Capítulo 87: A Seca de Fengxian e a Bondade que Traz a Chuva
A comitiva chega ao Distrito de Fengxian, onde três anos de seca castigam o povo. Sun Wukong descobre que o magistrado ofendeu o Céu e convence-o a se reformar — e com a bondade que segue, a chuva finalmente chega.
O Distrito de Fengxian ficava em território fronteiriço da Índia, e quando a comitiva chegou às suas portas no começo da tarde, a primeira coisa que notaram foi o silêncio.
Não o silêncio tranquilo de uma cidade em paz. Era o silêncio de um lugar que havia esquecido como era o som da chuva.
As ruas eram largas mas vazias, e onde havia gente, havia pessoas com a expressão específica de quem carrega um peso que começou há tanto tempo que já não sentem mais o peso — sentem apenas o cansaço. Tang Sanzang desceu do cavalo e foi a pé, olhando para o lado, notando os campos secos visíveis além dos telhados, o solo rachado em padrões que pareciam cicatrizes.
Zhu Bajie, que tinha a sensibilidade política de uma pedra mas era bom observador de coisas concretas, apontou para um grupo de funcionários parados debaixo de uma varanda.
— Há um aviso ali.
Os funcionários, ao ver a comitiva aproximar-se, recuaram instintivamente — especialmente ao ver Zhu Bajie. Um deles gritou "demônios!" antes de ter tempo de pensar.
Tang Sanzang colocou as mãos na frente e falou com a voz que usava especificamente para situações desse tipo — calma, clara, sem urgência, com o tom de alguém que nunca na vida teve uma intenção violenta.
— Somos peregrinos do Leste. Viajamos para o oeste em busca das escrituras sagradas. Passamos por aqui e não pretendemos causar qualquer perturbação.
O funcionário mais corajoso saiu de trás de seus colegas e fez uma reverência.
— Perdão, veneráveis. Este é o Distrito de Fengxian, na fronteira da grande nação Índia. Há três anos sem chuva. O magistrado publicou este aviso buscando mestres que possam interceder pelos céus.
Sun Wukong já estava lendo o aviso.
O texto era longo e específico na sua tristeza: campos sem colheita, poços secos, rios transformados em linhas de areia, crianças vendidas por três medidas de arroz, homens que preferiam ser ladrões a morrer de fome. O magistrado — sobrenome Shangguan, o que fez Sun Wukong sorrir levemente — prometia recompensa generosa para qualquer pessoa com habilidade de rezar pela chuva.
— Invocar a chuva — disse Sun Wukong, com a expressão de quem acabou de ver algo desnecessariamente complicado sendo tratado como um problema insolúvel. — Isso é trabalho de um dia de manhã.
O magistrado Shangguan veio pessoalmente ao mercado, sem séquito, sem cadeirinha de mão — apenas um homem de meia-idade em roupas oficiais com a expressão de alguém que passou três anos dormindo mal. Ao ver Tang Sanzang, ele prostrou-se na rua sem cerimônia.
— Mestre — disse ele —, já pedi a todos os monges, a todos os taoistas, a todos os xamãs da região. O Céu não responde. Se você pode ajudar, qualquer ajuda, qualquer coisa —
Tang Sanzang ergueu-o com cuidado.
— Vamos até um local adequado para conversar.
No escritório do magistrado, depois de chá e uma refeição vegetariana que Zhu Bajie consumiu em quantidade que intimidou toda a cozinha, Sun Wukong perguntou sobre a duração da seca. O magistrado recitou três anos de desgraça crescente com o cansaço de quem contou a mesma história tantas vezes que as palavras perderam o peso.
— Deixe-me verificar a situação — disse Sun Wukong.
— Como você vai verificar? — perguntou Tang Sanzang.
— Com o Dragão do Mar Oriental.
Sun Wukong pronunciou o mantra e a nuvem chegou do leste — uma formação escura e veloz que se desfez sobre o pátio do magistrado para revelar o Rei Dragão Ao Guang em forma humana, curvando-se com a cortesia cautelosa de alguém que foi invocado por uma entidade que não tem obrigação de ser educada com ele.
— Grande Sábio — disse o Dragão —, o que você precisa?
— Este distrito está há três anos sem chuva — disse Sun Wukong. — Por que você não veio?
— Porque não recebi ordens do Céu — disse o Dragão com firmeza de quem sabe que essa resposta é suficiente. — Posso fazer chover o que o Céu autorizar. Sem decreto imperial, não posso me mover.
— Então vá de volta e organize suas tropas — disse Sun Wukong. — Eu consigo o decreto.
O Dragão se foi numa nuvem. Sun Wukong subiu numa nuvem diferente.
O que ele encontrou no Céu foi mais complicado do que esperava.
O Rei Celestial Guardião da Nação, que o recebeu nos portões externos, tinha a expressão de quem sabe de algo que vai ser difícil de explicar.
