Capítulo 50: Emoções Perturbam a Natureza por Causa do Desejo Amoroso; O Espírito Confuso e o Coração Perturbado Encontram o Chefe dos Demônios
Após cruzar o Rio Celestial, os peregrinos encontram outra montanha nevada. Sun Wukong vai buscar comida, deixando o mestre em um círculo mágico. Mas Zhu Bajie convence Tang Sanzang a sair do círculo, e os três entram numa mansão encantada onde Bajie e Sha Wujing são capturados pelo Rei Búfalo de Chifre Único. Sun Wukong encontra um ancião — na verdade o Deus da Montanha — que lhe diz onde fica o covil.
A montanha depois do Rio Celestial era do tipo que os geógrafos não sabem descrever bem porque a escala engana — ela aparecia no horizonte como uma coisa de tamanho razoável e depois não diminuía conforme se avançava. Pelo contrário: crescia, revelando picos atrás dos picos que já eram visíveis, desdobrando-se em profundidade como uma pintura que alguém continuasse acrescentando camadas enquanto o observador tentava olhá-la de fora. Até que o caminho deixou de ser caminho e virou trilha, e a trilha deixou de ser trilha e virou passagem entre paredes de rocha e neve que não deixava ver mais do que dez passos à frente.
A neve estava em todo lugar com a persistência de neve que havia caído há muito mas que o sol de altitude nunca chegava a derreter completamente — compactada em camadas que registravam estações diferentes, branca na superfície e azulada nas camadas mais antigas, cruzada por marcas de garras e cascos que pertenciam a animais que não apareciam mas que estavam ali.
Tang Sanzang parou o cavalo numa plataforma rochosa onde o caminho alargava ligeiramente antes de voltar a estreitar. O cavalo branco ficou imóvel com a paciência de animal que conhece o valor do repouso quando ele é oferecido. O mestre desceu com os movimentos cuidadosos de quem havia aprendido que a rocha coberta de neve gelada é uma das superfícies que menos perdoa distrações.
— Discípulo — disse ele —, estou com fome.
Era uma afirmação simples com uma complexidade por trás: haviam caminhado desde o amanhecer sem parar para comer, motivados pela urgência de ganhar distância da margem do Rio Celestial e do que havia acontecido lá. Mas urgência e fome não negociavam entre si, e o corpo do mestre — que havia atravessado mais estradas do que a maioria dos seres humanos veriam em três vidas — tinha os seus próprios limites que o espírito não podia simplesmente anular por vontade.
— Mestre, há uma aldeia além daquele vale — disse Sun Wukong, apontando para uma quebra nas rochas à frente onde o terreno parecia abrir-se. — Posso ir e voltar rápido com provisões.
— E quanto tempo é rápido?
— O tempo de uma xícara de chá quente. Menos, se a aldeia estiver próxima.
Tang Sanzang olhou para o vale. Olhou para a neve. Olhou para o pico que se erguia além do vale com a qualidade de coisas que não têm pressa porque o tempo não é o seu problema.
— E antes de ir — disse Sun Wukong — vou deixar algo aqui.
Tirou o bastão da orelha, desdobrou-o até o comprimento de um homem alto, e apontou-o para o chão como uma bússola descendo ao solo. Traçou um círculo ao redor do grupo — mestre, dois discípulos, cavalo, toda a bagagem — com a concentração específica de quem não está apenas desenhando uma linha mas inscrevendo uma intenção no espaço. O bastão se movia com a regularidade de um compasso, e onde passava o chão ficava marcado com uma linha que era mais visível do que a pressão física do bastão justificaria, como se o solo reconhecesse a autoridade do que estava sendo escrito sobre ele.
O círculo tinha o diâmetro de uma sala grande e foi completado em silêncio.
