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Capítulo 64: Na Montanha dos Espinheiros Bajie Trabalha Arduamente; No Pavilhão dos Imortais da Madeira Tang Sanzang Conversa sobre Poesia

Os peregrinos enfrentam oitocentas li de espinheiros impenetráveis — Zhu Bajie cresce vinte metros para abrir caminho. Numa clareira dentro do espinheiro, Tang Sanzang é raptado por um ancião que é na verdade um espírito de pinheiro. Levado a um pavilhão, conversa sobre poesia com quatro velhos sábios — espíritos de árvores antigas. Uma fada dos damascos tenta seduzi-lo. Sun Wukong chega ao amanhecer e Bajie derruba as árvores.

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A Montanha dos Espinheiros não tinha nome dramático à distância — parecia apenas uma encosta verde, talvez incomumente densa, talvez com uma tonalidade de verde um pouco mais escura do que o usual.

Só de perto ficava claro o que era: oitocentas li de espinheiro entrelaçado, com ramos que cresciam juntos numa armadura vegetal que bloqueava não apenas o caminho mas o horizonte inteiro. A trilha que havia lá antes estava embaixo de tudo isso, perceptível apenas como uma ligeira depressão no chão que não correspondia ao padrão dos galhos acima.

Tang Sanzang parou o cavalo e olhou.

— Não tem fim — disse ele.

Sun Wukong havia subido ao ar para verificar.

— Uma pedra com inscrição ali embaixo diz oitocentas li — relatou ao descer. — E que poucos viajam por aqui desde os tempos antigos.

— Como atravessamos?

Bajie disse:

— Deixem comigo.

O que se seguiu foi uma das demonstrações mais específicas da utilidade de Bajie que Sun Wukong havia testemunhado — não a força bruta dos combates onde Bajie perdia o fôlego rápido, mas o trabalho sustentado de alguém que havia crescido num ambiente agrícola e entendia que certas tarefas requerem ritmo em vez de impacto.

Bajie cresceu. Não muito — vinte metros, altura suficiente para enxergar o padrão do espinheiro de cima e trabalhar com os braços do comprimento correto. O rastelo de nove dentes também cresceu proporcionalmente. E durante dois dias, sem parar, Bajie abriu caminho — varrendo os galhos para as laterais, abrindo um corredor largo o suficiente para um cavalo com cavaleiro, fazendo anotações na pedra do caminho quando encontrava uma interseção.

Sha Wujing ajudava com o bastão onde havia aglomerações particularmente densas. Sun Wukong voava à frente e apontava os pontos mais fáceis. Tang Sanzang seguia no cavalo branco com os pés nunca tocando os espinhos.

No final do segundo dia, havia uma clareira.

Uma pedra no centro com mais inscrições, um grupo de árvores antigas num arranjo que não era completamente natural — pinheiros, ciprestes, cedros, bambu, cada um em sua posição com a qualidade de algo que havia estado ali há muito mais tempo do que as plantas normalmente ficam num mesmo lugar.

— Descansamos aqui — disse Tang Sanzang.

— Não — disse Sun Wukong.

— Discípulo, dois dias de caminhada —

— Há algo nessas árvores. Qualidade de energia antiga. Não gosto.

— São árvores.

— Árvores velhas o suficiente para ter pensamentos.

Tang Sanzang desceu do cavalo.

A brisa que veio da direção das árvores velhas era limpa — perfume de cedro, sons de água num riacho que havia por trás da clareira, a qualidade calma e fresca de um lugar que não havia sido perturbado em muito tempo.

Da entrada da clareira, surgiu um ancião.

Chapéu angulado, roupas simples, cajado de bambu. Atrás dele, um servente com um bandeja de bolinhos de arroz cozidos no vapor.

— Sou o Espírito Local deste lugar — disse o ancião. — Sem nada melhor para oferecer, trouxe alguns bolinhos para o Venerável Mestre. A noite está chegando, e nas oitocentas li desta floresta não há nenhuma outra habitação.

Bajie foi pegar os bolinhos.

Sun Wukong disse:

— Para.

E disse para o ancião, mais alto:

— Você não é o Espírito Local. Espíritos Locais têm uma qualidade de energia que vem de baixo, da terra que guardam. Você tem energia de madeira — de dentro pra fora, não de baixo pra cima. Você é uma das árvores.

O ancião sorriu.

— Perspicaz.

— Saia —

Mas já era tarde. O ancião havia pego a mão de Tang Sanzang com uma delicadeza de anfitrião, o vento havia mudado de direção, e quando Sun Wukong avançou com o bastão, o mestre simplesmente não estava mais na clareira. O ancião também não.

Os bolinhos de arroz ficaram na bandeja.

Bajie ficou olhando para os bolinhos.

— Não — disse Sun Wukong.

— Estou com fome.

— Não.


Tang Sanzang acordou — não havia dormido, havia simplesmente chegado — num espaço que era simultaneamente ao ar livre e interior: pedras como paredes, bambu como teto, uma fonte num canto, lanternas feitas de cascas de árvore com luz dentro que não veio de velas.

Três figuras o esperavam.

