Capítulo 97: Ladrões, Falsa Acusação e o Milagre de Kou Hong
A comitiva é presa injustamente por suspeita de roubo após devolver pertences roubados à família Kou. Sun Wukong age nos bastidores como inseto e como fantasma para libertar os peregrinos — e então desce ao inferno para trazer o benfeitor Kou Hong de volta à vida.
A bondade, às vezes, tem consequências inesperadas.
Na manhã seguinte à tempestade, quando a comitiva deixou as ruínas do Templo do Esplendor da Luz e seguiu para o oeste, eles encontraram os ladrões antes de encontrar qualquer outra coisa.
Trinta homens, escondidos num vale entre dois morros, com as mãos ainda cheirando à prata que haviam roubado da mansão Kou na noite anterior. Eles viram os quatro monges na estrada e fizeram o cálculo que pessoas sem outro recurso fazem: quatro monges com bagagem e um cavalo branco de qualidade evidente.
— Dinheiro de passagem — disse o líder do bando, com a confiança de quem não sabe com quem está falando.
Sun Wukong deu um passo à frente.
— Quanto?
O líder ficou ligeiramente desconcertado pela ausência de medo no rosto do macaco.
— Tudo que você tiver.
— Mas nós não temos quase nada — disse Sun Wukong. — Você, por outro lado — ele olhou para as sacolas e caixas que os ladrões carregavam — parece ter o equivalente a vinte anos de economias de um homem honesto.
Houve um silêncio.
— Ataque — disse o líder.
Sun Wukong murmurou algo, jogou um punhado de pó para o ar, e disse com voz clara: Parar.
Trinta ladrões pararam. Não como quem recebe uma ordem — como quem se transforma em estátua. Olhos abertos. Mãos espalmadas. Completamente imóveis.
Zhu Bajie circundou um deles lentamente, olhando para a expressão congelada.
— Estão bem?
— Estão com o Método de Imobilização do Corpo — disse Sun Wukong. — Conscientes mas incapazes de mover um músculo. — Ele virou-se para Tang Sanzang. — Mestre, esses são os ladrões que mataram o senhor Kou ontem à noite.
Tang Sanzang ficou olhando para os trinta homens imóveis com os pertences da família Kou empilhados ao redor.
— Você pode mantê-los assim?
— Pelo tempo que precisar.
— Então vamos devolver o que é deles.
Sun Wukong olhou para o mestre por um segundo com uma expressão que continha algo complexo — não discordância exatamente, mas o reconhecimento de que a bondade que estava sendo proposta ia criar problemas.
— Mestre — disse ele — isso vai parecer mal.
— Vai.
— Vamos ser acusados de ter roubado.
— Provavelmente.
— Você está ciente disso e quer fazer assim mesmo.
— O senhor Kou foi generoso conosco. Sua família perdeu tudo em uma noite. Devolver os pertences deles é o que deve ser feito.
Sun Wukong ficou em silêncio por um momento. Depois pegou as cordas de dentro de uma das sacolas dos ladrões e começou a amarrá-los.
A teoria de Tang Sanzang estava correta: devolver os pertences roubados era o que devia ser feito. A prática, porém, produziu o resultado que Sun Wukong havia previsto.
Soldados da cidade apareceram na estrada enquanto os quatro peregrinos carregavam os pertences de volta. Os soldados viram quatro monges com sacolas cheias de ouro e prata e um cavalo carregado de jóias. Os ladrões reais estavam a dois li de distância, amarrados mas não visíveis da perspectiva dos soldados.
— Monges criminosos — disse um capitão. — Peguem.
Tang Sanzang foi retirado do cavalo com mais força do que necessário. Cordas foram colocadas em todos os quatro. Uma vara horizontal foi inserida pelas amarras de forma que dois soldados carregassem cada prisioneiro suspendido como bagagem.
Zhu Bajie murmurava numa frequência constante de indignação baixa. Sha Wujing ficou em silêncio. Tang Sanzang fechou os olhos e rezou.
Sun Wukong observava tudo com o sorriso de quem reconhece o roteiro de uma situação.
O magistrado era, por todos os relatos, um homem justo. Mas homens justos têm seus limites, e quando a família Kou apresentou um queixa formal nomeando os quatro monges como ladrões e assassinos, o magistrado olhou para os pertences roubados encontrados na posse dos quatro, para a queixa escrita, e fez o que as evidências superficiais sugeriam.
Tang Sanzang apresentou os documentos de viagem. Contou a história verdadeira com todo o detalhe que tinha.
O magistrado disse que a história soava conveniente demais para ser verdadeira.
— Meu discípulo mais velho — disse Tang Sanzang, com a paciência de alguém que aprendeu a esperar pelo momento certo — pode demonstrar de forma convincente que nada do que foi dito é possível de verificar neste momento. Mas ele prefere que as coisas se desenvolvam naturalmente.