— Este círculo — disse Sun Wukong, ficando de pé no centro antes de sair — é mais forte do que uma muralha de ferro contra tudo que vem de fora. Nenhum tigre, lobo, demônio, fantasma ou espírito de qualquer categoria pode atravessar essa linha em direção a vocês. — Parou. Olhou diretamente para Bajie. — Mas a proteção funciona apenas enquanto vocês estiverem dentro. Se saírem, não há proteção.
— Entendemos — disse Tang Sanzang.
Sun Wukong continuou olhando para Bajie por um momento a mais do que o necessário para a instrução — o tipo de olhar que não é acusação mas é o equivalente de escrever algo em letras maiores do que o restante do texto para indicar que este ponto específico importava de uma forma que os outros pontos não importavam da mesma forma.
— Você ouviu — disse ele para Bajie.
— Ouvi — disse Bajie, com a expressão de alguém que estava ouvindo mas que considerava que a repetição da instrução era ligeiramente excessiva.
Sun Wukong saltou para o ar e foi para o sul em busca da aldeia, o bastão na mão e os olhos dourados varrendo o terreno à procura de fumaça de cozinha, de telhados, dos sinais que as habitações humanas deixam mesmo nas montanhas mais remotas.
O tempo de uma xícara de chá quente é, nas montanhas nevadas do oeste, subjetivo.
Bajie ficou dentro do círculo por um tempo que era objetivamente curto mas que, da perspectiva de alguém que havia caminhado desde o amanhecer e que estava olhando para o que parecia uma mansão habitada a menos de meio li de distância, parecia extenso. O vento da montanha passava pelo círculo com liberdade suficiente para ser desconfortável — Sun Wukong havia dito que o círculo bloqueava o que vinha de fora com intenção de prejudicar, mas o vento não tinha intenção, apenas direção, e o frio do vento de altitude era genuíno.
— Está frio aqui — disse Bajie.
— É uma montanha nevada em novembro — disse Sha Wujing, ajustando o cobertor sobre os ombros com o pragmatismo de alguém que havia aceito que o frio era uma condição e não um problema.
— Não temos abrigo do vento.
— O círculo —
— O círculo bloqueia demônios, não vento. Coisas diferentes. — Bajie apontou para a mansão além do vale curto, da qual chegavam sinais de habitação: o contorno de chaminés contra o céu cinzento, a qualidade dos telhados curvados que sugeriam construção permanente e não improviso, janelas com o brilho distante de lâmpadas internas contra a tarde que escurecia. — Aquela mansão tem paredes e telhado e muito provavelmente um fogão. Ficamos lá até ele voltar com a comida.
Tang Sanzang olhou para a mansão. Era de fato visível — a distância não era grande, o caminho entre o círculo e a mansão era descida suave, e havia algo no aspecto da construção que sugeria ocupação regular.
— Sun Wukong disse que havia algo naquela direção — disse o mestre.
— Sun Wukong vê demônios em tudo — disse Bajie, com a firmeza de alguém apresentando um argumento que acredita ser sólido. — É uma característica útil em muitas situações, mas resulta em excesso de cautela em situações onde não há demônio algum. Aquela é muito provavelmente uma casa de família com fogão aceso e pessoas dentro que nos receberiam com hospitalidade se soubessem que éramos monges peregrinos.
— Discípulo — disse Tang Sanzang — a instrução era clara.
— A instrução protegia-nos de coisas vindas de fora. Nós íamos sair de dentro. A proteção ia ficar aqui, sem uso, enquanto nós ficávamos com frio desnecessário. — Bajie já estava se movendo para a borda do círculo com a qualidade de movimento de quem está construindo impulso suficiente para não parar. — Venha, mestre. Sha Wujing, traga o cavalo. Quando Sun Wukong voltar com a comida, já sabemos onde estamos.
Tang Sanzang ficou parado por um momento no centro do círculo.
