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Capítulo 90: O Mestre e o Leão — O Nono Espírito Sagrado é Capturado

Sun Wukong descobre que o leão de nove cabeças pertence ao Grande Senhor da Misericórdia do Leste. Após Bajie, Tang Sanzang e até o próprio Wukong serem capturados, o Senhor Celestial desce para resgatar sua montaria e libertar os prisioneiros.

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A batalha recomeçou no dia seguinte com toda a determinação dos dois lados.

Os leões saíram em formação — o Leão Amarelo à frente, os outros seis flanqueando, cada um com sua arma peculiar. O Leão de Nove Cabeças ficou ao centro como um general que observa o tabuleiro.

Wukong, Bajie e Sha Wujing saíram da cidade para enfrentá-los no campo aberto. Os três filhos do príncipe ficaram nos muros, batendo tambores e balançando bandeiras para animar os mestres.

A batalha foi violenta e longa. Por metade de um dia, as armas entrechocaram naquele campo entre a cidade e a montanha, sem que nenhum dos lados obtivesse vantagem decisiva. Os leões eram rápidos e coordenados. Os três discípulos eram individualmente mais fortes, mas os números pesavam.

Quando o sol começou a declinar, Bajie deu o sinal universal do cansaço — começou a errar golpes que normalmente acertaria, seu peso se tornando mais obstáculo do que arma. Dois dos leões o cercaram e desta vez ele não conseguiu escapar. Levaram-no para o interior da caverna na Montanha do Bambu Nodoso, onde ficava a Gruta dos Nove Meandros.

Wukong arrancou um punhado de pelos do braço, mascou-os, soprou, e os transformou em cem pequenos Wukongsque cercaram os seis leões menores em turbilhão. Enquanto os gêmeos-clones envolviam os inimigos, ele e Sha Wujing atacaram. Dois leões foram capturados. Quatro escaparam.

Retiraram-se para a cidade com os dois prisioneiros. Os três filhos do príncipe desceram dos muros com o entusiasmo de quem assistiu a uma demonstração marcial extraordinária.

— Como você se dividiu em cem? — perguntou o mais jovem, com olhos arregalados.

— Tenho oitenta e quatro mil pelos — disse Wukong com simplicidade. — Um pode virar dez, dez podem virar cem, cem podem virar um milhão. Tudo depende de quantos precisar.


Na madrugada seguinte, o Leão de Nove Cabeças agiu.

Enquanto Wukong e Sha Wujing lutavam contra os cinco leões restantes no campo, o ancião dos demônios subiu em nuvens negras, sobrevoou os muros da cidade e aterrisou no pavilhão onde Tang Sanzang descansava. Antes que os guardas pudessem reagir, abriu uma de suas nove bocas e apanhou o monge. Abriu outra e apanhou o Príncipe de Yuhua. Abriu outras bocas para os três filhos. Seis prisioneiros nas seis bocas, com três bocas ainda vazias, e voou de volta para a Gruta dos Nove Meandros.

Wukong, ouvindo os gritos da cidade, tirou mais pelos, soprou um exército de clones e terminou a batalha em minutos — o Leão Amarelo morto, quatro leões capturados, um fugido. Mas quando voltou à cidade, a princesa já chorava no pátio.

— Seu mestre, nosso príncipe, nossos filhos — disse ela, com as mãos juntas numa súplica —, o grande demônio os levou todos.

Wukong ficou quieto por um momento.

— Não vou deixar ninguém morrer. Mas preciso de informações.

Mandou buscar o Deus da Terra local — que veio tremendo com escolta —, e perguntou sobre o leão de nove cabeças.

— Senhor — disse o Deus da Terra —, aquela criatura desceu do céu há dois ou três anos. Chama-se Nono Espírito Sagrado. É a montaria do Grande Senhor da Misericórdia do Palácio da Rocha Divina do Extremo Leste. Ninguém aqui embaixo consegue submetê-lo. Apenas seu dono pode fazê-lo.

Wukong assentiu. Desta vez, a solução não estava nem na terra nem no céu comum — estava no Extremo Leste.


Atravessou o País de Yuhua com Sha Wujing e entrou na Gruta dos Nove Meandros pela força. Encontraram Tang Sanzang, o príncipe e os três filhos reunidos num canto com Bajie, todos amarrados, todos ilesos mas assustados.

O Leão de Nove Cabeças acordou com o barulho da batalha.

Ergueu-se lentamente, sacudiu suas nove cabeças, e sem pronunciar uma palavra, abriu a mais próxima das bocas e apanhou Wukong. Depois Sha Wujing. Amarrou-os com cordas e passou o resto da noite mandando os três pequenos demônios sobreviventes — Artimanha Estranha, Estranheza Artimanhosa e o monstro de cara azul — bater no macaco com varas de salgueiro.

Wukong deixava as varas baterem sem reagir. Seu corpo foi forjado em fornalha divina — varas de salgueiro eram como cócegas. Mas fingia sofrer, porque às vezes fingir é mais útil do que resistir abertamente.

Quando todos dormiram, usou um truque menor — reduziu o corpo por dentro das cordas até escorregar por elas, recuperou o bastão, destruiu os três pequenos demônios com três golpes precisos, e caminhou para a saída.

Sha Wujing chamou em voz baixa.

— Me tira daqui também.

Antes que Wukong pudesse responder, a voz de Bajie cortou o silêncio da caverna como uma faca.

— E eu?!

