Capítulo 98: A Travessia da Nuvem — As Escrituras São Recebidas no Lingjiu
Os peregrinos chegam à Montanha Espiritual, cruzam a Passagem das Nuvens num barco sem fundo e recebem as escrituras sagradas de Buda Tathagata — embora a primeira entrega seja feita de páginas em branco.
Havia no ar das terras ocidentais algo que as distinguia de todos os outros lugares pelos quais os peregrinos haviam passado — não era perfume, não era temperatura, não era luminosidade, embora fosse ao mesmo tempo um pouco de cada uma dessas coisas. Era algo que os pulmões reconheciam antes da mente, uma qualidade do ar que dizia: chegastes. Não ainda ao destino final, mas à sua antessala. As flores que cresciam à beira do caminho tinham cores que não existiam em nenhuma paleta conhecida; os pinheiros e ciprestes que alinhavam a estrada eram de uma velhice que ultrapassava os séculos e tocava a eternidade. Nas casas que passavam, cada família se curvava ao ver os peregrinos, oferecia chá, murmurava sutras.
Tang Sanzang seguia em silêncio sobre o cavalo branco, os olhos abertos em algo que não era exatamente admiração — era reconhecimento. Como se cada colina, cada curva da estrada, cada árvore fosse familiar de um modo que ultrapassava a experiência desta vida.
Depois de seis ou sete dias de caminhada por aquelas terras que não eram completamente do mundo, avistaram à distância um conjunto de pavilhões e salões que pareciam ter crescido da rocha em vez de ter sido construídos. As torres subiam ao céu com aquela verticalidade específica das coisas que não precisam de aprovação de ninguém para existir. As janelas eram largas como abraços.
Um jovem taoísta os esperava na porta principal.
— O peregrino da Terra do Leste? — chamou ele, antes mesmo de eles chegarem.
Era o Grande Imortal do Pico Dourado, da Gruta da Jade Verdadeira — o guardião da entrada para a Montanha Espiritual, que havia esperado por eles, como ele próprio confessou com um sorriso de repreensão suave, por dez anos a mais do que o prometido.
— A Bodhisattva Guanyin disse que levariam dois ou três anos — disse ele, conduzindo-os para dentro com aquela hospitalidade específica dos imortais que está acima do tempo. — Já se passaram catorze.
— O caminho — disse Tang Sanzang, com uma simplicidade que não era desculpa —, o caminho foi longo.
— O caminho sempre é — concordou o imortal.
Naquela noite, banharam-se. Era um detalhe que o texto sagrado menciona mas que merece um momento de atenção: catorze anos de estrada, de poeira e de lama e de sangue de demônio e de rio e de deserto, lavados numa única noite em água aquecida com ervas do mundo imortal. Tang Sanzang emergiu do banho como se houvesse trocado não apenas a sujeira mas a própria pele mortal por algo mais próximo do que ele sempre havia sido, sem ainda saber que era isso que era.
Pela manhã, vestiu as melhores vestes — a kasaya dourada, o chapéu de Vairocana, o cajado de metal —, e estava pronto.
A Montanha Espiritual — o Lingjiu, o Pico do Abutre — ergue-se acima de tudo. Não acima de outros picos no sentido geográfico, embora também isso fosse verdade, mas acima de outras categorias de existência. Quem sobe não está apenas subindo uma montanha: está subindo para um lugar onde as distinções entre o que é e o que deveria ser começam a dissolver-se.
Foram a pé. O Grande Imortal havia explicado que Sun Wukong conhecia o caminho pelas nuvens, mas que aquela não era a rota correta para um monge mortal — ou para um monge que havia sido mortal e estava prestes a deixar de sê-lo completamente. Havia um caminho de pedra, e era por ele que deviam ir.
Cinco ou seis li acima do pórtico de jade, o caminho chegou à beira de um rio.
Não era um rio pequeno. Era largo como oito ou nove li de água corrente, barulhenta e escura, sem margem visível do outro lado e sem nenhuma ponte à vista que fosse digna desse nome. Havia apenas uma placa: Lingyu Du — a Travessia das Nuvens Espirituais. E havia uma trave de madeira sobre as águas — um único tronco polido pela água e pelo vento, tão estreito que uma garça teria dificuldade em caminhar sobre ele.
Tang Sanzang olhou para a trave. Olhou para o rio. Olhou para Sun Wukong.
— Este não é um caminho para seres humanos — disse ele.
— É o único caminho — disse Sun Wukong.
— Não posso atravessar isso. — Era menos recusa do que constatação. — Meus pés não encontrarão apoio suficiente. Cairei.
— Então observai.
Sun Wukong deu um salto, pousou no tronco com a leveza de uma folha, e atravessou de ponta a ponta correndo, os braços abertos para o equilíbrio, como se atravessasse uma rua larga de dia claro. Do outro lado, virou-se e acenou.