Era exatamente o tipo de momento que a peregrinação havia criado repetidamente ao longo dos anos — o momento em que dois argumentos razoáveis apontavam em direções diferentes e não havia como saber, a partir de dentro do momento, qual era o correto. O argumento de Sun Wukong era a instrução direta baseada na experiência de quem havia identificado perigo. O argumento de Bajie era o senso prático de quem notava frio real e distância pequena e probabilidade aparente de lugar habitado e seguro.
E havia também, se Tang Sanzang fosse honesto consigo mesmo — e o monge era sistematicamente honesto consigo mesmo em formas que às vezes o machucavam — a tentação da mansão. O calor. O descanso. A possibilidade de chegar a algum interior aquecido antes que a tarde fechasse completamente e a montanha ficasse na escuridão que as montanhas nevadas têm à noite, uma escuridão que não tem analogia em planícies.
Cruzou a linha do círculo.
A mansão era maior por dentro do que parecia por fora — esse era o primeiro sinal, mas chega quando já se está dentro.
Três pátios internos conectados por portões de pedra talhada, salas com tetos suficientemente altos para acomodar algo grande, corredores que se ramificavam em direções que não correspondiam exatamente ao que a planta externa sugeria. Era a arquitetura de um lugar construído para uso específico e não para habitação comum — ou que havia sido habitação comum em algum momento e havia depois mudado de propósito sem que a estrutura fosse reformada para revelar a mudança.
Completamente vazia.
Sem mobília no primeiro pátio. Sem tapetes nos corredores. Sem os objetos ordinários que os espaços habitados acumulam — sem o cântaro de água no canto, sem as ferramentas encostadas na parede, sem o cheiro de cozinha que lugares onde se cozinha sempre têm mesmo quando não estão cozinhando.
Bajie foi adiante com a expressão de alguém que está revisando uma hipótese sem ainda abandona-la completamente. Percorreu o segundo pátio, subiu uma escada de pedra escura polida por uso antigo, e encontrou uma câmara com uma cama de marfim que havia sido, em algum momento, móvel de qualidade. Sobre a cama havia uma pilha que levou dois segundos para identificar porque o contexto atrasava a conclusão que os olhos ofereciam: ossos. Brancos, limpos, organizados com a organização específica de ossos que foram colocados ali em vez de terem chegado ali por acidente.
Bajie ficou olhando para os ossos por um tempo.
— Isso não é uma casa — disse ele eventualmente, em voz que chegava ao pátio abaixo.
— Disse antes — disse Sha Wujing do pátio, sem levantar os olhos da bagagem que estava verificando.
Ao lado da cama havia uma mesa de madeira escura, e sobre a mesa três coletes acolchoados de seda bordada com motivos de nuvens e pinheiros — o tipo de roupa que uma família abastada mandaria fazer para o inverno de alguém que amava, com a atenção ao bordado que só se justifica quando a roupa é para alguém que importa. Bem feitos. Quentes. Completamente fora de lugar numa câmara com ossos numa mansão vazia.
Bajie pegou os três.
— Para nós três — disse, descendo a escada. — O frio é real mesmo que os donos sejam demônios.
— Não pegue — disse Tang Sanzang, que estava parado no centro do segundo pátio com a expressão de alguém que havia chegado a uma conclusão e preferia não tê-la chegado.
— Não há ninguém aqui para perguntar.
— A ausência do dono não converte a propriedade em bem sem dono. Isso é sofisma.
— Sofisma é argumento falso — disse Bajie. — Esse argumento é pragmático. Se não há como perguntar, age-se com base no que está disponível, que é o objeto e a necessidade. — Estendeu um colete para Tang Sanzang. — Experimente. Está frio.
Tang Sanzang não pegou o colete.
Bajie colocou o dele. Sha Wujing, que havia subido e ouvido o argumento, ficou olhando para o colete estendido na mão de Bajie por um momento com a expressão de alguém pesando algo num nível mais profundo do que a discussão de propriedade e sofisma. Depois o pegou.
O primeiro colete apertou no momento exato em que Bajie completou o nó.
