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Capítulo 88: No Condado de Yuhua, Discípulos Novos

No Condado de Yuhua, os três filhos do rei local pedem a Sun Wukong, Zhu Bajie e Sha Wujing que os ensinem as artes marciais. Os peregrinos transferem poder divino aos jovens príncipes — mas enquanto as armas ficam expostas, um demônio as rouba na noite.

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Havia algo diferente no ar enquanto a comitiva se afastava do Distrito de Fengxian.

O outono havia chegado de maneira definitiva. As folhas vermelhas caíam em espirais lentas, os campos ao redor tinham a cor amarelo-dourada das colheitas tardias, e o vento que vinha das montanhas tinha o frescor específico que faz as pessoas pensar, pela primeira vez no ano, em casas aquecidas e janelas fechadas.

Zhu Bajie marchava atrás com o ancinho no ombro e uma expressão de satisfação retrospectiva.

— Aquele magistrado deveria nos ter ficado um mês — disse ele. — Comida boa, cama boa, gente grata. Era exatamente o tipo de missão que eu gosto.

— A missão era pedir chuva, não se instalar — disse Sun Wukong.

— As duas coisas não são mutuamente exclusivas. — O Porco fez uma pausa pensativa. — Lembra que no Condado de Bhiksha aquele rei nos queria dar ouro suficiente para comprar um palácio? E você disse não, vamos embora, o caminho não espera. E antes disso, no País das Mulheres, a rainha estava disposta a —

— Estamos quase na Índia — disse Sun Wukong. — O Mestre precisa chegar antes de morrer de velhice.

Tang Sanzang, que havia ouvido tudo isso do alto do cavalo branco com a expressão de quem ensaiou paciência por anos e ainda sente o esforço, disse simplesmente:

Zhu Bajie, olhe para frente.

O Porco olhou para frente. Havia uma cidade no horizonte.


O Condado de Yuhua ficava numa região próspera, com ruas limpas e um mercado que tinha o barulho específico de um lugar onde as pessoas têm dinheiro suficiente para discutir sobre o preço das coisas em vez de simplesmente pagar o que pedirem. A comitiva entrou pela porta principal e imediatamente atraiu uma procissão de curiosos.

Zhu Bajie tentou ajudar empurrando a multidão com o focinho.

O resultado foi imediato e espetacular.

— Silêncio — disse Sun Wukong para Zhu Bajie.

O Porco fechou a boca. A procissão de pessoas tropeçando umas nas outras continuou por mais um momento e depois se reorganizou em filas que acompanhavam a comitiva a distância segura, murmurando animadamente.

Aqui só vimos monges que domam dragões e tigres, dizia alguém perto de Sun Wukong. — Nunca vimos monges que domam porcos e macacos.

Sun Wukong riu baixinho para si mesmo.

O Palácio de Yuhua ficava no centro da cidade, e o rei local — um príncipe da família imperial da Índia, delegado para governar este condado fronteiriço — era exatamente o tipo de soberano que o velho na floresta havia prometido: um homem que respeitava os monges, tratava o povo com cuidado, e tinha a expressão geral de alguém que leva a sério o fato de ser responsável pela vida de outras pessoas.

Tang Sanzang apresentou os documentos de viagem. O rei carimbou, assinou, devolveu com interesse genuíno pelas histórias do caminho. Pediu que os três discípulos jantassem com o grupo.

Os três discípulos chegaram.

O rei ficou com a cor que as pessoas ficam quando algo que esperavam que fosse difícil se revela mais difícil do que esperado.

— São realmente... — começou ele.

— Parecem o que parecem — confirmou Tang Sanzang — e são melhores do que parecem.

Zhu Bajie, que havia localizado o jantar com precisão sobrenatural, já estava sentado diante das tigelas com a postura de quem não perdeu tempo.

— Excelência — disse o Porco entre colheradas —, a comida está excelente.

O rei olhou para as três figuras ao redor da mesa do banquete — o macaco, o porco, a figura cinzenta e séria de Sha Wujing — com a expressão de alguém recalibrando sua compreensão do que os monges ocidentais podiam ser — e então foi buscar seus filhos.


Os três príncipes eram jovens, de dez a quinze anos, e tinham em comum o entusiasmo excessivo de crianças criadas para nunca ser contrariadas. Eles entraram na varanda onde a comitiva havia terminado o jantar com armas em mãos — um bastão, um ancinho de brinquedo, uma vara — e com a energia de quem estava esperando uma oportunidade de demonstrar algo.

— Vocês são os monges do Leste? — perguntou o mais velho.

— Somos — disse Tang Sanzang.

— São humanos ou são monstros?

— Somos humanos — disse Sha Wujing antes que Zhu Bajie pudesse responder algo contraproducente.

O segundo príncipe levantou o ancinho de brinquedo e o apontou para Zhu Bajie.

— Eu tenho um igualzinho ao seu.

Zhu Bajie olhou para o ancinho de brinquedo e depois para o seu próprio, que pesava cinco mil e quarenta e oito catties e tinha dentes que haviam partido rochas sólidas.

— O seu parece mais fácil de carregar — disse o Porco com diplomacia inesperada.

Sun Wukong sacou o Bastão de Ouro da orelha — para três crianças que não tinham visto esse truque antes, o efeito foi imediato e satisfatório — e empurrou-o verticalmente no chão. O bastão afundou três pés na pedra como se fosse areia e ficou parado, reto e imenso como uma coluna.

