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Capítulo 96: O Benfeitor Kou e a Generosidade que Não Pode Ser Aceita

A comitiva chega à mansão do benfeitor Kou Hong, que completa seu voto de alimentar dez mil monges com a chegada dos quatro peregrinos. Tang Sanzang recusa ficar mais tempo e parte, encontrando abrigo numa ruína durante uma tempestade.

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Era o início do verão quando chegaram ao Distrito de Tongdai.

A primavera havia dado lugar ao calor suave das primeiras semanas do verão com a delicadeza que as estações têm quando estão de bom humor — gradual, perfumada, com os campos cobertos de trigo maduro e os pássaros dos vales cantando com a energia de quem tem o dia inteiro.

A cidade de Tongdai era próspera sem ser arrogante, com ruas largas e comerciantes que faziam negócio com a calma de quem tem o suficiente e não está ansioso por mais. Tang Sanzang desceu do cavalo e foi a pé, como costumava fazer em cidades onde os cidadãos precisavam de tempo para se acostumar com a aparência dos seus discípulos.

Dois velhos estavam sentados debaixo de uma marquise discutindo algo que parecia antigo e importante. Tang Sanzang aproximou-se com as mãos unidas.

— Veneráveis senhores, poderia pedir uma informação?

Os velhos olharam para o monge com a cordialidade de pessoas interrompidas num assunto interessante mas não genuinamente perturbadas por isso.

— Pergunte — disse um deles.

— Somos peregrinos do Oriente em viagem à Montanha Espiritual. Precisamos de um lugar para comer e descansar. Há alguma família hospitaleira aqui perto?

O segundo velho apontou para além da praça.

— Passe pelo arco comemorativo, vire à direita na rua principal, e procure o portão com guardiões-tigre. É a mansão de Kou, o benfeitor. Ele tem uma placa do lado de fora que diz Nenhum Monge Será Recusado. Você não precisa pedir — vá direto. Mas não nos interrompa mais, estamos no meio de uma conversa.

Tang Sanzang agradeceu e voltou para os discípulos.

— Parece que o homem certo aparece quando precisamos — disse ele.

— Ou que as cidades próximas à Montanha Espiritual tendem a ter mais pessoas bondosas per capita — disse Sun Wukong. — Uma questão de proximidade às fontes.


A mansão Kou era exatamente como descrita: portão alto com colunas esculpidas em forma de tigres, e uma placa de madeira lacada com quatro caracteres que confirmavam a hospitalidade irrestrita.

O criado que saiu para comprar coisas no mercado quase deixou cair as compras ao ver os quatro visitantes. Correu para dentro. Voltou um idoso de sessenta e poucos anos, apoiado numa bengala, com a expressão de alguém que recebeu boas notícias.

— Entrem, entrem — disse ele sem hesitar, sem olhar para Zhu Bajie ou Sha Wujing com nenhuma das reações que essas figuras costumavam provocar.

O interior da mansão revelou uma família de considerável riqueza e considerável piedade — um salão de budas com incenso constante, uma biblioteca com textos sagrados em caixas de jade, uma cozinha que cheirava a coisas que faziam Zhu Bajie involuntariamente acelerar o passo.

O senhor Kou Hong — nome, sessenta e quatro anos de idade — serviu chá com a eficiência discreta de alguém que havia praticado a hospitalidade por tanto tempo que ela havia se tornado tão natural quanto respirar. Enquanto os criados preparavam a refeição, ele explicou:

— Há vinte e quatro anos prometi alimentar dez mil monges em viagem. Comecei aos quarenta. — Ele tirou um livro de contas grosso de uma prateleira e o folheou com cuidado. — Nove mil, novecentos e noventa e seis monges registrados. Faltavam quatro para completar o voto. — Ele olhou para os quatro peregrinos com a expressão serena de quem acabou de ter uma pergunta respondida. — Vocês são os quatro.

Tang Sanzang ficou em silêncio por um momento.

— Que coincidência notável — disse ele.

— Não é coincidência — disse o senhor Kou com a convicção tranquila de quem passou décadas pensando sobre o assunto. — É o tipo de coisa que acontece quando você age de acordo com o voto que fez.

A refeição foi servida com uma generosidade que Zhu Bajie descreveu mais tarde como a coisa mais certa que havia comido desde que o banquete da corte da Índia. Havia cinco tigelas de frutas, cinco pratos de vegetais, cinco tigelas de conservas, cinco pratos de doces, mais arroz, mais sopa, mais pão cozido a vapor em quantidades que chegavam mais cedo do que desapareciam. O Porco comeu com a concentração de um profissional.

O senhor Kou pediu que ficassem um mês.

Tang Sanzang recusou gentilmente.

O senhor Kou pediu duas semanas.

Tang Sanzang recusou de novo, com o mesmo sorriso e a mesma firmeza.

A esposa do senhor Kou apareceu e ofereceu mais duas semanas de suas próprias economias pessoais.

Tang Sanzang recusou com gratidão genuína.

Os dois filhos do senhor Kou — estudantes jovens, educados, com a gentileza específica de pessoas criadas por alguém que leva a sério os princípios que professa — ofereceram mais um mês de suas mesadas.

Tang Sanzang recusou com a simplicidade de quem sabe que a recusa é a resposta correta e não precisa de elaboração.

