Capítulo 18: A Fazenda Gao e o Demônio Porco
Tang Sanzang e Sun Wukong chegam à Fazenda Gao onde um monstro porco aterroriza a família. Sun Wukong desafia o demônio e descobre ser Zhu Bajie, um general celestial exilado.
A Fazenda Gao era o tipo de lugar que parecia, à primeira vista, um refúgio perfeito da estrada — campos bem cultivados que se estendiam em terraços ladeira abaixo, uma casa grande de adobe vermelho com o telhado levemente inclinado que os construtores daquela região sabiam fazer para que a chuva escorresse certa, o som de galinhas debatendo no terreiro e o cheiro de algo cozinhando que fazia o estômago de qualquer viajante se manifestar com a insistência dos que passaram o dia na estrada sem comer direito. Tang Sanzang avistou-a no fim de uma tarde longa e sentiu aquele alívio específico de quem percebe que não terá que dormir ao relento com a cabeça sobre uma pedra — o alívio humano, simples, que o mais elevado dos sutras não consegue tornar supérfluo.
Mas havia algo errado. Ficou visível assim que se aproximaram o suficiente para ver os rostos das pessoas que trabalhavam na beira dos campos: uma tensão particular instalada na musculatura dos ombros, no jeito como os olhos varreavam o horizonte com uma frequência que não era curiosidade mas vigilância, o tipo de tensão que não vem do trabalho duro mas de viver com um medo constante que se instalou num dia específico e nunca foi embora, que virou fundo permanente do qual todas as outras emoções se destacam.
O patriarca da família, o Senhor Gao, era um homem de meia-idade que recebia os peregrinos com hospitalidade genuína misturada a uma distração que se revelou rapidamente ser preocupação profunda — a distração de quem tem um problema que não consegue parar de girar na mente mesmo quando está fazendo outra coisa. Depois que o jantar foi servido sobre a mesa baixa da sala principal, depois que o chá circulou e a conversa se aqueceu com a educação dos que sabem receber estranhos, a história saiu.
Três anos antes, um ser estranhíssimo havia aparecido na propriedade: rosto de porco mas porte humano, grande como um homem crescido mas mais largo, com dentes que pareciam projetados para ser impressionantes antes de ser úteis. Havia pedido comida, que a família Gao concedera por cortesia e por um pouco de medo. O estranho havia comido o suficiente para uma semana de família inteira e pedido mais. E então havia decidido não partir.
Havia se tornado genro da família através de um processo que o Senhor Gao descreveu com a precisão cuidadosa de quem está tentando ser justo numa situação em que a injustiça foi grande: havia uma mistura de sedução que funcionou mais pelo medo do que pelo desejo, e de promessas que pareciam boas no momento em que foram feitas e que nunca foram cumpridas, e de uma ameaça velada que nunca precisou ser formulada completamente porque estava sempre implícita na diferença de tamanho e força entre o genro e todos os outros da fazenda. A filha mais velha, Cuilan, havia aceitado porque não havia forma de não aceitar que não custasse mais do que aceitação.
E desde então: o monstro comia em quantidades que empobreciam a família, afastava trabalhadores e vendedores e visitantes com sua aparência e com um cheiro que era o cheiro de algo que pertencia a outro mundo e não tentava esconder isso, e mantinha a jovem esposa num estado de exaustão constante que era menos sobre trabalho e mais sobre a presença permanente de algo que não devia ser naquele lugar.
"Eu precisaria de alguém que pudesse expulsá-lo", disse o Senhor Gao com a hesitação de alguém pedindo uma coisa que não tem certeza ser possível — que estava formulando como pedido mas que na verdade era mais o desabafo de quem havia carregado um peso por muito tempo e encontrou alguém com a aparência de quem poderia, talvez, entendê-lo.
Sun Wukong acenou com a cabeça com a expressão de alguém recebendo uma encomenda simples. Não havia excitação — havia o reconhecimento tranquilo de alguém que conhece seu trabalho.
Naquela noite, Tang Sanzang dormiu com o sono concentrado da prática, e Sun Wukong saiu do quarto transformado — a transformação foi rápida e completa, como era sempre para ele, uma questão de querer ser outro e ser outro: uma jovem mulher de rosto redondo e expressão serena que era simultaneamente completamente convincente e, para qualquer olho com instrução, levemente errada de um jeito que não conseguia apontar mas que sentia. Instalou-se no quarto de Cuilan e esperou com a paciência específica de quem não tem medo do tempo.
O monstro porco chegou mais tarde, quando a lua havia passado do zênite e a fazenda estava no sono mais profundo. A porta abriu com o cuidado excessivo dos que acreditam que cuidado os torna invisíveis quando são grandes demais para a invisibilidade. O ser que entrou era enorme — quase três metros de altura quando se erguia completamente, com uma cabeça de porco que conservava os dentes como presas projetadas além dos lábios, buracos de nariz que ciclicamente se abriam para farejar o ar da sala, e orelhas que se moviam independentemente como antenas. Carregava uma haste de metal com nove dentes, que havia pousado encostada na parede com o gesto habitual de quem chega em casa.
