Capítulo 83: O Macaco Sagaz e a Demônia Rato
Sun Wukong descobre que a demônia do Poço Sem Fundo é filha adotiva do Rei Celestial Li Jing, elabora uma petição celestial e consegue a ajuda de Nezha para libertar Tang Sanzang.
A boca da demônia abriu-se como um portal para as trevas. Sun Wukong saiu pelo vão dos dentes com a agilidade de uma centelha, voltando a seu tamanho natural antes mesmo de pousar no chão pedregoso da montanha. Em sua mão, o Bastão de Ouro surgiu com um movimento do pulso, pesado e silencioso como a própria determinação.
— Você me engoliu — disse ele, virando-se para a criatura — e eu ainda assim saí. O que isso lhe diz sobre suas chances?
A demônia não respondeu com palavras. Em resposta, sacou duas espadas curvas de suas bainhas, o aço refletindo a luz pálida da tarde com um brilho frio. Ela avançou.
A batalha que se travou nos picos rochosos da montanha foi furiosa e bela na sua violência. Sun Wukong movia o Bastão de Ouro com a fluidez de quem nasceu para o combate — arcos amplos, fintas rápidas, golpes que cortavam o ar com um assobio agudo. A demônia parecia dançar entre as espadas, bloqueando, girando, buscando aberturas onde não havia nenhuma. Poeira e seixos voavam ao redor dos dois como uma tempestade em miniatura.
De longe, Zhu Bajie observava com os olhos semicerrados, murmurando baixinho para Sha Wujing:
— Sabe o que ele deveria ter feito? Quando estava na barriga dela, podia ter simplesmente... crac. Murro no estômago. Sair pelo lado.
— Hmm — respondeu Sha Wujing, sem tirar os olhos da luta.
— Mas não. Saiu pela boca como um cavalheiro e agora está aqui num duelo. Faz sentido isso?
Sha Wujing suspirou.
— Devemos ajudá-lo.
— Eu disse exatamente isso — protestou Zhu Bajie. — Fui eu quem disse. "Vamos ajudar." Você se lembra?
Antes que Sha Wujing pudesse responder, o Porco Celeste já empunhava o ancinho de nove dentes e avançava. Sha Wujing seguiu com o bastão lunar. Os dois se lançaram na batalha com gritos que ecoaram pelos vales.
A demônia, que já tinha dificuldades contra Sun Wukong sozinho, viu-se encurralada pelos três. Percebendo que a batalha estava perdida, ela fez algo inesperado: descalçou um dos sapatos floridos do pé direito, soprou sobre ele e murmurou um encantamento. O sapato se transformou em sua própria imagem, espadas e tudo, e passou a lutar em seu lugar enquanto ela se dissolvia numa brisa escura e fugia silenciosamente.
Zhu Bajie desferiu um golpe poderoso no sapato-demônia. A imagem desapareceu, e no chão restou apenas um sapato bordado.
— Eu... derrubei ela? — perguntou o Porco, olhando para o sapato com expressão confusa.
— Você derrubou um sapato — disse Sun Wukong, com uma voz que podia cortar pedra. — Enquanto isso, onde está o Mestre?
Os três se viraram. O caminho onde tinham deixado Tang Sanzang estava vazio. O cavalo branco tinha desaparecido. As bagagens haviam sumido. Na terra, apenas meio comprimento de corda rasgada, como um insulto deixado por um fantasma.
Sun Wukong abaixou-se e pegou a corda. Algo naquele fragmento miserável o tocou mais do que qualquer ferimento de batalha poderia ter feito. Ele ficou segurando-a por um longo momento, sem falar.
— Três vezes — disse ele por fim, com uma voz estranhamente quieta. — Já fui àquela caverna duas vezes. Terei que entrar uma terceira.
Zhu Bajie, que havia começado a rir ao ver Sun Wukong visivelmente emocionado, rapidamente mudou de tom ao perceber o olhar do irmão mais velho.
