Capítulo 82: O Pêssego e a Barriga — Sun Wukong Resgata o Mestre de Dentro
Sun Wukong transforma-se em pêssego vermelho e deixa-se engolir pela Feiticeira Rato, causando estragos por dentro de seu ventre para forçá-la a libertar Tang Sanzang.
Ao amanhecer, os três discípulos deixaram o Templo Zhenhai e voaram para o sul. O céu estava cor de brasa velha, e a mil li de distância a Montanha Xianku — o Espaço Oco — erguia-se da planície como um dente partido, sua silhueta escura perfurando as nuvens baixas. Sun Wukong voou à frente, o Bastão de Ouro seguro de lado como um timoneiro segura o leme: com a certeza fria de quem sabe que vai haver turbulência.
A entrada da Caverna Sem Fundo era exatamente o que o nome prometia: uma boca de pedra abrindo-se para um escuro que não tinha fundo visível, um poço de trevas que cheirava a terra molhada e a algo mais antigo do que a terra. Os três pararam diante dela e olharam.
— Quem desce primeiro? — perguntou Sha Wujing.
— O Bajie — disse Sun Wukong, sem hesitar.
Zhu Bajie olhou para o buraco. Olhou para Sun Wukong. Olhou de volta para o buraco.
— Irmão mais velho — disse ele, com aquele tom que misturava resignação e princípio —, por que sempre eu?
— Porque — disse Sun Wukong, pacientemente — tens a aparência de alguém inofensivo. Uma cara gorda e um ancinho não assustarão ninguém. Se eu descer com o Bastão de Ouro, ela vai saber que é ataque. Se tu desceres assim — ele fez um gesto na direção do corpanzil do Segundo Discípulo —, parecerá visita.
Bajie considerou isso.
— E o que eu digo quando chegar lá?
— Dizes que és um monge errante que se perdeu na montanha e pede hospitalidade.
— E se ela não acreditar?
— Então usas o ancinho e gritas por mim.
Não era um plano que inspirasse confiança, mas era o plano que tinham. Bajie desceu.
O interior da Caverna Sem Fundo era vasto e profundo como o nome prometia — trezentos li de corredor sinuoso, iluminado por tochas de pedra que ardiam com uma chama verde fria, e por toda parte os sinais de uma criatura que havia cultivado por séculos: altares cobertos de oferendas, manuscritos budistas pendurados nas paredes de pedra, e um jardim interno onde árvores impossíveis cresciam sem sol, com frutos que brilhavam no escuro como lanternas.
Zhu Bajie chegou ao salão principal e se deparou com a Feiticeira Rato em sua forma verdadeira — não mais a mulher assustada do portão do templo, mas uma demônio de beleza perturbadora e olhos que brilhavam com trezentos anos de prática espiritual corrompida. Estava sentada num trono de pedra negra, e ao seu redor havia servas que pareciam ter sido humanas em algum momento anterior.
— Quem és? — perguntou ela.
Bajie se lembrou das instruções de Sun Wukong. Curvou-se profundamente — o que, dado o tamanho de sua barriga, era uma operação considerável — e disse, com voz de mel:
— Sou um pobre monge errante, venerável Senhora, que se perdeu nas montanhas e implora por abrigo e uma tigela de arroz. Vossa generosidade é conhecida em toda a região, e foi por isso que me atrevi a—
— Mentiroso — disse a Feiticeira Rato.
Bajie endireitou-se.
— Não sou mentiroso. Sou o Segundo Discípulo de Tang Sanzang, o monge peregrino da Terra do Leste, e vim buscar meu Mestre que fostes vós que raptastes ontem à noite enquanto dormia, o que é, na minha opinião, uma conduta indigna de alguém que cultivou junto à Montanha Espiritual por—
A feiticeira soltou um grito e as servas avançaram. Bajie ergueu o ancinho e lutou — lutou bem, porque apesar de tudo era um antigo General Celestial dos Exércitos do Rio Celeste —, mas havia servas demais e o corredor era estreito e eventualmente ele foi prensado contra a parede de pedra com o ancinho torto e a dignidade em cacos.