E então o disfarce acabou.
Sun Wukong ergueu-se da cama com a velocidade que era a expressão mais imediata da sua natureza, e o quarto que havia sido silencioso explodiu: o bastão que havia guardado escondido nas vestes surgiu em tamanho completo, os gritos do monstro começaram quando o bastão fez contato com o ombro que tentou esquivar e não chegou a tempo, e os dois saíram através da parede — através, não pela porta, porque nenhum dos dois estava pensando em paredes naquele momento — e para o terreiro escuro da fazenda onde havia espaço para o tipo de batalha que travavam.
O monstro porco era poderoso de uma forma que Sun Wukong reconheceu como poder cultivado, não poder natural de demônio — havia na sua técnica de combate uma memória de treinamento formal, a habilidade de alguém que aprendeu a lutar num ambiente onde aprender a lutar significava aprender com os melhores. Havia na forma como segurava a haste de nove dentes uma fluência que não era de fera mas de guerreiro, e quando contraatacou havia naquele contragolpe uma precisão que fez Sun Wukong dar um passo atrás não por fraqueza mas por reavaliação.
Correram pela fazenda no escuro, o bastão contra a haste, os dois causando danos consideráveis às estruturas laterais que tiveram a má sorte de estar no caminho. A família Gao acordou e ficou atrás das portas ouvindo o barulho com o misto de terror e esperança de quem testemunha uma batalha entre dois poderes e não sabe para qual dos lados rezar.
Quando o monstro finalmente ficou sem fôlego — o que levou um tempo considerável, porque era robusto de uma forma que os anos de exílio não haviam reduzido — e os dois pararam na beira do campo, ofegantes e encarando um ao outro à luz fria da lua, Sun Wukong disse sem rodeio:
"Você é um imortal exilado."
O monstro porco olhou para ele por um longo momento. Havia no seu rosto — difícil de ler em condições normais, mais difícil ainda com aquelas feições — uma expressão que era a expressão de alguém que foi descoberto num segredo que estava guardando mais por hábito do que por necessidade real, porque a necessidade de segredo havia passado mas o hábito permanecia.
"Sou", disse ele, e a voz que saiu daquelas presas era surpreendentemente clara, a voz de alguém que aprendeu a falar bem num tempo em que era outra coisa.
Tian Peng. O Almirante das Forças Celestiais das Marinhas — comandante de oitenta mil tropas aquáticas do Imperador de Jade, responsável pela defesa das fronteiras celestes contra ameaças vindas dos mares e rios do cosmos. Um cargo de poder real, de responsabilidade real, exercido com a eficiência de um general que gostava de seu trabalho. E então um banquete, e o vinho celestial que é diferente do vinho humano porque não apenas embriaga a mente mas embriaga o julgamento de formas que o cultivado deveria saber resistir mas que Tian Peng, naquela noite específica, não havia resistido. E Chang'e, a habitante da Lua, cuja beleza era de uma categoria que poucos seres tinham acesso e cujo interesse em atenções não solicitadas era absolutamente zero.
"Chang'e me deu uma resposta que ainda ressoa", disse Tian Peng, com uma candura que era menos humildade e mais o tipo de honestidade de quem passou tempo suficiente com a humilhação para não precisar mais disfarçá-la. "E então o Imperador de Jade me deu uma sentença."
O exílio de volta ao ciclo mortal de renascimento. E o infortúnio da forma: uma confusão nos portais de transmigração que resultara num ventre de porca em vez de humano, e assim a forma mista que era ao mesmo tempo humanamente inteligente — com a memória de séculos de cultivo, com o conhecimento da cosmologia celestial, com a competência de um general formado nos melhores campos de treinamento do universo — e irreversivelmente bestial na aparência, condenado a ver nos olhos de todos os que o encontravam o reflexo do que havia se tornado.
"A Bodhisattva Guanyin me encontrou", disse ele, com uma mistura de vergonha e esperança que transformava a fisionomia em algo que era quase comovente se se soubesse o que procurar. "Disse que se eu esperasse pelo monge da Terra Tang e servisse com sinceridade na jornada ao ocidente, poderia remir o karma acumulado. Disse que havia uma possibilidade de regresso."
Sun Wukong observou-o por um longo momento com aqueles olhos de ouro que viam através de todas as formas até o ser que estava por trás delas.
"Então venha", disse finalmente. "Meu mestre está esperando."
Tang Sanzang recebeu o novo discípulo com a abertura de coração que o caracterizava — sem a hesitação que a aparência de Zhu Bajie criava em todos os outros, sem o instinto de recuo que aquelas presas e aquele nariz e aquele tamanho provocavam nas pessoas que não conseguiam ver além do invólucro. Olhou para o ser na sua frente com a atenção direta com que olhava para todos os seres, e o que viu foi o que havia: um ser que havia errado e que carregava o erro como peso e como guia.
Deu-lhe o nome de dharma — Zhu Bajie, Porco dos Oito Preceitos — e integrou-o ao grupo com a naturalidade de quem genuinamente não faz distinção entre criaturas baseada em aparência, porque havia uma prática longa por trás dessa naturalidade, anos de entender que a forma é temporária e a natureza fundamental.
