Capítulo 89: O Demônio Leão Amarelo Rouba as Armas — Wukong Invade a Montanha da Onça
Um demônio leão rouba o Bastão de Ouro, o Forcado e o Cajado enquanto os artesãos dormem. Sun Wukong investiga e descobre que o monstro planeja um banquete para comemorar o roubo, e elabora um plano para recuperar as armas sagradas.
A noite havia passado em paz no condado de Yuhua — ou assim pareceu para quem dormiu dentro das muralhas do palácio dos príncipes, com teto sobre a cabeça e a sensação de que a jornada para o ocidente havia presenteado aquele lugar com algo que duraria além da passagem dos peregrinos. Os três filhos do príncipe haviam adormecido com os seus pensamentos ainda cheios das demonstrações de combate, as mentes jovens e inflamadas com a possibilidade de aprender com os três discípulos mais extraordinários que algum viajante havia trazido àquele condado.
Na manhã seguinte, os ferreiros chegaram ao pátio antes do amanhecer, prontos para continuar o trabalho de replicar as três armas sagradas em miniatura — uma tarefa que haviam tomado como a maior honra técnica de suas vidas. O pátio estava vazio.
Não das pessoas. Das armas.
As bancadas onde o Bastão de Ouro, o Forcado das Nove Dentes e o Cajado de Areia haviam sido colocados para servirem de modelo estavam limpas como se nunca tivessem carregado nada. Os ferreiros procuraram com aquela minúcia de quem receia ter feito algo errado — embaixo das bancadas, atrás das ferramentas, nos cantos do jardim onde a luz da madrugada chegava em ângulos que podiam esconder coisas. Não havia nada.
O mais velho dos filhos do príncipe foi ao pavilhão dos hóspedes antes mesmo que o café da manhã fosse servido, com a expressão de quem carrega uma notícia que não escolheu carregar.
— Mestres, as armas de vocês... não estão mais no pátio. Procuramos em todo lugar.
Zhu Bajie acordou de um salto com a velocidade que só existe quando algo toca no que importa de verdade:
— Meu forcado? Onde está meu forcado?
Sha Wujing foi ao pátio com o passo calmo que era o seu modo de ser independentemente da circunstância, olhou, e voltou com a mesma expressão — o cajado havia sumido como névoa no sol.
Wukong foi à orelha. O bastão estava sempre lá — encolhido ao tamanho de agulha no canal auricular, uma constante que ele havia parado de verificar porque era impossível que não estivesse. Nada. Voltou ao pátio. Varrreu o espaço com os olhos de ouro. Realmente não havia nada — nem rastro de calor residual, nem cheiro de energia espiritual fresca. Quem havia levado as armas tinha habilidade suficiente para cobrir os vestígios.
Zhu Bajie já berrava que os ferreiros tinham roubado — com aquela convicção simples de quem encontra o suspeito mais próximo disponível. Os ferreiros, ajoelhados e em lágrimas genuínas que qualquer observador de experiência reconhecia como verdadeiras, juravam sobre a vida dos filhos que nada haviam visto. Haviam dormido exaustos após o trabalho noturno. Nada haviam ouvido. Nada havia perturbado o sono.
O príncipe veio pessoalmente, pálido como cal:
— É impossível. Este condado tem gerações de ordem e cumprimento da lei. Meu povo não cometeria este crime. Não contra hóspedes como estes.
Wukong olhou para as montanhas ao norte. Havia naquele olhar a leitura específica de quem sabe que os problemas têm origem geográfica, e que os problemas desta parte do mundo costumam originar-se nas montanhas onde não chegavam administradores.
— Seu condado tem alguma montanha com história de criaturas ou espíritos? Algo que o povo menciona mas prefere não detalhar?
O príncipe hesitou — aquela hesitação de quem sabe algo que os governantes aprendem a saber para poder ignorar.
