Capítulo 86: A Caverna da Névoa Oculta
Sun Wukong descobre que Tang Sanzang ainda está vivo dentro da caverna, adormece todos os demônios com besouros do sono, e resgata o mestre e um lenhador — queimando a caverna até o chão.
A estrada estava vazia onde Tang Sanzang havia estado.
Sun Wukong ficou parado diante do cavalo branco — o animal estava sozinho no meio do caminho, as rédeas soltas, as alforjas intactas. Era uma ausência que pesava mais do que uma presença.
Zhu Bajie chegou primeiro, ainda respirando com dificuldade da batalha nas encostas.
— Onde está o Mestre? — perguntou, olhando em volta com crescente desconcerto.
— Não sei — disse Sun Wukong, com uma voz que era lisa demais para ser natural.
— Você estava aqui. Como não sabe?
— Eu estava lutando meu próprio clone de demônio — disse Sun Wukong. — O mesmo que você estava lutando. O mesmo que Sha Wujing estava lutando. — Ele parou. — Foi um plano. Distribuíram-nos pelos três pontos da encosta ao mesmo tempo e foram buscar o Mestre quando nenhum de nós estava aqui para defendê-lo.
O silêncio que se seguiu tinha a qualidade específica de três pessoas percebendo simultaneamente que foram enganadas com elegância.
— Então ele está na caverna — disse Sha Wujing, que havia chegado durante a explicação.
— Provavelmente.
— Vamos encontrar a caverna.
A Caverna da Montanha da Névoa Oculta ficava encravada numa parede de rocha a vinte li pela encosta, escondida entre pinheiros centenários e um riacho que corria sobre pedras escurecidas. A porta era de pedra sólida, com oito caracteres gravados na pedra acima: Montanha da Névoa Oculta, Caverna dos Picos Conectados.
Zhu Bajie, sem esperar convite, levantou o ancinho e desceu um golpe na porta com toda a força acumulada de uma batalha recente mais o combustível da frustração.
A pedra cedeu com um estrondo que ecoou pela encosta.
Do buraco aberto saiu a voz trêmula de um demônio sentinela:
— Grande Rei! Alguém quebrou a porta!
Da caverna respondeu uma voz mais profunda:
— Quem?
Um demônio menor esticou o pescoço pelo buraco, olhou para a cara comprida e as orelhas enormes de Zhu Bajie, e voltou:
— É o Porco. Não é problema. Mas se vier o macaco de cara de trovão —
— O macaco de cara de trovão está aqui — disse Sun Wukong.
O silêncio do lado de dentro durou exatamente o tempo suficiente para um demônio ficar pálido.
O que se seguiu, porém, não foi o ataque esperado. Em vez disso, um demônio sentinela emergiu carregando uma bandeja de laca preta, sobre a qual havia algo que Sun Wukong reconheceu imediatamente como não sendo o que estava sendo apresentado.
— Grande Sábio Igual ao Céu — disse o demônio com deferência excessiva —, o Grande Rei está lamentando muito o ocorrido. O monge Tang foi devorado pelos demônios menores assim que chegou. Lamentavelmente, só restou isto. — Ele inclinou a bandeja, revelando uma cabeça humana coberta de sangue.
Zhu Bajie deixou escapar um som que estava entre o soluço e o grito, e então começou a chorar sem preâmbulo.
Sun Wukong pegou a cabeça e jogou-a contra uma pedra.
O som que produziu era o som de madeira, não de osso.
— É uma raiz de salgueiro pintada de sangue — disse Sun Wukong com a voz plana de quem confirmou uma suspeita.
— Uma cabeça tem som diferente de madeira? — perguntou Sha Wujing.
— Uma cabeça real não soa como um tambor.
Zhu Bajie parou de chorar, olhou para a raiz de salgueiro agora despedaçada no chão, e então ficou visivelmente irritado.
— Uma raiz de salgueiro — repetiu, com ênfase crescente. — Fizeram-me chorar por uma raiz de salgueiro.
Voltou-se para a caverna e gritou com volume considerável. A segunda cabeça que os demônios enviaram era real — retirada de algum armazém macabro no interior da caverna. Dessa vez Zhu Bajie a reconheceu antes de tentar enterrá-la.
