Mestre Gao
Um rico proprietário do Solar da Família Gao que, desesperado por ter prometido a filha Gao Cuilan ao apetitoso Zhu Bajie, buscou o socorro de Tang Sanzang e seus companheiros.
Ao cair da tarde, um criado, carregando seus alforjes e um guarda-sol nos ombros, seguia apressado pelo caminho.
Chamava-se Gao Cai, era o trabalhador braçal da casa do Mestre Gao, no Solar da Família Gao. Nos últimos meses, ele já tinha percorrido caminhos inúmeros para seu patrão, visitando vilas, povoados e templos da região, contratando três ou quatro grupos de "mestres" — entre monges e taoistas —, mas todos voltavam de mãos vazias. O Mestre Gao, então, lhe deu uma boa bronca e, depois, enfiou cinco moedas de prata em sua mão, mandando-o sair para procurar gente nova. Gao Cai deixou a entrada do Solar da Família Gao com o coração amargurado, remoendo a raiva: a raiva de ser xingado pelo patrão, a raiva daqueles falsos mestres que só queriam roubar seu dinheiro e a raiva da própria sorte desgraçada.
Ele não imaginava que, naquela mesma tarde, encontraria dois homens parados na esquina — um monge montado em um cavalo branco e um sujeito baixo, de aparência horrorosa. O homem esticou o braço, agarrou-o com força e perguntou: "Aonde vai? Quero te pedir uma informação."
Aquele puxão mudaria para sempre o destino de todos no Solar da Família Gao.
Nos capítulos dezoito e dezenove de Jornada ao Oeste, o Solar da Família Gao, onde vive o Mestre Gao e sua gente, é um dos lugares onde o mundo dos mortais e a ordem dos deuses e demônios colidem com mais força em toda a novela. Nesses dois capítulos, o autor Wu Cheng'en usa a figura do Mestre Gao para mostrar, em toda a sua plenitude, a luta, o aperto e a final libertação de um senhor rico de província diante de eventos sobrenaturais: a invasão de um demônio porco que queria se casar com a filha e a chegada de um monge divino para exterminar o mal. O Mestre Gao não é herói, nem vilão; é apenas um pai brincado pelo destino — um mortal espremido entre deuses e demônios, sem ter para onde fugir.
A Geografia e o Contexto Humano do Solar da Família Gao
Uma Vila no Coração de Ü-Tsang
Se olharmos para a geografia, o Solar da Família Gao fica nas "fronteiras do Reino de Ü-Tsang". Nos conceitos geográficos da dinastia Ming, Ü-Tsang correspondia aproximadamente à região do Tibete atual, uma terra remota onde o Dharma budista florescia. Em Jornada ao Oeste, quando a comitiva da busca pelas escrituras deixa a Grande Tang e entra em Ü-Tsang, ela pisa em uma zona intermediária: não está mais sob as leis e etiquetas do centro do império, nem totalmente sob o domínio do Reino Budista do Oeste. É o espaço narrativo perfeito para que deuses e demônios façam a lei, onde o mundano e o exótico coexistem.
A origem do nome do Solar da Família Gao é bem simples: a obra explica, através de Gao Cai, que "como a maioria das famílias de uma vila se chamava Gao, passaram a chamar o lugar de Solar da Família Gao" (Cap. 18). Trata-se de um assentamento rural baseado na linhagem familiar, com sobrenome comum, normas éticas compartilhadas e um jeito próprio de receber e julgar quem vem de fora — seja um monge peregrino ou um demônio com cara de porco.
Pela descrição do Mestre Gao, ele era o homem rico da vila. O texto diz que, ao sair para recebê-los, ele "usava um lenço de seda preta na cabeça, uma veste de brocado de seda branca, botas de couro de bezerro de arroz bruto e uma faixa verde-escura na cintura" (Cap. 18). Lenço de seda e brocado não eram roupas de um camponês qualquer, mas a imagem típica da pequena nobreza rural da era Ming: gente com dinheiro, com tempo, que conhecia as etiquetas e prezava pelas aparências. Ter um empregado como Gao Cai e ter condições de contratar "três ou quatro" mestres, pagando as despesas de viagem, prova que sua situação financeira era bem confortável.
O Retrato Literário do Rico Rural da Dinastia Ming
A figura do Mestre Gao carrega as marcas claras dos proprietários rurais da dinastia Ming. No final do período Ming, com o crescimento da economia comercial, surgiu essa classe de nobres locais que acumulavam riquezas com a terra e o comércio. Eles não faziam parte da burocracia oficial (não tinham cargos no governo), mas estavam acima dos camponeses comuns (pois tinham terras e mão de obra), criando uma autoridade local única. Tinham voz nas questões da vila, mas, diante do poder imperial, do divino ou de forças maiores, mostravam-se fragilíssimos.
O Mestre Gao é a projeção perfeita desse tipo: dentro do Solar da Família Gao, ele é o patriarca com autoridade; diante de deuses e demônios, é um homem comum e impotente. Sua riqueza garantia que ele pudesse "contratar mestres", "dar banquetes" e "oferecer ouro e prata", mas nada disso resolvia o problema central de ter um demônio porco querendo entrar na família. O dinheiro comprava mão de obra, mas não comprava o dom de subjugar demônios.
Wu Cheng'en depositou nessa figura sua observação sobre a classe rural da época. A limitação dessa camada social diante das mudanças do mundo — o desejo de manter a honra da família, mas a falta de capacidade real para enfrentar a crise — aparece no Mestre Gao de forma suave, porém certeira.
A Filha Tomada: O Calvário de Três Anos de um Pai
A Conta do Genro Adotado
Para entender a situação do Velho Mestre Gao, é preciso primeiro compreender o que o levou a buscar um genro para morar em casa.
A obra original deixa tudo claro na boca do próprio Velho Mestre Gao: "Eu, pobre coitado, não tive a sorte de ter filhos, apenas três filhas. As duas mais velhas foram dadas em casamento a rapazes da nossa vila. Só me restou a caçula, para quem procurei um genro, esperando que vivesse comigo, fosse um genro para a velhice, para sustentar a casa e cuidar dos afazeres." (Capítulo 18)
Esse desabafo revela a ferida mais profunda do Velho Mestre Gao: a falta de um filho.
Naquela sociedade tradicional chinesa, especialmente na estrutura dos clãs rurais da dinastia Ming, não ter um filho era uma crise familiar gravíssima. Não havia quem herdasse os bens, ninguém para dar assistência na velhice, ninguém para manter a honra da porta — esse amontoado de angústias era a maior dor da vida do Velho Mestre Gao. Ele guardou a caçula, Cuilan, em casa com o propósito único de atrair um genro, buscando um "genro para a velhice" — alguém que trabalhasse para ele e cuidasse dele no fim da vida. No fundo, era a troca do casamento da filha pela garantia de sua própria sobrevivência.