— Leva-o para a câmara do lado — disse a feiticeira.
Bajie passou o resto da manhã amarrado a uma coluna de pedra, refletindo sobre as limitações da diplomacia direta.
Sun Wukong, que havia seguido Bajie voando na forma de mosca e observado tudo através de uma fresta da rocha, voou de volta à entrada da caverna onde Sha Wujing esperava.
— O Bajie foi capturado — disse Sha Wujing, que não parecia surpreso.
— Foi o esperado. — Sun Wukong olhou para o jardim interno da caverna que havia entrevist pela fresta. — Mas eu vi o jardim dela. Tem um pessegueiro com frutas maduras.
— E isso nos ajuda como?
Sun Wukong sorriu. Era o sorriso específico que aparecia quando ele tinha um plano que era simultaneamente brillhante e completamente absurdo.
— Ela vai almoçar no jardim — disse ele. — E vai querer uma fruta.
Transformou-se em mosca novamente e voltou à caverna. Encontrou o jardim sem dificuldade — era o único lugar com luz quente naquele labirinto de pedra fria —, e pousou no pessegueiro entre os frutos maduros. Depois, com a concentração específica de quem havia aprendido setenta e duas transformações num tempo em que os céus eram mais jovens, transformou-se.
Em um pêssego vermelho. Um pêssego perfeito, redondo e aromático, pendurado num galho a uma altura conveniente para ser colhido por uma mão feminina.
Esperou.
A Feiticeira Rato apareceu no jardim pouco depois do meio-dia, como havia calculado. Caminhou entre as árvores com a leveza de quem está em casa, tocando aqui e ali uma folha ou um fruto com a ponta dos dedos. Chegou ao pessegueiro.
Seus olhos pararam no pêssego vermelho.
Era a fruta mais bonita que havia no galho — a mais vermelha, a mais redonda, a que cheirava mais intensamente àquela fragrância específica de pêssego maduro que é ao mesmo tempo doçura e promessa. Estendeu a mão. Colheu. Levou à boca.
E mordeu.
O que aconteceu a seguir é difícil de descrever com dignidade. O pêssego explodiu por dentro da boca da feiticeira e tornou-se Sun Wukong no exato momento em que ela o engolia — e então Sun Wukong estava dentro do ventre da Feiticeira Rato, agachado no escuro quente e úmido, segurando o Bastão de Ouro que havia expandido para seu tamanho completo.
A feiticeira soltou um grito que sacudiu as paredes da caverna.
— Quem está lá dentro? — gritou ela.
— Advinha — disse Sun Wukong, e deu uma cutucada gentil com o bastão nas paredes internas do estômago.
O que se seguiu foi uma negociação. Sun Wukong tinha a posição de vantagem absoluta — qualquer movimento brusco de sua parte causaria dano interno considerável —, e a feiticeira tinha o inconveniente de não poder fazer absolutamente nada a respeito sem se ferir a si mesma primeiro. Era o tipo de situação que Sun Wukong apreciava com sinceridade.
— Libertai meu Mestre — disse ele, dando outra cutucada para enfatizar o ponto —, libertai meu Segundo Irmão, levai ambos até a saída da caverna, e considerarei não destruir vossos órgãos internos. Esta é a única oferta disponível.
— Você vai me matar — disse a feiticeira, entre gemidos.
— Não necessariamente. Isso depende inteiramente de quão cooperativa fordes nas próximas horas.
Houve um longo silêncio — o tipo de silêncio que ocorre quando uma pessoa está pesando suas opções e descobrindo que todas são ruins.
— Muito bem — disse a feiticeira, por fim.
Tang Sanzang havia passado a noite e a manhã trancado num corredor leste da caverna, atrás de uma grade de madeira vermelha, tentando meditar e tendo dificuldade considerável nisso porque o ambiente não era propício à serenidade. Rezou. Recitou sutras. Pensou em seus discípulos.