— Esta não é o Mestre — disse ele.
— Não — concordou Sun Wukong.
— Então o Mestre ainda está lá dentro.
— Sim.
Os demônios tinham bloqueado a porta principal com pedras e terra. Zhu Bajie tentou por um tempo e depois desistiu — era sólido demais. Sun Wukong deixou os outros dois lamentando sobre a falsa tumba que Zhu Bajie havia improvisado para a cabeça do estranho, e foi sozinho contornar a montanha.
Havia um riacho nos fundos. E onde havia um riacho que saía de uma caverna, havia uma saída de drenagem.
Sun Wukong transformou-se em rato d'água e entrou pelo cano com a facilidade de água descendo uma calha. Do lado de dentro, voltou a si mesmo e ficou parado no corredor escuro da caverna, ouvindo.
Do jardim dos fundos, muito fraco mas inconfundível, vinha o som de alguém rezando baixinho — ou talvez apenas sufocando de medo na escuridão.
Ele se transformou em formiga alada e voou pelo interior da caverna, mapeando os seus contornos. No salão central, o demônio grande estava sentado com a expressão de quem acabou de se safar de algo difícil e está pensando no que vem a seguir. Em volta dele, os demônios menores discutiam animadamente sobre a melhor maneira de preparar um monge — cozido, frito, no vapor, salgado para conservar.
Sun Wukong ouviu a conversa com cuidado crescente até ter certeza do que precisava saber: Tang Sanzang estava nos fundos, amarrado a uma árvore, intacto.
Então voou de volta ao salão central e pousou numa viga do teto.
Arrancou um punhado de pelos do braço, mastigou-os, soprou — e dezenas de minúsculos besouros dourados caíram como uma chuva silenciosa sobre os demônios reunidos abaixo. Os besouros encontraram narinas, ouvidos, encontraram o caminho para a corrente sanguínea com a eficiência de agentes adormecedores muito bem treinados.
Um por um, os demônios pequenos começaram a piscar mais devagar. A conversa sobre métodos de culinária diminuiu. Alguém bocejou. Alguém topou contra um colega. Em menos de dois minutos, o salão central estava cheio de demônios dormindo em poses variadas de descuido.
O demônio grande resistiu mais — ele esfregava o rosto, espirrava, sacudia a cabeça. Sun Wukong arrancou mais dois pelos, soprou, e os dois besouros restantes foram diretamente pela narina esquerda e direita. O demônio grande ficou de pé por mais alguns segundos com a expressão de alguém lutando contra algo que não tem nome, então sentou-se devagar e dormiu.
Sun Wukong voltou ao seu tamanho, tirou o Bastão de Ouro da orelha, bateu na porta lateral com um único golpe preciso, e entrou no jardim.
Tang Sanzang estava amarrado a uma árvore com cordas que haviam marcado seus pulsos. Numa árvore do lado oposto havia um jovem lenhador com a expressão de quem passou três dias rezando por um milagre.
— Discípulo — disse Tang Sanzang, com uma voz que tentava não ser completamente aliviada e falhava. — Você veio.
— Vim — disse Sun Wukong. — Vou matar o demônio primeiro, depois o solto.
— Não — disse Tang Sanzang rapidamente. — Me solte primeiro e depois mate o demônio. A ordem importa.
Sun Wukong ficou parado por um segundo processando a lógica disso, depois começou a trabalhar nos nós.
— O lenhador também — acrescentou Tang Sanzang.
— Ele está bem?
— Ele tem uma mãe idosa esperando em casa. Isso é suficiente.
O lenhador foi solto. Os três saíram pelo portão dos fundos antes que os demônios acordassem. Na encosta do outro lado do riacho, Sun Wukong apontou para o local onde Zhu Bajie e Sha Wujing estavam e disse:
— Chame-os. Eu volto.
Tang Sanzang levantou a voz — Oito Proibições! Oito Proibições! — e o eco percorreu a encosta.