Essa estratégia matrimonial de "atrair o genro" era bem comum na China antiga, chamada de "casamento por adoção de genro". Era a maneira que as famílias sem filhos usavam para preservar o patrimônio. Olhando pelo lado do interesse econômico, a escolha do Velho Mestre Gao não tinha nada de errado. Porém, o preço disso foi transformar a filha, Cuilan, em uma peça de jogo — o casamento dela, desde o início, não era para a felicidade dela, mas para preencher o vazio do filho que faltava na estrutura daquela família.
Esse cenário preparou o terreno para tudo o que viria a acontecer depois.
A Chegada de Zhu Ganglie: Três Anos de Desgaste Sobrenatural
Zhu Ganglie (que mais tarde seria o Zhu Bajie) bateu à porta dizendo ser de uma família do Monte Fuling. Como não tinha pais nem irmãos, apresentou-se como alguém "sem raízes nem amarras", e foi assim que ganhou a confiança do Velho Mestre Gao. O velho disse: "Vi que era um homem sem raízes nem amarras e resolvi aceitá-lo como genro." Essa frase é a chave de tudo — foi justamente esse fato de não ter família que afastou as dúvidas do Velho Mestre Gao. Um genro sem parentes significava que não haveria interferências externas e que ele pertenceria inteiramente àquela casa. O que o velho queria era justamente essa solidão de Zhu Ganglie, acreditando que alguém assim se dedicaria totalmente a sustentar o lar.
Só que esse "não ter raízes" logo mostrou outro lado — o genro não tinha raízes humanas, nem amarras com o mundo dos homens.
No começo, Zhu Ganglie foi um exemplo de perfeição. O livro conta: "Assim que entrou, foi diligentíssimo: arava a terra sem precisar de bois; colhia as plantações sem precisar de foices; trabalhava do amanhecer ao anoitecer, era realmente exemplar." (Capítulo 18). Sem bois, sem ferramentas, apenas com sua força descomunal, resolvia todo o serviço da roça — era o sonho de qualquer sogro: um genro trabalhador e que não trazia problemas.
Mas a "aparência" começou a dar sinais. Zhu Ganglie "sabia mudar de rosto". No início, era apenas "um homem negro e gordo", mas aos poucos revelou ser "um idiota de focinho comprido e orelhas grandes, com uma crina na nuca, corpo grosseiro e assustador, com a cara de um porco". Para completar, tinha um apetite voraz ("comia de três a cinco cestos de arroz por refeição, e no café da manhã precisava de uns cem bolinhos para se saciar") e, com o tempo, começou a usar seus poderes de "invocar ventos", deixando "a família e todos os vizinhos sem sossego". A fantasia do "bom genro" do Velho Mestre Gao foi sendo despedaçada por aquele rosto de porco, pelos ventos furiosos e por aquela névoa que tapava o sol.
O golpe final no Velho Mestre Gao foi quando Zhu Ganglie trancou Cuilan nos fundos da casa: "Trancou a pequena Cuilan nos aposentos dos fundos e, por meio ano, não deixou que se vissem, sem que se soubesse se ela estava viva ou morta." Um pai que passa seis meses sem ver a filha, sem saber se ela ainda respira — esse sentimento de impotência é o verdadeiro cerne do drama do Velho Mestre Gao. Ele não tinha dinheiro para contratar mestres que dominassem demônios, não conseguia abrir a porta trancada dos fundos e, no próprio terreno, tornou-se um estranho, proibido de entrar no quarto da filha.
Três Anos de Silêncio e Agonia
Mesmo sabendo que o genro era um demônio, o Velho Mestre Gao aguentou, suportou, por três longos anos. Havia várias pressões por trás disso:
Primeiro, a questão da honra. Mais tarde, depois que Zhu Bajie foi capturado, o Velho Mestre Gao implorou ao Peregrino, dizendo algo com muito peso: "Sempre que alguém comenta: 'A família Gao adotou um demônio como genro'. Como é que um homem aguenta ouvir isso?" (Capítulo 19). A reputação — ou a vergonha de ser alvo de fofocas — era uma das coisas que o velho mais prezava. Em uma vila de clãs, um escândalo como "ter um demônio de genro" destruiria completamente o status social de uma família respeitada.
Segundo, a conta do interesse. Zhu Ganglie trabalhava, e de fato não tinha matado Cuilan (pelo menos até aquele momento) e tinha ajudado o Velho Mestre Gao a "acumular bastante riqueza". O próprio Peregrino admitiu depois: "Aquele monstro me disse que, embora tivesse um apetite enorme e tivesse comido a comida da sua casa, também fez muitas coisas boas para o senhor; a riqueza acumulada nestes anos foi fruto da força dele." (Capítulo 19). Esse detalhe é fundamental: Zhu Ganglie não era apenas um mal puro; ele era uma mão de obra sobrenatural que trazia dinheiro. Quando o velho decidiu expulsá-lo, estava, em parte, abrindo mão de um lucro anormal. Não era apenas uma questão de certo ou errado.
Terceiro, a falta de meios. Ele contratou três ou quatro grupos de mestres, mas eram todos "monges inúteis e taoistas covardes", incapazes de domar o demônio. Isso mostra que, na cabeça do Velho Mestre Gao, existiam profissionais para resolver problemas de monstros, mas, na prática, ele não encontrava ninguém com competência real. Esse ciclo de "pedir ajuda e não ter resultado" tornou a sensação de impotência interminável.
Esses três anos, para o Velho Mestre Gao, foram uma tortura lenta, balançando entre a vergonha, a angústia, a fraqueza e a paciência forçada.
O Encontro com o Mestre e seus Discípulos: A Virada do Destino
O Relato Inesperado de Gao Cai
A reviravolta da história acontece no instante em que Gao Cai é agarrado por Sun Wukong.
Trata-se de um desenho narrativo primoroso em Jornada ao Oeste: a engrenagem da trama não é disparada por uma iniciativa do Mestre Gao, mas sim por um encontro casual em uma encruzilhada. Gao Cai sai à procura de um mestre, e acaba trombando logo na esquina com um mestre que realmente tem poder — esse "acaso preciso" e dramático constitui o modelo típico de "providência" na narrativa da obra. Sempre que a comitiva da jornada chega a um lugar, ela costuma intervir nos eventos locais dessa maneira: aparentemente ao acaso, mas, na verdade, predestinada.