O Senhor Gao ficou aliviado ao ter sua casa de volta, agradeceu com uma efusão proporcional a três anos de terror acumulado, e olhou para o novo "discípulo" que partia com os peregrinos com a expressão de alguém que não sabe exatamente como se sente mas sabe que é diferente de como se sentia antes.
Zhu Bajie, ao partir, olhou para trás apenas uma vez em direção à propriedade onde havia passado três anos. E havia algo no seu olhar que era mais do que demônio e mais do que porco — havia algo que era o traço de um ser que sabia que havia se comportado mal e que carregava esse conhecimento não como peso paralisante mas como lembrança de onde não voltar.
Sun Wukong caminhou ao lado dele por um tempo.
"A Nuvem da Cambalhota", disse Sun Wukong, como quem faz uma avaliação técnica sem particular interesse pelo resultado, "é mais rápida do que andar a pé. Nesta forma você ainda consegue?"
"Não sei se ainda funciona nesta forma", disse Zhu Bajie.
"Vai aprender de novo", disse Sun Wukong, e havia na lacônica afirmação algo que não era exatamente encorajamento mas que funcionava como encorajamento — a certeza de quem afirma um fato em vez de expressar uma esperança.
Continuaram juntos, três onde havia sido dois, a jornada tornando-se progressivamente aquilo que havia sido planejada para ser — e Zhu Bajie dando os primeiros passos de um caminho que seria longo e difícil e que, aos poucos, ia moldando algo nele que ainda não tinha nome mas que precisava de nome.
Zhu Bajie havia crescido nos dias que se seguiram à sua entrada no grupo — não em sabedoria, necessariamente, mas em revelação progressiva de sua complexidade real.
Havia debaixo da preguiça e da gulodice e da falta de vergonha uma genuína competência quando a situação exigia. Bajie num campo de batalha era uma experiência diferente de Bajie na estrada — havia ali uma ferocidade focada que o rastelo de nove dentes amplificava, e um instinto de posicionamento tático que surpreendia Wukong por sua adequação ao terreno, a memória muscular do Almirante que não havia desaparecido com o exílio.
E havia também, em certos momentos inesperados, uma observação perspicaz que revelava que Bajie pagava muito mais atenção ao que acontecia ao seu redor do que sua postura de despreocupação sugeria.
"Sabes o que noto?" disse Bajie numa noite, enquanto os três discípulos esperavam que Tang Sanzang terminasse sua meditação pré-sono ao redor da pequena fogueira que havia acendido entre as pedras. "O Mestre nunca perde a calma. Já vi situações que teriam feito qualquer ser razoável perder a calma. Ele não perde."
"É o treinamento", disse Sha Wujing, que estava sentado do outro lado do fogo com a atenção dirigida para o nada específico que era a sua forma de atenção — aberta, sem alvo, como uma rede.
"Não é apenas treinamento", disse Bajie. "Conheço gente treinada que perde a calma. Há algo mais." Fez uma pausa de quem está procurando a palavra certa num vocabulário que não foi construído para essa finalidade. "O Mestre acredita de verdade. No Caminho, na missão, nas pessoas ao redor. Não é que não veja os problemas — vê tudo. Mas há em tudo o que vê um contexto maior que faz os problemas serem gerenciáveis sem deixar de ser problemas."
Wukong olhou para Bajie com o olhar de quem revisou sua avaliação. "Isso é mais perspicaz do que o habitual de ti."
"Tenho perspicazes, obrigado", disse Bajie com a dignidade levemente ferida que era sua característica nas ocasiões em que alguém se surpreendia com ele. "Só não os gasto onde não são necessários."
Sha Wujing disse, suavemente, como quem deixa cair uma pedra n'água sem querer ver o afundar: "A sabedoria que não se usa atrofia."
Bajie considerou isso por um momento com a concentração que dedicava às coisas que valiam concentração. Depois disse: "Amanhã usarei mais perspicácia. Hoje, durmo."
E dormiu — com aquela completude de sono que era caracteristicamente sua, o corpo relaxado de um ser que não carregava preocupações além de seu peso necessário, que havia aprendido, nos anos de exílio e nos anos antes dele, a soltar o dia quando o dia acabava.
Wukong ficou acordado por mais algum tempo olhando o fogo baixar, e pensou que havia algo no que Bajie havia dito — sobre a crença do Mestre como o que tornava os problemas gerenciáveis — que era mais verdadeiro do que o segundo discípulo provavelmente sabia formular completamente. A crença de Tang Sanzang era a estrutura invisível que tornava a jornada possível para todos eles. Não porque os forçava a acreditar também, não porque criava neles a mesma fé que ele tinha — mas porque havia naquela fé algo que criava espaço para que cada um encontrasse seu próprio relacionamento com o propósito, a sua própria razão de seguir.
Era uma arquitetura invisível. E era, Wukong estava aprendendo, o tipo de arquitetura que sustenta tudo o mais — mais do que as pedras, mais do que o telhado, mais do que qualquer coisa que se possa ver.