Capítulo 84: No Reino que Mata Monges
A comitiva chega ao Reino que Destrói a Lei Budista, onde o rei jurou matar dez mil monges. Sun Wukong disfarça todos como mercadores e, à noite, realiza uma vingança silenciosa raspando a cabeça de toda a corte.
O verão havia chegado aos pés da montanha sem que ninguém percebesse exatamente quando. O vento quente movia os galhos dos salgueiros com preguiça, e o ar cheirava a terra molhada e flores silvestres. Tang Sanzang ia a cavalo com a expressão serena de quem aprendeu a aceitar o calor como mais uma provação do caminho.
Foi nesse cenário de deceptiva tranquilidade que a velha surgiu dos salgueiros.
Ela caminhava apoiada no braço de uma criança pequena, e seus olhos tinham a clareza incomum de quem enxerga mais do que deveria. Ao ver a comitiva, ela levantou a voz com urgência que contrastava com sua aparência frágil:
— Monge! Não avance para o oeste! Vire o cavalo agora, ou encontrará apenas a morte!
Tang Sanzang desceu do cavalo e inclinou-se respeitosamente.
— Venerável senhora, o caminho para o oeste é o único que conheço. Por que fala de morte?
— A cinco ou seis li daqui fica o Reino da Lei Destruída — disse ela, apontando para o horizonte. — O rei dali fez um voto: matar dez mil monges. Dois anos matando — chegou a nove mil, novecentos e noventa e seis. Faltam apenas quatro com nome e reputação para completar o número. Se vocês entrarem naquela cidade, entrarão como suas próprias cabeças num saco.
Tang Sanzang empalideceu.
— Existe um caminho alternativo? Podemos contornar a cidade?
A velha deu uma risada curta.
— Não há como contornar. A menos que saibam voar.
Zhu Bajie, que havia escutado tudo com as orelhas eretas, respondeu com entusiasmo excessivo:
— Mamãe, somos todos voadores de primeira linha!
Mas Sun Wukong já havia parado de ouvir as palavras da velha. Seus olhos dourados, treinados para ver além da aparência superficial das coisas, estavam fixos nos dois visitantes com uma intensidade crescente. Sob a forma da velha e da criança havia algo que não era velho nem criança — havia uma luz, suave e inconfundível, como de velas sobre um altar de jade.
Sun Wukong prostrou-se imediatamente, a testa tocando o chão.
— Bodhisattva! Perdoe o discípulo por não tê-la reconhecido antes!
Tang Sanzang olhou em torno, confuso, e então uma nuvem dourada veio do nada e carregou a velha e a criança para cima — Guanyin e Shancai, o Menino Virtuoso, subindo de volta para o Mar do Sul com a elegância silenciosa de quem nunca precisou de aplausos.
Tang Sanzang ficou de joelhos, mãos unidas, até que as nuvens se dissiparam.
— Por que não me avisou antes? — murmurou ele para Sun Wukong.
— Porque o senhor ainda estava fazendo perguntas, Mestre.
Com a tarde avançando, Sun Wukong deixou os outros num vale escondido entre rochas e foi sozinho reconhecer a cidade. Transformou-se numa traça — asas pretas e douradas, leve como um suspiro — e voou sobre os telhados do reino que destruía a lei.
O que viu o surpreendeu.
Sob o decreto homicida do rei havia uma cidade viva e próspera. Ruas movimentadas, mercadores, lanternas acesas, crianças correndo. A cidade em si era bela — luz e ordem e a fumaça do jantar subindo pelos telhados. Um governante capaz de manter uma cidade assim não era completamente desprovido de virtude; havia nele uma torção, uma distorção, como um bom madeiro que cresceu ao lado de uma pedra e ficou corcunda para um lado.
Há luz imperial sobre essa cidade, pensou Sun Wukong, planando sobre as torres. Este homem tem o mandato do Céu, apenas mal direcionado.
Ele voou pela cidade como fumaça, até encontrar uma hospedaria com lanternas nas portas. Dentro havia comerciantes dormindo, roupas e turbantes dobrados ao lado das camas. Sun Wukong pousou no suporte do turbante e observou.
O dono da hospedaria — um homem chamado Wang Xiao'er — circulava pelo andar de baixo recolhendo as roupas dos hóspedes para guardá-las com segurança durante a noite. Quando finalmente a mulher dele também apagou a última vela e foi dormir, Sun Wukong transformou-se em rato, fez barulho suficiente para assustar a mulher, e quando ela gritou para o marido sobre ratos do tamanho de um gato, Sun Wukong aproveitou a confusão para pegar quatro conjuntos de roupas e turbantes e voar de volta para o vale.