Não apertou como roupa que encolheu em água fria — apertou com a precisão mecânica de uma armadilha, o tecido bordado transformando-se em cordas que passavam pelos braços com uma velocidade que não correspondia a nenhuma propriedade do tecido, prendendo os cotovelos atrás das costas com a firmeza de algo que havia sido fabricado para prender e que havia esperado pelo momento correto para fazer o que havia sido fabricado para fazer. O colete de Sha Wujing fez o mesmo simultaneamente — os dois discípulos caíram ao chão do pátio presos pelas próprias roupas com o som de dois corpos grandes encontrando pedra de forma involuntária.
Tang Sanzang ficou parado.
— Disse que não pegassem — disse ele, com a voz de alguém que preferia muito estar errado.
A mansão fez um som que não pertencia a nenhuma categoria de sons naturais — não vento, não madeira que assenta, não o ruído de estrutura respondendo a temperatura. Era o som de algo de tamanho considerável dobrando-se sobre si mesmo, a geometria da construção sendo redefinida, como se o espaço ao redor deles tivesse decidido ser outra coisa. Os telhados curvaram-se para dentro. As paredes aproximaram-se. Os portões entre os pátios fecharam e depois desapareceram na pedra como se nunca tivessem existido. O segundo pátio, o terceiro, os corredores — tudo contraiu com a velocidade de papel úmido sendo espremido por mãos que não eram visíveis mas cujo efeito era implacável.
Em dez respirações, onde havia estado uma mansão de três pátios havia pedras e neve e o vento da tarde que não havia parado de correr.
E ao redor das pedras, como se tivessem estado ali o tempo todo e apenas precisassem da dissolução da ilusão para ficarem visíveis, havia demônios.
O demônio no centro era grande com a grandeza que resulta não de acidente genético mas de cultivo deliberado — algo que havia crescido além do seu tamanho natural porque havia decidido que tamanho era uma declaração de intenção. Um único chifre proeminente na testa, de osso espesso e cor de âmbar escurecido pelo tempo, curvando-se levemente para a frente como um gancho. Os olhos tinham a cor de metal em fusão, não o vermelho dos demônios de ira mas o laranja profundo de ferro que esquenta além do vermelho — a temperatura de algo prestes a tornar-se outra coisa.
Havia nos seus movimentos a qualidade de quem não precisa de pressa porque havia calculado que a pressa era desnecessária nesta situação específica.
— Monge Tang — disse ele, com a voz de alguém chegando à conclusão de um processo longo. — Faz meses que ouço dizer que um monge de virtude sem igual viaja do leste para o oeste. Que comer um pedaço da sua carne prolonga a vida por mil anos. — Olhou para Bajie e Sha Wujing presos no chão com a expressão de alguém examinando parte de uma operação que havia funcionado conforme planeado. — Seus dois discípulos grandes tentaram resistir. Os coletes resolveram isso mais eficientemente do que o combate teria resolvido. — Voltou os olhos para Tang Sanzang. — O terceiro discípulo está ausente. Quando voltar, também estaremos preparados.
Tang Sanzang ficou de pé no centro do que havia sido o segundo pátio e agora era chão de neve com pedras ao redor. Ficou de pé com as mãos juntas na postura que mantinha quando a situação era grave demais para qualquer resposta que não fosse a postura que havia praticado ao longo de décadas — não indiferença, não coragem performática, mas a disposição de alguém que havia decidido muito tempo atrás o que era e que não havia nada neste momento que mudasse isso.
— Seja o que for que você pretenda — disse o mestre — não posso impedir pela força. Mas posso dizer que esta jornada tem proteção que vai além do que os meus discípulos podem oferecer.
— Proteção celestial — disse o Rei Búfalo de Chifre Único com algo que era próximo de respeito e não era distante de ironia. — Conheço a proteção celestial. Tenho um anel que captura os instrumentos dessa proteção. — Fez um gesto para os seus subordinados levarem os três para o covil. — O quarto discípulo vai querer aquele bastão. Quando vier buscá-lo, o bastão vai estar dentro do anel.
