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Capítulo 94: O Jardim Imperial e o Dilema do Noivo

No Reino da Índia, Tang Sanzang é apresentado ao rei como pretendente da princesa. Sun Wukong transforma-se em abelha para acompanhar o mestre ao interior do palácio enquanto os dias antes do casamento forçado se aproximam.

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O Jardim Imperial do Reino da Índia era, objetivamente, um lugar de beleza extraordinária.

Havia terraços de pedra colorida — azulejo da cor específica do céu de outubro que os artesãos locais haviam aprendido a reproduzir ao longo de gerações —, grades de bronze dourado cuja ferrugem havia sido tratada até tornar-se pátina, lagos artificiais de profundidade calculada onde os peixes nadavam com a lentidão deliberada das criaturas que haviam aprendido que eram ornamento e desempenhavam o papel com convicção. Pavilhões suspensos sobre a água tinham lanternas de seda que ao anoitecer criavam reflexos duplos na superfície do lago. As flores de outono desafiavam a estação com uma intensidade que parecia intencional — como se o jardim houvesse desenvolvido ao longo dos séculos uma resistência própria ao declínio que as estações sugeriam. Poetas tinham escrito sobre este jardim por gerações. Os poemas eram bons.

Tang Sanzang olhava para tudo aquilo com a expressão de alguém que aprecia a beleza com a parte da mente que ainda consegue apreciar coisas quando a outra parte está preocupada com problemas que a beleza não resolve.

Porque o problema era este: o rei da Índia — um homem de disposição agradável, com filha única em idade de casar e com a convicção absoluta de que o destino havia falado claramente quando uma bola de brocado lançada de uma varanda acertara na cabeça de um monge visitante — havia decidido que Tang Sanzang era o pretendente do destino. A cerimônia estava marcada para o dia doze do mês. Faltavam quatro dias.

— Devemos explicar ao rei — disse Tang Sanzang pela quinta vez desde que haviam chegado ao jardim, com o tom de quem repetiria essa frase indefinidamente até que a situação se resolvesse.

— Explicamos — disse Sun Wukong, com a paciência específica de quem repetiu a mesma resposta várias vezes e sabe que vai repetir novamente. — Ontem à tarde expliquei ao rei que você estava em missão sagrada com voto de celibato inquebrantável feito em presença do Buda. O rei disse que isso era muito modesto da sua parte, e que um homem de tal virtude seria genro ainda mais excelente.

— Devemos explicar melhor.

— Expliquei. Várias vezes. Com detalhes crescentes. — Sun Wukong fez uma pausa de alguém que está organizando o ridículo da situação antes de articulá-lo. — É difícil argumentar com alguém que interpreta cada recusa como humildade. A humildade, para ele, é a marca do homem verdadeiramente grande que não sabe o quanto é grande. Cada vez que você diz que não pode casar, ele fica mais convencido de que você é exatamente o tipo de pessoa que deveria casar com a filha dele.

Zhu Bajie, que havia encontrado a mesa do banquete preparada no pavilhão principal com a velocidade de falcão localizando presa do alto e estava naquele momento com o terceiro prato à frente, levantou a cabeça brevemente:

— A comida está excelente, pelo menos. Cordeiro com especiarias que não consigo identificar mas que são o resultado de décadas de culinária avançada. Alguém trabalhou muito para chegar a esta combinação.

Tang Sanzang olhou para o discípulo mais gordo com aquela expressão que não chegava a ser reprovação mas estava claramente na mesma direção.

— A apreciação gastronômica, Wuneng, talvez seja o que a situação menos necessita neste momento.

— Discordo, mestre — disse Bajie, sem interromper o prato. — A apreciação gastronômica é exatamente o que a situação necessita. O resto vai resolver-se com ou sem a nossa angústia. A comida, por outro lado, esfria.


Na manhã do dia oito, quando faltavam quatro dias para o casamento marcado, os quatro foram recebidos em audiência formal no salão principal do palácio. O rei estava no trono com a compostura de alguém que havia ensaiado mentalmente como reagir ao futuro genro com a dignidade apropriada ao momento, e que tinha agora a expressão de quem está genuinamente contente de uma forma que não precisou de ensaio.

— Queremos que os discípulos do nosso futuro parente se apresentem adequadamente — disse o rei, com a satisfação de quem transforma protocolo em celebração. — É costume deste reino conhecer aqueles que acompanham a família do noivo.

