Journeypedia
🔍

Capítulo 99: O Octagésimo Primeiro Obstáculo — O Rio Celestial e a Última Prova

Faltando um obstáculo para completar o número sagrado de oitenta e um, os peregrinos são derrubados pelo vento celestial no Rio Tianhe, onde a velha tartaruga os aguarda — e os abandona no meio da travessia.

Tang Sanzang Sun Wukong Zhu Bajie Sha Wujing Rio Tianhe tartaruga oitenta e um obstáculos Guanyin Chen Jia Zhuang

Os oito Grandes Vajras carregaram os peregrinos para o leste sobre o vento de sândalo, e havia naquela travessia uma qualidade diferente de tudo que os peregrinos haviam experimentado antes. Não era o voo em nuvens, não era o galope sobre a terra, não era a peregrinação a pé — era algo intermediário entre todos esses estados, como se o mundo físico tivesse acordado para a sua realidade mais leve e os carregasse nela sem esforço, reconhecendo finalmente que eram dignos de ser carregados.

Mas no Pavilhão da Bodhisattva Guanyin, na Montanha Potalaka, um senhor estava sendo cobrado.

Os guardiães invisíveis que haviam acompanhado os peregrinos ao longo de catorze anos — os Cinco Reveladores das Direções, os Guardiães do Ano, do Mês, do Dia e da Hora, os Seis Guardiães do jiazi, os Dezoito Protetores do Dharma —, todos se apresentaram diante de Guanyin para devolver seus mandatos. Haviam protegido Tang Sanzang da morte oculta, da doença invisível, dos perigos que os olhos mortais nunca veriam.

— Quantas foram as provas? — perguntou Guanyin.

O registrador abriu o livro. Leu.

Oitenta provas. Oitenta obstáculos catalogados, do nascimento de Tang Sanzang à Travessia das Nuvens Espirituais, do primeiro tigre na estrada à última página em branco no Lingjiu. Cada um com nome e data e natureza. Oitenta.

Guanyin contou novamente. Contou uma terceira vez.

— Oitenta — disse ela, em voz alta, e havia em sua voz algo que não era exatamente alarme mas era próximo disso. — Não oitenta e um?

No Budismo, o número sagrado é noventa e nove — nove vezes onze, ou três vezes três vezes onze — mas no contexto das provas de Tang Sanzang, o número correto era oitenta e um: nove ao quadrado, a completude das completudes, o ciclo fechado. Oitenta provas era oitenta provas. Não era suficiente.

Guanyin convocou um mensageiro e enviou-o às pressas em direção ao leste, com um único mandato: os Grandes Vajras deveriam criar mais uma prova. A última prova. A que faltava para completar o número.

O mensageiro alcançou os Vajras no ar.

E os Vajras, sem hesitação, cessaram o vento.


Tang Sanzang sentiu o chão antes de vê-lo. Os pés encontraram terra firme num sobressalto que não era dor mas era desorientação — a transição abrupta entre o voo sereno e o peso da gravidade comum. Os outros aterraram ao seu redor com variados graus de elegância: Sun Wukong pousou como sempre, levemente, num único passo; Sha Wujing pousou com solidez; Zhu Bajie caiu sentado e ficou assim por um momento, olhando ao redor com a expressão específica de quem ainda está processando o que aconteceu.

O cavalo branco pousou com os volumes das escrituras firmes no dorso.

— Onde estamos? — perguntou Tang Sanzang.

Sha Wujing virou-se em todas as direções, olhando para o horizonte com aquela atenção de guardião que era seu modo natural de estar no mundo.

— Escuto água — disse ele.

Era o Rio Tianhe — o Rio Celestial, o mesmo que haviam atravessado anos antes graças à velha tartaruga de carapaça branca que havia emergido das profundezas para oferecê-los como transporte em gratidão pelo resgate de seus filhotes na aldeia de Chen Jia Zhuang. O mesmo rio, a mesma margem, o mesmo silêncio de água larga e sem barcos.

— Tenho uma lembrança inquietante deste lugar — disse Zhu Bajie.

— Todos temos — concordou Sha Wujing.

