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Capítulo 93: O Jardim de Gita e o Casamento Celestial — Tang Sanzang no Reino de Tianzhu

Os peregrinos chegam ao reino de Tianzhu. Um ancião revela que a verdadeira princesa foi substituída por um demônio. Quando Tang Sanzang entra na cidade, a falsa princesa o acerta com sua bola bordada, pretendendo casá-lo e sugar sua essência vital.

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O Jardim de Gita apareceu como surpresa — não grande, nem espetacular, mas carregado com o peso dos séculos de uma forma que fazia o coração bater diferente antes que a mente soubesse o motivo.

Vinha de longe, aquele lugar. O templo que se erguia no centro do jardim chamava-se Templo da Distribuição de Ouro — nome que carregava a história completa da sua origem como um enigma que se resolvia uma vez ouvido. Tang Sanzang conhecia a história de cor, de um dos primeiros textos que havia decorado como noviço: o rico comerciante Sudatta havia querido comprar aquele jardim para oferecer ao Buda para que ele pudesse pregar às multidões, e o príncipe dono havia dito que só venderia se Sudatta cobrisse o chão inteiro com moedas de ouro — uma condição que o príncipe colocara como impossibilidade, apenas para ver Sudatta aceitar. E Sudatta havia feito exatamente isso — colocando moedas de ouro lado a lado, uma a uma, com a paciência de amor que não reconhece impossibilidade, até cobrir cada palmo do jardim com metal amarelo.

Agora o jardim existia há séculos, e as moedas haviam desaparecido na terra, e no lugar onde o ouro esteve crescera vegetação que havia esquecido que crescia sobre fundação de devoção.

— Estamos em território sagrado — disse Tang Sanzang, descendo do cavalo branco com a reverência de quem sabia exatamente onde estava.

— Estamos quase lá — disse Wukong, em voz baixa, com aquela incomum suavidade que aparecia nele quando chegava perto de algo que importava de forma que não sabia expressar de outra maneira.

O templo os acolheu com uma hospitalidade simples que era, paradoxalmente, mais generosa que os banquetes dos reis — chá servido em tigelas sem ornamento, arroz com vegetais do jardim, a conversa do abade que tinha cento e cinco anos e carregava a idade de um modo que a tornava leveza em vez de peso. O abade tinha o tipo de presença que acontece quando alguém passou décadas num lugar sagrado sem deixar que a familiaridade apagasse o sagrado.

Zhu Bajie comeu suficiente para uma família de oito e pediu de volta ao criado com a expressão de quem considera cortesia de sua parte não ter pedido mais cedo.

Depois do jantar, enquanto Bajie roncava numa cama de madeira com a profundidade de sono dos completamente satisfeitos, e Sha Wujing meditava em silêncio com aquela imobilidade que fazia pensar em pedra que escolheu forma humana temporariamente, Tang Sanzang e Wukong caminharam com o ancião pelos fundos do templo.

A lua estava alta e cheia — aquele tipo de lua que torna as sombras sólidas e as pedras fosforescentes. O ancião os levou pelos alicerces do Jardim Original, que agora era um campo de pedras esparsas sob o céu, onde ainda se encontravam, depois das chuvas fortes, pepitas de ouro e prata que o tempo havia deixado aflorar à superfície depois de séculos enterradas. Tang Sanzang olhou para uma pepita à luz da lua e pensou no homem que havia comprado um jardim com amor, palmo a palmo.

Ouviram o choro.

Vinha de uma sala isolada do lado oriental do templo, murada com tijolos novos de um lado — tijolos mais claros que os antigos, indicando construção recente, com aquele aspecto de adição feita por necessidade em vez de planejamento. Mais como prisão improvisada do que quarto planejado. Tang Sanzang parou na metade de um passo.

— Quem está chorando?

O ancião olhou em volta com o reflexo de quem habituou-se a verificar o entorno antes de falar — e havia algo nesse gesto que não era paranoia mas experiência de quem guardou segredo por tempo suficiente para desenvolver cautela genuína.

Depois se ajoelhou.

Mestre, há um ano eu estava neste mesmo jardim sob esta mesma lua quando o vento trouxe uma mulher. Jovem, bela, assustada com aquele assusto que não é de pessoa que viu perigo mas de pessoa que foi arrancada de lugar seguro sem aviso.

Tang Sanzang ficou quieto, ouvindo com aquela atenção de quem sabe que o que vem a seguir vai importar.

— Ela disse que era a Princesa do Reino de Tianzhu, que havia sido arrancada do jardim real por um espírito enquanto observava as flores à luz da lua. Um vento repentino, um brilho, e ela acordou aqui, a léguas do palácio, sem memória do caminho. O espírito havia tomado a sua forma e ficado no lugar dela.

— Trancou-a aqui? — disse Tang Sanzang. — Por quê?

— Para protegê-la, mestre. Não podia enviá-la de volta sozinha pelo caminho — não sabia se o palácio havia sido tomado completamente, se havia perigo no caminho, se quem a visse a reconheceria ou a capturaria de novo. E não podia deixá-la livre no templo sem que alguém a visse e criasse confusão — uma princesa sozinha num templo de monges, longe do palácio, daria início a histórias de vários tipos, nenhuma boa. Mandei dizer para todos os monges que havia apanhado um demônio feminino e que estava guardando-o com precaução. Tratei-a com respeito, mas em segredo.