— Ao norte, há uma Montanha da Cabeça de Onça. Com um local que chamam de Caverna da Boca do Tigre. O povo conta coisas diferentes — uns falam de imortais que fizeram retiro lá, outros de tigres que se tornaram inteligentes demais, outros de demônios que não se mostram mas se fazem sentir. Nunca consegui verificar e nunca vi nada que justificasse uma expedição.
— Trinta li ao norte? — disse Wukong.
— Aproximadamente.
— Não precisa verificar mais. Mantenha Bajie e Sha aqui com meu mestre. Vou até lá fazer essa verificação por você.
Num piscar de olhos — literalmente, porque o movimento foi rápido demais para ser mais lento que um piscar — Wukong havia sumido, deixando no ar o leve rastro de deslocamento que é o único sinal visível de quem se move assim.
Aterrisou no topo da Montanha da Cabeça de Onça com a suavidade de folha que escolhe o ramo, trinta li ao norte, onde o ar tinha aquela densidade específica que precede os lugares habitados por coisas cultivadas há muito tempo. Não o ar limpo das montanhas onde nada além da pedra vive. O ar saturado de presença — energia espiritual antiga, gasta de um uso que não era o uso original.
Havia névoa. A névoa tinha cor levemente errada — não o cinzento limpo da névoa de altitude, mas um cinzento com tonalidade que os olhos comuns provavelmente registrariam sem consciência e que os olhos de ouro liam como texto.
Estava observando os caminhos que desciam pelo flanco leste quando ouviu vozes. Dois demônios com cabeças de lobo desciam pelo caminho principal, conversando com a desinibição de quem não espera ser ouvido por ninguém — o tom descontraído e ligeiramente elevado de quem partilha boa notícia:
— O nosso rei está com muita sorte ultimamente — dizia o primeiro, com o entusiasmo de subordinado que aprecia a sorte do superior quando se reflete em algum benefício para si. — No mês passado trouxe uma bela donzela para a caverna. E ontem à noite conseguiu três tesouros de valor inestimável. Amanhã faz um banquete para comemorar. Chamou de Celebração do Forcado das Nove Dentes!
O segundo demônio-lobo riu com aquela qualidade do riso de quem está, objetivamente, animado:
— E a gente ainda vai ter os vinte taéis de prata para comprar carne e vinho. Dá para desviar dois ou três taéis para nós mesmos, comprar um casaco antes do frio chegar. O rei não vai perceber dois taéis a menos num mercado de vinte.
— Nunca percebe — concordou o primeiro. — É a vantagem de trabalhar para um rei que está muito contente.
Wukong se transformou em borboleta — forma pequena, silenciosa, com asas que eram pura ornamento para quem não precisava delas para voar — e pousou no topo da cabeça do primeiro demônio, acomodado entre os pelos da orelha onde o equilíbrio era estável e a visibilidade era zero. Voou junto com os dois pelo caminho, ouvindo.
Ouviu tudo: o nome do rei era o Leão Amarelo da Montanha da Cabeça de Onça. O banquete seria ao meio-dia de amanhã. Os vinte taéis de prata estavam embrulhados num pano azul no bolso do primeiro demônio-lobo. Havia seis outros leões na caverna que eram irmãos do rei em espírito de bando, se não de sangue. E havia algo mais que os dois mencionaram de passagem, como coisa que todos sabiam e que portanto não precisava de elaboração — algo sobre um leão com nove cabeças que havia chegado recentemente e que o rei tratava com respeito diferente do que tratava os irmãos.
Wukong desceu da cabeça do demônio-lobo, voou à frente deles, voltou à forma original, e antes que os dois monstros pudessem reagir ao surgimento repentino, soprou uma gosma mágica de paralisação que os imobilizou — de pé, rígidos como esculturas com a boca aberta para o grito que não saiu.
Buscou nas vestes dos dois e encontrou os vinte taéis de prata embrulhados no pano azul, exatamente como descrito. Encontrou também, penduradas nos cintos como identificação de função, duas tabuletas de madeira entalhada — uma com os caracteres que significavam "Artimanha Estranha" e a outra "Estranheza Artimanhosa." Títulos de cargo que diziam algo sobre o tipo de trabalho que faziam, e algo sobre o tipo de rei que gostava de dar títulos assim aos subordinados.
