Lorde Dezoito
Um antigo espírito de pinheiro da Crista dos Espinheiros que, longe de usar a força, preferia seduzir Tang Sanzang com chá e poesias.
Na estrada da busca pelas escrituras, onde o que mais se vê é o brilho de espadas e o corte de lâminas, a Crista dos Espinheiros foi o palco da única "batalha de poesias". No capítulo 64, o grupo de viagem chega à Crista dos Espinheiros, encontrando um cenário tomado por cipós e espinhos, fechados como um muro. Zhu Bajie se esforça para abrir caminho, suando a camisa para conseguir abrir uma trilha. Ao cair da noite, Tang Sanzang senta-se para meditar na mata e, de repente, é levado por um vento gélido até um lugar sereno e elegante: o Mosteiro Imortal da Madeira. Quem o recebe não são monstros com garras e dentes, mas quatro velhinhos de cabelos e barbas brancas, que se chamam de "quatro amigos" e o convidam para tomar um chá, recitar versos e admirar a lua. O líder do grupo, o Lorde Dezoito Nó Firme, não passa de um velho pinheiro que ganhou vida após centenas de anos. Em toda a Jornada ao Oeste, essa foi a "tribulação" mais doce e, ao mesmo tempo, a mais estranha que Tang Sanzang já enfrentou.
O Sarau do Mosteiro Imortal da Madeira: O encontro elegante de quatro espíritos arbóreos
O Mosteiro Imortal da Madeira é uma casinha de palha sossegada, escondida nas profundezas da Crista dos Espinheiros. A descrição do lugar no capítulo 64 transborda aquele requinte de quem gosta de letras: "brisa fresca por todo lado, a lua brilhando no céu", com árvores ancestrais que tocam as nuvens diante do mosteiro, e um interior simples, com tudo o que se precisa de chá, pincéis e tinta. Se não estivesse no meio de um sertão cheio de demônios, seria o refúgio perfeito para qualquer eremita.
Ao ser levado pelo vento, Tang Sanzang dá de cara com os quatro velhos: o Lorde Dezoito Nó Firme (o espírito do pinheiro), o Lorde Solitário e Reto (o espírito do cipreste), o Jovem do Ar (o espírito do cipreste-japonês) e o Velho das Nuvens (o espírito do bambu). Cada um desses velhos escolheu para si um nome elegante — "Nó Firme", "Solitário e Reto", "No Ar" e "Acariciador de Nuvens" —, que nada mais são do que as virtudes tradicionais do pinheiro, do cipreste, do cipreste-japonês e do bambu na cultura chinesa. O pinheiro é firme, o cipreste é reto, o cipreste-japonês se eleva ao céu e o bambu balança nas nuvens. Esses nomes não foram escolhidos ao acaso; são códigos culturais cuidadosamente traçados por Wu Cheng'en.
A reação dos quatro ao verem Tang Sanzang é a coisa mais curiosa do mundo: eles não querem comer a carne do monge, nem fazê-lo de refém, nem roubar seu cássulo. Eles só querem prosear. E sobre o que falar? De poesia.
Nos cem capítulos da Jornada ao Oeste, Tang Sanzang cruza com todo tipo de bicho: uns querem comê-lo, outros querem casar com ele, uns roubam seus tesouros, outros querem discutir a lei. Mas, para sentar com ele, passar um chá caprichado e recitar versos sob a luz da lua, só esses quatro da Crista dos Espinheiros. Esse detalhe é totalmente fora do comum — quebra a ideia de que "demônio é igual a inimigo" e insere, no meio da jornada, um pedaço do mundo dos intelectuais.
O processo de composição dos versos entre os velhos e Tang Sanzang é escrito com todo o detalhe. O Lorde Dezoito Nó Firme começa com um verso de sete caracteres, lamentando a passagem do tempo e a dificuldade da busca espiritual. Tang Sanzang responde, seguindo o mesmo tema. Depois, o Lorde Solitário e Reto, o Jovem do Ar e o Velho das Nuvens entram na roda, um a um. Quatro árvores velhas e um monge, sentados sob a lua, trocando versos; é a cena mais elegante de todo o livro.
Mas esse sarau não era só por beleza. O verdadeiro motivo do convite só começa a aparecer quando a poesia já está na metade: eles queriam apresentar Tang Sanzang a uma "bela dama".