— Grande Sábio — disse ele —, aquele distrito provavelmente não deveria receber chuva ainda.
— Por quê?
— Ouvi dizer que o magistrado ofendeu o Imperador de Jade há três anos.
Sun Wukong insistiu em ver o Imperador. Os Quatro Grandes Mestres Celestes o levaram ao Salão Celestial com a relutância de pessoas conduzindo algo que poderia explodir a qualquer momento para uma audiência que preferiam não ter facilitado. O Imperador de Jade ouviu o pedido e disse:
— Leve este macaco ao Salão Perfumado e mostre-lhe as três coisas.
No Salão Perfumado havia duas montanhas.
Uma era de arroz branco — cerca de três andares de altura, um cone perfeito de grãos. A outra era de farinha — maior ainda, talvez cinco andares. Ao lado da montanha de arroz havia uma galinha do tamanho de um punho fechado, bicando os grãos um por um com paciência sobre-humana. Ao lado da montanha de farinha havia um cão peludo dourado lambendo a farinha com uma língua cor-de-rosa com a mesma paciência infinita.
No centro, numa armação de ferro, pendurava uma corrente dourada grossa como um dedo. Abaixo da corrente havia uma chama de lamparina, pequena e constante, lambendo o metal de baixo para cima.
Sun Wukong ficou olhando para as duas montanhas, para a galinha que bicava, para o cão que lambia, para a chama que subia.
— O que é isso? — disse ele.
— O Imperador de Jade estabeleceu estas três coisas como condição — disse o Mestre Celestial que o acompanhava. — Quando a galinha terminar o arroz, quando o cão terminar a farinha, e quando a chama derreter a corrente — só então o Céu enviará chuva ao distrito.
Havia algo nessa imagem que entrava nos olhos de Sun Wukong e não saía. A galinha bicava. Uma montanha de arroz do tamanho de uma casa. O cão lambia. Uma montanha de farinha do tamanho de um edifício.
Ele voltou para fora sem pedir o decreto.
O Mestre Celestial Ge o acompanhou até os portões e disse, em voz baixa:
— Não fique desanimado. Essas coisas se resolvem com bondade. Um único pensamento genuinamente bom, se suficientemente sincero, pode derreter montanhas que levariam séculos de trabalho a terminar. Vá convencer o magistrado a mudar. Se ele mudar de verdade, o Céu vai notar.
Sun Wukong desceu com essa informação e a entregou ao magistrado com a diretividade de quem não tem tempo para circunvoluções.
— Você derrubou sua oferta ao Céu numa discussão com sua esposa, há três anos, numa data específica. Jogou a comida para os cachorros e disse palavras que não devo repetir. O Imperador de Jade estava fazendo sua ronda anual no dia exato que isso aconteceu. Ele viu.
O magistrado ficou tão pálido que pareceu transparente.
— Eu... não sabia que esse dia era —
— Não importa. O que importa é que o Céu está esperando para ver se você mudou. A condição não é que a galinha termine o arroz. A condição é que as pessoas boas prevaleçam sobre as más. Um único coração reformado pode derreter uma montanha. — Sun Wukong fez uma pausa. — Mas tem que ser real.
O magistrado ficou ajoelhado por um longo tempo. Depois se levantou e foi trabalhar.
O que aconteceu nos dias seguintes em Fengxian foi algo que Sun Wukong, em toda a sua experiência considerável com seres humanos em situação de crise, raramente havia testemunhado com essa intensidade.
O magistrado foi de porta em porta. Pessoalmente, sem intermediários, ele visitou as ruas que haviam sido varridas de comércio e vida pela seca, e em cada casa repetia a mesma mensagem: não sobre chuva, mas sobre bondade. Sobre o que as pessoas podiam fazer umas pelas outras com o que havia. Sobre como tratar os vizinhos mais pobres. Sobre como honrar os compromissos mesmo quando é difícil.
Zhu Bajie, que havia acompanhado Sun Wukong por décadas de viagem e tinha opiniões bem formadas sobre quando os humanos eram honestos e quando estavam apenas encenando, ficou observando o magistrado durante um dia inteiro e depois disse, com mais seriedade do que o habitual:
— Ele acredita no que está dizendo.
— Sim — concordou Sun Wukong.
— O que acontece quando as pessoas realmente acreditam?
— Aguenta que você vai ver.
Em três dias, toda a cidade havia mudado. Não dramaticamente — não havia milagres visíveis, não havia aparições ou sinais no céu. Mas o som das ruas era diferente. As pessoas paravam para se ajudar. As lojas que haviam fechado reabriam para compartilhar o que tinham. Os menores gestos de consideração foram se multiplicando por osmose, como a bondade costuma fazer quando encontra um ambiente receptivo.
No quarto dia, Sun Wukong subiu novamente.
Dessa vez, nos portões, o mensageiro de serviço veio ao encontro dele carregando documentos.