— Tente pegar — disse Sun Wukong para o príncipe mais velho.

O menino tentou. Tentou com as duas mãos. Tentou encarapitando no bastão e usando o peso do próprio corpo. O bastão não se moveu.

— Como você carrega isso? — perguntou o príncipe, ofegante.

— Depois de treinar mil anos, você também vai conseguir.

O príncipe mais velho olhou para Sun Wukong por um longo momento, depois se virou para o pai:

— Pai, eu quero aprender com eles.


O que se seguiu foi uma negociação que Tang Sanzang facilitou com a eficiência de alguém que passou anos resolvendo conversas difíceis. O rei pediu formalmente que os três discípulos ensinassem artes marciais a seus filhos. Sun Wukong disse que ensinaria de bom grado, mas havia uma condição: as crianças precisavam de mais força antes de poder empunhar as armas.

Isso foi resolvido com um ritual no jardim dos fundos.

Os três príncipes foram colocados dentro de um círculo traçado no chão, de joelhos, olhos fechados. Sun Wukong, Zhu Bajie e Sha Wujing ficaram ao redor deles e falaram palavras que não eram exatamente orações e não eram exatamente encantamentos — eram algo entre os dois, com a qualidade de sons que chegam ao corpo antes de chegar à mente.

Quando os príncipes abriram os olhos, cada um deles se levantou com a expressão de alguém que acordou num corpo ligeiramente diferente do que tinha adormecido.

O príncipe mais velho pegou o Bastão de Ouro do chão.

Ele o ergueu com um esforço que ainda era considerável mas agora era possível, e segurou-o acima da cabeça como se estivesse verificando o peso, com a expressão de descoberta que as crianças têm quando percebem pela primeira vez que algo que era impossível agora não é.

O rei, que havia observado tudo disso de pé numa varanda, desceu os degraus com a pressa de alguém que acabou de mudar de ideia sobre o que acredita ser possível.

O banquete que se seguiu durou até tarde.


Durante dois dias, os príncipes aprenderam. Não aprenderiam em dois dias o que havia custado décadas aos mestres — mas aprenderam o suficiente para executar formas básicas com as armas pesadas que Sun Wukong havia ajudado a tornar carregáveis. O bastão, o ancinho, o cajado lunar respondiam a eles com uma graciosidade que não era completamente habilidade adquirida mas também era algo diferente de simples sorte.

No terceiro dia, os príncipes pediram que os ferreiros do condado fizessem réplicas das armas dos mestres.

— Em tamanho reduzido — especificaram cuidadosamente.

— Com menos peso também — acrescentou o segundo príncipe, com a memória clara de ter tentado erguer o ancinho real na sua versão original.

Ferros foram comprados. Fornalhas foram montadas no pátio dianteiro. Os ferreiros começaram o trabalho.

E as armas originais — o Bastão de Ouro, o Ancinho de Nove Dentes, o Cajado Lunar — foram colocadas no pátio enquanto os artesãos estudavam suas proporções e curvas.


A seis horas da cidade, numa montanha chamada Montanha da Cabeça do Leopardo e numa caverna chamada Caverna da Boca do Tigre, havia um demônio antigo que havia passado séculos desenvolvendo um sentido aguçado para o que era valioso.

Naquela noite, acordou com uma luz.

Não a luz da lua, que conhecia bem. Era uma luz que subia do sul, do centro da cidade, com a qualidade específica de coisas que acumularam poder ao longo de tanto tempo que o poder extravasava delas como água de um vaso cheio.

O demônio levantou-se, subiu nas nuvens, e voou até a fonte da luz.

O que encontrou no pátio do palácio de Yuhua eram três objetos que não tinham nome adequado em nenhuma língua humana — armas que haviam estado no mar, no Céu, nas guerras que precederam a criação do mundo, nas mãos de seres que não eram humanos e nunca haviam sido. A luz que emanavam não era brilho comum: era o tipo de luminosidade que os objetos desenvolvem quando têm história suficiente.

O demônio olhou para as três armas.

— São minhas — disse ele para ninguém.

Reuniu-as numa única lufada de vento escuro e voou de volta para a montanha antes que qualquer guarda do palácio pudesse perceber o que havia acontecido.

De manhã, os ferreiros chegaram ao pátio para continuar o trabalho e encontraram o espaço onde as armas haviam estado completamente vazio.

Os três príncipes, que haviam chegado cedo para mais uma sessão de prática, pararam diante do espaço vazio com a expressão que crianças têm quando percebem que algo muito ruim aconteceu e que a culpa é indiretamente delas.

O mais velho foi buscar Sun Wukong.

Sun Wukong chegou ao pátio, olhou para o espaço vazio onde suas armas deveriam estar, ficou em silêncio por um momento, e então disse simplesmente:

— Ah.

Havia algo naquele ah que fez o príncipe mais velho recuar um passo.

— Nós deixamos o pátio sem guarda — disse o menino, com a voz de quem está se preparando para receber uma reprimenda significativa.

— Isso acontece — disse Sun Wukong. O que não era uma absolvição, mas também não era a catástrofe que o príncipe havia antecipado. — Vamos encontrá-las.

E subiu para o céu para verificar a direção de onde havia chegado a perturbação.