— Certo, certo — disse o Porco com falsa seriedade. — Terceira vez é campeão. Você sabe como fazer isso.
Sun Wukong enxugou os olhos com as costas da mão num gesto quase imperceptível.
— Guardem a entrada. Não se afastem desta vez.
Ele entrou no Poço Sem Fundo pela terceira vez com seu próprio corpo, sem disfarce, sem transformação. Apenas Sun Wukong, tal como era: olhos dourados que ardiam como tochas, pelo duro como agulhas de aço, mãos calejadas ao redor do Bastão de Ouro. Havia algo de diferente nessa entrada — uma resignação serena, como a de um guerreiro que não precisa mais provar nada.
O interior da caverna estava completamente diferente. A sala principal onde havia encontrado Tang Sanzang nas duas visitas anteriores estava vazia. Os móveis tinham desaparecido. As tochas estavam apagadas. Apenas a pedra fria e o eco de seus próprios passos.
A demônia havia se mudado.
Sun Wukong percorreu cada corredor, cada câmara, cada desvio daquele labirinto subterrâneo que se estendia por mais de trezentos li. Abriu portas com um toque do bastão. Vasculhou cada canto escuro. Não havia sinal de Tang Sanzang, nem do cavalo, nem das bagagens. A criatura havia previsto sua volta e se preparado.
Ele estava prestes a bater o bastão no chão em frustração quando um perfume o parou.
Incenso.
Suave, constante, vindo de algum lugar nos fundos da caverna — um salão traseiro que ele havia varrido com os olhos mas não examinado com atenção. Sun Wukong seguiu o aroma como um cão segue um rastro, até encontrar uma sala pequena com paredes simples. Sobre uma mesa de madeira escura havia um incensário de bronze dourado, as espirais de fumaça se enrolando no ar parado. E à frente do incensário, erguida com reverência incomum para um covil de demônio, uma placa dourada com inscrições em letras de vermelho-lacre.
Sun Wukong aproximou-se e leu.
Ao venerável pai, o Rei Celestial Li Jing.
Ao venerável irmão mais velho, o Terceiro Príncipe Nezha.
Ele ficou em silêncio por um longo momento. Então, devagar, um sorriso se formou em seu rosto — não de alegria, mas do tipo que precede uma grande complicação.
— Ah — disse ele para ninguém. — Ah.
Ele pegou a placa e o incensário com cuidado, como quem recolhe evidências preciosas, e saiu da caverna com passos rápidos e determinados.
Zhu Bajie e Sha Wujing estavam à porta quando ele emergiu, rindo de uma maneira que os dois acharam ligeiramente perturbadora.
— Salvou o Mestre? — perguntou Sha Wujing, esperançoso.
— Não preciso salvar o Mestre — respondeu Sun Wukong, segurando a placa dourada para que os dois pudessem ver. — Preciso apenas apresentar esta evidência ao lugar certo.
Sha Wujing inclinou a cabeça, lendo as inscrições.
— Li Jing. Nezha. — Ele ergueu o olhar. — O que isso significa?
— Significa que a demônia deste antro — disse Sun Wukong com a paciência de quem explica o óbvio — presta culto ao Rei Celestial e ao Terceiro Príncipe como família. E onde há culto familiar, há responsabilidade familiar. — Ele guardou a placa debaixo do braço. — Vou ao Céu fazer uma petição formal. Guardem a entrada. Isso será resolvido rapidamente.
— Rapidamente? — repetiu Zhu Bajie com ceticismo visível.
— Como a fervura de um chá — prometeu Sun Wukong, e então desapareceu numa nuvem dourada.
Nos corredores do Palácio Celestial, a chegada de Sun Wukong nunca passava despercebida. Os quatro Grandes Mestres Celestes — Zhang, Ge, Xu e Qiu — o encontraram diante do Salão das Nuvens Iluminadas com expressões que combinavam respeito e apreensão em proporções iguais.
— Grande Sábio — disse um deles com cautela. — Qual o motivo desta visita?