Sun Wukong foi o primeiro, com a brevidade de quem sabe que a história é longa mas decide ser eficiente: nasceu de uma pedra no Monte das Flores e Frutos pela força do Dao que havia impregnado aquela pedra por quarenta e sete mil anos. Aprendeu o Grande Caminho com o Imortal Bodhi. Causou perturbação considerável no Paraíso durante um período que envolveu o roubo dos pêssegos da imortalidade, a invasão do banquete celestial, e o consumo não autorizado de uma quantidade substancial dos elixires de Laozi. Foi aprisionado pelo Buda Tathagata sob a Montanha Cinco Elementos por quinhentos anos. Agora protegia Tang Sanzang na jornada ao Ocidente Distante.

O rei ficou quieto por um momento com a expressão de pessoa que está processando uma quantidade incomum de informação nova.

— Você está dizendo — disse o rei para Tang Sanzang, com o cuidado de quem quer ter certeza de que entendeu corretamente — que seu discípulo aprisionou todos os generais celestiais do Paraíso?

— Aprisionou, derrotou, e causou um nível de perturbação que o Imperador de Jade ainda menciona em contextos que não exigem que o mencione — acrescentou Sun Wukong com a objetividade neutra de quem descreve fatos históricos. — Também roubou os pêssegos da imortalidade do jardim da Rainha Mãe, bebeu o vinho da festa celestial que estava guardado para a festa, e comi os elixires de Laozi que estavam em frascos claramente identificados no topo do seu forno de alquimia.

— Ah — disse o rei.

Zhu Bajie apresentou-se com o entusiasmo de quem teve uma vida suficientemente colorida para transformar a apresentação numa história de entretenimento genuíno — havia sido Marechal das Nuvens Celestiais antes de ser enviado à terra por ter flerteado inapropriadamente com a Chang'e. Agora era o segundo discípulo de Tang Sanzang, especialista em combate com o Forcado das Nove Dentes, e tinha — ele mencionou isso com uma satisfação específica — um apetite que havia sido descrito por vários cronistas como épico.

Sha Wujing falou com a brevidade dos homens que respeitam o próprio tempo e o dos outros: havia sido o General das Areias do Rio da Areia, foi expulso do Paraíso por ter quebrado uma taça de cristal num momento de descuido, e agora transportava as bagagens da jornada com uma dedicação que tinha por base a compreensão de que as bagagens precisavam de alguém que as levasse a sério.

O rei observou os três discípulos — o macaco com os olhos de fogo e a postura de quem nunca aprendeu a ser pequeno na presença de ninguém, o porco com o focinho que se movia independentemente da conversa e as orelhas que ventilavam como leques, a figura cinzenta e impassível de Sha Wujing que parecia pedra que escolheu temporariamente ter rosto — com a expressão de alguém que está reconsiderando cuidadosamente o que significa ter estes três seres frequentando o palácio.

Mas os planos tinham sido comunicados aos ministros. As provisões para o banquete tinham sido encomendadas com três semanas de antecedência. Os músicos tinham sido contratados. Os tecidos para as roupas de cerimônia tinham sido cortados. E há muito a força da inércia burocrática supera qualquer força de reconsideração pessoal.

— Excelente — disse o rei, com a decisão de quem escolhe o caminho de menor resistência interna. — Você e seus discípulos são bem-vindos ao Jardim Imperial para descansar e festejar até o dia doze.


Os quatro dias que se seguiram foram confortáveis em todos os aspectos materiais e progressivamente mais angustiantes em todos os aspectos psicológicos para Tang Sanzang, com a angústia crescendo na proporção direta da aproximação do dia doze.

Bajie festejou. Havia em Bajie uma capacidade de adaptação hedônica que Tang Sanzang alternava entre admirar e encontrar teológicamente inquietante — a capacidade de encontrar prazer imediato e genuíno em qualquer circunstância que tivesse boa comida, o que este jardim tinha em abundância. Sha Wujing ficou sentado com a serenidade que era, há muito, não a ausência de perturbação mas a escolha contínua e exaustiva de não deixar a perturbação governar.

Sun Wukong saiu e entrou do jardim múltiplas vezes com a energia de alguém que estava monitorando algo que não estava dizendo aos outros — subindo ao ar brevemente, regressando, subindo novamente, com aquele padrão de comportamento que significava que havia um problema que ainda não tinha solução mas que estava sendo trabalhado.

Tang Sanzang, no Pavilhão das Quatro Estações, encontrou nos painéis das paredes quatro poemas sobre as estações escritos por um calígrafo de geração anterior com tinta de qualidade que o tempo havia escurecido mas não apagado. Começou a ler sem intenção específica — aquele tipo de leitura que acontece quando a mente precisa de algo para fazer que não seja circular em torno do problema que não tem solução imediata.