— Naturalmente — concordou Sun Wukong do seu lugar de prisioneiro, com um sorriso que o magistrado achou desconcertante.
Um oficial chegou dizendo que havia uma visita importante esperando. O magistrado ordenou que os quatro fossem levados para a cela enquanto ele lidava com seus assuntos.
A cela era fria e cheirava a palha úmida. Os guardas aplicaram os instrumentos de restrição com entusiasmo que Tang Sanzang descreveu internamente como excessivo. Dinheiro foi exigido implicitamente.
Sun Wukong, aparentemente disposto a oferecer algo de valor para que os guardas parassem de importunar o mestre, sugeriu a capa de kasaya — a veste sagrada da Bodhisattva Guanyin. Os guardas abriram os pacotes com mãos ansiosas e ficaram em silêncio diante da luz que dela emanava. O supervisor da prisão chegou atraído pelo brilho, examinou os documentos de viagem dentro da sacola, e disse que havia cometido um erro de escala catastrófico se essas pessoas fossem o que os documentos sugeriam.
A capa foi devolvida. Os instrumentos de restrição foram deixados no lugar — nenhum supervisor quer ser o único a tomar decisões que afetam alguém com selos imperiais de vinte países.
A noite chegou.
Às quatro da manhã, quando o último guarda havia adormecido e a prisão era tão silenciosa quanto as prisões ficam nessa hora, Sun Wukong diminuiu ligeiramente de tamanho, escorregou pelas amarras, e transformou-se em um percevejo.
O percevejo voou pelas telhas da prisão para fora, subiu o céu estrelado, e foi em direção à mansão Kou.
Do lado de fora da mansão havia luz numa casa de fabricante de tofu. Um velho acordado de madrugada para o trabalho falava com a esposa sobre o senhor Kou — sobre como o homem havia sido um vizinho virtuoso, sobre como havia cumprido seu voto de alimentar dez mil monges, sobre como havia sido morto por ladrões aos sessenta e quatro anos, que era jovem demais para morrer e velho o suficiente para entender o que estava perdendo.
Não mereceu isso, disse o velho.
Não, concordou a esposa.
Sun Wukong ouviu e voou para o interior da mansão.
O caixão estava no salão principal, cercado de incenso e velas. A viúva estava ajoelhada ao lado. Os dois filhos estavam ajoelhados também. As noras colocavam oferendas.
Sun Wukong pousou no caixão e tossiu.
O efeito foi imediato e dispersivo — as noras saíram do salão em velocidade considerável. Os filhos ficaram paralisados no chão. A viúva, que tinha a coragem específica das pessoas que já viveram o suficiente para saber que o medo tem utilidade limitada, tocou a tampa do caixão.
— Velho? Você voltou?
— Não voltei — disse Sun Wukong na voz do senhor Kou. — Sou um mensageiro do Rei do Inferno.
— Que tipo de mensageiro fala com a voz do meu marido?
— O eficiente. Ouça: vocês acusaram falsamente quatro monges inocentes. Eles estavam trazendo de volta os pertences que os ladrões roubaram. Sua família causou uma injustiça. O Rei do Inferno não está contente. Os deuses da cidade não estão confortáveis. Se os monges não forem libertados antes do amanhecer, haverá consequências.
Os filhos, ainda no chão, prometeram ir ao magistrado pela manhã retirar a queixa.
— Queimem papel de oferta — disse a voz do senhor Kou. — Estou saindo.
A família queimou papel. Sun Wukong voou.
A segunda visita foi ao lar do magistrado, onde o percevejo encontrou um altar com a imagem do antepassado do magistrado — um tio morto há cinco anos. Sun Wukong pousou no centro da imagem e falou na voz do antepassado.
— Sobrinho.
O magistrado saiu correndo do banheiro onde estava se preparando para mais um dia de trabalho.
— Tio — disse ele, com a cor de alguém que encontrou algo que não esperava encontrar. — Você... está me chamando?
— Você prendeu quatro monges inocentes. O Rei do Inferno está perturbado. Os espíritos guardiões da cidade estão perturbados. Corrija isso.
O magistrado prometeu.
— Queime papel — disse a voz do tio. — Estou indo de volta.
O magistrado queimou papel com uma pressa que seus serventes consideraram incomum para aquela hora da manhã.
Sun Wukong ainda não havia terminado.
Na última hora antes do amanhecer, ele cresceu até o tamanho de uma montanha — apenas um pé, descendo das nuvens pelo centro da cidade como a sentença de algo muito maior do que qualquer ser humano poderia contestar.
O pé encheu a praça inteira.
— Ouçam — disse uma voz do tamanho do céu. — Sou um espírito enviado pelo Imperador de Jade. Quatro monges sagrados estão sendo injustamente presos aqui. Se não forem libertados imediatamente, vou chutar até a morte todos os funcionários desta cidade, e depois vou transformar a cidade toda em pó.