Quando pousou diante de Tang Sanzang segurando um fardo de roupas comuns, o monge olhou para ele com uma expressão que misturava esperança e suspeita.
— Roupas de mercadores — disse Sun Wukong. — Esta noite, somos comerciantes de cavalos.
A metamorfose foi completa mas não sem dificuldades. Tang Sanzang vestiu as roupas de mercador com a dignidade desconfortável de um monge que foi criado para nunca se disfarçar. Sha Wujing adaptou-se com sua eficiência habitual. Zhu Bajie descobriu que seu turbante não cabia na cabeça monumental que tinha, e Sun Wukong teve que rasgar dois turbantes e costurá-los juntos com agulha e linha emprestadas do vento.
— De agora em diante — instruiu Sun Wukong, enquanto os quatro caminhavam em direção às portas da cidade ainda abertas na hora do crepúsculo — ninguém fala além de mim. O Mestre é Tang Daguan. Zhu Bajie é Zhu Sanguan. Sha Wujing é Sha Siguan. Eu sou Sun Erguan. Somos dez irmãos comerciantes de cavalos; os outros seis estão do lado de fora com o rebanho.
— E se alguém perguntar por nosso negócio? — disse Zhu Bajie.
— Digo que vendemos cavalos. O cavalo branco é nossa amostra. — Sun Wukong deu uma olhada rápida no cavalo branco do Dragão, que tinha o ar sereno de quem aprendeu há muito tempo a não fazer perguntas. — Ninguém vai questionar um grupo de mercadores com um cavalo como esse.
A cidade os recebeu sem suspeita. Às portas da hospedaria de uma viúva chamada Zhao, Sun Wukong negociou um quarto com a habilidade de um comerciante experiente — os melhores aposentos, refeição vegetariana por conta do jejum do dia ciclônico (um detalhe inventado com convicção convincente), e por fim, o pedido mais incomum: uma cama dentro de um baú grande, porque o irmão Zhu tinha dores reumáticas, o irmão Sha tinha ombros sensíveis ao vento, e o irmão Tang preferia escuridão total para dormir.
A viúva Zhao, depois de conferenciar com a filha, lembrou de um baú gigante que havia pertencido ao marido — quatro pés de largura, sete de comprimento, três de altura. Caberia uma família inteira. Foi carregado para o pátio com os esforços de vários empregados, e os quatro peregrinos-mercadores se instalaram dentro dele com as bagagens e apagaram a vela.
Dentro do baú, no escuro abafado da noite de verão, Tang Sanzang murmurou com a voz abafada pelo calor:
— Isso foi ideia sua.
— Funcionou — respondeu Sun Wukong, imperturbável.
— Estamos dormindo dentro de um baú.
— É melhor do que ter a cabeça cortada pelo rei, Mestre.
O Porco já roncava.
O que aconteceu a seguir não estava nos planos de ninguém, exceto talvez no das coincidências maliciosas que governam certas noites.
Os empregados da hospedaria tinham uma relação extra-profissional com um bando de ladrões locais. A conversa de Sun Wukong sobre cavalos e dinheiro chegou aos ouvidos errados. Vinte e tantos ladrões apareceram no meio da noite com tochas e facas.
Não encontraram mercadores. Encontraram um baú enorme no pátio com um cavalo branco preso às pernas.
— Aqui estão o dinheiro deles — disse um dos ladrões, martelando o baú. — Carregamos isso para fora da cidade e abrimos lá.
Dentro do baú, Zhu Bajie foi sacudido pelo movimento dos carregadores.
— Tá me balançando — murmurou ele, ainda semiconsciente.
— Cale-se — sussurrou Sun Wukong. — Ninguém está balançando você.
— Mas estamos se movendo —
— Fique quieto.
Tang Sanzang, agora completamente acordado, disse com uma voz cujo volume era diretamente proporcional ao seu terror:
— Estão nos carregando?
— Fique quieto e deixe carregar — disse Sun Wukong. — Se nos levarem para o oeste, economizamos trabalho.
— Para o oeste?! Vão nos levar para o leste, não para o oeste, você —
— Então deixe carregar para o leste. Também está bom.
O bando de ladrões carregou o baú para fora da cidade com dificuldade considerável e barulho suficiente para acordar metade do bairro. Isso alertou a guarda da cidade, que alertou o general responsável pela segurança noturna, que saiu com tropas e archeiros. Os ladrões, sem combatividade quando confrontados por força real, abandonaram o baú no meio da rua e fugiram.
O general olhou para o baú. Olhou para o cavalo branco preso às alças. O cavalo branco tinha a aparência de um animal que valia mais do que a vida de várias pessoas.
