Capítulo 51: O Coração do Macaco Emprega Mil Estratagemas — Água e Fogo Nada Podem Contra o Demônio
Sun Wukong perde seu Bastão de Ouro para o Demônio do Rinoceronte e busca ajuda nos céus, mas nem o fogo nem a água conseguem derrotar o monstro e seu poderoso anel.
Sun Wukong sentou-se na encosta da Montanha Dourada com as mãos vazias e os olhos marejados. Havia lutado com afinco, exibido toda a sua astúcia, e mesmo assim o demônio lhe arrancara o Bastão de Ouro com uma facilidade que lhe gelava o sangue.
— Mestre — murmurou ele para o vento, como se Tang Sanzang pudesse ouvi-lo desde dentro daquela caverna maldita —, prometi protegê-lo em cada passo desta jornada. Como posso cumprir essa promessa com os punhos vazios?
Fungando e enxugando uma lágrima teimosa com as costas da mão, Sun Wukong levantou-se. A tristeza era um luxo que não podia se permitir por muito tempo. O demônio havia dito algo no meio da batalha — algo que revelava familiaridade, que sugeria não ser este um monstro comum nascido nas profundezas da terra. Havia naquele ser algo celestial, algo que cheirava a origem divina.
Preciso descobrir quem é esta criatura, pensou ele. E para isso, preciso ir ao céu.
Num instante, sua nuvem de ouro varreu os ares e ele cruzou o Portal Sul do Paraíso. O General Guangmu veio ao seu encontro com uma reverência educada.
— Grande Sábio, aonde vai?
— Preciso ver o Imperador de Jade. Tenho assuntos urgentes.
Passou pelos quatro marechais, pelos guardas das estrelas, pelas salas luminosas, e finalmente prostrou-se diante do Trono de Jade. O Imperador olhou para ele com aquela expressão serena que tanto lhe irritava e tanto lhe confortava ao mesmo tempo.
— Velho senhor — disse Sun Wukong, numa das suas reverências que misturavam respeito genuíno com irritação mal disfarçada —, perdoe a intromissão. Estou a serviço de Tang Sanzang, que agora se encontra preso dentro de uma caverna por um demônio das mais estranhas capacidades. Esta criatura reconhece minha fama; conhece minhas histórias. Isso me diz que ela tem origem celestial. Peço que Vossa Majestade ordene uma investigação: há algum ser deste paraíso que desceu ao mundo sem autorização?
O Imperador enviou o magistrado Ke Han para percorrer os três e trinta e três céus, os vinte e oito grandes astros, as estrelas dos quatro pontos cardeais, os planetas dos sete sistemas — não encontrou nenhuma ausência. Todo o panteão celeste estava em seu posto.
Wukong esperou na varanda do Portão Sul, sentado nas nuvens, compondo versinhos na cabeça enquanto observava o espaço estrelado como se fosse um campo de batalha que ainda não entendia completamente.
Quando o magistrado voltou com o relatório negativo, o Imperador de Jade, em sua magnanimidade, concedeu a Wukong o direito de escolher guerreiros celestiais para auxiliá-lo. Sun Wukong não hesitou muito.
— Envie Li Tianwang e seu filho Nezha — pediu ele. — Eles têm armas específicas para subjugar demônios. Deixa eles tentarem primeiro. Se não funcionar, pensamos em outra coisa.
E assim Li Tianwang, o Rei Celestial que Carrega a Torre, desceu das alturas acompanhado do jovem e terrível Nezha, o Príncipe Três Altares do Oceano, cujo rosto tinha a beleza assustadora de uma lua cheia e os olhos que lançavam relâmpagos. Dois generais do trovão também vieram, Deng e Zhang, prontos para lançar seus raios.
Sun Wukong os conduziu ao sopé da Montanha Dourada e apontou a entrada da caverna.
— Nezha, você vai primeiro — disse Li Tianwang. — Conheço os talentos do meu filho. Ele subjugou noventa e seis antros de demônios. Vá, rapaz.
Nezha ergueu-se nos ares com sua roda de fogo e sua lança flamejante, e desceu até a porta da caverna com a elegância de quem foi criado para a guerra.
— Demônio imundo! — rugiu ele. — Sai desta caverna e devolve o mestre Tang Sanzang! Vim em nome do Imperador de Jade!
O monstro saiu. Era enorme, com seus chifres negros e seus olhos rubros, empunhando uma lança longa como um mastro. Quando viu Nezha, riu com desdém.
— Filho de Li Tianwang, que assunto traz um rapazinho como você à minha porta?
— Teu fim, besta! — respondeu Nezha, e lançou-se ao ataque.
A batalha foi espetacular. Nezha usou seu poder de transformação, brotando três cabeças e seis braços, cada mão empunhando uma arma diferente: a espada que corta demônios, a faca que decepa espíritos, o laço que aprisiona monstros, o maço que subjuga o mal, a esfera flamejante, a roda de fogo. Com um grito de comando, multiplicou cada arma até que chuvas de aço cobriam o demônio por todos os lados.
Então o monstro tirou do bolso um anel branco como osso e o arremessou para o alto.
— Pega! — ordenou ele.
E o anel rodou no ar e engoliu todas as seis armas de Nezha como se fossem palha. O príncipe ficou de mãos vazias, com cara de quem acordou num pesadelo.
Os generais do trovão, Deng e Zhang, que esperavam o momento de soltar seus raios, deram graças por não terem agido cedo demais.
— Olha o que aconteceu com as armas de Nezha — observou Deng. — Se o anel tivesse apanhado nossos raios...
Não completou a frase, mas todos entenderam.
Wukong contemplou a derrota com os dentes cerrados. Havia algo naquele anel que ia além de qualquer magia que ele conhecia. Não era apenas poderoso — era certo, como se o universo obedecesse a ele.
