Capítulo 23: O Teste dos Quatro Santos
Quatro Bodhisattvas disfarçados testam a firmeza espiritual dos peregrinos. Tang Sanzang permanece inabalável, mas Zhu Bajie sucumbe à tentação da vida doméstica.
O outono chegou às planícies do ocidente com a linguagem específica da estação: folhas de bordo vermelhas nas encostas, o ar com aquela nitidez cortante que tornava cada detalhe da paisagem mais vívido, os pássaros migrando em formações que cruzavam o horizonte como pontuação sobre o céu.
Os quatro viajavam em cadência estabelecida, e havia, nas semanas que se seguiram à travessia do Rio da Areia Flutuante, algo próximo ao conforto — a estranheza do grupo havia se normalizado, e as idiossincrasias de cada um tinham se tornado não obstáculos mas texturas da vida coletiva.
Zhu Bajie reclamava do peso das bagagens. Sun Wukong o ignorava e abria caminho à frente. Sha Wujing carregava em silêncio o que havia para carregar. Tang Sanzang cavalgava recitando sutras e fazendo perguntas genuínas sobre o que cada um havia experienciado no Céu — porque a curiosidade do monge pelos mundos que não havia visitado era genuína e inesgotável.
No final de uma tarde longa, avistaram uma fazenda grande e bem cuidada com luzes acesas nas janelas que comunicavam o conforto doméstico de um lar onde havia pessoas suficientes para manter o calor até tarde.
Uma mulher de meia-idade os recebeu na porta — viúva, disse ela, com três filhas em idade de casar e terras suficientes para sustentar quatro homens trabalhadores caso houvesse quatro homens trabalhadores interessados em uma vida tranquila e próspera no coração das planícies.
Tang Sanzang agradeceu pela hospitalidade e pediu apenas uma refeição e descanso para a noite.
A mulher insistiu. Havia algo em sua insistência que era mais elaborada do que a hospitalidade comum — um argumento estruturado, uma oferta de riqueza concreta, a apresentação progressiva das três filhas, cada uma mais bela e bem-composta do que a anterior.
Sun Wukong observava essa performance com os Olhos de Ouro que viam através de ilusões. Havia algo errado — não da forma que um demônio tinha errado, mas de uma forma diferente, mais sutil.
Tang Sanzang manteve sua recusa com a cortesia inabalável de alguém que havia decidido algo completamente e não precisava de energia emocional adicional para manter a decisão.
Zhu Bajie não tinha a mesma certeza.
O problema com Zhu Bajie não era fraqueza moral exatamente — era que sua história celestial havia incluído exatamente este tipo de tentação, e o resultado daquela história ainda estava inscrito na sua forma corporal como lembrança permanente. Havia uma parte dele que olhava para uma casa aquecida, para comida farta, para a possibilidade de ficar, e que reconhecia isso como o que havia abandonado quando fora exilado.
Enquanto Tang Sanzang, Sun Wukong e Sha Wujing descansavam, Zhu Bajie foi encontrado numa conversa suspeita com a mulher sobre os aspectos práticos de ficar para sempre e se tornar genro.
A manhã revelou a verdade: as quatro mulheres eram Guanyin, a Bodhisattva Budista do Monte Emei, a Bodhisattva das Nuvens Douradas e a Bodhisattva das Flores de Lótus — quatro seres celestiais que haviam assumido forma humana para testar a determinação dos peregrinos.
Zhu Bajie, que havia ficado preso numa das âncoras do jardim depois de tentar fazer contato com a "filha mais velha" e descoberto pela manhã amarrado como prova física da sua fraqueza, ficou vermelho de vergonha quando as quatro mulheres se revelaram na sua glória verdadeira.
Havia algo de trágico e de irresistivelmente cômico nessa situação, e Tang Sanzang — que era capaz de sentir ambas as coisas simultaneamente — não riu, mas tampouco pregou. Apenas disse:
"A jornada existe exatamente porque somos como somos. Não haveria necessidade de jornada se já fôssemos o que precisamos ser ao final dela."
Era uma das poucas vezes em que Sun Wukong não tinha nada a comentar sobre o que o mestre havia dito.
As Bodhisattvas partiram com a graça de quem havia feito o que havia vindo fazer, e deixaram atrás de si apenas a fragrância de flores de lótus e uma nota de pedras brilhantes que dizia, em linguagem indireta mas inequívoca, que os peregrinos eram observados e que havia amor nessa observação.
Zhu Bajie carregou as bagagens no dia seguinte com um silêncio atipicamente profundo.
O que o País das Mulheres havia revelado, entre outras coisas, era a natureza específica da tentação de Tang Sanzang — e a maneira como o monge a navegava.
A rainha havia sido genuína. Não havia nela maldade nem ilusão — era um ser de dignidade real que havia encontrado algo que queria com sinceridade. E havia em Tang Sanzang, quando Wukong observava de perto nos dias que se seguiram, uma qualidade de sobriedade que era diferente de frieza ou indiferença.
Era a sobriedade de alguém que havia sentido o peso do que havia deixado para trás e havia escolhido deixar de qualquer forma.
"Mestre," disse Wukong numa tarde de estrada tranquila, quando Bajie estava suficientemente à frente para não ouvir, "a rainha não vos perturbou de nenhuma forma?"
Tang Sanzang ficou em silêncio por um momento que tinha resposta dentro dele. "Perturbou," disse ele honestamente. "Há uma diferença entre não ser perturbado e escolher não agir a partir da perturbação."