Ele montou no cavalo e levou o baú para as dependências militares.
Dentro do baú, no escuro completo, Tang Sanzang falou com a voz fina de quem chegou ao limite da paciência:
— Agora estamos presos no baú de um general. Amanhã vão nos abrir e seremos entregues ao rei. Seremos as cabeças número nove mil novecentas e noventa e sete, noventa e oito, noventa e nove e dez mil. Você completa o número. Está satisfeito?
Sun Wukong não respondeu imediatamente. Quando falou, havia algo na voz dele que não era exatamente humor, mas era da mesma família:
— Mestre, pode dormir um pouco. Eu tenho uma ideia.
Às três da manhã, quando os roncos do exército preenchiam o quartel, Sun Wukong produziu o Bastão de Ouro, soprou sobre ele e o transformou numa broca de três pontas. Algumas voltas delicadas na madeira do baú, e havia um buraco suficiente para uma formiga passar. Sun Wukong se transformou em formiga.
Do lado de fora, voltou a seu tamanho e subiu pelos telhados em direção ao palácio.
O que aconteceu naquela noite nos aposentos reais e nas residências de toda a corte foi algo que a história do reino nunca conseguiu explicar adequadamente.
Sun Wukong arrancou os pelos do braço esquerdo, soprou sobre eles e os transformou em pequenas versões de si mesmo — centenas de macacos miniatura, cada um carregando uma navalha de barbear. Arrancou os pelos do braço direito e os transformou em besouros adormecedores. Os besouros foram espalhados pelas residências de cada oficial, cada ministro, cada membro da corte — e onde pousavam, o sono ficava profundo como o fundo de um rio.
As navalhas trabalharam em silêncio pela madrugada.
Ao amanhecer, o palácio acordou para um descobrimento de proporções cosmicamente irônicas.
A rainha levantou-se e foi ao espelho — e ficou de boca aberta diante de uma mulher de cabeça completamente raspada. O rei acordou com o grito da esposa e, ao tocar a própria cabeça, encontrou apenas pele lisa onde havia tido cabelo. Os eunucos, as damas de companhia, os guardas, os ministros — cada ser humano com alguma posição na corte havia acordado monge.
O rei ficou sentado na cama por um longo momento, os dedos ainda passando pela cabeça lisa, processando o que isso significava.
Depois chamou os ministros. Todos chegaram com turbantes cobrindo o que havia sob eles, e todos os turbantes escondiam a mesma coisa. O rei olhou para sua corte de cabeças raspadas e soube, com a certeza que vem quando o Céu decide que chegou a hora de uma lição, que algo havia mudado.
Ele emitiu um decreto silencioso — ninguém deveria mencionar o incidente publicamente. Mas enquanto a corte tomava café da manhã em silêncio embaraçoso, todos com turbantes e todos cientes de que os outros sabiam o que havia sob os turbantes, um general se apresentou com um relatório sobre um baú suspeito apreendido na noite anterior e um cavalo branco de valor extraordinário.
E o rei mandou abrir o baú.
Tang Sanzang saiu primeiro, piscando na luz da manhã, com a cabeça raspada e as vestes monásticas perfeitamente visíveis agora que os disfarces haviam sido removidos durante a noite. Sun Wukong saiu atrás, seguido por Sha Wujing. Zhu Bajie saiu por último, olhou em volta para o exército de cabeças raspadas que os rodeava e disse, com genuína aprovação:
— Vocês todos também ficaram monges esta noite. Que conveniente.
O rei olhou para os quatro peregrinos. Olhou para sua corte de ministros idênticos a eles em aparência de crânio. Olhou para as mãos. E algo que havia estado errado nele por dois anos começou, devagar e com considerável relutância, a corrigir-se.
— Eu... peço audiência com o monge Tang — disse o rei, com uma voz que tinha perdido toda a sua arrogância anterior.
Tang Sanzang inclinou-se com a graça natural de quem sempre soube que esse momento chegaria.
A audiência durou a manhã inteira. Quando terminou, o decreto de morte havia sido revogado. O rei ofereceu um banquete, documentos de viagem e um escolta de honra até as fronteiras do reino. Os quatro peregrinos partiram pela tarde com o sol na frente e o vento a favor, o cavalo branco recuperado, as bagagens intactas, e Sun Wukong com a expressão satisfeita de quem completou um trabalho elegante.
— Você raspou a cabeça de toda uma corte real — disse Tang Sanzang enquanto cavalgavam.
— Ensinei uma lição sem derramar sangue, Mestre. Isso é compaixão.
— É uma definição muito particular de compaixão.
— As melhores definições sempre são.