Todos os funcionários que haviam chegado para o trabalho cedo caíram de joelhos simultaneamente.
— Imediatamente — disseram em uníssono.
Sun Wukong encolheu de volta ao tamanho de percevejo, voou para dentro da prisão, e se enfiou de volta nas amarras no momento exato em que o dia começava a clarear.
A libertação foi processada com uma celeridade que Tang Sanzang mais tarde descreveu como inversamente proporcional à velocidade com que foi preso. O magistrado desceu do trono para recebê-los no salão. Os funcionários da prisão devolveram o cavalo e as bagagens sem precisar ser perguntados mais de duas vezes.
Os filhos do senhor Kou chegaram com o documento de retirada da queixa.
Tang Sanzang propôs que fossem à mansão Kou — para clarificar o mal-entendido, disse ele.
Sun Wukong disse que sim, mas tinha uma coisa a fazer primeiro.
A coisa a fazer consistiu em um mergulho vertical de vinte mil li para baixo, através da terra e da pedra e da escuridão, até o Palácio de Esmeraldas onde o Bodhisattva Ksitigarbha — Guardião das Almas — presidia o fluxo dos mortos.
Sun Wukong chegou sem anunciar-se, o que era sua maneira preferida de chegar a qualquer lugar.
Os dez Reis do Inferno, que haviam lidado com Sun Wukong antes em circunstâncias variadas e sempre saído desses encontros com pelo menos uma lição aprendida, o receberam com a cautela de veteranos.
— Kou Hong — disse Sun Wukong. — Onde está?
Estava com o Bodhisattva Ksitigarbha, como se viu — não na fila dos mortos comuns, mas numa posição de administrador, registrando boas ações com um pincel de bambu, porque havia sido um homem que havia alimentado dez mil monges em vinte e quatro anos e esse tipo de karma tem seus privilégios.
O Bodhisattva ouviu o pedido de Sun Wukong com o calma de quem já ouviu pedidos impossíveis e os transformou em possíveis antes.
— Doze anos a mais de vida — disse ele. — É o que posso oferecer.
— É suficiente — disse Sun Wukong.
O senhor Kou Hong foi entregue numa forma que Sun Wukong colocou na manga da própria veste e carregou de volta ao mundo dos vivos como se fosse algo pequeno e precioso — o que era.
Na mansão, diante de toda a família, diante do magistrado e de seus funcionários, Sun Wukong pediu a Zhu Bajie que abrisse a tampa do caixão. O Porco fez isso com a expressão de alguém que vai ser surpreendido e sabe que vai ser surpreendido mas não pode preparar-se adequadamente.
Sun Wukong soprou na manga.
O senhor Kou Hong sentou-se no caixão com a expressão de alguém que acordou de um sonho muito longo.
Olhou para a família.
— Quanto tempo fui? — perguntou ele.
— Uma noite — disse a viúva, com a voz de quem tentava e falhava em manter a compostura.
— Pareceu mais longo.
O que se seguiu era, a qualquer padrão razoável, um milagre — mas milagres em presença de Sun Wukong tinham a qualidade de coisas que acontecem e então ficam em silêncio esperando que alguém decida o que fazer com eles.
O magistrado caiu de joelhos e pediu desculpas. Os filhos do senhor Kou caíram de joelhos e pediram desculpas. A viúva ficou de pé segurando a mão do marido com uma expressão que não precisava de palavras.
Tang Sanzang aceitou as desculpas com a graça de alguém que aprendeu que o perdão é geralmente mais fácil de dar do que de receber.
O senhor Kou Hong, depois de ser informado de tudo o que havia acontecido, olhou para Sun Wukong por um longo momento.
— Você foi ao inferno por mim — disse ele.
— Fui e voltei em menos de uma hora — disse Sun Wukong. — Não foi tão dramático quanto parece.
— Você me trouxe de volta à vida.
— O Bodhisattva Ksitigarbha deu a autorização. Eu só carreguei você.
O senhor Kou quis organizar outro banquete. Tang Sanzang recusou gentilmente. A Montanha Espiritual estava a oitocentos li. O caminho não poderia esperar muito mais.
Quando partiram, era tarde da manhã e o sol estava alto e a cidade toda havia saído para vê-los ir. O senhor Kou Hong ficou de pé no portão da mansão com a mão espalmada em despedida, e havia na sua expressão algo que era simultaneamente a de alguém que havia sido trazido de volta à vida e a de alguém que sabia o que isso significava — que cada dia que viesse depois era extra, era presente, era algo que poderia ser usado com mais cuidado do que os dias anteriores tinham sido usados.
Tang Sanzang voltou-se no cavalo uma vez.
O caminho à frente estava limpo. A Índia estava perto. A Montanha Espiritual esperava.