Capítulo 9: O Pescador Chen Guang Rui Encontra Sua Ruína; O Monge do Rio Hong Vinga Seu Pai
A história do pai de Tang Sanzang: Chen Guang Rui é assassinado por um barqueiro corrupto, mas seu filho, criado em segredo num mosteiro, eventualmente vinga sua morte e restaura a família.
Para compreender Tang Sanzang — o monge que percorreria cem e oito mil li até o Ocidente em nome do budismo e da salvação de incontáveis almas — é preciso primeiro entender de onde ele veio. Porque nenhuma árvore cresce sem raízes, e as raízes de Tang Sanzang eram uma história de amor e traição, de infanticídio evitado e vingança cumprida, de milagres que o povo de Chang'an contava em voz baixa nas gerações seguintes como prova de que o destino existe e opera de formas que a inteligência humana raramente prevê.
Nos tempos do grande Imperador Taizong da dinastia Tang — cuja era foi chamada de Zhenguan, a Era da Reta Observância, porque o Imperador havia fundado sua administração sobre os princípios da justiça que ele acreditava com genuinidade ser possíveis — havia na província de Haizhou um homem chamado Chen Guang Rui.
Era jovem de talento excepcional, filho de uma família que havia investido tudo em sua educação com a convicção de que a excelência nos estudos era o único caminho digno para um homem de espírito. Havia estudado desde a infância com a dedicação dos que sabem que não têm outra aposta — acordando antes do amanhecer para revisar os clássicos à luz de uma única vela, praticando os caracteres até que os punhos doíam, memorizando os poemas e os tratados que os examinadores esperavam com uma perfeição que às vezes assustava seus próprios professores.
No grande exame imperial realizado em Chang'an — o mais rigoroso processo de seleção que a civilização humana havia desenvolvido até então, no qual candidatos de todo o Império competiam por cargos na administração através de provas escritas avaliadas por painéis de eruditos — Chen Guang Rui destacou-se acima de todos. Seu ensaio de política pública foi citado pelo examinador principal como o melhor da geração. Sua interpretação dos clássicos revelava não apenas memória mas compreensão. Conquistou o primeiro lugar com uma clareza que não deixava margem para debate.
O Imperador Taizong, que era do tipo de governante que lia pessoalmente os ensaios dos primeiros colocados, ficou suficientemente impressionado para convidar Chen Guang Rui não apenas para um cargo mas para um jantar privado. E ali, com aquela generosidade impulsiva que era tanto virtude quanto às vezes problema para um Imperador, ofereceu-lhe também a mão de sua filha adotiva, a jovem Yin Wenjiao, em casamento.
A cerimônia ocorreu com a magnificência devida. Os dois partiram depois para que Chen Guang Rui assumisse seu posto como prefeito de Jiangzhou, a três mil li de distância da capital — uma viagem que se fazia em semanas de caminhada pelas estradas imperiais que conectavam as províncias.
A viagem era feliz. O calor do início de primavera suavizava a estrada, os frutos começavam nas árvores dos pomares à beira do caminho, e os dois viajantes descobriam um ao outro com aquela leveza específica de pessoas que foram escolhidas uma para a outra por decreto imperial mas descobrem, para sua agradável surpresa, que o decreto foi bem feito.
Quando chegaram às margens do Rio Wan, estava claro que precisariam de barco para a travessia. O rio era largo ali — turvo com as chuvas recentes, correndo com uma velocidade que tornava qualquer tentativa de vau perigosa. Um barqueiro chamado Liu Hong estava disponível, e Chen Guang Rui contratou seus serviços sem hesitação — havia em Liu Hong uma aparência de pessoa comum que não levantava suspeita, apenas a afabilidade levemente excessiva de quem depende de clientes para sobreviver.
Embarcaram ao entardecer.
