Capítulo 85: O Demônio da Montanha e o Plano das Pétalas
Após deixar o reino reformado, a comitiva enfrenta um demônio que usa o Plano das Pétalas de Ameixa — três clones simultâneos que distraem os três discípulos enquanto rapta Tang Sanzang.
O Reino da Lei Respeitada ficou para trás mais depressa do que Tang Sanzang esperava.
Na manhã seguinte à audiência real, o rei havia acordado com a cabeça raspada e a alma clarificada, como se a navalha invisível que cortara o cabelo tivesse removido junto alguma obstrução antiga no coração. Ele recebeu os quatro peregrinos no salão do trono com uma humildade que não havia na véspera, trocou os documentos de viagem com carimbos e selos reais, e os mandou embora com uma escolta de honra até os portões da cidade.
Sun Wukong tinha renomeado o reino: não mais "Reino que Destrói a Lei", mas "Reino que Respeita a Lei". Um único caractere diferente, e o sentido mudou completamente.
Tang Sanzang, cavalgando na suave luz da manhã, olhou para Sun Wukong com algo que não era bem gratidão — era mais como admiração relutante.
— Você raspou a cabeça de toda uma corte imperial em uma noite — disse o monge — e conseguiu uma reforma moral sem derramar uma gota de sangue.
— É exatamente o que o Buda faria — disse Sun Wukong, sem modéstia.
— O Buda não faria isso.
— Com certeza que faria. De uma forma diferente. O resultado é o mesmo.
Os outros riram, e por um bom trecho do caminho o humor da manhã foi leve. Mas o verão pesava sobre os ombros e as montanhas adiante se levantavam cada vez mais íngremes, e por volta do meio-dia Tang Sanzang ficou mais quieto. Havia algo nas cristas que ele podia ver no horizonte que lhe causava um desconforto impreciso, como um som muito baixo que não chegava aos ouvidos mas chegava ao estômago.
— Aquela montanha — disse ele por fim, parando o cavalo. — Tem algo nela que não me agrada.
Sun Wukong olhou para a montanha com seus olhos dourados e não disse nada imediatamente. Há muito tempo ele sabia distinguir entre o medo de Tang Sanzang que vinha da fraqueza mortal e o medo que vinha de uma percepção real.
— O Mestre lembra do Sutra do Coração? — disse ele por fim. — O Buda está na Montanha do Espírito — não procure longe. A Montanha do Espírito está dentro de seu próprio coração.
— Eu sei o sutra — disse Tang Sanzang um pouco secamente.
— Sabe as palavras. A pergunta é se sabe o sentido. Vamos.
Eles entraram na sombra das árvores quando o vento começou.
Não era o vento da tarde, que vem dos vales com cheiro de terra e ervas. Era um vento que vinha de lugar nenhum e ia para lugar nenhum, girando em espirais sem lógica, carregando uma névoa que não tinha a transparência das névoas naturais.
Tang Sanzang parou novamente.
— Isso não é vento natural — disse ele com firmeza.
Sun Wukong já estava no ar antes que o monge terminasse a frase.
Do alto, com seus olhos que traversavam névoa e ilusão como facas, ele viu o que estava na encosta: um demônio de porte considerável, sentado numa pedra saliente, os olhos dourados e redondos, a boca cheia de presas como anzóis de aço, rodeado por trinta ou quarenta criaturas menores. O demônio soprava a névoa da própria garganta com uma deliberação calculada, como um artesão trabalhando.
Um golpe resolveria isso, pensou Sun Wukong. Mas então pensou outra coisa.
Zhu Bajie havia estado preguiçoso demais ultimamente. Comia demais, dormia quando podia, e sua contribuição nas batalhas tinha sido irregular na melhor das hipóteses. Uma lição discreta seria útil.
Sun Wukong voltou ao chão com a expressão de quem não viu absolutamente nada de preocupante.