Quando Gao Cai volta com a notícia, a reação do Mestre Gao é de extrema cautela: "Se é um monge que vem de longe, quem sabe não tenha mesmo alguns truques. Onde ele está agora?" (Capítulo 18). Notem bem as palavras: ele não diz que "com certeza tem truques", mas que "quem sabe não tenha" — é uma expectativa tingida de dúvida, um otimismo defensivo de quem já foi enganado inúmeras vezes. Ele já vira tantos "monges inúteis e taoistas frouxos" que criou uma imunidade considerável.
O Primeiro Olhar: A Barreira da Aparência
O Mestre Gao sai para recebê-los. O primeiro olhar cai sobre Tang Sanzang, que se mostra impecável na etiqueta; o segundo olhar recai sobre o Peregrino — e o texto diz: "Ao ver a aparência feroz e feia daquele sujeito, o velho não ousou sequer fazer a reverência".
A aparência de Sun Wukong, aos olhos do Mestre Gao, lembrava muito a daquele seu "genro de cara horrorosa". A reação do velho foi a coisa mais genuína do mundo; ele resmungou baixinho para Gao Cai: "Seu desgraçado, quer me matar do coração? Já tenho em casa um genro com cara de monstro que não consigo despachar, e agora você traz esse raio de homem para acabar comigo?" — foi um desabafo que escapou sob pressão, mas que revelou a verdade nua e crua de seu coração: ele desenvolvera uma desconfiança instintiva por qualquer um de aparência exótica.
A resposta do Peregrino foi humorada e certeira: "Eu, o velho Sun, posso até ser feio, mas tenho competência. Se eu capturar o demônio para o senhor, pegar os espíritos, prender esse seu genro e devolver sua filha, isso não seria algo bom? Por que insistir tanto na aparência?" — responder à discriminação estética com a prova da capacidade; esse é o estilo do Peregrino, e foi uma correção gentil na visão limitada do Mestre Gao.
O Mestre Gao, "tremendo de medo, teve que forçar o ânimo e dizer: 'Por favor, entrem'". Esse "tremendo de medo" resume toda a psicologia complexa de um mortal diante de seres sobrenaturais: o pavor, a inquietude e, ao mesmo tempo, a necessidade desesperada de depender deles.
A Narrativa do Mestre Gao: O Testemunho de um Pai
Assim que se acomodaram, o Mestre Gao contou a história toda, do começo ao fim. Esse relato é a representação mais completa da perspectiva mortal em todo o livro e merece uma análise cuidadosa.
A narrativa do Mestre Gao tem algumas características marcantes:
Primeiro, tudo parte do interesse da família. A preocupação central não é a segurança da filha, Cuilan (embora isso, claro, faça parte de suas angústias), mas sim a "honra do nome" — "Se a filha atrai um demônio, isso não é correto: primeiro, mancha o nome da família; segundo, afasta os parentes e pretendentes". É a lógica de um patriarca, e não apenas a de um pai. A reputação da casa e a rede social do clã ("parentes e pretendentes") são as primeiras razões que ele enumera.
Segundo, a descrição de Zhu Ganglie é surpreendentemente objetiva. O Mestre Gao admite que, no início, quando Zhu Ganglie entrou para a família, ele era "até diligente e cuidadoso", e reconhece que, embora comesse demais, "mantinha a dieta vegetariana" — essa descrição equilibrada não é para defender o genro, mas sim a tentativa do Mestre Gao de apresentar os fatos como são, para que o Peregrino pudesse julgar a situação. Isso reflete alguém que, após viver em um longo impasse, parou de julgar essa relação bizarra entre sogro e genro apenas como "boa ou má", atingindo uma compreensão mais complexa.
Terceiro, a gota d'água foi o desaparecimento de Cuilan. "E então trancaram a pequena Cuilan nos aposentos dos fundos; já faz meio ano que não a vejo, e nem sei se está viva ou morta" — aqui, a emoção do Mestre Gao finalmente transborda. Até então, ele suportou a aparência, suportou a gula, suportou os ventos e trovões, mas o corte do vínculo com a filha, a perda total do controle, foi o gatilho direto para ele decidir expulsar o demônio.
Após ouvir tudo, o Peregrino perguntou de forma simples: "E isso é tão difícil? Fique tranquilo, velho. Esta noite eu o pego para o senhor, faço ele assinar a carta de anulação do casamento e devolvo sua filha. Que tal?" A resposta do Mestre Gao foi igualmente direta: "Não importa que eu o tenha aceitado, mas veja quanta honra perdi, quantos parentes me afastaram. Basta pegá-lo! Que carta de anulação? Eu só peço que o arranque pela raiz".
Essa frase confirma a preocupação central do Mestre Gao: restaurar a fama e recuperar os laços familiares. O termo "arrancar pela raiz" mostra a determinação absoluta — ele não queria um final incompleto; ele queria um encerramento limpo e definitivo.
A Noite em que Sun Wukong Subjugou o Demônio: O Olhar do Pai
Excluído da Ação
O Peregrino pediu que o Mestre Gao o levasse aos aposentos dos fundos, mandou Gao Cai carregar as bagagens e cuidar dos cavalos e, depois de organizar tudo, disse algo crucial ao Mestre Gao: "Não preciso de ajuda. Só quero alguns velhos de boa idade e virtude para fazerem companhia ao meu mestre, sentarem e conversarem calmamente, enquanto eu me encarrego de ir embora".
Essas palavras significavam que, durante toda a operação de caça ao demônio naquela noite, o Mestre Gao seria um espectador, e não um participante. O Peregrino, da maneira mais polida possível, excluiu-o da ação central — deixou-o sentado, bebendo chá e batendo papo com Tang Sanzang, esperando o resultado.
Para o Mestre Gao, esse arranjo foi uma experiência dupla: por um lado, o alívio de finalmente entregar um problema de três anos nas mãos de quem realmente tinha poder; por outro, a angústia de ser um pai completamente passivo, sentado na sala, esperando notícias do destino da filha sem ter controle algum sobre a situação.
Essa é a metáfora central da condição do Mestre Gao: ele é o dono da casa, mas as coisas mais importantes que acontecem dentro dela fogem ao seu alcance; ele só pode esperar.
O Reaparecer de Cuilan: O Instante do Reencontro
O Peregrino foi primeiro aos aposentos dos fundos, quebrou o cadeado de bronze e mandou o Mestre Gao chamar a filha.
"O velho, armando coragem, gritou: 'Irmã mais velha!'" — esse "armando coragem" revela o pavor do Mestre Gao diante daquela porta trancada. Em sua própria casa, para entrar no quarto da própria filha, ele precisou de coragem. Essa inversão absurda é a cicatriz psicológica deixada pelos três anos de domínio de Zhu Ganglie naquele quintal.
"A filha, reconhecendo a voz do pai, respondeu com a voz fraca e exausta: 'Papai, estou aqui'."