— Tenho uma petição a apresentar — respondeu Sun Wukong, com a placa e um documento improvvisado sob o braço. — Contra duas pessoas.
Os Mestres se entreolharam.
A petição foi levada ao Imperador de Jade, que a leu com atenção crescente. O documento descrevia, com a precisão clínica de quem conhece bem o sistema judicial celestial, como uma demônia no Poço Sem Fundo havia sequestrado Tang Sanzang, e como as evidências indicavam conexão direta com o Rei Celestial Li Jing e seu filho Nezha. O Imperador convocou Tai Bai Jinxing, a Estrela do Amanhecer, para acompanhar Sun Wukong até o Palácio das Nuvens, residência de Li Jing.
O Rei Celestial os recebeu com a dignidade de quem está acostumado a ser obedecido — até ver Sun Wukong entrando por sua porta.
Sua expressão passou por várias fases em rápida sucessão: surpresa, reconhecimento, raiva antiga. Li Jing e Sun Wukong tinham história. Cinco séculos antes, quando o Macaco havia causado o caos nos Céus, Li Jing fora designado Grande Marechal Dominador de Demônios para capturá-lo — e havia falhado. Esse tipo de derrota não se esquece facilmente.
— O que é isso? — exigiu Li Jing, olhando para o decreto imperial nas mãos de Tai Bai Jinxing.
— Uma petição formal, Rei Celestial — disse a Estrela do Amanhecer com diplomacia esmerada. — Apresentada ao trono por Sun Wukong. A placa de incenso com seu nome foi encontrada em covil de demônio.
Li Jing arrancou o decreto imperial, leu-o e bateu a mão na mesa.
— Este macaco me acusa injustamente! Tenho três filhos e uma filha de sete anos de idade — a pequena Zhen Ying, que mal compreende o mundo. Como poderia ela ser uma demônia?
— Então prove — disse Sun Wukong com calma desconcertante. — Mande buscá-la.
— Mande prender este macaco — ordenou Li Jing para seus guardas.
Os guardas obedeceram. Sun Wukong foi amarrado com correntes de captura de demônios e ficou no chão do salão com uma expressão de total placidez, como se aquilo fosse exatamente o que havia planejado.
Tai Bai Jinxing encarou o Rei Celestial com horror.
— Li Jing — disse ele em voz baixa —, você acabou de amarrar o portador de uma ordem imperial. Se ele sofrer qualquer dano...
— Então vou cortá-lo — disse Li Jing, sacando a espada Mata-Demônios.
Foi Nezha quem bloqueou o golpe.
O Terceiro Príncipe interpôs a espada entre a lâmina do pai e a cabeça de Sun Wukong com um movimento fluido e sem hesitação, os olhos serenos e firmes.
— Pai — disse ele com voz clara. — Espere. Há uma filha.
Li Jing abaixou a espada devagar, olhando para o filho.
— Não é sua irmã de sangue — continuou Nezha. — Trezentos anos atrás, havia uma velha demônia que roubou flores, incensos e velas sagradas da Montanha Espiritual. Eu e o senhor lideramos as tropas celestiais para capturá-la. Buda disse para poupá-la — água profunda nutre o peixe sem pescá-lo; a montanha alta alimenta o cervo para que viva. Ela foi poupada. Em gratidão, ela passou a prestar culto ao senhor como pai e a mim como irmão mais velho. — Ele fez uma pausa. — Aparentemente ela não honrou bem esse presente de vida.
O salão ficou em silêncio. Li Jing olhou para a placa dourada que Sun Wukong havia depositado no chão. Ele a pegou com uma expressão que estava, aos poucos, transformando-se de raiva para algo que se parecia muito com vergonha.
— Como ela se chama? — perguntou ele por fim.
— Três nomes — disse Nezha. — Sua verdadeira natureza: uma velha demônia de nariz dourado e pelo branco, um rato. Depois, quando roubou os incensos sagrados, passou a ser chamada Meio-Guanyin. E agora, no mundo dos mortais, chama-se Senhora Surgida da Terra.