Do ponto da falsa tumba veio primeiro um som de confusão, depois o barulho de corrida, e então Zhu Bajie apareceu pela crista da pedra com uma expressão que ia da incredulidade ao alívio mais puro que Sun Wukong havia visto nele em meses.
— Mestre! — gritou o Porco, e se lançou num abraço que quase derrubou Tang Sanzang do lugar onde estava sentado.
Sha Wujing chegou um segundo depois, mais composto mas com os olhos claramente vermelhos.
Enquanto o reencontro acontecia, Sun Wukong voltou para a caverna.
O demônio grande estava acordando. Sun Wukong o amarrou com as próprias cordas que haviam prendido Tang Sanzang, carregou-o pelo pescoço até a encosta fora da caverna, e o deixou cair aos pés de Zhu Bajie.
Antes que alguém pudesse dizer algo, voltou uma terceira vez.
O lenhador havia mostrado onde a floresta ao redor tinha madeira seca — bambu quebrado, pinheiros ocos, galhos caídos. Em vinte minutos havia um fardo considerável empilhado na entrada dos fundos da caverna. Sun Wukong ateou fogo.
Zhu Bajie, que de alguma forma sempre sabia quando sua contribuição era necessária, inclinou-se e soprou com suas orelhas enormes como dois foles naturais. O fogo entrou pela caverna como uma decisão.
Quando os demônios menores acordaram do sono forçado, encontraram fumaça por todos os lados. Não sobrou nenhum.
Sun Wukong voltou ao grupo, onde Zhu Bajie havia acabado de descarregar sua raiva de uma hora sobre a tumba improvisada — demolindo-a com o ancinho com entusiasmo que Tang Sanzang considerou excessivo mas compreendeu.
— Era uma cabeça de alguém — disse o monge.
— De alguém que me fez chorar — disse Zhu Bajie.
— Enterre-a de volta.
O Porco obedeceu, resmungando.
A casa do lenhador ficava a uma hora a sudoeste — uma cabana de bambu e palha numa encosta esquecida, com um jardim pequeno e uma velha de oitenta e tantos anos sentada à porta chorando com a clareza específica de quem já passou dos prantos de esperança para os prantos de resignação.
Quando viu o filho emergir do caminho com um grupo de monges, ela ficou em silêncio por um momento longo e depois disse, muito simplesmente:
— Você está vivo.
— Estou, mãe.
Ela não disse mais nada. Levantou-se devagar, entrou em casa, e começou a cozinhar.
A refeição que saiu era vegetariana por necessidade mas generosa por intenção — ervas silvestres colhidas da encosta, raízes cozidas, brotos de bambu, várias coisas que Zhu Bajie não sabia o nome mas comeu com entusiasmo ininterrupto. Tang Sanzang comeu devagar, com o apetite de quem passou muitas horas amarrado a uma árvore pensando que talvez nunca comesse novamente.
O demônio grande foi executado por Zhu Bajie fora da cabana antes do jantar. Revelou-se um leopardo com pelo manchado — grande, antigo, muito mais velho do que aparentava. Sun Wukong olhou para ele por um momento e disse apenas:
— Leopardos devoram tigres quando podem. Era inevitável que um dia tentasse devorar um monge.
Quando se levantaram para partir, o lenhador os acompanhou até a estrada principal. A velha os seguiu até a porta, apoiada no braço do filho, e inclinou-se três vezes com a solenidade de quem tem oitenta anos de gratidão acumulada para distribuir de uma vez.
— Boa viagem, monge — disse ela para Tang Sanzang. — O oeste não está longe agora.
Tang Sanzang virou-se para o leste e depois para o oeste, como se estivesse verificando a direção, e então subiu no cavalo branco com o cansaço sereno de quem aprendeu que cada trecho do caminho tem o seu preço e que é inútil negociar com o valor.
Havia menos de mil li para a Índia, dizia-se. Uma distância que havia parecido impossível numa manhã de verão e agora parecia apenas extensa.
Sun Wukong caminhou na frente, a sombra longa da tarde se estendendo à sua frente, o Bastão de Ouro balançando no ombro com o ritmo tranquilo de quem não precisa mais provar nada.