Seis palavras: "Papai, estou aqui". Esse é um dos raros momentos de fala direta de Cuilan em todo o livro, mas é um dos instantes humanos mais tocantes da história. Ela reconheceu a voz do pai — durante três anos, ela esperou, ela sabia exatamente como era aquele som. O "voz fraca e exausta" mostra que a vida de clausura, sem ver a luz do sol por meio ano, a consumira até a extrema fragilidade.
"Ao caminhar e ver o velho Gao, ela o agarrou e chorou copiosamente, abraçada a ele."
Esta é a única cena de troca emocional direta entre o Mestre Gao e Cuilan em toda a obra. Pai e filha choram abraçados, sem diálogos, apenas o som do pranto — esse momento, apresentado com contenção, torna-se imensamente poderoso justamente por ser minimalista. Três anos de angústia e distância, meio ano de silêncio absoluto, tudo transbordou naquele instante, condensado no "chorou copiosamente".
A atitude do Peregrino foi prática: "Chega de chorar, chega de chorar. Diga-me, para onde foi o demônio?" — ele não tinha tempo para sentimentalismos; a missão não estava terminada. Ele mandou o Mestre Gao levar Cuilan para a frente da casa para que pudessem "colocar a conversa em dia" com calma, enquanto ele permanecia sozinho nos fundos, esperando o demônio.
O Pai na Espera
Durante a noite inteira, o Mestre Gao ficou sentado no salão principal, acompanhado de Tang Sanzang e alguns velhos amigos, "conversando sobre o passado e o presente, sem pregar o olho". O original usa apenas essas palavras para descrever o estado do Mestre Gao naquela noite, mas deixa um espaço enorme para a imaginação.
No que ele estaria pensando? Estaria preocupado que o Peregrino não conseguisse domar o demônio? Estaria aflito com o estado de Cuilan? Estaria calculando, em segredo, o que fazer se o Peregrino também falhasse? O texto não dá a resposta; apenas o deixa ali, na margem da narrativa, esperando em silêncio.
Ao amanhecer, o Peregrino voltou, dizendo que o demônio fugira de volta para sua montanha e que, por enquanto, não fora capturado. A reação do Mestre Gao foi ajoelhar-se no ato, implorando que o Peregrino eliminasse o mal definitivamente: "Tome as terras e os bens desta família, conforme os parentes escreverem no documento, e divida-os com o Ancião. Só peço que corte a erva daninha pela raiz, para que a honra da casa de Gao não seja mais manchada." (Capítulo 19)
Trocar as terras e os bens da família por um final definitivo — esse foi o preço mais alto que o Mestre Gao estava disposto a pagar. Ele não se importava mais com o dinheiro; a única coisa que lhe importava era a "honra": a marca da família Gao precisava ser preservada, limpa e imaculada.
Zhu Bajie é Domado: Um Desfecho Absurdo
O Peregrino traz o "Genro" de volta
Sun Wukong partiu novamente e, após uma batalha feroz, conseguiu comover Zhu Ganglie com a benevolência da Bodhisattva Guanyin (pois Zhu Ganglie já havia sido encarregada pela Bodhisattva de aguardar aquele que viria buscar as escrituras). Assim, levou-o de volta ao Solar Gao, amarrado pelas costas e puxado pelas orelhas.
A cena atinge o ápice do drama: o "genro" capturado entra tropeçando no pátio da fazenda, sob os olhos de todos os parentes e do próprio Velho Gao. O texto original diz: "Os parentes da família Gao e o velho Gao, vendo subitamente o Peregrino trazer aquele monstro amarrado pelas costas e puxado pelas orelhas, correram todos alegres para o pátio, exclamando: 'Ancião, Ancião, este é mesmo o nosso genro!'". Esse "alegres" revela a felicidade dos parentes, pois o monstro que atormentou a vila por três longos anos finalmente fora domidado.
Contudo, o que se segue foge a toda a expectativa. Zhu Ganglie ajoelha-se diante de Tang Sanzang e relata como a Bodhisattva Guanyin ordenara que ele esperasse ali pelo buscador das escrituras. Sanzang, imensamente feliz, concede-lhe a ordenação formal e os votos. A partir daí, seu nome budista passa a ser Zhu Wuneng, ocupando o segundo lugar na hierarquia, tornando-se membro oficial da comitiva — e assim nasce Zhu Bajie.
Para o Velho Gao, esse resultado foi um choque total. Ele esperava que o monstro fosse "arrancado pela raiz", desaparecendo para sempre. No fim, o bicho não só não morreu, como deu um salto e virou um monge santo a caminho do Oeste! Essa reviravolta, com todo o seu absurdo cômico, avisa ao Velho Gao que a lógica do mundo dos deuses e demônios não é, de modo algum, a mesma lógica dos mortais.
Zhu Bajie e o Sogro: Um Afeto Cortado no Meio
Depois de entrar para a equipe, Bajie teve uns gestos bem humanos.
Ele se aproximou do Velho Gao e perguntou: "Vovô, que tal chamar minha esposa para vir saudar o senhor e os tios?". Ele ainda chamava o Velho Gao de "vovô" e referia-se a Cuilan como "minha esposa", querendo que ela viesse formalmente se apresentar aos parentes. A cena é de rir para não chorar: Zhu Bajie estava prestes a virar monge, mas ainda seguia a etiqueta de genro, querendo colocar um ponto final decente naquele casamento disparatado.
O Peregrino, rindo, logo o impediu: "Meu caro irmão, agora que você entrou para o clero e virou monge, não ouse mais tocar no assunto dessa tal 'esposa'".
Ao fim do banquete, enquanto seguia o mestre rumo ao Oeste, Bajie ainda gritou para o Velho Gao: "Sogro, cuide bem da minha mulher! Se a gente não conseguir as escrituras, quem sabe eu não volto ao mundo secular para ser seu genro de novo e vivermos juntos!". O Peregrino logo o repreendeu: "Seu tonto, pare de falar bobagem!", mas era ali que transparecia a essência de Bajie: sua profunda nostalgia pela vida mundana e um certo apego a esse "matrimônio" interrompido à força.
E o Velho Gao, depois que toda aquela agitação passou, só pôde observar a comitiva partir para o Oeste, carregando consigo a herança mais estranha de toda a história: a de ter um ex-genro que agora era um monge santo; e uma filha caçula, Cuilan, que ficava em casa, guardando aquele quarto dos fundos onde estivera trancada meio ano antes.
Ouro, Prata e Roupas: A Generosidade e o Juízo do Velho Gao
Antes de terminarem a festa, o Velho Gao "trouxe uma bandeja de laca vermelha com duzentos taéis de ouro e prata picados, para as despesas dos três anciãos na viagem; e também três túnicas de algodão acolchoado para servirem de agasalho". Tang Sanzang recusou educadamente as riquezas, mas o Peregrino, sem cerimônia, pegou um punhado de ouro e prata para dar ao servo Gao Cai como "gorjeta de guia".