Wukong olhou para a parede de tijolos novos com os olhos que liam o que estava do outro lado.

— E ela?

— Entendeu a situação com inteligência notável para alguém na sua posição. Finge loucura durante o dia para que os monges que eventualmente passam não a questionem — chora, fala incoerências, recusa comida às vezes. E chora à noite de verdade, lembrando os pais, lembrando o palácio, sem saber se o rei a procurou ou se o rei nem sabe que ela desapareceu porque a criatura que tomou sua forma está se comportando de maneira convincente.

Tang Sanzang ficou quieto por um momento que foi longo o suficiente para que o choro da outra sala entrasse no silêncio e preenchesse o espaço que as palavras haviam deixado.

— Então há uma princesa falsa no palácio de Tianzhu — disse Wukong, com a certeza de quem não precisa de confirmação.

— Assim acredito. Por isso peço que, quando chegarem ao palácio, usem a vossa sabedoria para distinguir a verdadeira da falsa e restituir a ordem. A princesa aqui está a salvo mas não pode ficar aqui para sempre. O pai dela não sabe onde está. E a coisa que está no lugar dela tem motivos que ainda não compreendo completamente.

Carregaram aquela informação para dentro das suas camas naquela noite. O choro da princesa verdadeira, suave e ritmado como prece de quem já não tem certeza de que alguém ouve mas continua rezando pelo mesmo motivo que o vento continua soprando, acompanhou os sonhos de Tang Sanzang até o canto do galo.


Saíram antes do amanhecer, passaram pela Passagem do Canto do Galo com os mercadores que haviam esperado toda a noite do lado de fora da passagem com os seus carregamentos — havia centopeias espirituais naquele trecho de montanha que paralisavam qualquer criatura com pernas, e por isso os viajantes aguardavam o canto do galo que as afugentava antes de passar —, e ao meio-dia os muros dourados da capital de Tianzhu apareceram na linha do horizonte como promessa que se cumpria lentamente.

Era uma cidade de aparência que combinava o familiar e o inteiramente outro de formas que Tang Sanzang achou que havia experimentado antes mas não havia — as casas de dois andares eram como casas de dois andares em qualquer lugar, os mercados tinham o odor de especiarias e lenha queimando que era universal, mas o azul do céu tinha uma qualidade específica e a qualidade da luz no meio-dia tinha um ângulo que lembrava as pinturas do Paraíso Ocidental que havia visto em manuscritos iluminados décadas antes.

Estou quase lá. A cor do ar tem a cor das pinturas.

Encontraram a estação de mensageiros — aquele tipo de instituição que existia nos reinos prósperos para receber e registrar viajantes de importância — e foram recebidos pelo administrador, que ao ver Tang Sanzang com o seu manto bordado e a sua postura de décadas de caminho e ao ver os três discípulos tentou não mostrar o que sentia no rosto com um sucesso apenas parcial.

— Minha missão é apresentar meus documentos de viagem ao rei e ter o carimbo para continuar a jornada — disse Tang Sanzang, com a brevidade direta de quem aprendeu que quanto mais simples a apresentação mais rápido o processo. — Há alguma dificuldade em entrar no palácio hoje?

O administrador coçou a cabeça com o gesto de quem tem informação que não é problema mas é complicação:

— Dificuldade não há. Mas há uma circunstância. A princesa real comemora o seu aniversário hoje e lançará uma bola bordada da varanda para escolher marido entre os homens presentes. O rei estará na corte para receber o felizardo escolhido pela bola.

Wukong e Tang Sanzang trocaram um olhar que carregava a informação completa do que ambos estavam pensando sem precisar de palavras — aquele tipo de comunicação que se desenvolve entre dois seres que passaram anos em situações que exigiam entendimento rápido.

— Vamos — disse Wukong.

— Não devemos — disse Tang Sanzang.

— Devemos, mestre. O ancião do jardim pediu que identificássemos a falsa princesa. Esta é a oportunidade mais direta — a criatura estará exposta numa cerimônia pública. Além disso — acrescentou, com um sorriso que aparecia nele quando sabia que tinha o argumento certo —, o rei provavelmente está na corte, o que resolve também o problema do carimbo.

Foram. As ruas que levavam à torre da varanda estavam repletas de pessoas com aquela expectativa festiva que precede os acontecimentos que mudam vidas de forma que só os envolvidos podem antecipar. Jovens que sonhavam com fortuna, mães que calculavam probabilidades, comerciantes que aproveitavam a multidão.

A torre era alta e ornamentada com tecidos de cores que eram as cores específicas da celebração daquele reino. Lá em cima, atrás de um gradil dourado, uma figura de vestido vermelho observava a multidão com os olhos que Wukong notou imediatamente desde o chão — havia naqueles olhos uma luz que os olhos de ouro identificavam como errada. Não a luz de princesa que escolhe marido. Não a luz de mulher jovem em cerimônia de sua vida. Algo mais antigo e mais frio, que havia aprendido a usar a expressão de expectativa jovial como máscara mas que não havia aprendido a tornar os olhos parte da máscara.