Zhu Bajie, que havia ouvido cada uma dessas recusas com crescente incredulidade, abriu a boca para intervir. Sun Wukong apertou o pescoço do Porco discretamente.

— Mas toda essa comida — murmurou Zhu Bajie.

— Viaje — murmurou Sun Wukong de volta.

— A cama é tão —

Viaje.

O Porco fechou a boca com a resignação de alguém que entende que as batalhas certas são aquelas que podem ser ganhas.


A noite antes da partida, o senhor Kou organizou um banquete de despedida que rivalizava com qualquer coisa que haviam recebido de reis. Foram convidados vizinhos e parentes e amigos de negócios e companheiros de prática espiritual — dezenas de pessoas que chegaram com o cuidado específico de quem vai se despedir de algo que sabe que não vai ver de novo.

Tang Sanzang sentou à mesa de honra e disse pouca coisa, mas escutou muito. O senhor Kou contou histórias dos outros nove mil e novecentos e noventa e seis monges — um de cada décimo mil, disse ele, ficou na memória por uma razão ou outra. Um que havia viajado do sul com os pés descalços. Uma viajante de um mosteiro na fronteira norte que havia rido da comida por ser boa demais para humanos e não o suficiente para anjos. Um garoto de doze anos de cabeça raspada que havia abençoado a casa com palavras que o senhor Kou havia escrito e guardado porque pareciam verdadeiras.

Zhu Bajie comeu em silêncio respeitoso, o que era suficientemente incomum para que Sha Wujing o olhasse com atenção várias vezes para verificar se estava bem.

Na manhã seguinte, quando a comitiva preparou as bagagens, o senhor Kou apareceu no pátio com bandeiras coloridas e músicos contratados e monges e taoistas e um desfile que acordou metade da vizinhança. Ele havia passado a noite organizando aquilo.

— O senhor não precisava — disse Tang Sanzang.

— Eu precisava — disse o senhor Kou simplesmente.

Eles partiram com música e bandeiras e uma procissão que acompanhou a comitiva por dez li além dos portões da cidade, até uma tenda de despedida onde havia mais comida e mais chá e mais pessoas que não queriam deixar os peregrinos ir.

O senhor Kou foi o último a liberar Tang Sanzang da mão.

— Quando você vier de volta — disse ele — com as escrituras — fique o tempo que quiser. Minha casa é sua.

Tang Sanzang inclinou-se três vezes.

Depois seguiu para o ocidente.


A tarde foi boa. O caminho era plano e o vento era agradável e havia passarinha nos arbustos às bordas da estrada cantando com a intensidade de quem não tem preocupações de longo prazo.

Mas quando o sol começou a descer, as nuvens vieram de leste com uma velocidade que não convidava à interpretação otimista.

— Vai chover — disse Zhu Bajie.

— Não vai — disse Sun Wukong.

— Olhe para aquelas nuvens.

— As nuvens não provam nada.

As nuvens provaram tudo. A chuva chegou com a determinação de algo que havia esperado pela oportunidade o dia inteiro — primeiro alguns pingos, depois uma cortina, depois um dilúvio que fazia a estrada irreconhecível em questão de minutos.

Tang Sanzang, do alto do cavalo branco, olhou para o caminho que havia desaparecido sob a água e disse:

— Precisamos de abrigo.

Sun Wukong levantou os olhos e viu, no lado esquerdo da estrada, o que havia sido uma estrutura de certa importância e agora era uma ruína com telhado parcial. Uma placa ainda estava presa ao arco da entrada, com caracteres desbotados que Sha Wujing soletrou por proximidade:

Templo do Esplendor da Luz.

— Um templo de um bodhisattva menor — disse Tang Sanzang, descendo do cavalo. — Vamos.

O interior do templo era exatamente o que o exterior prometia: metade do teto havia caído, as paredes tinham musgo, e não havia nenhum cuidador à vista. Mas a seção que ainda tinha telhado era suficiente para quatro pessoas e um cavalo ficarem relativamente secos.

Eles se instalaram em silêncio — Sha Wujing cuidando do cavalo, Zhu Bajie abrindo as bagagens com movimentos mais cuidadosos do que o habitual, Sun Wukong de pé junto ao buraco do teto olhando a chuva cair.

Tang Sanzang sentou-se na pedra mais plana que encontrou e abriu o sutra que carregava sempre a mão.

A chuva caiu pela noite inteira.

Eles ficaram acordados, na maior parte — não por medo exatamente, mas pela combinação de frio e umidade e o tipo de silêncio que os templos em ruínas têm, cheio de ecos de coisas que haviam acontecido ali e não estavam mais acontecendo.

Quando o céu ficou cinza no pré-amanhecer, Sun Wukong olhou para Tang Sanzang e disse:

— A Montanha Espiritual está a oitocentos li daqui.

Tang Sanzang fechou o sutra.

— Quantos dias?

— Com bom tempo e sem demônios? Talvez dez.

— Com tempo ruim e alguns demônios?

— Talvez quinze.

Tang Sanzang olhou para fora para a chuva que estava parando, para o céu que estava lentamente decidindo ser azul, para o horizonte ocidental que estava ali onde havia estado por quatorze anos.

— Então vamos começar.