens Relacionados

  • Taishang Laojun: O dono do Espírito Touro Verde, o primeiro dos Três Puros e quem forjou o Bracelete de Jade Diamante. Desceu pessoalmente ao mundo mortal para recuperar sua montaria usando a técnica de passar o anel no nariz, sendo o único capaz de resolver o impasse na Montanha do Bolso Dourado.
  • Sun Wukong: Na batalha da Montanha do Bolso Dourado, passou pelas maiores sucessões de fracassos ao tentar convocar reforços durante toda a jornada. Após ter a Ruyi Jingu Bang roubada pelo Bracelete de Jade Diamante, ficou de mãos vazias, precisando ir do Palácio Celestial até Lingshan para finalmente descobrir a origem do demônio.
  • Buda Rulai: Enviou os Dezoito Arhats com a areia do elixir dourado para ajudar na luta, mas a areia também foi sugada pelo Bracelete de Jade Diamante. Com o fracasso do plano, orientou Wukong a buscar respostas no Palácio de Tusita.
  • Nezha: Por ordem de Li Jing, Rei Celestial Carregador da Torre, liderou as tropas celestiais para combater o Espírito Touro Verde, mas todos os seus seis tesouros mágicos foram levados pelo Bracelete de Jade Diamante, fazendo-o voltar de mãos vazias.
  • Tang Sanzang: Foi capturado pelo Espírito Touro Verde na Montanha do Bolso Dourado e preso na caverna junto com Zhu Bajie e Sha Wujing, aguardando que Wukong trouxesse socorro para libertá-los.

Perguntas frequentes

Qual é a função do Jingangzhuo e por que dizem que é o tesouro mais absurdo de todo o livro? +

Basta lançar o Jingangzhuo ao ar para que ele tome, sem qualquer condição, qualquer arma ou tesouro que o adversário esteja segurando, não importa o nível, o material ou a facção, e sem precisar de qualquer gatilho para ser ativado. Ele não anula um ataque específico, mas sim o próprio ato de "usar…

Quais reforços Sun Wukong trouxe para a Montanha Jindou e qual foi o resultado? +

Wukong trouxe, um após o outro, Nezha e seus soldados celestiais (que tiveram todos os seis instrumentos mágicos roubados), o Senhor Estelar do Fogo (cujo Fogo Verdadeiro Samadhi foi recolhido) e o Senhor Estelar da Água (cuja formação de água foi recolhida). Por fim, pediu ajuda à Lingshan, que…

Qual a origem do Jingangzhuo e qual a sua relação com a "Transformação dos Bárbaros em Budas"? +

O próprio Taishang Laojun disse que o Jingangzhuo foi o item central no qual ele "se apoiou totalmente ao atravessar a Passagem de Hangu para transformar os bárbaros em Budas". A "Transformação dos Bárbaros em Budas" é a teoria taoísta de que Laozi viajou para o oeste e se encarnou como o Buda,…

O que o Rei Rinoceronte de Um Chifre é de Taishang Laojun e como ele conseguiu descer ao mundo mortal? +

Ele é o Touro Verde, a montaria de Taishang Laojun. Seguiu o mestre por quem sabe quantos milhares de anos, tornando-se um espírito ao ser banhado pelo aroma da imortalidade. Aproveitando que Laojun estava fora do Palácio de Tusita para "transformar os bárbaros em Budas", ele roubou o Jingangzhuo e…

Como Taishang Laojun domou o Espírito Touro Verde e por que todo o poder dos Três Reinos foi inútil? +

Laojun chegou à Montanha Jindou e, com o Leque de Bananeira, soprou o fogo verdadeiro para forçar o Touro Verde a revelar sua forma original; então, caminhou até ele, passou uma corda em seu nariz e o levou de volta ao Palácio de Tusita, tudo isso sem precisar lutar. O poder dos Três Reinos foi…

Quais as semelhanças e diferenças entre o Rei Rinoceronte de Um Chifre e os Reis Chifre de Ouro e de Prata? +

Os três são montarias ou meninos imortais ligados a Taishang Laojun que desceram ao mundo mortal para causar desastres após roubarem seus tesouros. A diferença é que o Chifre de Ouro e o de Prata eram os meninos que cuidavam da fornalha no Palácio de Tusita e agiam ativamente criando armadilhas para…

Aparições na história

Tribulações

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