Os poemas eram bons. Tinham a qualidade específica de poesia escrita por alguém que amava o jardim onde escrevia, não o poema que estava escrevendo.

O rei entrou no pavilhão e encontrou o futuro genro lendo os painéis com aquela concentração que os letrados têm quando encontram texto que os importa.

— Você aprecia poesia, Mestre Tang?

— Aprecia-se o que está disponível — disse Tang Sanzang, com a diplomacia exausta de quem parou de brigar contra a situação porque a situação não estava brigando de volta, apenas existindo.

O rei tomou isso como encorajamento de alguém modesto. Pediu que Tang Sanzang compusesse poemas respondendo aos quatro — a tradição daquele jardim era o diálogo poético com os painéis, a resposta do visitante ao poema do anfitrião. Tang Sanzang pegou o pincel que lhe foi oferecido e escreveu — sobre o sol da primavera que derrete a última neve sobre o parapeito de jade, sobre os verdes de verão que são verdes diferentes em cada planta, sobre as laranjeiras do outono que prendem a luz da tarde na casca do fruto, sobre a neve de inverno que cobre o jardim e torna tudo o mesmo branco e portanto torna cada coisa idêntica a cada outra coisa, o que é uma forma de igualdade que talvez o paraíso aprovasse.

O rei ficou encantado. Pediu que Tang Sanzang ficasse até a tarde para o recital dos músicos. A tarde passou entre versos e chá e a música que chegava dos pavilhões ao redor através da superfície do lago, transformada pela água em algo levemente diferente do que era na origem, como toda transmissão de arte que passa por meio que a altera.

Tang Sanzang se descobriu, pela primeira vez em dias, num estado que se aproximava do relaxamento — não a ausência de preocupação, mas a presença de algo suficientemente belo para ocupar a parte da mente que a preocupação havia estado habitando.

O que era exatamente quando Sun Wukong apareceu ao seu lado com o rosto de quem tem más notícias e sabe que o tempo de guardar para o momento adequado acabou.

— O casamento é amanhã — disse o macaco, em voz audível apenas entre os dois. — O rei avançou a cerimônia em dois dias. Descobri ao voltar desta última vez ao céu.

Tang Sanzang pôs o pincel no suporte com o cuidado de quem pousa objeto precioso mesmo quando está com pensamentos que não são precisos.

— O que você planeja fazer?

— Preciso ver a princesa de perto. Meus olhos, quando olham com intenção específica, conseguem distinguir o que é de origem celestial do que é de origem terrena. Se ela for o que suspeito que é, poderemos agir. Mas preciso de confirmação para agir de forma que não destrua a situação do mestre diplomaticamente antes de resolver o problema real.

— E se for exatamente o que parece?

Sun Wukong não respondeu imediatamente. Havia no silêncio aquela qualidade de pensamento real acontecendo.

— Também saímos correndo — disse Zhu Bajie da direção da mesa de petiscos com a precisão de quem ouviu conversas que não eram dirigidas a ele com a facilidade de anos de prática.

Tang Sanzang olhou para o macaco, depois para o porco, depois para os poemas nas paredes que havia escrito uma hora antes. Havia algo levemente absurdo em que o melhor da tarde — os poemas, o chá, a música transmitida pelo lago — tivesse acontecido sobre o substrato de uma situação que exigia fuga ou subterfúgio.

— Recolham as bagagens discretamente esta noite — disse o monge por fim, com a voz de quem toma decisão prática depois de aceitar que as decisões ideais não estavam disponíveis. — Quero estar pronto para partir com aviso mínimo, qualquer que seja a direção que o amanhã tome.


Na manhã do dia doze, antes que o sol chegasse a um ângulo que exigia que a cerimônia começasse, o rei apareceu com a luminosidade de alguém que passou a semana antecipando um evento que finalmente chegara ao dia. Havia música no corredor — flautas e cordas com aquela qualidade de música de cerimônia que havia sido treinada para ser ao mesmo tempo alegre e solene. As serventes de palácio passavam com flores e incenso de sândalo que chegava antes delas por trinta passos.

O rei chamou os quatro ao salão de audiências e disse, com a delicadeza de quem entrega notícia que considera boa mas teme que possa ser recebida de outra forma:

— Minha filha, que é de sensibilidade refinada, fez um pedido que espero seja respeitado. Pediu que os três discípulos partissem da cidade antes da cerimônia, pois teme que a aparência incomum deles possa perturbar o estado de espírito apropriado para a cerimônia. Para compensar o inconveniente, preparamos para os três discípulos documentos de viagem para a continuação da jornada e uma oferta em reconhecimento ao trabalho sagrado da vossa missão.