A bola de seda bordada voou do alto da varanda em arco que parecia descuidado mas que tinha a precisão de coisa enviada com intenção.

E acertou exatamente na cabeça de Tang Sanzang.


Tang Sanzang ficou parado por um segundo com a bola nas mãos que a haviam apanhado por reflexo, segurando-a como quem não sabe ainda o que está segurando. A multidão ao redor explodiu em exclamações e gritos — havia entusiasmo e havia inveja e havia as reações de quem vê uma história começar de forma que não esperava. Wukong, para impedir que a turba se lançasse sobre o mestre em celebração que podia tornar-se perigosa pela simples quantidade de corpos, cresceu dois metros de altura e mostrou os dentes, o que fez todo o mundo recuar com a eficiência que a aparência de Wukong sempre produzia em situações de multidão.

Os criados do palácio desceram da torre pela escada lateral.

— Senhor monge, Vossa Excelência é o escolhido. A princesa convida-o a entrar no palácio para o casamento.

Tang Sanzang olhou para Wukong com aquela expressão que havia se desenvolvido entre os dois ao longo de anos de viagem, a expressão que significava como eu saio desta sem criar incidente diplomático?

Wukong disse em voz suficientemente baixa para que apenas o mestre ouvisse:

— Vá. Diga que precisa de tempo para se despedir dos discípulos e verificar os documentos. Quando o rei nos chamar ao palácio, eu entro e resolvo. Não faça nada que comprometa a situação antes que eu possa agir.

Tang Sanzang respirou fundo — o tipo de respiração que é preparação, não apenas ar —, compôs a expressão que havia utilizado em audiências com reis muito mais temperamentais que este, e seguiu os criados.

O palácio de Tianzhu era esplêndido com aquela esplendidez específica dos lugares que foram construídos para durar e que duraram de fato. O rei era um homem de meia-idade com expressão de pai que ama a filha e que está genuinamente confuso com a situação mas que decidiu que confusão e alegria podiam coexistir.

A falsa princesa desceu para o salão de audiências com elegância que não tinha nenhuma fissura visível a olhos comuns — cada gesto calculado, cada sorriso na medida exata do que a cerimônia exigia, cada pausa onde a pausa devia ser. Era uma imitação da perfeição que havia levado tempo para aperfeiçoar.

Mas para Wukong, que esperava do lado de fora com Bajie e Sha Wujing, havia um detalhe que não se via mas se cheirava — não o cheiro de demônio que havia aprendido a reconhecer de léguas de distância, mas algo mais sutil e mais antigo. O odor da lua. Frio como geada antes que o sol chegue. Branco como algo que não tem cor mas que a luz torna visível. O odor específico de alguma coisa que havia estado no céu antes de estar na terra.

Wukong sabia o que era aquilo.

Só não sabia ainda como provar de forma que convencesse um rei que amava a filha.

O rei chamou os discípulos ao palácio pouco depois — Tang Sanzang havia pedido a audiência com a cortesia de quem pede o que lhe é devido sem parecer que o está a cobrar. Bajie entrou com o focinho levantado e aquela curiosidade genuína que Tang Sanzang classificou mentalmente como potencialmente problemática em ambiente de protocolo real. Sha Wujing entrou com a dignidade que era a sua armadura contra qualquer ambiente que exigisse comportamento que ele ainda não havia catalogado. Wukong entrou com o bastão à mão e os olhos de ouro focados na falsa princesa com a atenção de quem faz diagnóstico.

A falsa princesa olhou de volta para ele.

E por um instante — apenas um instante, e talvez fosse de propósito — Wukong viu o que ela era.

Não era demônio da terra. Era algo celestial que havia descido. Algo que havia existido no céu antes de existir aqui, que havia tomado uma forma que não lhe pertencia e que habitava essa forma com a habilidade de quem sabe que a performance precisa de ser impecável.

Mestre — disse Wukong para Tang Sanzang, em voz que era comunicação apenas entre os dois — preciso de uma noite para verificar algo. Uma noite no Paraíso para fazer uma pergunta a alguém que saberá responder.

Tang Sanzang disse ao rei, com a diplomacia do monge que havia navegado cortes de toda a qualidade ao longo de anos, que os discípulos necessitavam de uma noite para consultar os documentos de viagem e verificar questões de protocolo. O rei — um homem de boa índole que havia esperado anos para ver a filha feliz e que interpretava cada hesitação do monge como a modéstia espiritual que os religiosos cultivados exibiam — concordou com generosidade genuína.

Naquela noite, enquanto Bajie dormia e Sha Wujing meditava e Tang Sanzang rezava pelo que estava para acontecer, Wukong voou para o céu para fazer uma pergunta cujo nome ainda não sabia, mas cujo formato reconhecia.

A resposta que recebesse mudaria tudo — a situação do mestre, a situação da princesa verdadeira no templo, e o equilíbrio entre o que havia descido do céu e o que o céu havia perdido sem perceber.