No meio do rio, quando a escuridão havia tomado conta das margens e a água fazia aquele som de profundidade que rios fundos fazem à noite, Liu Hong ficou desperto olhando para sua passageira à luz da única lanterna do barco. Yin Wenjiao dormia com aquela beleza que é mais desorientante do que a beleza consciente. E Liu Hong sentiu formarse em si mesmo um pensamento que havia aprendido ao longo de sua vida a nunca examinar — o tipo de pensamento que cresce no escuro por falta de luz.
Levantou-se com a quietude de quem se moveu em barcos a noite inteira e sabe cada tábua que range e cada que não range. Foi até Chen Guang Rui, que dormia pesado de um dia de viagem. E empurrou-o para fora do barco.
O rio recebeu o corpo sem cerimônia.
Yin Wenjiao acordou com o movimento. Liu Hong a enfrentou com a informação que ela já havia deduzido pelos movimentos do barco e pelo silêncio onde deveria haver o respirar de seu marido — e acrescentou uma ameaça que ela não havia previsto: estava grávida, ele sabia, e o filho que carregava seria criado ou não dependendo de sua cooperação. Os documentos e as credenciais de Chen Guang Rui foram suficientes para Liu Hong assumir sua identidade, chegar a Jiangzhou e instalar-se no cargo como se fosse o funcionário legítimo.
O crime ficou oculto porque não havia testemunhas. A noite tinha a discrição que os crimes contra os inocentes muitas vezes encontram.
Os meses que se seguiram foram para Yin Wenjiao uma espécie de purgatório privado. Vivia com Liu Hong, que havia montado toda a parafernália de uma vida administrativa com a competência pragmática de quem não tem escrúpulos mas tem ambição — a casa, os serventes, as obrigações sociais do cargo. Tratava-a com uma frieza calculada que era menos pior do que a violência mas não deixava espaço para qualquer tipo de resistência aberta.
Ela esperava.
E seu filho crescia.
O menino nasceu numa noite de chuva com a lua escondida atrás de nuvens grossas, como se o cosmos estivesse sendo discreto sobre um evento que era ao mesmo tempo milagroso e perigoso. Tinha a pele de jade e o rosto de lua cheia que os textos budistas descrevem nos seres de destino particular — não apenas beleza física mas uma qualidade de presença que faziam as mulheres que o viram nascer abaixar os olhos com uma reverência involuntária.
Liu Hong não o queria. E Yin Wenjiao sabia que a vida do menino dependia de ele não ficar ali.
Na terceira noite depois do parto — quando Liu Hong estava em banquete na cidade e a casa tinha apenas os serventes que ela havia mantido à distância ao longo de meses de observação cuidadosa — Yin Wenjiao agiu com a rapidez e a precisão de quem havia planejado esse momento desde antes do nascimento.
Escreveu uma carta. Não tinha tinta — usou a ponta de uma agulha e seu próprio sangue, escrevendo em caracteres pequenos e precisos sobre um pedaço de seda que havia guardado. A carta narrava tudo: o nome do pai, o crime de Liu Hong, o cargo usurpado, o rio onde o corpo havia caído. Era uma confissão de outra pessoa escrita no sangue de quem havia sobrevivido.
Amarrou a carta ao pescoço do menino. Enrolou-o em seu cobertor mais quente — o de seda dupla que havia sido presente de casamento e cheirava ainda levemente ao incenso da cerimônia. Encontrou uma tábua de madeira adequada e colocou o menino sobre ela, fazendo um berço improvisado com o tecido. Foi até a margem do rio que passava a cem passos da casa, agachou-se na água fria da madrugada, e colocou a tábua no rio.
Não chorou. Havia decidido antes que chorar usaria energia que precisava guardar.
Ficou parada na margem até que a corrente levou a tábua além de onde seus olhos podiam acompanhar.
O Mosteiro das Águas Douradas ficava três dias rio abaixo, numa margem onde o rio alargava e desacelerava — um lugar onde as coisas que o rio carregava tendiam a encostar-se à margem de forma natural, como se o próprio rio soubesse que ali havia alguém que saberia o que fazer com o que chegasse.