Essa cena mostra como o Velho Gao lidava com as gentilezas: ele era sincero na gratidão e no gesto. Duzentos taéis de prata eram uma quantia considerável para um proprietário da era Ming, não era apenas uma lembrancinha. Já a audácia do Peregrino, dando ouro e prata ao criado como quem não quer nada, era ao mesmo tempo um humor e uma deboche sutil sobre a visão de dinheiro dos mortais — para os imortais, as riquezas que os homens tanto prezam não passam de coisa insignificante.
Zhu Bajie, mais pragmático, aproveitou a chance para pedir um par de sapatos novos e um cássulo de brocado azul. O pedido de Bajie é um momento cômico brilhante: ele estava prestes a se tornar monge, mas primeiro resolveu "acertar as contas" com o sogro, listando as compensações materiais que "ficara devendo" ao longo dos anos. E o Velho Gao, "ouvindo aquilo, não ousou negar" — diante daquele monstro que o aterrorizara por três anos, ele já não sabia mais como agir, então apenas aceitou, deixando tudo nas mãos do destino.
Gao Cuilan: O Vazio da Narrativa e a Limitação do Olhar Paterno
A Protagonista Silenciosa
Em toda a história do Solar Gao, Gao Cuilan é uma figura curiosa: ela é o centro de tudo, a razão de cada evento, mas quase não tem voz própria na história.
As únicas falas diretas de Cuilan no original são aquele "Papai, estou aqui!" quando o pai a chama, e um breve diálogo posterior: "Não sei para onde vão. Às vezes partem ao amanhecer, outras chegam ao anoitecer... como sabia que meu pai queria expulsá-lo, ele sempre ficava alerta, por isso vinha e ia às escondidas". (Capítulo 18).
Só isso. O que ela sentia por aqueles três anos de casamento, sua real atitude diante de Zhu Ganglie, a experiência subjetiva de ficar trancada nos fundos da casa, a opinião dela sobre o pai mandar expulsar o monstro — nada disso é apresentado diretamente em Jornada ao Oeste.
Esse silêncio não é descuido, mas uma estratégia do autor. A perspectiva de Jornada ao Oeste é, fundamentalmente, a de homens, heróis e divindades: os protagonistas são o mestre e os discípulos (todos homens), os antagonistas são demônios (quase todos homens ou moldados sob essa ótica), e o mundo mortal é visto através de figuras de autoridade masculina, como pais e anciãos do clã. O silêncio de Cuilan é o reflexo de como as mulheres são sistematicamente deixadas de lado na obra.
Contudo, esse silêncio cria uma tensão narrativa peculiar: que tipo de relação foi, afinal, a convivência de três anos entre Cuilan e Zhu Ganglie? Em sua conversa com o Peregrino (disfarçado de Cuilan), Bajie desabafou amargamente, listando todas as coisas boas que fizera pela família Gao, com um tom evidente de injustiça. Ele disse que, ao chegar, "conversou com ela e ela aceitou me receber" — se isso for verdade, Cuilan inicialmente aceitou esse casamento, podendo ter havido até certa adaptação ou afeto, mudando apenas depois por causa da vontade do pai.
Jamais saberemos. O íntimo de Cuilan é o maior vazio narrativo da história do Solar Gao e um símbolo da ausência da perspectiva feminina em toda a obra.
As Limitações do Olhar do Pai
A narrativa do Velho Gao baseia-se inteiramente na visão de um pai e chefe de família. O que ele enxerga é a própria reputação, a honra da casa, a segurança da filha (do jeito que ele entende) e como aquele casamento anormal corroía seu status social.
Ele não consegue sentir o que Cuilan realmente pensava desse casamento, nem tem a capacidade de entrar nos fundos para visitar a filha (aquela tranca de bronze era uma barreira que ele não podia atravessar). Ele só consegue montar uma imagem borrada da situação da filha através de Gao Cai, das fofocas dos vizinhos e de notícias ocasionais.
Essa limitação torna o "amor de pai" do Velho Gao algo real, porém incompleto: ele amava Cuilan, sim, e sofria pela situação dela, mas esse amor passava sempre pelo prisma dos interesses da família, nunca tendo a filha como o centro real. Quando ele implora ao Peregrino para "devolver a filha", a palavra "filha" funciona mais como uma posse do que como um ser independente.
Essa limitação é o retrato fiel da cultura patriarcal tradicional chinesa. Wu Cheng'en inseriu isso na figura do Velho Gao de forma natural; não houve uma crítica deliberada, mas também não houve a intenção de esconder as contradições inerentes a esse modelo.
O Mercado de Exorcismo: Crenças Populares e a Ecologia dos Clérigos
Três ou Quatro Mestres: Uma História de Socorro Fracassado
O objetivo da viagem de Gao Cai era "procurar mestres" — e essa expressão, por si só, revela a lógica de funcionamento da cultura popular da dinastia Ming. No mundo apresentado em Jornada ao Oeste, exorcizar demônios não era tarefa do governo, nem algo que os camponeses pudessem resolver sozinhos; era um mercado especializado: havia quem pagasse (o Velho Gao) e quem prestasse o serviço (monges e taoístas de todo canto), com a transação sendo costurada por um intermediário (Gao Cai).
Contudo, esse mercado sofria de uma falha grave na oferta. O Velho Gao "tinha convidado, sucessivamente, uns três ou quatro, mas eram todos monges inúteis e taoístas incompetentes, que não conseguiam domar aquele demônio". Três ou quatro tentativas, todas em fracasso — isso não foi um erro isolado, mas uma falha sistêmica de todo o serviço de exorcismo popular. A obra original é cruelmente sarcástica com esses mestres: "inúteis", "incompetentes". Isso nega a capacidade deles, mas também revela uma realidade: na maioria das vezes, os chamados "mestres" do povo eram apenas pessoas comuns que ganhavam a vida com rituais e amuletos. Eles podiam até funcionar contra superstições bobas ou assombrações leves, mas, diante de seres de nível divino ou demoníaco, eram completamente impotentes.
As cinco moedas de prata que Gao Cai levou para a "estrada", somadas ao ouro e prata gastos repetidamente com os mestres, formam um custo real de exorcismo. Isso sugere que, no contexto de Jornada ao Oeste, o serviço de exorcismo popular já era uma indústria com sistema de preços, rede de intermediários e competição de mercado — a diferença é que a qualidade era lotérica e a fiscalização, inexistente.