Li Jing ficou de pé por um longo momento. Então se virou e, ele mesmo, soltou as correntes de Sun Wukong.
Sun Wukong espreguiçou-se, agradeceu com um aceno de cabeça e disse:
— Convoque as tropas. Tang Sanzang ainda está naquele buraco.
Havia chegado o momento do acerto de contas.
Li Jing, Nezha e um exército de guerreiros celestiais desceram das nuvens como uma tempestade com forma, o ar à frente deles vibrando com a energia de espadas e lanças e a inevitabilidade da lei divina. Zhu Bajie e Sha Wujing, que haviam esperado na boca do Poço Sem Fundo com a paciência irregular que os caracterizava, ficaram de pé ao ver a procissão descer do céu.
— Isso é... muita gente — murmurou Zhu Bajie.
Sun Wukong aterrou à frente deles.
— Interior e exterior — disse, dirigindo-se a Li Jing. — Eu e o Príncipe Nezha descemos pelo interior. O senhor e as tropas fecham a saída. Ela não terá para onde ir.
A busca pelo interior da caverna foi sistemática e implacável. Sala por sala, corredor por corredor, cada canto dos trezentos li do labirinto subterrâneo foi varrido. A demônia havia previsto a busca e se mudado para um esconderijo menor — um cubículo no ângulo sudeste da caverna, tão pequeno e tão escuro que parecia um pensamento que o próprio rochedo havia esquecido de ter. Lá dentro havia flores em vasos, bambus à beira da entrada, e uma penumbra perfumada que tentava imitar o aconchego.
Tang Sanzang estava lá.
Ele estava sentado num canto, desconfortável e visivelmente perturbado, mas ileso. Ao ver Sun Wukong entrar, o monge soltou um suspiro tão longo e profundo que parecia ter começado há três capítulos.
A demônia rato — a velha criatura de pelo branco e nariz dourado, agora em sua forma verdadeira, pequena e encolhida — olhou para Nezha com olhos que imploravam.
— Eu lhe devo a vida — disse ela, com uma voz que havia perdido toda a sua arrogância.
— E foi assim que você a usou — respondeu Nezha com uma frieza que não era cruel, apenas exata.
As tropas celestiais a amarraram com as correntes de captura de demônios. Li Jing, de pé à boca da caverna quando os peregrinos emergiram, inclinou a cabeça diante de Tang Sanzang num gesto de contrição genuína.
— Monge —disse o Rei Celestial —, é por conta de uma dívida de gratidão mal aplicada que o senhor sofreu este desvio. Peço desculpas em nome do Céu.
Tang Sanzang uniu as mãos em agradecimento com a elegância natural de quem foi criado para perdoar.
Sha Wujing recolheu as bagagens. Zhu Bajie apanhou o cavalo branco, que havia sido encontrado preso num canto do covil, aparentemente entediado. As correntes foram removidas. O exército celestial partiu levando a demônia para enfrentar o julgamento do tribunal divino.
Sun Wukong ficou por um momento na boca do Poço Sem Fundo, olhando para baixo para aquele buraco escuro que havia entrado três vezes e do qual havia saído as três. Havia algo satisfatório naquilo — não glória exatamente, mais como o simples prazer de uma conta resolvida.
— Mestre — disse ele, voltando-se para Tang Sanzang — a estrada está livre.
O monge subiu no cavalo branco. A comitiva se pôs em marcha pela tarde que ia lentamente cedendo lugar ao crepúsculo, a poeira da montanha dourada sob a luz do fim do dia. À frente, como sempre, o ocidente aguardava — com sua distância imensuráel e seus perigos ainda não imaginados, e a certeza de que havia ainda muito caminho a percorrer antes do fim.
Mas por ora, o Mestre estava a salvo. O bastão repousava. E Sun Wukong, ao lado do caminho, cantarolava algo baixinho para si mesmo — uma melodia sem nome, velha como a própria montanha.