O abade acordou antes do amanhecer com um sonho que não recordava completamente mas que deixara a sensação específica de urgência que ele havia aprendido, em décadas de prática, a não ignorar. Foi até a margem.
A tábua estava encostada entre os juncos da margem com a gentileza de coisa que havia chegado onde precisava chegar. O menino dormia com uma paz que era impossível para alguém que havia passado noite no rio — uma paz que só podia ser explicada por proteção de natureza diferente da natural.
O abade leu a carta presa ao pescoço. Leu com atenção crescente, depois com uma serenidade que era resultado de muito trabalho interior ao longo de muitos anos, depois com a firmeza de quem tomou uma decisão que sabe ser irrevogável.
"Este é um ser especial," disse o abade para o primeiro discípulo que havia chegado correndo ao ver seu mestre ajoelhado na margem. "O rio o trouxe até nós porque somos quem deve cuidar dele."
O menino foi batizado de Jiang Liu — Criança das Correntes de Água. E o mosteiro tornou-se seu lar.
Jiang Liu cresceu com a facilidade e a profundidade daqueles que nascem com uma natureza já voltada para o que vão se tornar. As escrituras budistas faziam sentido para ele de uma maneira que seus companheiros de estudo, mais velhos e mais dedicados, achavam às vezes levemente invejável — não porque ele as memorizasse mais rápido, embora o fizesse, mas porque as compreendia com um tipo de intimidade que sugeria que não as estava aprendendo mas reconhecendo.
Meditava com a naturalidade de respirar. Havia nele uma bondade que não era resultado de esforço mas de arquitetura — como se seu coração tivesse sido construído com mais espaço para compaixão do que os corações costumam ter.
E havia nele também, conforme foi crescendo, uma quietude particular ao redor do assunto de sua origem que os outros monges respeitavam sem entender completamente. Não havia amargura na quietude — apenas uma complexidade que ele carregava com a elegância de quem aprendeu a carregar coisas pesadas sem deixar que o peso os tornasse curvados.
Aos dezoito anos, o abade o chamou ao seu quarto e colocou diante dele a carta escrita em sangue.
Jiang Liu leu-a. Uma vez. Duas vezes. Depois dobrou o papel com os movimentos precisos de quem está decidindo como tratar um objeto que é ao mesmo tempo precioso e perigoso.
"Minha mãe ainda vive," disse ele.
"Acredito que sim," disse o abade.
"E o homem que matou meu pai ainda ocupa o cargo que não lhe pertence."
"Isso também é verdadeiro."
O jovem ficou em silêncio por um tempo que o abade reconheceu como processamento real — não paralisação, mas o tipo de silêncio que precede a ação determinada.
"Tenho que ir a Chang'an," disse ele. "O Imperador Taizong é conhecido por seu sistema de justiça. Se apresentar esta carta ao Imperador, as investigações serão feitas."
"É verdade," concordou o abade. Fez uma pausa e acrescentou o que um bom mestre acrescenta quando o discípulo tem razão: "Vai. Com minha bênção."
A viagem a Chang'an foi longa e solitária, mas Jiang Liu havia passado dezoito anos num mosteiro e havia na solidão uma familiaridade que tornava a estrada menos difícil do que para outros. Chegou à capital, encontrou os canais de petição que o sistema imperial havia criado para que cidadãos comuns chegassem à atenção do Imperador em casos de injustiça grave, e esperou na fila daqueles que peticionavam com paciência que havia cultivado.
Quando seu caso foi avaliado e a carta de sangue foi examinada pelos oficiais de investigação — que reconheceram imediatamente a qualidade da escrita, a especificidade dos detalhes, e o tipo de urgência que só a veracidade produz —, as rodas da justiça imperial começaram a girar.