As Limitações do Deus da Terra Local
Na hierarquia divino-demoníaca de Jornada ao Oeste, os clérigos de nível mais baixo são os Deuses da Terra. A função do Deus da Terra é guardar aquele pedaço de chão e reportar a situação local, mas seu poder é curtíssimo. O Deus da Terra do Solar Gao está completamente ausente da narrativa direta nestes dois capítulos, o que é, por si só, um sinal: diante de um monstro do nível de divindade como Zhu Bajie, que já foi o Marechal Tianpeng, um simples Deus da Terra não joga na mesma liga e não tem como interferir.
Esse detalhe revela uma lógica de poder crucial na visão de mundo da obra: o reino celestial tem uma hierarquia rígida. Quando deuses de baixo escalão (como os da terra ou da montanha) enfrentam demônios que já foram divindades superiores, eles ficam tão impotentes quanto qualquer mortal. Os mestres que o Velho Gao não conseguia contratar não passavam de nada diante da escala de poder dos deuses e demônios.
A Intervenção de Sun Wukong: Um Poder Além do Serviço Comum
A chegada de Sun Wukong é que realmente quebra esse impasse. Ele não é um prestador de serviços "contratado a dinheiro" pelo Velho Gao, mas alguém que entra na história por um encontro casual — e, no fim, ele nem aceita a recompensa de "dividir as terras e as riquezas da família" proposta pelo Velho Gao. A atitude do Peregrino é de uma recusa tingida de deboche.
Esse contraste entre o "exorcista que não cobra" e os "mestres que cobram, mas são inúteis" é uma crítica velada de Jornada ao Oeste ao mercado religioso popular: a força que realmente consegue resolver o problema geralmente está fora do sistema de mercado; já os serviços religiosos baseados em transações financeiras são, em sua maioria, performáticos e sem efeito real.
Comparação com Outros Pais Mortais em Jornada ao Oeste
O Retrato dos Pais Mortais
Em Jornada ao Oeste, a figura do pai mortal aparece de várias formas, e o Velho Gao é um dos mais detalhados e tridimensionais. Comparando-o com outros pais mortais, percebem-se traços comuns e a singularidade do Velho Gao.
Chen Guangrui e seu pai: O avô e o pai de Tang Sanzang aparecem na parte da ancestralidade de Xuanzang como figuras históricas planas, servindo apenas para a função narrativa do "pecado ancestral" e da "injustiça familiar", sem grande profundidade psicológica.
O Rei de Zhuzi: Está mais para um "marido" do que para um pai; ele busca ajuda da equipe de peregrinação após perder a amada esposa. Mas, sendo rei, ele está em um patamar diferente do Velho Gao, que é um proprietário rural — mesmo diante de demônios, seus recursos de poder são muito maiores.
O Rei de Chechi: Controlado por três monges demônios, ele não consegue reagir, sendo quase um "rei fantoche". Sua impotência lembra a do Velho Gao, mas suas amarras políticas são muito mais complexas.
Entre esses personagens, a particularidade do Velho Gao é que ele é um simples senhor de terras: sem poder real, sem cultivo espiritual, sem qualquer proteção sobrenatural. Sua angústia é a nudez do mortal diante do demônio, sem qualquer amortecedor. Essa sensação de desamparo absoluto faz dele a figura paterna mais próxima da experiência do leitor comum.
O Tema Comum da Impotência
A angústia coletiva dos pais mortais em Jornada ao Oeste pode ser resumida em um tema central: diante de forças sobrenaturais, a ordem e a autoridade humanas perdem totalmente a validade.
O dinheiro do Velho Gao não compra poder real; sua autoridade de patriarca não manda no demônio do quintal; seu carinho paternal não consegue atravessar a corrente de ferro para entrar no quarto da filha. Todos os seus recursos mundanos são inúteis perante os deuses e demônios. Essa falha não é um fracasso pessoal do Velho Gao, mas uma condição estrutural de todo o mundo mortal diante da ordem sobrenatural.
Wu Cheng'en, através da figura do Velho Gao, aponta com delicadeza, mas com firmeza: a riqueza, a autoridade e a dignidade dos homens, diante do verdadeiro poder divino ou demoníaco, não passam de uma folha de papel — soprou o vento, rasgou.
O Significado Literário do Velho Gao: O Porta-Voz do Homem Comum
O Rótulo de "Homem Bom" e sua Complexidade Interna
No sistema de rótulos de Jornada ao Oeste, o Velho Gao é geralmente classificado como "mortal bondoso" — ele nunca fez mal a ninguém nem feriu ninguém propositalmente. Mas "bondoso" não significa "simples".
O Velho Gao é um "homem bom" com seus egoísmos, seus cálculos e suas limitações. Ele ama a filha, mas também a vê como ferramenta para manter o patrimônio da família; ele é grato ao Peregrino, mas sente repulsa imediata ao ver a aparência do macaco; ele deseja a honra de seu nome, mas certamente se beneficiou da mão de obra sobrenatural de Zhu Bajie nos anos em que este acumulou riquezas para ele.
Essa complexidade torna o Velho Gao muito mais interessante do que um "homem bom" unidimensional. A bondade dele é a bondade do povo: não é malvada, nem santa; é apenas alguém tentando, dentro de suas possibilidades, proteger a família e a honra, pedindo ajuda quando a situação foge do controle, sendo cauteloso diante do desconhecido e sentindo temor diante do poder divino.
O Solar Gao como Espelho do Mundo Mortal
Na estrutura macro de Jornada ao Oeste, o Solar Gao cumpre uma função narrativa essencial: é o primeiro "assentamento mortal" real no caminho da peregrinação, o lugar onde a sociedade humana comum e a ordem divino-demoníaca colidem de forma mais direta.
Aqui, os mortais (a família Gao e os moradores da vila) não conseguem resolver o problema sozinhos; as divindades de base (o Deus da Terra) são igualmente impotentes; os clérigos populares (aqueles três ou quatro mestres) fracassam totalmente. No fim, apenas a equipe de peregrinação — representando a ordem superior de Budas e Deuses — consegue resolver a crise.
Essa hierarquia de poder — "mortal $\rightarrow$ divindade de base $\rightarrow$ religião popular $\rightarrow$ divindades superiores" — é apresentada por completo na história do Solar Gao. O Velho Gao representa a base dessa pirâmide; sua impotência não é fraqueza, mas uma inevitabilidade estrutural.
O Papel Narrativo do Velho Gao como "Catalisador"
Do ponto de vista da função narrativa, o Velho Gao é o "catalisador" para a entrada de Zhu Bajie na equipe. Sua angústia desencadeia os eventos, seu pedido leva o Peregrino a caçar o demônio, e o processo de captura cria a oportunidade para Zhu Bajie se juntar aos viajantes.