O nome do Lorde Dezoito Nó Firme: O jogo de palavras com o "Pinheiro"
O nome "Lorde Dezoito Nó Firme" é um dos jogos de palavras mais finos de Wu Cheng'en. Na escrita tradicional, o caractere para "pinheiro" (松) pode ser desmembrado. Olhando bem, do lado esquerdo temos "madeira" (木) e do lado direito "público/senhor" (公). Mas de onde vem o "dezoito"? Aí entra a malandragem do autor: a parte direita, "公", pode ser dividida em "oito" (八) e um pequeno traço, e se somarmos os traços de "madeira" (quatro) e "senhor" (quatro)... não, a explicação é mais simples: o caractere de "pinheiro" pode ser lido como a soma de "dez", "oito" e "senhor" (公). É aquele tipo de brincadeira de desmonte de letras comum na literatura clássica chinesa, especialmente nos enigmas de lanternas.
Da mesma forma, os nomes dos outros três escondem a espécie de cada árvore. "Lorde Solitário e Reto" é o cipreste — árvore reta e solitária. "Jovem do Ar" é o cipreste-japonês — que cresce alto e parece flutuar no céu. "Velho das Nuvens" é o bambu — cujas pontas balançam no vento como se acariciassem as nuvens. Juntos, eles formam os quatro amigos do inverno: pinheiro, cipreste, cipreste-japonês e bambu.
Aqui, Wu Cheng'en mostra a bagagem de um erudito da dinastia Ming. Muita gente lê a Jornada ao Oeste como um romance popular, mas o episódio da Crista dos Espinheiros revela outro lado do autor: um homem versado em poesia, rimas e referências clássicas. O personagem do Lorde Dezoito Nó Firme, do nome ao modo de falar, é puro requinte. Ele não é um figurante qualquer, mas um "porta-voz dos intelectuais" colocado propositalmente no mundo dos monstros.
Isso explica por que o ritmo desse capítulo é tão diferente dos outros. O padrão normal é: "encontra o monstro — briga — pede ajuda ao deus — vence o monstro". É tudo rápido, com conflito na veia. Na Crista dos Espinhos, não tem briga (pelo menos não no sarau), não tem arma mágica, não tem reforço — só tem chá e poesia sob a lua. Essa mudança de ritmo é uma estratégia: depois de tantos capítulos de pancadaria, um momento de silêncio quase estranho prende a atenção do leitor com ainda mais força.
A única "troca literária" de Tang Sanzang
Em toda a história, Tang Sanzang é aquele personagem que "tem cultura, mas quase nunca a mostra". Ele é um monge ilustre da Grande Tang, estudou as escrituras no Templo da Montanha Dourada desde menino, foi nomeado pelo imperador; a cabeça dele é cheia de saber. Mas, na estrada, o que ele mais mostra é a compaixão (salva todo mundo), a fraqueza (chora por qualquer coisa), a teimosia (não ouve o Wukong) e a fé (reza em todo templo). Ele quase nunca tem chance de mostrar que é culto — afinal, não adianta falar de poesia com monstro; monstro só entende a Ruyi Jingu Bang.
A Crista dos Espinheiros é a exceção. No Mosteiro Imortal da Madeira, Tang Sanzang finalmente encontra quem fale a sua língua. A cultura desses quatro espíritos de árvore é altíssima — sabem fazer versos, rimas e citar clássicos —, algo raríssimo entre os demônios. A maioria dos monstros só sabe berrar que "comer a carne de Tang Sanzang dá a imortalidade", mas alguém que senta para recitar poesia como o Lorde Dezoito Nó Firme é caso único no livro.
Tang Sanzang se sai muito bem no sarau. Seus versos fluem, as referências são precisas, mostrando o nível de um monge letrado. É o momento mais "relaxado" de toda a obra: sem monstros na cola, sem discípulos brigando, sem a pressa da viagem. Ele está ali, bebendo chá, recitando versos e admirando a lua, fazendo o que um homem de letras deve fazer. Se houve um momento de prazer real na jornada, foi esse.
Mas a paz dura pouco. Na segunda metade do sarau, os velhos mudam de assunto e começam a convencer o monge a "ficar por ali mesmo", apresentando-lhe uma moça jovem e linda: a Fada do Damasco. A verdadeira intenção dos quatro aparece: eles não queriam apenas falar de poesia, queriam ser cupidos e casar Tang Sanzang com a Fada do Damasco.
Tang Sanzang muda de cara na hora. O homem de letras some e volta aquele monge teimoso: "Este pobre monge é um homem de fé, como ousariam!". Ele recusa a proposta com todas as letras. Mas os velhos não desistem e continuam insistindo. A cena fica bem constrangedora: quatro árvores milenares tentando dar a partida em um monge, e o monge com a boca fechada, sem dar um pio.