— Vejam? É simples.
— Para ti — disse Zhu Bajie, olhando para baixo com aquela expressão específica de quem está calculando a distância da queda. — Para nós que temos um peso razoável e uma dignidade a preservar—
— Olhai — interrompeu Sha Wujing.
No rio, vindo de uma curva distante, deslizava uma embarcação. Era pequena e velha, mas movia-se com uma serenidade que contradiz o turbilhão das águas. O barqueiro era um homem calmo, de rosto impossível de datar, que remava sem esforço aparente.
— Passo! — chamou ele. — Quem precisa de passo?
Tang Sanzang sentiu um alívio que logo se complicou: quando a embarcação chegou perto o suficiente para ser examinada, ficou claro que não tinha fundo. Era um barco sem fundo, aberto para as águas escuras por baixo, um recipiente que deveria afundar e não afundava.
— Como podeis transportar alguém num barco assim? — perguntou o Mestre, genuinamente perturbado.
O barqueiro não respondeu com palavras. Apenas estendeu a mão.
Sun Wukong reconheceu quem era o barqueiro — via com aqueles olhos que haviam sido forjados no forno de Laozi e que viam através de formas como a luz vê através da água. Era o Buda da Recepção, o Nanwu Baochuang Guangwang Fo. Mas não disse isso a Tang Sanzang. Apenas fez um gesto de encorajamento e disse ao Mestre que subisse.
Tang Sanzang hesitou um passo demasiado longo. Sun Wukong, com a paciência específica de quem sabe que às vezes a gentileza deve tomar a forma de um empurrão, deu ao Mestre um suave impulso pelas costas.
Tang Sanzang mergulhou no rio.
O barqueiro estendeu a mão e o puxou para dentro do barco sem fundo, e Tang Sanzang ficou de pé sobre as tábuas sobre as águas, sacudindo as vestes e olhando para baixo com espanto — porque as águas passavam por baixo de seus pés mas não o molhavam. Zhu Bajie e Sha Wujing subiram atrás dele. O cavalo branco foi içado.
E então, enquanto o barqueiro remava para o outro lado, Tang Sanzang olhou para trás e viu flutuar na corrente um corpo.
Era seu corpo. A carne que havia carregado por catorze anos de peregrinação — a pele mortal, os ossos mortais, o sangue mortal —, flutuando para baixo como uma veste descartada. Zhu Bajie e Sha Wujing o reconheceram ao mesmo tempo e disseram, quase em uníssono:
— É o Mestre. É o Mestre!
Tang Sanzang olhou para o corpo que havia sido ele. Sentiu-se mais leve do que havia se sentido em toda a vida — do que havia se sentido em todas as vidas que havia tido antes desta.
— Parabéns — disse o barqueiro, e havia em sua voz algo que era simultaneamente saudação e bênção.
Do outro lado do rio, a Montanha Espiritual. Do outro lado da montanha, o Salão do Grande Herói.
E no Salão do Grande Herói, Buda Tathagata sentado no Trono de Lótus, cercado de Bodhisattvas e Arhats e toda a assembleia do Lingjiu, esperando por quatro peregrinos que chegavam pontualmente catorze anos depois do prazo estipulado e com o coração mais limpo do que qualquer prazo poderia exigir.
Tang Sanzang prostrou-se três vezes. Apresentou o salvo-conduto que havia carregado desde Chang'an. Buda leu-o devagar, como alguém que aprecia a cerimônia das coisas, e o devolveu com um sorriso que continha catorze anos de conhecimento do caminho percorrido.
As Escrituras foram preparadas. Ananda e Kashyapa, os dois discípulos honrados, conduziram os peregrinos ao Pavilhão das Joias onde os banquetes sagrados os esperavam — frutas e chás do mundo imortal, sabores que o vocabulário mortal não tem palavras adequadas para descrever. Depois abriram o Grande Armazém das Escrituras e foram indicando, caixa por caixa, as obras que compunham o cânone: trinta e cinco partes, quinze mil cento e quarenta e quatro volumes.
Mas quando Ananda perguntou pelos presentes — pelas dádivas que os peregrinos traziam em gratidão —, Tang Sanzang não tinha nada a oferecer. A jornada havia consumido tudo o que havia. Ananda e Kashyapa sorriram com a serenidade específica de quem está acostumado a receber e não receber ao mesmo tempo, e entregaram as escrituras.
Os peregrinos carregaram-nas para fora do templo e desceram a montanha. Mas num pavilhão alto, o Buda Dīpankara — o Buda da Lâmpada Antiga — havia escutado tudo com sua sabedoria silenciosa, e sabia o que nenhum dos peregrinos ainda sabia: que as escrituras entregues eram páginas em branco.
Convocou o Arauto Branco Valente e ordenou que recuperasse os volumes.