"E como se escolhe?"
"Lembrando o porquê." Uma pausa. "Não abstratamente — especificamente. As almas que esperem. Os seres que sofrem e para os quais as escrituras poderiam ser o caminho de saída. Quando o porquê é concreto, a escolha é mais clara."
Wukong considerou isso. "Mas ainda doi."
"Ainda doi," confirmou Tang Sanzang sem o tipo de negação que seria mais confortável de ouvir mas menos honesto de dizer. "Mas há doências que são parte do custo de ser quem se escolheu ser. E há uma dignidade nessa doência que a fuga não tem."
Era um ensinamento que Wukong guardaria — não porque se aplicasse a si mesmo da mesma forma que ao Mestre, mas porque havia nele algo sobre a relação entre escolha e custo e dignidade que era mais universalmente verdadeiro do que qualquer formulação mais geral poderia ser.
A estrada continuou para o Oeste, e o Mestre continuou sendo o Mestre — com toda a humanidade que isso incluía — e Wukong continuou caminhando ao lado dele com a proteção que era tanto dever quanto escolha, ambos ao mesmo tempo, inseparáveis.
Havia também na experiência do País das Mulheres algo que Zhu Bajie processou de forma própria, diferente da de Wukong ou de Sha Wujing, e que revelou algo sobre o segundo discípulo que as batalhas habituais não haviam mostrado.
Bajie havia crescido — metaforicamente, pois seu crescimento físico era permanentemente estabilizado em formas porcinas — durante aquele episódio.
Quando a rainha havia tentado retê-lo também, flertando com a possibilidade de que o companheiro do monge sagrado poderia ser igualmente sacramental de alguma forma, Bajie havia sentido a atração usual, o tipo de tentação que seu natureza semi-animal experienciava como física antes de ser moral. Mas havia também sentido, por baixo disso, algo que ele próprio classificou mais tarde, em conversa apenas com Sha Wujing porque Wukong teria algo a dizer sobre isso que não queria ouvir, como responsabilidade.
"Não podia ficar," disse Bajie naquela conversa noturna, quando Wukong tinha saído para patrulhar. "Não porque não quisesse. Mas porque o Mestre precisava de mim para sair. E percebi que querer fica em segundo lugar quando alguém precisa."
Sha Wujing havia assimilado isso com a seriedade que dava a todas as coisas que Bajie dizia quando não estava a fazer graça. "Isso é uma descoberta importante."
"Não sei se gostei dela." Bajie revirou os olhos pequenos e brilhantes. "Era mais simples quando só pensava em mim."
"Era," concordou Sha Wujing sem condescendência.
O caminho para o Oeste continuou sendo o professor mais implacável de todos. Cada região pedia algo diferente do grupo — força aqui, paciência ali, diplomacia num vale, velocidade numa montanha. E o grupo continuava a descobrir que tinha mais recursos do que sabia quando chegara a cada desafio.
Tang Sanzang observou, numa tarde de estrada longa e relativamente tranquila em que o único som era o vento nas gramíneas altas e o rítmico passo do Cavalo Branco, que a companhia havia desenvolvido uma linguagem própria — um conjunto de sinais, pausas, olhares, pequenos gestos que codificavam significados que palavras tornariam mais lentos.
Wukong sabia, pela posição dos ombros de Bajie, se havia problema à frente ou apenas comida detectada. Sha Wujing sabia, pelo ritmo da respiração de Tang Sanzang, se o mestre estava em oração ou em ansiedade. Bajie sabia, de forma que ele próprio não poderia articular mas que era real, quando Wukong estava genuinamente preocupado versus apenas agitado.
E Tang Sanzang tinha aprendido — talvez esta fosse a maior surpresa de tudo — a ler Sun Wukong com uma precisão que nenhum tratado sobre a natureza dos grandes sábios o havia preparado para alcançar.
Sabia quando Wukong estava satisfeito com sua proteção — havia um relaxamento ligeiro nos músculos do ombro, uma qualidade diferente no silêncio.
Sabia quando Wukong estava irritado com as restrições do papel de protetor — havia uma energia contida, uma vigilância que era ligeiramente mais tensa do que necessário.
E sabia, sobretudo, quando Wukong estava sendo ele mesmo completamente, sem qualquer filtro de papel ou dever: havia naqueles momentos uma vivacidade nos olhos dourados, uma velocidade no pensamento, uma alegria física na existência que era a verdade mais fundamental daquele ser impossível que caminhava ao seu lado.
"Sois feliz, Wukong?" perguntou Tang Sanzang naquela tarde de gramíneas e vento, em voz baixa e sem preâmbulo.
Wukong olhou para ele com a expressão de quem não havia esperado a pergunta. "Feliz?"
"Nesta jornada. Comigo. Com o que somos."
Uma pausa longa. O Cavalo Branco continuou seu passo metódico.
"Sou," disse Wukong finalmente, com uma honestidade que era mais rara nele do que a violência ou a estratégia. "Não sempre. Mas frequentemente o suficiente para que seja verdade."
Tang Sanzang assentiu. E não disse mais nada, porque não havia mais nada que precisasse ser dito.
O Oeste esperava. As escrituras esperavam. Os seres que precisavam da compaixão que aquelas escrituras podiam despertar esperavam. E o grupo de quatro — um monge, um macaco, um porco, um arenoso eremita transformado — caminhava em direção a tudo isso com a competência imperfeita e genuína de uma família que não havia escolhido ser família mas havia se tornado uma de qualquer forma.