Esse papel de catalisador é fundamental na estrutura de Jornada ao Oeste. Zhu Bajie é o membro mais rico em personalidade e o mais "humano" de todo o grupo; sua entrada muda radicalmente o temperamento e as possibilidades narrativas da jornada. Se não fosse a desgraça do Velho Gao, ou o encontro casual com Gao Cai, a equipe poderia ter encontrado (ou não) Zhu Bajie de forma completamente diferente — tudo isso dependia do pequeno quintal daquele senhor de terras.
Nesse sentido, embora seja um simples mortal, o Velho Gao desempenha um papel estrutural indispensável na grandiosa engenharia de Jornada ao Oeste: ele é quem "abre a porta" para a história de Zhu Bajie e o "portal" por onde o mundo mortal entra na narrativa dos deuses e demônios.
Interpretação Profunda dos Detalhes do Texto
O Significado Simbólico do Nome "Solar da Família Gao"
O nome "Solar da Família Gao" (Gao Lao Zhuang) carrega em si um simbolismo sutil. "Gao" pode ser entendido apenas como o sobrenome da família (já que a maioria dos moradores do vilarejo se chama Gao), mas também sugere um estado de espírito: alguém que se sente superior, que olha own as coisas de cima. A posição de Gao Taigong como um notável local, sua obsessão extrema pela "virtude" e pela "reputação", revela um apego quase doentio às aparências e ao status social.
No entanto, essa família "superior" acaba sendo invadida por um demônio com cara de porco que entra como genro. Esse contraste entre o nome e a situação cria aquele humor ácido e invisível típico de Wu Cheng'en: quem se acha no topo acaba caindo na situação mais ridícula e embaraçosa de todas.
A Imagem da Tranca de Bronze
A cena em que Gao Taigong pede a chave para o Peregrino abrir a porta dos fundos é um dos momentos de ironia mais brilhantes de todo o livro.
"O Peregrino disse: 'Vá buscar a chave'. Gao Taigong respondeu: 'Ora, veja você, se a chave servisse, eu não teria chamado o senhor'."
Gao Taigong não consegue nem a chave do quarto da própria filha — e isso porque aquela tranca não era nada comum. "Ao tocar, percebeu que era uma tranca fundida em bronze" — um bloco sólido de bronze derretido, algo que chave nenhuma abre. Era o artifício mágico de Zhu Ganglie para selar completamente aquele espaço. O Peregrino, então, "deu uma pancada com o Ruyi Jingu Bang e abriu a porta" — apenas um artefato divino poderia romper aquela barreira que as ferramentas humanas não conseguiam sequer arranhar.
Essa tranca de bronze é o símbolo perfeito do impasse do Solar da Família Gao: as ferramentas do mundo dos homens (a chave) são inúteis contra os obstáculos erguidos por seres mágicos; somente um poder divino superior (o bastão) pode quebrar esse cerco.
O Visual de Cuilan: O Contraste entre a Beleza e a Melancolia
Quando o Peregrino entra nos fundos e usa seus Olhos de Ouro para observar Cuilan, o autor usa uma descrição primorosa:
"Cabelos de nuvem desalinhados e sem pente, rosto de jade sujo de poeira. O coração de orquídea permanece intacto, mas a graça da beleza está desfalecida. Lábios de cereja sem cor nem sangue, a cintura curvada e fragilizada. Olhar triste, sobrancelhas desbotadas; magra e tímida, com a voz baixa."
Essa passagem é uma das descrições mais delicadas da aparência feminina em toda a obra, mas não serve para exaltar a beleza, e sim a exaustão. Cabelos desgrenhados, rosto sem lavar, palidez extrema, corpo debilitado — esse é o preço de seis meses de cárcere. A frase "o coração de orquídea permanece intacto" é fundamental: embora o corpo tenha sido consumido pela fraqueza, algo dentro dela — talvez a esperança no pai ou o desejo de voltar a viver — ainda resistia.
Através dos olhos do Peregrino, o leitor vê a filha que Gao Taigong nunca chegou a enxergar de verdade. Ele sabia que ela sofria, mas não via a imagem real; ele apenas ouvia de terceiros ou imaginava, atrás da porta fechada, que a filha "estava em situação incerta". Quando a imagem real aparece, não é para o pai, mas para o leitor, para que este compreenda o tamanho do sacrifício de Cuilan.
Análise do Contexto e Protótipos Criativos
A Realidade do Genro Adotado na Dinastia Ming
A trama de Gao Taigong aceitar um genro que fosse morar na casa da família tem raízes profundas na sociedade da Dinastia Ming. O sistema de "genro adotado" (zhuixu) era comum no campo, especialmente em regiões com economia comercial forte, servindo como solução para famílias sem filhos homens. O status desse genro era bem complicado: ele trabalhava duro, cuidava dos sogros, mas raramente conseguia respeito igualitário na família — era chamado de "porta invertida" e muitas vezes desprezado pelos vizinhos.
Em Jornada ao Oeste, a escolha de colocar Zhu Ganglie como genro da família Gao leva esse constrangimento ao limite: um ex-Marechal do Céu humilhando-se como genro de um notável do campo, usando a face de porco para fingir ser o filho adotivo para cuidar da velhice dos sogros. Esse descompasso total de identidade é a essência da comédia.
A mão de Wu Cheng'en aqui é suave: ele não pinta o papel de genro de Zhu Ganglie como algo puramente maligno. O porco trabalhava, era diligente e acumulava bens, cumprindo as obrigações de um genro ideal. O motivo de Gao Taigong querer expulsá-lo não era a maldade (já que ele nunca feriu Cuilan de verdade), mas a preocupação com a "reputação". Esse tratamento complexo mostra que o autor compreendia profundamente as nuances sociais do seu tempo.
A Ecologia Social dos Rituais de Exorcismo na Era Ming
O relato de que Gao Taigong "chamou uns três ou quatro mestres" reflete a realidade dos serviços de exorcismo e orações da época. A fé popular na Dinastia Ming era plural, misturando Budismo, Taoísmo e Xamanismo. Havia de tudo: desde templos ortodoxos até charlatões que viviam de estrada.
A competência desses profissionais variava muito. Havia muitos golpistas que usavam rituais para enganar, mas também existiam praticantes sinceros de tradições mágicas populares. O problema é que eles enfrentavam o nível mais baixo de poder na hierarquia de Jornada ao Oeste — contra um demônio poderoso como o ex-Marechal Tianpeng, eles não tinham a menor chance.
A crítica de Wu Cheng'en a esses "monges inúteis e taoistas incompetentes" é ácida, mas justa. Através da jornada de Gao Taigong, o autor expõe um dilema real: no mercado da fé popular, quem realmente consegue resolver o problema é raríssimo, enquanto quem cobra caro sob a bandeira da religião sem entregar resultado é a regra.