— Falso alarme — disse ele alegremente. — Não é névoa demoníaca. São as vapores de uma aldeia ali na frente. Gente bondosa, preparando arroz branco e pão cozido no vapor para ofertar a monges viajantes.
Zhu Bajie, cujas orelhas se ergueram com a velocidade de um animal que ouve o nome da comida, virou-se instantaneamente.
— Pão cozido? E arroz?
— Branco. Acabado de fazer. Ainda fumegando.
— Eu... poderia ir verificar se o cavalo precisa de grama fresca — disse Zhu Bajie com uma expressão de considerável inocência forçada. — A grama dessas encostas deve ser muito nutritiva. Para o cavalo.
— Claro — disse Sun Wukong com seriedade absoluta. — Leve o ancinho, só para ter algo nas mãos enquanto procura a grama.
O Porco Celeste desapareceu colina acima com uma pressa que tinha muito pouco a ver com o bem-estar do cavalo. Sha Wujing olhou para Sun Wukong. Sun Wukong olhou para Sha Wujing. Nenhum dos dois disse nada.
Zhu Bajie encontrou os demônios antes de encontrar a aldeia imaginária.
Transformado num monge baixo e magro para não assustar os supostos aldeões bondosos, ele desceu cantarolando para um vale que cheirava, a seu ver, suspeiosamente a coisa nenhuma. O que havia era um semicírculo de criaturas pequenas e variadas com dentes demasiado afiados para seres inofensivos.
— Ah — disse Zhu Bajie parando.
— Um monge viajante — disse um dos demônios com satisfação. — Ótimo. Vamos levá-lo para casa e cozinhá-lo a vapor.
— Cozinhar a vapor? — repetiu Zhu Bajie com indignação genuína. — Aquele macaco disse que vocês faziam oferendas a monges.
— Nós fazemos — concordou o demônio. — Nós os oferecemos ao nosso estômago.
Zhu Bajie arrancou o disfarce, voltou ao seu tamanho natural e empunhou o ancinho com uma expressão que não precisava de palavras. A batalha foi travada com o estilo específico de Zhu Bajie — não elegante, não refinado, mas eficaz da maneira que um martelo é eficaz: puro impacto aplicado em quantidade suficiente.
Os demônios menores recuaram. O demônio grande apareceu.
Era alto e sólido com a densidade de pedra compacta, empunhando um pilão de ferro do tamanho de um tronco jovem. Ele olhou para Zhu Bajie com a avaliação profissional de quem está acostumado a encontrar oponentes e disse:
— Você é o segundo discípulo do monge Tang. Ouvi dizer que a carne dele é boa para a longevidade.
— Você ouviu errado — disse Zhu Bajie, e atacou.
O duelo nas encostas foi barulhento e energético. Zhu Bajie dava golpes com o ancinho em arcos largos; o demônio parava com o pilão e respondia com força que fazia o chão tremer. Gradualmente, o Porco percebia que estava perdendo terreno — não dramaticamente, mas consistentemente, como uma maré que sobe por baixo dos pés.
Foi nesse momento que ouviu a voz de Sun Wukong atrás dele.
— Oito Proibições! Não entre em pânico, estou aqui!
O efeito foi imediato. A simples certeza de que Sun Wukong estava próximo trouxe uma onda de confiança que tinha menos a ver com razão e mais com a memória muscular de centenas de batalhas. Zhu Bajie avançou com renovado vigor, o ancinho voando, e o demônio recuou.
Recuou, voltou para sua caverna, e sentou-se na pedra mais alta com os demônios menores reunidos ao redor como uma corte.
— Perdemos — disse um.
— Uma batalha — corrigiu o demônio. — Mas a guerra é outra coisa.
Um demônio pequeno, mais esperto do que aparentava, levantou a mão.
— Tenho um plano, Grande Rei.
O Plano das Pétalas de Ameixa era elegante na sua simplicidade.