O vento que desceu do Lingjiu sobre os peregrinos na estrada não era um vento normal. Era intencional, cirúrgico. Arrancou os volumes das mãos de Bajie e do dorso do cavalo, espalhando-os pelo ar. E quando os peregrinos, em pânico, recolheram cada folha e cada capa — Tang Sanzang com o coração na garganta, Bajie rastreando rolos pelo mato, Sha Wujing de joelhos recolhendo páginas —, quando abriram os volumes para conferir, viram apenas branco.
Páginas em branco. Folha após folha de branco imaculado.
Tang Sanzang chorou. Era a única vez que a narrativa o mostra verdadeiramente abatido — não pelo perigo, não pela dor física, não pelo medo da morte, mas pela possibilidade de que tudo houvesse sido em vão, que o que levaria de volta ao Imperador fosse papel sem sentido.
— São as Escrituras sem palavras — disse Sun Wukong, com uma calma que não era indiferença mas compreensão. — Ananda e Kashyapa não receberam presentes e entregaram papel vazio. Precisamos voltar e reclamar junto ao Buda.
Voltaram. Desta vez Tang Sanzang entregou o que havia de mais precioso que ainda carregava: a tigela de pedra púrpura dourada que o Imperador Tang havia dado com as próprias mãos quando partiu de Chang'an. Ananda a aceitou com aquele sorriso inescrutável que não era vergonha mas também não era negação do que havia acontecido.
E desta vez entregaram as escrituras verdadeiras — cinco mil e quarenta e oito volumes de caracteres negros em papel de cor, o cânone completo dentro do cânone possível, o que podia ser transmitido para aqueles que ainda precisavam de palavras para chegar onde as palavras não chegam.
Buda reuniu toda a assembleia do Lingjiu e deu aos oito Grandes Vajras a ordem: levem o peregrino e as escrituras de volta à Terra do Leste em oito dias. Que a missão se complete dentro do número sagrado.
O vento de sândalo levantou-se. Os peregrinos subiram.
Havia, naquele momento de ascensão, uma qualidade diferente de todos os outros voos que Sun Wukong havia feito ao longo de séculos de existência. Não era mais veloz do que suas cambalhotas de cento e oito mil li; não era mais alto do que as nuvens que havia atravessado em batalhas contra generais celestiais; não era mais espetacular do que a Grande Confusão do Céu que havia durado dias. Era, em todos os sentidos mensuráveis, um voo modesto.
Mas havia nele uma direção.
Sun Wukong havia passado a vida inteira se movendo para frente pela força do próprio impulso — a energía do macaco que não consegue ficar parado, que pula de galho em galho e de nuvem em nuvem e de batalha em batalha porque parar seria de alguma forma admitir que não há lugar nenhum para onde ir que valha a pena chegar. E agora estava se movendo para frente numa direção que não era sua própria, carregado por um vento que havia sido enviado por algo maior do que qualquer impulso individual.
Zhu Bajie, ao seu lado, flutuava com os olhos fechados e a expressão de quem está dormindo — embora Sun Wukong soubesse, por catorze anos de convivência, que Bajie raramente dormia de verdade quando havia coisas interessantes acontecendo ao redor. Era uma forma de meditação que só Bajie praticava, e que consistia em parecer distraído enquanto processava tudo com uma inteligência que se recusava a ser levada a sério.
Sha Wujing segurava o fardo das escrituras com as duas mãos, os olhos abertos e fixos na direção do leste, calculando distâncias com a precisão de um guardião que sabe que sua missão só termina quando o que está protegendo chega onde precisa chegar.
E Tang Sanzang — o Mestre, o monge, o que havia sido o Grilo Dourado e que seria o Buda de Sândalo, o que havia deixado seu corpo mortal flutuar para longe no Rio das Nuvens e subido a montanha mais leve do que havia sido em toda a vida — Tang Sanzang voava com os olhos abertos para o horizonte leste, e no rosto havia algo que não era exatamente sorriso e não era exatamente paz, mas era o que acontece quando as duas coisas coexistem por tempo suficiente para se tornarem indistinguíveis.
O cavalo branco voava abaixo deles, os volumes das escrituras firmes no dorso como sempre haviam sido, como se o peso sagrado fosse tão natural quanto o próprio pelo branco.
Abaixo deles, o mundo mortal se estendia em campos e rios e cidades e montanhas — o mesmo mundo que Tang Sanzang havia atravessado a pé por catorze anos, visto agora de uma altura que não o diminuía mas o revelava em toda a sua complexidade comovente: cada aldeia com suas tochas na noite, cada estrada com seus viajantes cansados, cada rio com suas travessias incertas. Tudo aquilo que havia sido o caminho era agora a paisagem abaixo. E o caminho continuava, apenas em outro nível.