A Humanidade de Wu Cheng'en
A figura de Gao Taigong revela a compaixão do autor pelos mortais comuns. Wu Cheng'en veio de família culta, mas teve uma carreira política difícil e viveu muito tempo na classe média social, o que lhe deu uma visão direta e empática da psicologia dos notáveis de província.
O drama de Gao Taigong — a falta de filhos, a filha tomada por um demônio, a honra manchada, a falta de quem ajudar — é uma tragédia humana universal. Não tem a ver com magia ou iluminação, mas com a dor mais comum e difícil de suportar: a impotência de não conseguir proteger quem se ama e a incapacidade de lutar contra forças maiores que si mesmo.
Wu Cheng'en não zomba de Gao Taigong, nem o idealiza. Ele apenas apresenta a luta de um homem comum em uma situação extraordinária — e, com um final inesperado, concede a ele um certo consolo: seu problema foi resolvido, mesmo que de um jeito que ele jamais poderia imaginar.
Gamificação e Possibilidades de Expansão Criativa
Análise Funcional do Personagem Gao Taigong
Em um contexto de design de jogos ou adaptações, Gao Taigong é o típico "NPC de Missão" — ele faz a solicitação (exorcismo), fornece informações (sobre o demônio), paga a recompensa (dinheiro e roupas) e oferece a base de operações (o Solar da Família Gao). Ele não luta, não tem magia, mas é o eixo narrativo que empurra Zhu Bajie para a equipe.
Em adaptações, ele geralmente assume estes papéis:
- Dador de missões (linha de missão "Resgate de Cuilan" ou "Domar o Demônio Porco").
- Fonte de informação (detalhes sobre as habilidades e comportamentos de Zhu Ganglie).
- NPC de contexto social (representando a reação do mundo mortal à invasão sobrenatural).
Sua profundidade emocional (o amor de pai, a obsessão pela fama, o medo do divino) dá a esse "NPC" uma camada narrativa que vai além da simples função mecânica.
Lacunas Narrativas Não Preenchidas
A história de Gao Taigong deixa alguns espaços em branco que são verdadeiras minas de ouro para novos criadores:
O mundo interior de Cuilan: Ela sentia medo, indiferença ou, em algum momento, chegou a aceitar ou até sentir algo por Zhu Ganglie? O que passava pela cabeça dela durante aqueles seis meses de clausura?
A rotina de três anos: Como era o dia a dia de Gao Taigong com esse genro com cara de porco? Houve conversas cotidianas que não fossem de conflito? Será que o pai tentou, em algum momento, "aceitar" o genro, e como seu coração oscilava entre a repulsa e a resignação entre uma tentativa fracassada de exorcismo e outra?
O destino de Cuilan após o casamento: Depois que Zhu Bajie partiu, com quem Cuilan se casou? Ou teria ficado sozinha, carregando a fama de "ex-mulher de um demônio" pelo resto da vida? A "virtude" que Gao Taigong tanto prezava foi realmente recuperada?
A velhice de Gao Taigong: Com a partida dos monges e a saída do "genro", como ficou a sucessão do Solar da Família Gao? Como ele resolveu a angústia de não ter filhos?
Jornada ao Oeste deixa essas perguntas no ar, oferecendo um espaço infinito para a imaginação.
O Potencial Criativo da Relação Sogro-Genro
Essa "relação de família" interrompida entre Gao Taigong e Zhu Bajie tem um potencial imenso, tanto para a comédia quanto para a tragédia.
Por um lado, é uma comédia do absurdo: um marechal do céu vira genro de um camponês, age como parente com cara de porco, ganha uma fortuna e, ao ser expulso, ainda pergunta pela "esposa".
Por outro, pode ser uma tragédia humana: um imortal punido pelo céu, reencarnado como porco, tentando encontrar um lugar no mundo na posição mais baixa da escala social — a de genro adotado — para enfim ser arrancado disso tudo por uma missão religiosa, deixando para trás uma vida humana estranha, porém real.
Gao Taigong, como o "sogro" dessa relação, é a ponte entre essas duas possibilidades. Sua aceitação inicial, a rejeição posterior, a aceitação forçada ao banquetear os monges e, finalmente, o ato de deixar Zhu Bajie ir embora — esses quatro estágios formam um arco emocional completo, capaz de sustentar uma obra literária independente.
Epílogo: Depois do Solar da Família Gao
O Velho Mestre Gao ficou ali parado no portão da propriedade, observando aqueles três monges — um montado no cavalo, outro carregando os alforjes e o último com um bastão de ferro no ombro — seguindo caminho para o Ocidente, até sumirem no horizonte da estrada.
Ele tinha acabado de atravessar o trecho mais agitado de toda a sua vida, cercado de fatos sobrenaturais. Três anos de angústia, três anos tentando expulsar demônios sem sucesso e três anos com a honra arrastada na lama; tudo resolveu em apenas dois dias — de um jeito que ele jamais teria imaginado.
O demônio não foi aniquilado; tornou-se monge.
A filha voltou, mas aquele lugar de "genro para cuidar da velhice" continuava vago.
As terras e as riquezas ainda estavam lá, e a fama, aos poucos, poderia ser recuperada — aquela piada de que "a família Gao arrumou um monstro de genro" um dia acabaria sumindo da memória dos vizinhos.
O Velho Mestre Gao é o tipo mais comum de gente que se vê em Jornada ao Oeste: sem poderes divinos, sem encontros mágicos (a não ser quando é arrastado para a aventura dos outros), sem chance de virar imortal; tinha apenas as mazelas e os desejos mais simples de um mortal. Seu nome é "Taigong", um título sem nome, um tratamento sem sobrenome — não é figura histórica, nem herói de mito, é apenas um entre os milhares de pais proprietários de terras daquela época.
Mas é justamente por isso que ele é a presença mais real de toda a obra: um homem que viveu na beira das histórias de deuses e demônios, foi transformado por elas, mas que, no fim das contas, nunca deixou de ser apenas um pai humano.
Aquela estrada que leva ao Oeste, ele jamais trilharia. Ele precisava voltar para o solar, ver a Cuilan e seguir com a sua vida. E o que ele não sabia é que aquele seu antigo genro com cara de porco, naquele exato momento, carregava a bagagem nos ombros, cantarolando quem sabe qual melodia, seguindo um cavalo branco, passo a passo, rumo a um destino onde nenhum mortal jamais conseguiria chegar.
O Velho Mestre Gao aparece nos capítulos dezoito e dezenove da obra original, cruzando caminhos com Sun Wukong, Tang Sanzang, Zhu Bajie, Monge Sha e o Deus da Terra.
Perguntas frequentes
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