— Água e fogo — murmurou Li Tianwang. — Dizem os sábios que não há nada mais poderoso no mundo do que a água e o fogo. Vamos tentar isso.
Wukong voou de volta ao céu e visitou o Palácio de Vermelho, residência da Estrela do Fogo do Sul. O general das chamas, senhor de três vapores e guardião do elemento vermelho, ouviu o pedido de Wukong com algum ceticismo.
— Se o jovem Nezha não conseguiu — disse ele —, como posso eu tentar algo?
— Mas você tem o fogo — insistiu Wukong. — O anel do demônio rouba objetos, mas fogo não é um objeto. Fogo é uma força. Venha, senhor — e sorriu com aquela confiança irresistível que era tanto seu maior talento quanto sua maior fraqueza.
O General das Chamas veio com seu exército — cavalos de fogo, corvos de fogo, dragões de fogo, ratos de fogo, canhões de fogo, flechas de fogo. O céu acima da Montanha Dourada transformou-se numa aurora perpétua, e o calor fazia as pedras estalar.
Li Tianwang desafiou o demônio ao combate, fingiram uma luta, e quando o monstro sacou seu anel para apanhar a espada do Rei Celestial, o General das Chamas ordenou a seu exército que desencadeasse tudo o que tinha.
O demônio olhou para cima, viu as chamas caindo como chuva de verão, e sorriu. Pegou o anel, atirou-o ao alto, e num único movimento circular, engoliu todos os cavalos de fogo, todos os corvos de fogo, todos os dragões de fogo, todo o arsenal flamejante que o Terceiro Vapor Celestial havia trazido.
O General das Chamas ficou de mãos vazias, sem bandeiras, sem brasas, sem nada.
— Grande Sábio — disse ele, com voz humilde e olhar de homem que não entende o que acaba de presenciar —, nunca vi nada assim em toda a eternidade da minha existência.
Sun Wukong já estava de volta ao ar, em direção ao Portão Norte do Paraíso. Se fogo não funciona, talvez água funcione. Encontrou lá a Estrela da Água do Norte, senhor dos mares, rios e abismos, que controlava o Deus Amarelo do Rio, o guardião das enchentes.
O Deus do Rio trouxe sua tigela de jade, que continha as águas do próprio Rio Amarelo — metade de uma tigela era metade do rio, uma tigela cheia era o rio inteiro.
Com meia tigela, desceram à montanha e tentaram inundar a caverna.
A água desceu como um dilúvio, varrendo tudo à frente, rugindo pelas ravinas, engolindo o caminho. Mas não entrou na caverna — escorreu pelos lados, inundou os vales ao redor, e quando se dispersou, lá estavam os pequenos demônios da caverna, pulando e brincando na lama como se nada tivesse acontecido.
Sun Wukong olhou para aquela cena e sentiu uma raiva tão profunda que abandonou toda a diplomacia. Investiu sozinho contra a porta da caverna, apenas com os punhos, e provocou um reboliço imenso no interior. O demônio saiu e os dois lutaram no mais puro estilo corporal, sem armas, apenas força contra força, habilidade contra habilidade, movimentos de tigre contra movimentos de serpente.
Era uma dança de guerra esplêndida, e até Li Tianwang e o General das Chamas, lá no alto, gritavam de entusiasmo.
Mas quando Wukong sentiu que ia ganhar, arrancou um punhado de pelos de seu corpo e soprou:
— Transforma!
Os pelos viraram trinta ou quarenta macacos pequenos que se agarraram ao demônio por todos os lados, puxando, mordendo, escalando. O monstro entrou em pânico — e sacou o anel.
O anel subiu, rodou, e engoliu todos os macacos que voltaram a ser pelos e foram parar dentro da caverna.
Wukong recuou, ofegante, com raiva e sem soluções.
— Essa coisa precisa ser roubada — disse ele, pensando em voz alta. — Não há outro jeito.
Deng e Zhang, os dois generais do trovão, riram.
— Se há alguém no mundo capaz de roubar algo, esse alguém é o Grande Sábio Igual ao Céu — disseram eles. — Lembra das pêssegos do céu? Do elixir do Velho Senhor? Você roubou tudo isso em tempos passados. Use essa habilidade agora.
Wukong sorriu, um sorriso que misturava vergonha e orgulho em medidas iguais.
— Certo — disse ele. — Esperem aqui.
E transformou-se numa mosca.
Entrou pela fresta da porta da caverna, zumbindo silenciosamente através das salas iluminadas por tochas vermelhas, passando por sobre as cabeças dos demônios que bebiam e dançavam em comemoração à vitória. Havia carnes de cobra e carne de veado e palmas de urso espalhadas pelas mesas, e a festa era barulhenta e alegre.
Sun Wukong procurou em toda parte pelo anel. Nada.
Transformou-se num pequeno demônio raposeiro e caminhou pelos corredores da parte de trás — e então ouviu o que procurava: o rugido de um dragão de fogo, o relincho de um cavalo de fogo. Eram os itens capturados, guardados numa câmara traseira.
E encostado na parede leste — seu Bastão de Ouro.
Wukong saiu da fantasia, recuperou o bastão com um sorriso que iluminou a câmara mais que todas as tochas juntas, e desencadeou seus golpes. Com um rastro de destruição, abriu caminho pela caverna e saiu correndo.
O demônio o perseguiu, furioso. Mas era tarde demais — Wukong já estava no alto da montanha, com o Bastão de Ouro nas mãos e a satisfação quente no peito.
Aquele anel precisaria ser enfrentado de outra forma. Mas pelo menos agora ele tinha sua arma de volta.
E amanhã seria outro dia.