Sun Wukong voltou ao círculo com uma tigela de mingau de arroz ainda quente, comprada na aldeia que havia encontrado a quatro li além do vale, carregada com o cuidado de algo que não podia ser derramado. Desceu das nuvens com a leveza de alguém que havia feito uma missão simples e esperava encontrar o que havia deixado.
Encontrou o chão riscado vazio.
O círculo estava intacto na pedra — as marcas do bastão ainda legíveis, o traçado completo sem nenhum ponto de entrada forçada. Nada havia entrado de fora. O que havia saído de dentro havia saído voluntariamente.
Ficou de pé no centro do círculo com a tigela de mingau na mão.
Não havia rastros de combate. Não havia marcas de resistência. Não havia nada exceto a ausência, que era ela própria uma forma de mensagem — a mensagem específica de uma ausência voluntária, de quatro pessoas e um cavalo que haviam cruzado uma linha que haviam sido instruídos a não cruzar.
Baixou os olhos para a neve ao redor do círculo. Cascos de cavalo — o cavalo branco tinha um passo peculiar que Sun Wukong havia aprendido a reconhecer ao longo de meses. As pegadas do mestre, pequenas e regulares. O rastro mais amplo e mais pesado de Bajie. O passo mais longo de Sha Wujing. Todos saindo do círculo na mesma direção: para a mansão que estava a meio li ao norte.
Onde a mansão havia estado havia agora pedras e neve perturbada e o cheiro residual de algo que havia exercido poder considerável num espaço pequeno recentemente — o cheiro que as transformações demoníacas deixam quando são grandes e rápidas, como fumaça depois que o fogo vai embora.
— Bajie — disse Sun Wukong em voz baixa, não como chamado mas como confirmação de um diagnóstico que não precisava de resposta.
Havia numa parte pequena da sua experiência deste momento — uma parte que ele não teria nomeado em voz alta para ninguém — algo próximo de desgosto próprio. Não pela falta do mestre, que era circunstância externa. Mas pela previsibilidade do que havia acontecido. Havia dado uma instrução clara. Havia olhado diretamente para Bajie com a ênfase que a instrução merecia. E havia ido buscar comida porque o mestre tinha fome e porque a missão era dele fazer.
E Bajie havia feito o que Bajie fazia.
E o mestre havia seguido porque o mestre era quem era, e quem era não estava construído para ficar parado num círculo enquanto havia calor a meio li de distância e um discípulo argumentando que era razoável ir.
Sun Wukong colocou a tigela de mingau no chão dentro do círculo com um cuidado que era ao mesmo tempo absurdo — não havia ninguém para comer — e a única coisa razoável a fazer com ela naquele momento, que era pô-la com cuidado e partir.
Subiu ao alto do terreno baldio e olhou ao redor com os olhos dourados que não perdiam escala. Na encosta norte, além de três cristas rochosas cobertas de neve, havia uma coluna de fumaça que não era de fogão doméstico — era a fumaça específica de um lugar subterrâneo com ventilação inadequada, o sinal de um covil com profundidade considerável. E perto da coluna de fumaça, numa saliência rochosa onde a neve havia sido varrida pelo vento, havia uma figura de ancião observando o terreno baldio abaixo com a atenção de alguém que havia chegado cedo para um encontro e estava esperando que a outra parte chegasse.
Sun Wukong desceu até a saliência em trinta passos.
O ancião tinha roupa de inverno pesada de tecido preto, um cajado de madeira escura que terminava numa cabeça de dragão entalhada, e um menino atrás dele carregando um galho de ameixa branca com as flores abertas apesar da neve — detalhe impossível que era, em si mesmo, um sinal de natureza não ordinária. O ancião estava de pé com a postura de alguém que não estava apenas esperando mas estava esperando especificamente por Sun Wukong.