A oferta era dez lingotes de ouro e vinte de prata, apresentados num bandeja de lacre vermelho.

Zhu Bajie pegou tudo antes que alguém pudesse dizer o que quer que fosse, com a velocidade e o reflexo que sempre tinha quando havia metal precioso envolvido.

— Muito gentil da parte de Vossa Majestade — disse o Porco com uma reverência que tinha mais felicidade do que o protocolo da situação tecnicamente justificava.

Sun Wukong virou-se para Tang Sanzang e disse, em voz que era audível apenas para o monge entre os dois:

— Não solte minha mão. Qualquer coisa que aconteça nos próximos minutos, não solte minha mão.

Tang Sanzang entendeu a instrução no sentido mais literal e fez o que o discípulo havia pedido — apertou o pulso de Sun Wukong com os dedos com uma firmeza que era mais decisão do que força física, e se recusou a deixar ir enquanto os oficiais do rei tentavam elegantemente, com toda a cortesia que o protocolo permitia, separar o monge dos discípulos.

— Eles ficam — disse Tang Sanzang para o rei, com a simplicidade de quem diz a verdade.

O rei tinha um problema de geometria cortesã. A filha havia pedido especificamente que os discípulos saíssem. O monge se recusava a que os discípulos saíssem. A cerimônia estava marcada para três horas depois. E entre a vontade da filha e a recusa do noivo havia um espaço onde o protocolo não tinha resposta preparada.

A negociação que se seguiu foi delicada e inconclusiva — aquele tipo de negociação onde nenhum lado cede e nenhum lado chega ao ponto de ruptura, e que por isso não resolve mas apenas redistribui o problema no tempo.

Os três discípulos foram escoltados para uma hospedaria próxima ao palácio, oficialmente para descansar e fazer os preparativos da continuação da jornada. Tang Sanzang ficou no salão com o rei, com o músicos tocando a distância e o cheiro do incenso de sândalo que havia sido preparado para cerimônia que ainda não havia certeza de que aconteceria.

Sun Wukong esperou até que os oficiais que os haviam escoltado estivessem voltando ao palácio com os olhos à frente. Arrancou um pelo, soprou sobre ele com o sopro que carregava intenção de transformação — e o pelo se tornou uma versão perfeita de Sun Wukong sentado na hospedaria com a expressão de quem aguarda com paciência aparente. A versão real transformou-se em abelha.

Uma abelha de asas transparentes com a borda levemente dourada, bocal de mel, ferrão que existia mas que não era o objetivo — voou pelas janelas do palácio, invisível entre as flores que decoravam cada corredor, guiada pelo cheiro do incenso e pelo cheiro mais sutil da lua que havia aprendido a reconhecer na noite anterior quando o céu havia confirmado o que suspeitava.

Encontrou Tang Sanzang sentado ao lado do rei num salão vermelho e dourado, com a postura do monge que havia aprendido a sentar em qualquer circunstância com a mesma dignidade que sentava em meditação.

A abelha pousou na borda do chapéu bordado de Tang Sanzang e rastejou com a delicadeza das asas até chegar perto da orelha.

— Estou aqui — disse a voz que era mais pequena do que qualquer voz humana mas que chegou ao monge com a clareza de quem diz o que importa.

Tang Sanzang sentiu algo que não era exatamente alívio — era algo mais parecido com a sensação específica de encontrar o chão depois de ter flutuado por tempo suficiente para esquecer onde estava o chão. O alívio de peso que volta a ter apoio.

— Que bom — disse ele, muito baixo, com os lábios quase imóveis, o som passando mais pelo osso que pelo ar.

O rei olhou para o monge.

— Você disse algo, Mestre?

— Estava orando — disse Tang Sanzang, com a verdade técnica de quem aprendeu, ao longo de muitos anos de situações difíceis, que as melhores respostas são as que contêm a verdade de ângulos que o interlocutor não estava esperando.

E na borda do chapéu, invisível entre o bordado de flores e pássaros que um artesão havia passado meses completando, a abelha aguardava. Não com a paciência resignada de quem espera porque não tem alternativa. Com a atenção viva de quem sabe que o momento vai chegar e quer estar exatamente no lugar certo quando chegar.

Para o que quer que viesse a seguir — a verdade da falsa princesa, a libertação da verdadeira, a última prova antes do fim da jornada —, o Macaco Rei estava no lugar de sempre. Na orelha do mestre. No lugar onde as palavras que importavam eram ditas antes que o mundo soubesse que precisava ouvi-las.