Tomou o dinheiro, ficou com as tabuletas por curiosidade e utilidade futura, e voltou voando para Yuhua com a informação que precisava transformar em plano antes que o banquete de amanhã começasse.
No salão do príncipe, reuniu todos numa configuração que ele havia aprendido a apreciar ao longo dos anos — Tang Sanzang no lugar de honra com a compostura do professor que já viu muitas situações desta natureza, o príncipe com os três filhos em fileira atrás do pai com aquela mistura de ansiedade e excitação que era o privilégio dos jovens que ainda não sabem distinguir entre os dois, Sha Wujing com a serenidade que não era calma mas escolha contínua, e Bajie com o ar de quem quer resolver tudo na pancada imediata e está guardando essa energia por uma questão de cortesia mínima.
Wukong contou o que havia descoberto com a eficiência de quem descreve missão: demônio leão amarelo na Montanha da Cabeça de Onça, trinta li ao norte. Roubou as três armas durante a noite com habilidade de infiltração espiritual. No dia seguinte haverá banquete de celebração, incluindo homenagem específica ao forcado.
— Banquete do forcado! — Bajie explodiu, e o que saiu na voz era aquela mistura específica de indignação profunda e urgência física de quem está a ponto de sair pela porta independentemente de qualquer plano. — Ele vai fazer uma festa com o meu forcado? Ele vai brindar com o meu forcado? Deixa eu ir lá agora mesmo e buscar pessoalmente o meu forcado!
— Amanhã vamos todos. Mas de forma organizada, não de forma de Bajie.
— Qual é a diferença?
— A diferença é que chegamos de forma organizada e voltamos com as armas. Da forma de Bajie, chegamos com entusiasmo e voltamos sem nada e possivelmente com mais problemas.
Bajie considerou isso com a honestidade de quem sabe que o argumento tem mérito mesmo quando preferiria que não tivesse.
Wukong olhou para os três filhos do príncipe, que vibravam com a energia contida de quem foi convidado a participar de algo real pela primeira vez. Havia algo nos três que era genuíno — coragem de qualidade, a vontade que precede o aprendizado verdadeiro.
— Vocês podem ajudar nisto. Mas fiquem na retaguarda onde eu puder ver vocês. Os demônios desta montanha são mais perigosos do que a conversa dos lobos sugeria.
Na manhã seguinte, os três discípulos saíram da cidade juntos antes que o sol chegasse à altura necessária para dizer que era manhã com convicção. Bajie estava tão agitado que tinha dificuldade em manter o passo regular — avançava, parava, avançava de novo, como animal que conhece a direção e acha que o problema é a velocidade. Sha Wujing caminhava com aquela serenidade que irritava Bajie precisamente porque Sha conseguia o estado que Bajie pretendia ter com menos esforço aparente.
A Montanha da Cabeça de Onça apareceu ao amanhecer como uma sombra densa no azul pálido do céu — mais alta do que os trinta li de distância faziam esperar, com aquele aspecto de lugares que crescem na imaginação e depois confirmam a imaginação quando chegam.
A Caverna da Boca do Tigre tinha dois portões de pedra manchada de musgo e mineral antigo, fechados com aquela firmeza de portas que não esperam ser abertas de fora. Bajie não esperou mais cerimônia — abriu a boca e começou a insultar em voz alta com uma criatividade de vocabulário que era, objetivamente, impressionante.
O demônio leão amarelo saiu como resposta direta — enorme, com crina dourada que tinha a cor específica do metal aquecido antes de ser trabalhado, olhos laranjas como brasas que o vento ainda não tocou. Havia algo no porte da criatura que era de leão genuíno — não apenas a forma mas a qualidade de presença, a maneira como o espaço ao redor parecia reconhecer que havia um predador.
— Monge imundo! — rugiu o leão com aquela voz que havia sido cultivada para ressoar nas pedras. — Você atacou minha morada ontem?