O barulho acordou o leão.

Wukong soprou a vela, mergulhou na escuridão e fugiu pela porta antes que o monstro pudesse se orientar. Sha Wujing ficou para trás — recapturado. Bajie, Tang Sanzang e o príncipe com os filhos continuaram prisioneiros.

Mas Wukong estava livre, e livre era o suficiente.


Voou direto para o Portão Leste do Paraíso, encontrou o Rei Celestial Guangmu fazendo sua ronda e pediu passagem urgente ao Palácio da Rocha Divina do Extremo Leste.

O Palácio era diferente de tudo que havia visto no céu — menos dourado, mais sólido, como se tivesse sido esculpido diretamente nas pedras do ar. Diante dos portões havia um servo em manto de arco-íris. Quando viu Wukong, entrou correndo para anunciar.

O Grande Senhor da Misericórdia — também chamado de Grande Venerado Salvador de Almas — desceu de seu trono de lótus de nove cores para receber o visitante.

Grande Sábio, há muito tempo. A jornada está quase completa?

— Quase — disse Wukong. — Mas preciso de ajuda. Uma criatura chamada Nono Espírito Sagrado desceu ao mundo e fez da Montanha do Bambu Nodoso seu reduto. Capturou meu mestre, meus irmãos, um príncipe e três jovens. Aprisionou-me e espancou-me esta noite mesma.

O Grande Senhor olhou para Wukong com uma expressão que misturava surpresa e algo parecido com constrangimento.

— Chamem o guarda do leão.

Um servo foi acordar o responsável pela custódia do animal. Chegou tropeçando de sono, vermelho de vergonha, e confessou que havia roubado uma garrafa de licor celestial que pertencia ao Velho Senhor Laozi — algo chamado Elixir Líquido da Reencarnação — e que, embriagado, havia dormido por três dias sem acordar, tempo suficiente para o leão escapar das correntes.

— Três dias no céu — disse o Grande Senhor — são três anos na terra. O animal está solto há anos.

Aplicou uma punição ao guarda — cento e tantos golpes de bastão, levado a sério pelo servo que, curvado de dor mas de pé, foi instruído a acompanhar o Grande Senhor e Wukong de volta à Montanha do Bambu.

Chegaram ao cume da montanha quando o sol estava alto. Os Deuses da Proteção, os Generais dos Seis Pontos Cardeais e o Deus da Terra local vieram todos ao mesmo tempo para se ajoelhar.

O Grande Senhor pediu que Wukong fosse até a porta da caverna e chamasse o leão para fora.

Wukong chegou à porta da gruta e berrou:

— Besta das nove cabeças! Devolve meu mestre!

Silêncio. O leão dormia.

— Besta! Ladrão! Monstro!

Mais silêncio.

Wukong, irritado, arrombou a porta e começou a destruir o corredor de entrada. O leão acordou com um rugido capaz de abalar as pedras e saiu correndo para enfrentar quem quer que fosse responsável por aquele barulho.

Quando saiu dos portões e viu o Grande Senhor esperando no ar, parou imediatamente.

Abaixou as nove cabeças ao mesmo tempo.

— Minha montaria — disse o Grande Senhor, com uma voz que não tinha raiva mas tinha clareza absoluta —, comportou-se mal.

O servo do leão pulou das nuvens e agarrou a juba do animal, sacudindo-o com a energia raivosa de quem acumulou meses de vergonha. Depois colocou uma sela de brocado no animal e ajudou o Grande Senhor a montar.

O leão não resistiu. Havia algo no olhar do dono — não ameaça, mas reconhecimento — que fazia a resistência impossível.

O Grande Senhor subiu nas nuvens, inclinou a cabeça para Wukong, e partiu para o Palácio da Rocha Divina do Extremo Leste sem mais cerimônia.


Wukong entrou na caverna. Libertou Tang Sanzang, Sha Wujing, Bajie, o príncipe e os três príncipes.

Bajie, com os pulsos marcados pelas cordas, foi o primeiro a falar.

— Agora posso comer alguma coisa?

Tang Sanzang abraçou o cajado de Sha Wujing de alívio.

Os filhos do príncipe ajudaram o pai a sair da caverna com as mãos ainda tremendo mas o orgulho intacto.

Bajie — sem precisar de permissão — empilhou galhos secos no interior da Gruta dos Nove Meandros e ateou fogo até que a caverna inteira ardeu. Ficou assistindo com os braços cruzados enquanto as chamas subia.

De volta a Yuhua, a princesa esperava no portão da cidade com toda a corte. O príncipe foi recebido com lágrimas e reverências. Os três filhos correram para as mães.

Naquela noite, o banquete foi o maior que a cidade havia visto em anos. Os seis leões capturados foram abatidos e a carne distribuída para toda a população — cada família recebeu um pedaço, como talismã comestível de um pesadelo superado.

Os ferreiros entregaram as três armas réplicas — mil quilos o bastão de ouro menor, oitocentos o forcado e oitocentos o cajado. Os três filhos do príncipe as empunharam no pátio como quem finalmente entende para que serve o peso.

Tang Sanzang olhou para os três discípulos no final da noite.

— Estamos próximos — disse ele.

— Sempre estivemos — respondeu Wukong, com o bastão na mão e um sorriso que não era alegria simples, mas algo mais profundo e mais quieto.

Partiram dois dias depois, com a cidade inteira seguindo até onde as pernas aguentavam.