Sun Wukong estava de pé à beira da água, olhando para o centro do rio com aquela expressão que significava que sabia mais do que estava dizendo. E sabia, de fato: sabia que Tang Sanzang ainda não havia completado todas as suas provas, sabia que o número oitenta e um exigia mais uma entrada no livro de Guanyin, sabia que os Vajras tinham derrubado propositalmente. Mas havia algo de sábio na sua contenção neste momento — às vezes a prova só funciona se não for anunciada.

— Não posso simplesmente voar com o Mestre? — perguntou Bajie, o ancinho enfiado na lama da margem.

— Não — disse Sun Wukong.

— Por quê não?

— Porque não pode.

Era a única explicação disponível, e Bajie reconheceu no tom do irmão mais velho que não havia mais nada a extrair daquele fio da conversa.

Então, das profundezas escuras do Rio Celestial, emergiu uma cabeça.

A velha tartaruga de carapaça branca era ainda maior do que se recordavam — ou talvez simplesmente parecesse maior porque o rio estava mais calmo e a visão não estava distorcida pelo cansaço e pelo medo de noite anterior. Emergiu devagar, com a solenidade de criatura que conta sua idade em séculos, e colocou a cabeça na margem com a gentileza de um animal que reconhece amigos.

— Mestre Tang — disse ela —, quantos anos passaram. Conseguistes as escrituras?

— Conseguimos — disse Tang Sanzang, com aquele sorriso que era gratidão mais velha do que a própria viagem. — Graças a ti, entre tantos outros.

— Deixai-me transportar-vos uma última vez — disse a tartaruga.

E assim foi: o cavalo com as escrituras, os três discípulos, o Mestre — todos subiram para a vasta carapaça branca que era tão sólida quanto a terra que haviam deixado. A tartaruga começou a nadar.

O rio era largo. A travessia levou horas, e o sol cruzou o céu na direção errada do tempo, e o silêncio da água era o silêncio de algo que estava prestes a terminar — não com barulho ou com fogo, mas com a quietude específica das completudes.

Quando a margem leste começou a aparecer no horizonte, a velha tartaruga virou a cabeça.

— Mestre — disse ela —, anos atrás, antes de vos transportar para o Oeste, pedi-vos um favor. Pedistes ao Buda que lhe dissesse quantos anos de vida ainda me restam, quando terminasse minha prática espiritual e pudesse ascender à forma humana?

Tang Sanzang lembrou-se do pedido. Lembrou-se também de que, ao chegar ao Lingjiu, havia estado tão absorto na missão — no banho, na reverência, no recebimento das escrituras, na crise das páginas em branco — que havia esquecido completamente de perguntar.

Havia uma opção. Podia inventar uma resposta — um número qualquer, dez anos, cem anos, a tartaruga não teria como verificar imediatamente. Podia dizer que havia perguntado e que a resposta era favorável. Havia mentiras gentis e havia a verdade, e Tang Sanzang havia percorrido dezoito mil li para ser o tipo de homem que não escolhe a mentira gentil.

— Não perguntei — disse ele.

O silêncio que se seguiu não foi de raiva. Foi de reconhecimento.

E então a tartaruga sacudiu o corpo — uma sacudida súbita, violenta, que durou menos de um segundo — e todos caíram no rio.


A água do Rio Celestial era fria como o lado de uma faca. Tang Sanzang afundou e emergiu, engasgando, e seria apenas mais um momento de quase-afogamento numa longa lista de quase-afogamentos — exceto que Tang Sanzang havia cruzado a Passagem das Nuvens Espirituais num barco sem fundo, havia deixado seu corpo mortal flutuar para longe no corrente, havia chegado ao outro lado como algo mais do que tinha sido quando partiu. A água não o tomou. Era fria e era real mas não era mais sua adversária.

Sun Wukong já estava nas margens, segurando o Mestre pela mão, puxando-o para a terra com aquela força que nunca havia sido apenas física. Bajie chegou a nado, bufando. Sha Wujing emergiu com os volumes das escrituras presos ao peito, tendo dado mais prioridade às palavras sagradas do que à própria respiração.

O cavalo branco saiu a trote da água, sem uma escritura perdida.

Estavam na margem leste do Rio Celestial. Molhados. Vivos. Com as escrituras intactas.

