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Capítulo 13: Os Primeiros Perigos da Jornada

Tang Sanzang enfrenta seus primeiros perigos sozinho, é salvo por um caçador idoso e seu filho, e continua a jornada após ter um sonho com os seis deuses protetores.

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A montanha dos Dois Fronteiros se erguia no horizonte como uma parede entre dois mundos — o mundo que Tang Sanzang havia deixado e o mundo para o qual estava se dirigindo. Era uma fronteira não apenas geográfica mas existencial, e o monge a observou da base enquanto seu único cavalo restante pastava no capim da estrada.

Os dois jovens discípulos haviam sido devorados por tigres na noite anterior. Tang Sanzang havia ouvido os gritos da sua tenda, havia saído para encontrar apenas pegadas e sangue, havia ficado de joelhos na terra fria rezando por suas almas por um longo tempo antes de aceitar que não havia nada mais a fazer por eles neste mundo.

Continuou sozinho.

A estrada que cruzava a montanha era estreita e frequentemente encoberta por neblina densa, o tipo de neblina que faz os sons soarem de lugares errados e cria a impressão de que o mundo termina a dois metros à frente. Tang Sanzang seguia seu cavalo de olhos semicerrados, recitando sutras em voz baixa, usando o som de sua própria voz para manter o medo num nível manejável.

Foi nessas condições que caiu na armadilha.

Não era armadilha de demônios — era uma armadilha de caçador, um laço de corda que apanhou a pata do cavalo e o derrubou, atirando Tang Sanzang por sobre a cabeça do animal num voo breve e doloroso que terminou no chão de terra dura. Ele ficou deitado por um momento, avaliando se havia quebrado algo, e determinou que não. Apenas magoas que durariam algumas semanas.

O caçador que veio verificar a armadilha era um homem idoso de nome Liu Boqin — grande e áspero como a madeira das montanhas, com uma expressão de surpresa genuína ao encontrar um monge em vez de um animal na sua armadilha. Libertou o cavalo com eficiência prática e examinou Tang Sanzang com o mesmo olhar avaliativo que usaria para examinar qualquer coisa que houvesse encontrado no bosque.

"Você vai morrer aqui se seguir sozinho", disse Liu Boqin sem rodeios.

"Provavelmente", concordou Tang Sanzang, sentando-se e sacudindo a terra das vestes. "Mas estou indo buscar as escrituras sagradas no Grande Templo do Trovão, e esse é o único caminho que existe."

Liu Boqin ficou em silêncio por um momento, o olhar do caçador calculando distâncias e probabilidades.

"Venha para minha casa esta noite", disse finalmente. "Minha família era budista. Minha mãe ainda vai às cerimônias quando pode. Você pode rezar por ela e pela alma do meu pai, que morreu o inverno passado."

Na casa de Liu Boqin, modesta e calorosa, Tang Sanzang comeu arroz e legumes cozidos e dormiu numa cama de verdade pela primeira vez desde que saíra de Chang'an. A família ouvia seus sutras com aquela atenção silenciosa das pessoas simples que não entendem as palavras mas sentem a intenção por trás delas.

Na manhã seguinte, Liu Boqin insistiu em acompanhá-lo pelas partes mais perigosas da estrada da montanha.

Foi durante essa travessia que Tang Sanzang teve a visão.

Não era um sonho — estava acordado, caminhando, quando de repente sentiu uma presença diferente ao seu redor, como se o ar houvesse adquirido peso e substância. E então viu, por um instante que parecia durar horas, seis figuras luminosas ao seu redor — os seis deuses protetores que Guanyin havia designado para guardar o peregrino durante toda a jornada: o Deus do Dia, o Deus da Noite, o Deus do Valor, o Deus da Força e os dois Generais que cuidariam de suas provisões e do seu caminho.

"Não estamos visíveis sempre", disse o mais próximo deles, "mas estamos sempre presentes. Você nunca está completamente sozinho nesta estrada."

A visão passou tão abruptamente quanto havia chegado, e Tang Sanzang ficou parado no meio da trilha da montanha, com Liu Boqin olhando para ele com uma mistura de preocupação e respeito.

"Você está bem?", perguntou o caçador.

"Melhor do que estava", disse Tang Sanzang, e havia algo em sua voz que Liu Boqin não soube nomear mas reconheceu como genuíno.

Quando chegaram às planícies do outro lado da montanha, onde a estrada para o ocidente se abria novamente, Liu Boqin parou.

"Aqui é o limite das minhas terras conhecidas", disse ele. "Além disso, só os próprios deuses sabem o que espera."

Tang Sanzang desceu do cavalo e se curvou profundamente diante do caçador. "Você me salvou a vida e me deu uma noite de descanso que precisava mais do que sabia. Rezarei por sua família e por você pelo resto da minha jornada."

Liu Boqin ficou desconfortável com a gratidão, como homens práticos frequentemente ficam. Acenou com a mão e virou-se para o leste.

Tang Sanzang virou-se para o oeste e continuou.

A montanha dos Dois Fronteiros estava atrás dele agora. Mas havia outras montanhas à frente — montanhas sem nome nos mapas, habitadas por demônios que haviam esperado por este peregrino por razões que os próprios demônios não conseguiam articular claramente, além de um instinto antigo que reconhecia, em Tang Sanzang, algo que a maioria das criaturas mundanas nunca havia encontrado: pureza genuína, sem disfarce.

E pureza genuína é uma das coisas mais tentadoras que existem no universo.


O episódio dos Seis Bandidos deixou um resíduo que persistiu além da conversa à beira da estrada.

Tang Sanzang havia dito que os seis bandidos eram manifestações dos seis sentidos não controlados. Era uma interpretação que Wukong havia ouvido mas não havia completamente processado naquele momento — estava ainda a poucos dias de saído de baixo da montanha, ainda com os movimentos um pouco rígidos da imobilidade de séculos, ainda com o mundo na escala do espaço externo em vez da escala do interior que o Mestre habitava.

Mas nos dias que se seguiram, a interpretação voltava a ele — não como ideia abstrata mas como experiência concreta. Quando um cheiro de comida de uma aldeia próxima fazia seu estômago reagir com um impulso que estava completamente fora de proporção com a fome real que sentia. Quando o barulho de uma discussão na próxima casa do hospedeiro onde dormiam fazia seus músculos se prepararem para ação antes que o cérebro avaliasse se era necessária. Quando a beleza de um pôr do sol sobre as montanhas o deixava parado por mais tempo do que havia planejado porque havia uma qualidade naquela luz que não sabia como classificar mas que não conseguia deixar de observar.

Os sentidos tinham vida própria. Reagiam antes do discernimento.

E o que Tang Sanzang havia chamado de sabedoria — a habilidade de observar a reação dos sentidos sem ser imediatamente governado por ela — era precisamente o que o diadema de ouro na cabeça forçava: uma pausa entre o impulso e a ação.

Não era sobre não agir. Era sobre agir de dentro do discernimento em vez de de dentro do impulso.

Era uma diferença que parecia pequena quando descrita em palavras mas que, na prática da estrada, tornava-se cada vez mais clara como a diferença entre um guerreiro que é poderoso e um guerreiro que é sábio.

Wukong ainda não era um guerreiro sábio. Mas estava aprendendo que a sabedoria era o que estava do outro lado da próxima montanha — e que a próxima montanha estava ali para ser atravessada, não apenas contemplada.