— Grande Sábio — disse o mensageiro —, a petição do povo de Fengxian chegou ao trono. Estou levando ao Salão Principal.
— Eu vou junto — disse Sun Wukong.
No Salão Perfumado, as montanhas de arroz e farinha haviam desaparecido. A corrente dourada estava quebrada em dois pedaços. A lamparina continuava acesa, mas já não havia nada para derreter.
O Imperador de Jade recebeu a petição, leu-a, e disse:
— Decretem chuva para Fengxian. Três pés e quarenta e dois pontos.
Sun Wukong não voltou pelo caminho normal. Parou no Palácio do Deus dos Trovões — a Casa dos Nove Céus — e pediu emprestados quatro generais do Departamento dos Trovões: Deng, Xin, Zhang e Tao, mais a Dama do Relâmpago. Todos eles desceram com ele sobre Fengxian numa nuvem que cobriu o céu inteiro da cidade.
Os trovões chegaram primeiro — o som que a cidade não ouvia havia três anos — e as pessoas caíram de joelhos antes mesmo da primeira gota cair. Seguravam fogueiras de incenso, ramos de salgueiro, qualquer coisa que pudessem oferecer. Suas vozes subiam em uníssono que não era coordenado mas era sincronizado da maneira que a sinceridade sempre é.
Então a chuva caiu.
Caiu como se tivesse estado esperando. Caiu nos campos rachados e nas calhas vazias e nos poços secos e nas fissuras do solo onde as sementes haviam estado dormindo. Caiu por horas com uma intensidade que não era destrutiva mas era profunda — o tipo de chuva que não arrasta mas penetra, que vai fundo antes de escoar.
Sun Wukong ficou no ar, no meio da tempestade, coordenando os quatro generais e a Dama do Relâmpago com o prazer descomplicado de alguém fazendo algo que sabe fazer bem. Quando a medida determinada havia sido atingida — três pés e quarenta e dois pontos exatos — ele gesticulou para os generais pararem.
Depois desceu e pediu ao magistrado que reunisse a população.
— Antes que os deuses voltem para casa — disse Sun Wukong —, você e seu povo devem vê-los com os próprios olhos. Senão nunca vão realmente acreditar.
As nuvens se abriram. Nos quatro quadrantes do céu acima de Fengxian, os deuses dos trovões, dos relâmpagos, das nuvens e dos ventos mostraram suas formas reais — enormes, luminosos, completamente diferentes de qualquer imagem que houvesse em qualquer templo. A população ficou de joelhos como um campo de trigo diante do vento.
Sun Wukong ergueu a voz para o céu:
— Muito obrigado, meus amigos. Voltem para casa. E se puderem — cinco dias de vento, dez dias de chuva, de agora em diante. Este povo vai honrar vocês.
Os deuses partiram. O céu ficou azul.
O magistrado insistiu em construir um templo. Em dois dias — com trabalhadores noite e dia, o magistrado supervisionando pessoalmente — havia um prédio novo com quatro salas: uma para a imagem de Tang Sanzang, uma para Sun Wukong, uma para Zhu Bajie, uma para Sha Wujing. As estátuas eram improvisadas mas feitas com afeto genuíno.
Tang Sanzang visitou o templo com a expressão de alguém que não está completamente certo de como se sentir sobre ter uma estátua de si mesmo.
— Podemos chamá-lo de Templo da Chuva Benevolente — disse ele por fim.
O magistrado aprovou imediatamente.
Tentaram ficar mais uma semana. Depois mais alguns dias. O magistrado sempre encontrava razões — mais uma refeição, mais uma cerimônia, mais uma despedida. A cidade havia ganho a textura específica de um lugar que voltou a existir depois de ter estado adormecido, e as pessoas queriam que os peregrinos vissem isso, queriam que eles vissem a diferença que sua passagem havia feito.
Na manhã da partida final, a procissão os acompanhou por trinta li. Os últimos a ficar parados no caminho olhando para a nuvem de poeira que a comitiva levantava eram três funcionários idosos que não conseguiam mais caminhar rápido o suficiente para acompanhar.
Tang Sanzang olhou para trás uma única vez.
— É isso que um único pensamento bom pode fazer — disse ele para Sun Wukong.
— Um único pensamento bom num coração que realmente mudou — corrigiu Sun Wukong. — A diferença importa.
— Você é teólogo agora?
— Sou prático. — Sun Wukong virou-se para a frente. — A Índia está a menos de mil li. Não precisamos de mais distrações.
Tang Sanzang sorriu, uma expressão que não chegou a ser alegre mas estava próxima.
O caminho continuou. O céu acima de Fengxian era azul por trás deles, e em algum lugar adiante, mais uma encosta, mais uma fronteira, a Terra do Buda esperava com as escrituras que mudaram a direção de uma vida inteira — de quatro vidas inteiras — dezessete anos atrás.