Quem resolve o impasse é Zhu Bajie. Ao amanhecer, Bajie percebe que o mestre sumiu e chega ao Mosteiro Imortal da Madeira. Ao ver as quatro árvores cercando Tang Sanzang, ele não pergunta nada e já solta o Ancinho de Nove Dentes: "Não quero saber se é pinheiro ou cipreste, toma aqui a pancada do velho Zhu!". Com a pancada do ancinho, as quatro árvores revelam suas formas originais e caem no chão. O Lorde Dezoito Nó Firme — aquele pinheiro de mil anos — acaba derrubado por Bajie, com o tronco quebrado e a resina escorrendo pelo chão.
O final é de uma ironia cruel: o mundo elegante e sofisticado que as quatro árvores levaram a noite toda para montar é destruído por um porco em poucos segundos. Eles passaram a noite preparando chá, poesia e pretendentes, e a recompensa foi serem arrancados pela raiz. No mundo da Jornada ao Oeste, cultura não serve como arma — por mais que o Lorde Dezoito Nó Firme soubesse fazer poesia, ele não aguentou um golpe de ancinho.
Personagens Relacionados
- Fada do Damasco — Espírito da árvore de damasco da Crista dos Espinheiros, a pretendente escolhida pelos quatro velhos para Tang Sanzang.
- Tang Sanzang — Convidado pelos velhos para falar de poesia no Mosteiro Imortal da Madeira, mas recusa firmemente a proposta de casamento.
- Zhu Bajie — Encontra o Mosteiro Imortal da Madeira ao amanhecer e derruba os quatro espíritos com um golpe de ancinho.
- Sun Wukong — Não participou diretamente do sarau no Mosteiro Imortal da Madeira durante o incidente da Crista dos Espinheiros.
- Sha Wujing — Esperou do lado de fora com Wukong e depois ajudou a procurar Tang Sanzang.
Perguntas frequentes
Quem é o Lorde Dezoito e qual a relação dele com os Quatro Velhos da Crista dos Espinheiros? +
O Lorde Dezoito é o espírito de um pinheiro antigo do Mosteiro Imortal da Madeira, na Crista dos Espinheiros. Junto com Gu Zhigong (cipreste), Lingkongzi (cipreste chinês) e Fuyun Sou (bambu), eles formam os "Quatro Velhos" ou "Quatro Amigos". Cada um dos quatro cultiva um tipo de planta resistente…
Qual o significado escondido no nome "Lorde Dezoito"? +
Trata-se de um jogo de palavras com a escrita chinesa: o caractere de "pinheiro" (松) tem à direita o componente "gong" (公), e a parte esquerda, "mu" (木 - madeira), pode ser decomposta nos caracteres de "dez" (十) e "oito" (八), resultando em "Lorde Dezoito". Wu Cheng'en usou essa técnica de enigmas…
O que o Lorde Dezoito fez com Tang Sanzang no Mosteiro Imortal da Madeira e qual era a sua real intenção? +
Sob o pretexto de elegância e cultura, ele convidou Tang Sanzang para degustar chá e compor poesias, recitando versos com os outros Velhos sob a luz do luar. Esta é a única "tribulação" de todo o livro que se desenrola através da poesia, e não da força bruta. No entanto, a verdadeira intenção do…
Como Zhu Bajie colocou um fim ao sarau do Mosteiro Imortal da Madeira? +
Ao amanhecer, Bajie encontrou o Mosteiro Imortal da Madeira e viu quatro árvores velhas cercando seu mestre. Sem dizer uma palavra, ele ergueu seu Ancinho de Nove Dentes e começou a golpear. Após algumas pancadas, as quatro árvores revelaram suas formas originais e desabaram no chão — o Lorde…
O que há de especial no estilo narrativo da história do Lorde Dezoito? +
O capítulo 64, na Crista dos Espinheiros, quebra totalmente o padrão habitual de "encontrar demônio — lutar — pedir ajuda — derrotar demônio". Não há tesouros mágicos ou duelos místicos, apenas chá e poesia. Foi um momento de requinte literário inserido deliberadamente por Wu Cheng'en após dezenas…
Entre o Lorde Dezoito e a Fada do Damasco, quem tem mais destaque e qual o papel de cada um na narrativa? +
O Lorde Dezoito é o iniciador e o anfitrião, enquanto a Fada do Damasco é o objeto do casamento pretendido. O Lorde Dezoito conduziu todo o processo do sarau e da tentativa de união, sendo o organizador central dos eventos na Crista dos Espinheiros; já a Fada do Damasco representa a provação dos…
Aparições na história
Tribulações
- 64