Capítulo 89: O Demônio Leão Amarelo Rouba as Armas — Wukong Invade a Montanha da Onça
Um demônio leão rouba o Bastão de Ouro, o Forcado e o Cajado enquanto os artesãos dormem. Sun Wukong investiga e descobre que o monstro planeja um banquete para comemorar o roubo, e elabora um plano para recuperar as armas sagradas.
Na manhã seguinte, os ferreiros chegaram ao pátio antes do amanhecer, prontos para continuar o trabalho. Mas o pátio estava vazio — não das pessoas, mas das três luzes que haviam iluminado a noite. Os artesãos procuraram em todo lugar, embaixo das bancadas, atrás das ferramentas, nos cantos do jardim.
Os três discípulos dormiram — e suas armas sagradas haviam desaparecido.
O mais velho dos filhos do príncipe foi ao pavilhão dos hóspedes antes mesmo que o café da manhã fosse servido.
— Mestres, as armas de vocês... não estão mais no pátio.
Bajie acordou de um salto.
— Meu forcado? Cadê meu forcado?
Sha Wujing foi ao pátio com passo calmo e voltou com a mesma expressão — o cajado havia sumido.
Wukong foi à orelha. Nada. Voltou ao pátio. Realmente não havia nada.
Bajie já berrava que os ferreiros tinham roubado. Os ferreiros, ajoelhados e em lágrimas, juravam sobre suas cabeças que não haviam visto nada — dormiam exaustos quando as ferramentas desapareceram.
O príncipe veio, pálido como farinha.
— É impossível. Este condado tem gerações de ordem. Meu povo não faria isso.
Wukong olhou para as montanhas ao norte com aquele olhar que reconhece o que os outros não veem.
— Seu condado tem alguma montanha com história de espíritos ou criaturas?
— Ao norte — disse o príncipe, hesitando —, há uma Montanha da Cabeça de Onça, com um local chamado Caverna da Boca do Tigre. O povo diz coisas diferentes — uns falam de imortais, outros de tigres, outros de demônios. Nunca consegui saber ao certo.
— Não precisa saber ao certo — disse Wukong, já em pé. — Mantenha Bajie e Sha aqui com meu mestre. Vou até lá.
Num piscar, sumiu.
Aterrisou no topo da Montanha da Cabeça de Onça trinta li ao norte, onde o ar cheirava diferente — mais denso, com aquela pressão particular que sempre precede os lugares habitados por coisas que não deveriam existir. Havia energia de demônio suspensa na névoa como fumaça de incenso estragado.
Estava observando os caminhos quando ouviu vozes. Dois monstros com cabeças de lobo desciam pelo caminho, conversando animadamente.
— O nosso rei está com muita sorte ultimamente — dizia um. — No mês passado trouxe uma bela donzela para a caverna. E ontem à noite conseguiu três tesouros de inestimável valor. Amanhã faz um banquete para comemorar. Chamou de Celebração do Forcado das Nove Dentes!
O outro ria.
— E a gente ainda vai ter os vinte taéis de prata para comprar carne e vinho. Dá para desviar dois ou três taéis para nós mesmos, comprar um casaco antes do frio chegar...
Wukong se transformou em borboleta e pousou silenciosamente no topo da cabeça do primeiro monstro, voando junto com eles enquanto continuavam a conversa.
Ouviu tudo o que precisava. Então desceu à frente deles, voltou à sua forma original e, antes que os dois monstros pudessem reagir, soprou uma gosma mágica que os imobilizou — de pé, rígidos, as bocas abertas mas mudas.
Buscou nas vestes dos dois e encontrou os vinte taéis de prata embrulhados num pano. Encontrou também duas tabuletas penduradas nos cintos — uma dizia "Artimanha Estranha" e a outra "Estranheza Artimanhosa."
Tomou o dinheiro, ficou com as tabuletas como lembrança, e voltou voando para Yuhua.
No salão do príncipe, reuniu todos — Tang Sanzang sentado no lugar de honra, o príncipe com seus filhos, Bajie com aquele ar de quem quer resolver tudo na pancada.
Wukong contou o que havia descoberto. O demônio leão da Montanha da Cabeça de Onça havia roubado as três armas. No dia seguinte havia um banquete.
— Banquete do forcado! — Bajie explodiu. — Ele vai fazer uma festa com o meu forcado?! Deixa eu ir lá agora mesmo!
— Calma. Amanhã vamos todos. Mas de forma organizada.
Wukong olhou para os filhos do príncipe, que vibravam de entusiasmo.
— Vocês podem ajudar — mas fiquem na retaguarda. Os demônios desta montanha são mais perigosos do que parecem.
Na manhã seguinte, os três discípulos saíram da cidade juntos. Bajie estava tão agitado que tinha dificuldade em não correr. Sha Wujing caminhava com aquela serenidade que irritava Bajie justamente porque Sha precisava de menos esforço para mantê-la.
Chegaram à Montanha da Cabeça de Onça ao amanhecer. A Caverna da Boca do Tigre tinha dois portões de pedra manchada fechados. Diante deles, o demônio leão amarelo — enorme, com crina dourada e olhos laranjas como brasas — saiu quando Bajie começou a insultar em voz alta.
— Monge imundo! — rugiu o leão. — Você atacou minha morada ontem?
— Ainda não! — respondeu Bajie. — Mas vou atacar agora. Devolve meu forcado, sua besta cor de cobertor velho!
A batalha começou com aquela violência alegre que é o estilo de Bajie — nenhuma elegância, apenas energia e força bruta. O leão era formidável, combatendo com as garras e uma lança que parecia ter sido fundida com o fogo de uma estrela. Durante trinta golpes, os dois se equilibraram.
Então o leão recuou.
— Vocês são três contra um. Não é justo. Volto depois com reforços.
— Covardia! — Bajie atirou o insulto para as costas do leão.
Mas o demônio já havia desaparecido dentro da caverna.
Os três esperaram. Wukong escalou um penhasco para ver melhor.
Quando o leão voltou, voltou com companhia. Seis outros leões saíram com ele — cada um diferente, um com pelagem azul, outro branco, outro vermelho como o pôr do sol, um quarto negro como tinta. E atrás de todos, algo que parou o coração de Wukong por um instante.
Um leão com nove cabeças.
Wukong observou aquele ser e reconheceu nele algo que não era da terra — havia nas nove cabeças uma origem celestial, uma energia que vinha de longe e de alto. Este não era um demônio comum que havia crescido numa montanha. Este era algo que havia descido.
— Vamos lutar — disse ele, descendo do penhasco. — Mas estejam preparados. Isso vai ser mais complicado do que parecia.
A batalha que se seguiu foi épica na escala e confusa nos detalhes — oito leões contra três discípulos, um monstro de nove cabeças superintendendo a carnificina com aquela calma aterrorizante que os verdadeiramente poderosos às vezes têm.
Bajie lutou com toda a ferocidade que tinha e foi derrubado por um golpe de esponja.
Os dois leões menores o apanharam pelos pelos e pela cauda e o arrastaram para dentro da caverna enquanto ele berrava insultos que ninguém ouviu.
Wukong e Sha Wujing recuaram.
— Ele tem meu irmão — disse Sha, com uma calma que era, na verdade, furiosa.
— Eu sei — disse Wukong. — E eu sei como resolver isso. Mas vou precisar de ajuda que não temos aqui.
Voltaram para Yuhua com as mãos vazias, mas com um plano que começava a tomar forma. As armas ainda estavam lá dentro. Bajie também. E o leão de nove cabeças tinha uma identidade que Wukong ainda precisava descobrir.
Mas descobrir era o que ele fazia melhor.