O Imperador Taizong leu o relatório pessoalmente, como tinha o hábito de fazer com casos que apresentavam anomalias. A história da carta de sangue, do barco no rio, do cargo usurpado por décadas — era o tipo de narrativa que ativava nele tanto o senso de justiça quanto a curiosidade intelectual que o tornava um bom administrador.
A investigação foi rápida porque os documentos de Liu Hong não resistiam a exame detalhado — havia discrepâncias nos detalhes biográficos que um impostor de décadas acumula inevitavelmente. O interrogatório foi ainda mais rápido porque Liu Hong, diante das evidências e da amplitude da investigação, confessou com a rapidez de quem calcula que uma confissão voluntária talvez amenize a sentença.
Não amenizou. A execução foi ordenada e conduzida dentro da semana.
Mas havia ainda o caso de Chen Guang Rui, afogado num rio havia vinte anos. Como se procede com um morto há duas décadas?
O Rei Dragão do Rio Wan havia, na época do crime, reconhecido Chen Guang Rui como alguém cujo destino era especial — pai do ser que percorreria a maior jornada espiritual da era — e havia preservado seu corpo no fundo do rio em estado de hibernação mágica, alimentado pelas energias das águas, esperando pela ordem de libertação que sabia que chegaria eventualmente porque o cosmos tem essa qualidade de completar o que começa.
Quando a ordem celestial chegou, o Rei Dragão libertou Chen Guang Rui das águas como quem devolve algo que havia guardado por tempo determinado.
O homem emergiu do rio como alguém que acorda de um sono profundo e confuso — não morto, não simplesmente vivo, mas restaurado, como jade que foi submerso em água pura por vinte anos e emerge mais limpo do que quando entrou.
O reencontro da família Chen foi celebrado em Chang'an com a emoção específica das histórias que terminam de maneira que desafia a expectativa racional mas confirma algo que o coração sempre soube ser possível.
Yin Wenjiao correu para o marido que havia perdido vinte anos antes, e havia em seu abraço vinte anos de manter a compostura em circunstâncias que fariam a maioria das pessoas desmoronar — e agora, com o peso finalmente erguido, a emoção que saiu foi do tipo que não tem forma específica além de si mesma.
O jovem Jiang Liu conheceu seu pai pela primeira vez naquele dia. Foi uma apresentação formal que durou um segundo antes que os dois reconhecessem um ao outro com o tipo de reconhecimento que precede qualquer explicação — a familiaridade que existe entre pessoas que compartilham algo mais fundamental do que memórias comuns.
Chen Guang Rui olhou para o filho — a pele de jade, o rosto de lua cheia, os olhos com aquela profundidade serena que deveria ser impossível em alguém tão jovem — e soube, com a certeza do pai que sabe a natureza do filho antes de conhecer os detalhes, que havia algo além do comum ali.
E o Imperador, satisfeito com a resolução de uma história que havia tocado sua sensibilidade tanto de governante quanto de homem, perguntou ao jovem monge qual nome gostaria de usar. Havia crescido como Jiang Liu — Criança das Correntes de Água. Mas aquele nome havia servido a um tempo específico e uma situação específica.
Havia chegado o tempo de um nome que reconhecesse o que vinha a seguir.
"Tang Sanzang," disse o jovem, escolhendo as palavras com aquela deliberação que seria sua característica ao longo de toda a vida. "Monge da Tang. Aquele que guarda os Três Cestos" — os três conjuntos de escrituras sagradas que havia aprendido a respeitar desde menino no mosteiro e que, embora ainda não soubesse, em breve iria buscar pessoalmente no Ocidente Supremo.
O nome assentou sobre ele com a naturalidade de uma roupa que foi feita para aquele corpo específico.
E assim Tang Sanzang encontrou sua origem e seu nome — preparado por uma vida inteira de cultivo para uma jornada que estava prestes a começar, aguardado por discípulos que ainda não sabia que teria, e esperado por escrituras que nunca seriam buscadas por nenhum outro.
O destino havia feito seu trabalho com a precisão que sempre usa quando tem tempo suficiente para isso.