Três demônios menores, cada um transformado à imagem exata do demônio grande — mesmo porte, mesmo pilão, mesma expressão feroz —, seriam posicionados em três pontos diferentes da encosta. Cada um atacaria um dos três discípulos. Enquanto Sun Wukong, Zhu Bajie e Sha Wujing estavam cada um ocupado com seu próprio adversário, o demônio real desceria do alto e apanharia Tang Sanzang com as próprias garras.
— Como pescar num aquário — disse o pequeno demônio, satisfeito consigo mesmo.
— Se funcionar, você vira subcomandante de vanguarda — prometeu o demônio grande.
O plano foi executado com precisão mecânica.
O primeiro clone emergiu das sombras à beira da estrada e correu diretamente para Tang Sanzang. Zhu Bajie, que voltava satisfeito da batalha anterior, interceptou sem pensar. O segundo clone saiu dos arbustos quando Sun Wukong avançou para ajudar Zhu Bajie, e Sun Wukong desviou para enfrentá-lo com uma rapidez que ele mais tarde descreveria como "um reflexo, não uma decisão". O terceiro clone pulou de trás de uma rocha quando Sha Wujing ficou sozinho ao lado do Mestre, e Sha Wujing pegou o bastão e foi.
E então Tang Sanzang estava sozinho no caminho, os três discípulos a duzentos metros de distância cada um, o barulho das batalhas chegando como trovão distante.
As garras vieram do céu.
Cinco dedos de aço, cobertos de escamas, desceram numa breve sombra rápida, e Tang Sanzang foi retirado da sela do cavalo branco como se pesasse menos que uma pena. Um vento cortou o ar. Um grito. E depois silêncio.
O cavalo branco ficou parado na estrada, sozinho.
Na caverna do demônio, Tang Sanzang foi amarrado a uma árvore no jardim dos fundos.
Não era um lugar ruim, como calabouços de demônios costumavam ser — havia flores em vasos e o som de água correndo em algum lugar próximo. Mas as cordas eram reais e os nós eram firmes, e o monge não tinha dúvidas sobre o que o aguardava.
Numa árvore do lado oposto do jardim havia outro cativo: um lenhador, preso há três dias, com os olhos vermelhos e a expressão de quem gastou suas lágrimas e agora estava simplesmente esperando.
— Também te capturaram — disse o lenhador sem surpresa.
— Sim — disse Tang Sanzang.
— São bons para isso.
Eles ficaram em silêncio por um momento. Depois Tang Sanzang falou, e sua voz tinha algo que não era bem desespero — era mais a textura da tristeza bem compreendida.
— Você morre como um homem — disse ele. — Apenas você mesmo.
— Tenho uma mãe de oitenta e três anos — disse o lenhador. — Sem mais ninguém para cuidar dela.
— E eu tenho um imperador esperando por escrituras que prometeram mudar o destino de almas incontáveis — disse Tang Sanzang. — E discípulos que não sabem onde estou. E um caminho que não foi concluído.
O lenhador olhou para ele.
— Quem está pior?
— Os dois estamos mal — disse Tang Sanzang. — Mas diferente.
As lágrimas vieram devagar, sem drama — apenas o reconhecimento simples de que estar atado a uma árvore no jardim de um demônio é, objetivamente, uma situação difícil. O lenhador chorou também. E por um tempo os dois ficaram assim, cada um amarrado à sua árvore, compartilhando a companhia do sofrimento sem tentar convertê-lo em outra coisa.
Nos três pontos da encosta, Sun Wukong, Zhu Bajie e Sha Wujing perceberam quase ao mesmo tempo que seus respectivos oponentes tinham desaparecido.
Sun Wukong foi o primeiro a chegar à estrada. Viu o cavalo branco parado, sozinho. Viu as bagagens no chão. Não viu Tang Sanzang.
Ele ficou muito quieto por um momento que pareceu mais longo do que era.
Então começou a procurar.