— Ancião — disse Sun Wukong — você viu o que aconteceu aqui.
Não foi pergunta.
— Vi o monge Tang e os dois discípulos entrarem na mansão do demônio — disse o ancião. — Vi a mansão contrair e desaparecer. Vi você chegando agora ao terreno.
— Qual demônio.
— O Rei Búfalo de Chifre Único — disse o ancião. — Aquela montanha à frente é a Montanha Dourada. O covil fica no flanco norte, atrás da terceira crista de rocha que vê daqui.
— Que tipo de poder tem esse demônio?
— Poder considerável — disse o ancião. — E tem um anel.
— Que tipo de anel.
— O tipo que captura armas que entram dentro da sua abertura. Qualquer arma que seja lançada contra ele — Sun Wukong interrompeu a frase com um movimento mínimo da mão que era pergunta.
— Qualquer arma?
— O anel tem sido usado para capturar armas de dezoito categorias diferentes. Não sei se há exceção.
Sun Wukong ficou em silêncio por um momento processando isso. O bastão dourado havia sido forjado pelo Velho Senhor Supremo em pessoal, havia sobrevivido ao forno dos Nove Elixires, havia resistido a todos os golpes de todas as batalhas desde que ele o havia retirado do fundo do Mar Leste. A ideia de um anel que capturava o bastão era do tipo de problema que a experiência não tornava mais fácil de receber — era simplesmente novo, na categoria de problemas que precisavam de soluções que ainda não existiam.
O ancião e o menino dobraram os joelhos juntos e se prostraram. A forma humana dissipou-se com a suavidade de algo que havia sido mantido com esforço e que agora podia ser pousado — o Deus da Montanha e um auxiliar espiritual, curvados diante do Grande Sábio com a qualidade de seres que conheciam a hierarquia e que sabiam que neste momento haviam feito o que era possível para eles fazer.
— Pequenas divindades não podem intervir além de informar — disse o Deus da Montanha, com a voz que os deuses menores usam quando querem que o ser mais poderoso entenda o que está sendo pedido sem que o pedido seja formulado diretamente. — O Grande Sábio pode.
Sun Wukong olhou para a Montanha Dourada. Três cristas de rocha cobertas de neve, cada uma mais alta que a anterior, com o covil do Rei Búfalo de Chifre Único no flanco norte além da terceira. O mestre lá dentro. Bajie e Sha Wujing lá dentro. E um anel que capturava o bastão.
Há problemas que se resolvem com força, e Sun Wukong havia resolvido a maioria dos problemas da peregrinação com força porque eram problemas que a força resolvia. E há problemas que a força sozinha não resolve — que precisam de algo adicional, de uma estratégia que não começa com o bastão mas que pode terminar com ele uma vez que a estratégia tenha criado as condições corretas.
Este era o segundo tipo.
Guardou o bastão na orelha. Olhou para a terceira crista. Começou a andar.
O Deus da Montanha e o auxiliar espiritual ficaram para trás na saliência observando o Grande Sábio avançar na neve com a postura de alguém que ainda não tinha o plano completo mas que havia decidido que o plano seria encontrado em movimento — porque era sempre em movimento que os planos de Sun Wukong chegavam, não sentado a esperar que a solução viesse ter com ele, mas avançando em direção ao problema com a confiança de quem havia aprendido, em setenta anos de existência e quinhentos de confinamento e meses de estrada, que os problemas que se avançava ao encontro eram menores quando se chegava a eles do que quando se ficava parado a contemplar o tamanho deles de longe.
A neve crincava sob os seus pés. O vento da montanha vinha do norte com o cheiro de rocha fria e altitude. Algures atrás da terceira crista, o mestre esperava com as mãos juntas e a expressão de alguém que sabia que a ajuda estava a caminho porque havia sempre estado a caminho — porque era a natureza das coisas, nesta peregrinação, que quando o mestre estava em perigo, o discípulo estava em movimento.
E o discípulo estava em movimento.