Mas a madrugada trouxe outra prova — não de demônio nem de dragão, mas de algo mais sutil: um vento violento desceu do céu carregando relâmpagos e névoa e barulho de trovão, e eram espíritos das sombras tentando uma última vez roubar o que os peregrinos haviam trazido do outro lado do mundo. Sun Wukong rodou o Bastão de Ouro em círculos sobre suas cabeças durante toda a noite longa, e a força solar do bastão — pura yang, pura luz — manteve as trevas à distância. Tang Sanzang sentou-se sobre as escrituras com os olhos abertos, imóvel como uma rocha, sua própria presença um escudo.

Ao amanhecer, o ataque cessou. O sol chegou.

Puseram as escrituras a secar sobre as pedras do rio — pedras que até hoje carregam marcas de letras impressas pelo peso daqueles volumes molhados —, e enquanto as páginas secavam ao sol da manhã, pescadores de Chen Jia Zhuang passaram pelo rio e reconheceram os peregrinos.

E assim chegou um último passo antes do retorno: a aldeia de Chen Jia Zhuang os recebeu com aquela hospitalidade de quem havia esperado anos pelo retorno dos que haviam salvo seus filhos. E Tang Sanzang, que havia trocado catorze anos da única vida que tinha por aquelas escrituras molhadas secando numa pedra, recebeu a hospitalidade com a gratidão simples de quem aprendeu que mesmo o menor gesto humano de bondade é parte da mesma corrente que leva ao Lingjiu.

O Velho Chen Cheng e seus filhos — Chen Guanbao e Yi Cheng Jin, os dois filhos que os peregrinos haviam salvo anos antes de serem entregues como sacrifício — saíram ao encontro deles com tochas ainda acesas da madrugada, porque alguém havia visto os pescadores correrem em direção ao rio e entendido que o momento havia chegado. Prostraram-se três vezes diante de Tang Sanzang antes que ele pudesse dizer uma palavra.

— Ficamos esperando — disse Chen Cheng, com a voz de quem esperou de verdade. — Ano a ano. Construímos um templo, pusemos vossas imagens lá dentro, acendemos incenso todas as manhãs.

— Isso era desnecessário — disse Tang Sanzang, gentilmente.

— Era necessário para nós — disse Chen Cheng. — Para não esquecermos o que foi feito por nós. Para ensinará às crianças que cresceram depois.

Os dois filhos — agora jovens que se lembrariam apenas vagamente da noite em que haviam sido levados da casa dentro de cestos de vime para serem oferecidos ao Espírito do Rio — curvaram-se diante do monge com aquela reverência específica de quem não sabe bem por que está fazendo aquilo, mas sente que precisa.

Dentro da aldeia, o Templo de Jiu Sheng — o Templo do Resgate das Vidas — estava de portas abertas, as velas acesas, as estátuas dos quatro peregrinos olhando para a entrada com uma paciência de pedra pintada que os próprios peregrinos reais haviam esquecido de ter durante muitos trechos da jornada. Zhu Bajie ficou parado diante de sua própria estátua por um longo momento, com a cabeça inclinada.

— Estou mais bonito aqui — disse ele.

— Todos estão — confirmou Sha Wujing, olhando para a sua. — A arte é uma forma de gentileza.

As escrituras foram estendidas sobre as mesas do templo para uma última secagem, e a aldeia inteira passou a noite acordada, trazendo oferendas e fazendo perguntas sobre o que havia além das montanhas do Oeste, e Tang Sanzang respondeu a cada pergunta com a paciência de quem passou catorze anos respondendo a perguntas muito mais difíceis do que essas.

Quando as estrelas começaram a empalidecer e o horizonte leste tomou aquela cor específica que precede o sol, os peregrinos recolheram as escrituras, despediram-se de Chen Jia Zhuang com reverências e promessas de proteção que eram mais do que palavras, e voltaram à estrada que levava para o Leste. Chang'an esperava. O Imperador Tang esperava. E os oito Grandes Vajras, algures no ar, também esperavam — porque havia ainda quatro dias do prazo de oito que Guanyin havia pedido a Buda, e cada hora contava para o número sagrado que fecha um ciclo como uma fechadura que só abre com a chave certa.