— Ainda não! — respondeu Bajie com entusiasmo que não continha resquício de medo. — Mas vou atacar agora. Devolve meu forcado, sua besta cor de cobertor velho queimado!
A batalha começou com aquela violência alegre que era o estilo de Bajie — nenhuma elegância, nenhum refinamento de técnica, apenas energia e força bruta aplicadas com a convicção de que a quantidade supriria qualquer deficiência de qualidade. O leão era formidável de verdade, combatendo com as garras que rasgavam o ar antes de pousar e com uma lança que tinha o aspecto de metal que conheceu fogo de origem não comum. Durante trinta golpes, os dois se equilibraram numa brutalidade mútua que fazia o chão ao redor tremer com cada impacto.
Então o leão recuou.
— São três contra um. Não é justo. Volto com reforços.
— Covardia! — o insulto de Bajie seguiu as costas do leão como segundo sombra. — Covardia de leão amarelo! Covardia de cobertor!
Mas o demônio havia desaparecido dentro da caverna com a rapidez de quem tem plano.
Os três esperaram. Wukong escalou um penhasco ao lado da entrada para ter ângulo de visão melhor — havia aprendido que os combates que não se veem são os que produzem surpresas piores.
Quando o leão voltou, voltou com seis outros leões que saíam da caverna em formação — um com pelagem azul como o céu antes da tempestade, outro com pelo branco puro, um terceiro vermelho como o pôr do sol de mau tempo, um quarto negro como tinta de bom grau. E atrás de todos, algo que fez Wukong parar no penhasco com uma atenção que era diferente da atenção anterior.
Um leão com nove cabeças.
Wukong estudou aquele ser por um momento com os olhos que liam além da forma física. As nove cabeças eram todas ativas — cada uma com expressão própria, cada uma com energia própria, coordenadas por algo que não era simplesmente biologia mas cultivado e antigo. Havia naquele ser uma origem que não era da terra — uma energia que vinha de longe e de alto, com a qualidade específica das criaturas que desceram do celestial. Este não era demônio que havia crescido numa montanha. Era algo que havia estado em outro lugar antes deste lugar.
— Vamos lutar — disse Wukong, descendo do penhasco com cuidado calculado. — Mas estejam preparados. O leão amarelo era o problema que eu esperava. Aquele de nove cabeças é o problema que eu não esperava.
A batalha que se seguiu foi épica na escala e confusa nos detalhes que dependiam de quem estava onde — oito leões e o ser de nove cabeças contra três discípulos, com os filhos do príncipe na retaguarda fazendo o que podiam. Bajie lutou com toda a ferocidade que possuía e foi admirável por vinte golpes antes de ser atingido por um golpe que era de esponja mágica — não no metal de arma, mas no ar ao redor, que se tornou espesso como coisa sólida e absorveu o impacto de volta ao atirante.
Bajie caiu. Dois leões menores o apanharam pelos pelos e pela cauda e o arrastaram para dentro da caverna enquanto ele berrava insultos que a pedra absorveu sem resposta.
Wukong e Sha Wujing recuaram até distância que permitia pensar.
— Ele tem meu irmão — disse Sha Wujing, e havia na voz aquela calma que era, na verdade, a forma mais controlada de fúria.
— Eu sei — disse Wukong. — E eu sei como resolver isso. Mas vou precisar de ajuda que não está disponível aqui. O leão de nove cabeças tem origem celestial — não pode ser derrotado com os meios que tenho agora.
Voltaram para Yuhua com as mãos vazias. Mas com um problema claramente definido — e um problema claramente definido, Wukong havia aprendido ao longo de muito tempo, era já metade do caminho para a solução.
As armas estavam lá dentro. Bajie também estava lá dentro, o que era desconfortável para todos mas provavelmente mais desconfortável para Bajie. E o leão de nove cabeças tinha uma identidade celestial que Wukong ainda precisava descobrir para encontrar o ponto específico de vulnerabilidade.
Descobrir identidades era o que ele fazia quando tudo mais falhava. E ainda não havia identidade que tivesse resistido suficientemente.