A primeira tinha a tonalidade de pele esbranquiçada e as sobrancelhas espessas de alguém que havia ficado exposto ao vento frio por um tempo muito longo — um pinheiro, Tang Sanzang pensaria depois.

A segunda tinha o verde específico que bambu cultivado em sombra tem.

A terceira era de um azul-acinzentado que era a cor exata de cedro com muita idade.

E o ancião que o havia trazido — que se apresentou como劲节, o Nó Rígido, nome de uma qualidade de bambu que não dobra — sentou-se de frente com a satisfação de alguém que havia esperado uma conversa específica por décadas.

— Venerável Mestre — disse o Nó Rígido —, estamos aqui há muito tempo. Não vemos humanos frequentemente. E raras vezes vemos humanos que valham a pena conversar sobre poesia.

Tang Sanzang olhou para as quatro figuras e tomou uma decisão que não era estúpida mas era típica de quem havia sido educado num mosteiro com biblioteca excelente: se as figuras ao redor dele eram espíritos de plantas que queriam conversa literária, recusar era tanto inútil quanto desnecessário.

— O que gostariam de discutir?


O que se seguiu foi, pela perspectiva de Tang Sanzang, uma das conversas mais genuínas que havia tido na jornada — quatro vozes que haviam estado ouvindo vento e chuva por séculos sem ter com quem trocar impressões, falando sobre estrutura poética com a seriedade de quem havia pensado muito e falado pouco.

Cada espírito de árvore tinha um estilo — o pinheiro preferia a solidez, o bambu preferia o vazio e a leveza, o cedro preferia a ressonância longa, o bambu-ancião preferia a tensão entre rigidez e flexibilidade.

Tang Sanzang respondeu com o que sabia — os poetas da Grande Tang, as formas clássicas, a relação entre metro e significado — e os quatro ouviram com a atenção de estudantes que chegaram tarde a uma aula que havia esperado por eles.

A lua subiu.

Uma figura nova apareceu: uma jovem mulher com um ramo de damasco na mão, dois serventes carregando lanternas atrás dela.

Tang Sanzang ficou em silêncio quando ela entrou.

Os quatro espíritos de árvore fizeram as apresentações — ela era a Fada dos Damascos, havia vivido na borda leste da floresta há várias centenas de anos, havia ouvido sobre a visita e vindo por curiosidade. Seu poema, recitado com calma e precisão, era bom. Genuinamente bom.

Depois ela moveu a cadeira mais perto.

— Mestre — disse ela em voz baixa —, esta noite é longa e a floresta é quieta. A solidão não é virtude em si mesma.

Tang Sanzang ficou completamente imóvel.

— Sou monge — disse ele.

— Os pinheiros são monges da floresta — disse a Fada dos Damascos. — E vivem em par.

— Minha prática —

— A prática não proíbe a beleza.

Os quatro espíritos de árvore, que haviam observado este desenvolvimento com graus variados de aprovação e embaraço, continuaram em silêncio. Só o Nó Rígido disse, com diplomacia considerável, que se a Fada dos Damascos tinha intenções de duração, poderiam fazer as formalidades apropriadas — os quatro serviriam de testemunhas.

Tang Sanzang se levantou.

— Agradeço a conversa sobre poesia. Ela foi genuína e eu não me arrependo. Mas o caminho ao qual me comprometí não tem desvios que sejam convenientes — apenas alguns que são inevitáveis. Este não é inevitável.

A Fada dos Damascos ficou olhando para ele.

— Você perderia muito.

— Perdi muito para chegar até aqui — disse ele. — A contagem não muda a decisão.


O amanhecer chegou com os gritos de Sun Wukong do exterior.

Os espíritos de árvore haviam cumprido sua palavra de libertar o mestre ao amanhecer — sem rancor, apenas com a melancolia específica de seres antigos que haviam tido uma conversa interessante e que a conversa estava acabando. O Nó Rígido inclinou a cabeça para Tang Sanzang quando os gritos começaram.

— Outros como você raramente passam — disse ele.

— O caminho é difícil — disse Tang Sanzang.

— Não falo da dificuldade. Falo da disposição para conversar sobre o que importa, de noite, numa floresta, com desconhecidos.

Tang Sanzang saiu do Pavilhão dos Imortais da Madeira para encontrar Sun Wukong, Bajie e Sha Wujing correndo em sua direção com expressões de diferentes intensidades de alívio e irritação.

Bajie ficou olhando para o complexo de pedras e bambu de onde o mestre havia saído.

— Esses espíritos passaram a noite com o mestre?

— Conversando — disse Tang Sanzang.

— Só isso?

— Só isso.

Sun Wukong olhou para as árvores antigas ao redor do pavilhão. Depois arrancou alguns pelos, soprando neles com força, e os transformou em tigres que os dispersaram. Bajie, com a memória do trabalho dos dois dias anteriores ainda nos braços, acrescentou com o rastelo o que os tigres não haviam alcançado.

As árvores caíram. A seiva que escorreu das raízes tinha uma cor que era quase a cor de sangue.

Tang Sanzang pediu que parassem.

— Eles não me feriram.

— A floresta é longa ainda — disse Sun Wukong. — E há mais.

Tang Sanzang montou no cavalo branco e não disse mais nada sobre o assunto.