Quando a grade se abriu e a Feiticeira Rato apareceu — curvada numa postura estranha, como se carregasse algo pesado no interior do corpo — e disse, com uma voz que tinha pouco de sua arrogância habitual, que ele estava livre para ir, Tang Sanzang levantou-se com a calma de quem nunca duvidou que isso aconteceria.
— Obrigado — disse ele, com a cortesia genuína que sempre o caracterizara até com seus captores.
A feiticeira rangeu os dentes.
Zhu Bajie foi libertado em seguida, ainda amarrado à coluna, que teve que ser quebrada para soltá-lo porque ninguém havia pensado em trazer a chave. Ele emergiu da câmara lateral com o ancinho entortado e a expressão de quem tem muita coisa a dizer mas está guardando para o momento certo.
A feiticeira carregou Tang Sanzang nas costas pelos trezentos li de corredor sinuoso — porque Sun Wukong, lá dentro, insistia que era mais seguro assim —, subindo os degraus de pedra até a boca da caverna onde Sha Wujing esperava com o cavalo branco e uma expressão de alívio genuíno.
Quando saíram à luz do dia, Sun Wukong explodiu do ventre da feiticeira numa nuvem de luz dourada e poeira de pedra. A Feiticeira Rato caiu de joelhos, exausta e humilhada.
Sun Wukong aterrou na frente dela com o Bastão de Ouro erguido.
Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. Havia na face do Macaco algo que não era crueldade — era julgamento, frio e claro como água de montanha.
A Feiticeira Rato estava ajoelhada na pedra, exausta da travessia dos trezentos li com Sun Wukong dentro de seu ventre, o rosto cinzento com um tipo de cansaço que não era apenas físico. Mas havia nos olhos dela algo que Sun Wukong reconhecia porque havia visto nos próprios olhos, em espelhos, em espadas polidas, em qualquer superfície refletiva ao longo de cinco séculos de existência: a recusa em dobrar completamente.
— Sois filha de Tuo Ta Li Jing — disse Sun Wukong. Não era acusação. Era enumeração.
— Sou — disse ela.
— E irmã de Nezha.
— Sou.
— E cultivastes por trezentos anos junto à Montanha Espiritual.
Um silêncio. Depois, com uma voz que carregava algo que poderia ser vergonha ou poderia ser apenas cansaço:
— Fui à Montanha Espiritual. Inalei o perfume do Dharma. Aprendi os sutras de cor. — Ela olhou para ele com aqueles olhos antigos. — Mas aprendi-os como quem aprende a pronunciar palavras numa língua que não é a sua. As palavras eram corretas. A fome por baixo delas continuava.
— A fome por carne de monge — disse Sun Wukong.
— A fome — disse ela, simplesmente.
Tang Sanzang, que havia ficado em silêncio desde que emergiu da caverna, falou agora com aquela voz suave que usava mesmo quando o assunto era severo:
— Há caminho de volta para quem cultivou trezentos anos, mesmo que tenha errado. A Montanha Espiritual não fecha as portas assim.
A feiticeira olhou para o monge. Era um olhar longo e difícil — o olhar de quem foi ao Lingjiu buscar algo e não encontrou, ou encontrou e não soube como segurar.
— Eu sei — disse ela, por fim. E era a coisa mais honesta que havia dito desde que aparecera no portão do Templo Zhenhai fingindo ser uma mulher assustada.
Sun Wukong manteve o bastão erguido. A questão de Sha Wujing pairava no ar sem resposta.
— O que fazeis com um demônio que é filha de um Rei Celestial e irmã de Nezha? — murmurou Sha Wujing, a seus pés.
Era uma pergunta legítima, e Sun Wukong ainda não tinha a resposta completa. O bastão estava erguido, e o sol da tarde batia no metal dourado, e havia na feiticeira — naquela figura ajoelhada na pedra com trezentos anos de cultivo errado e um Macaco que havia destruído seus órgãos internos por dentro — algo que exigia uma resposta que não fosse apenas violência.
A resposta viria de Li Jing e de Nezha, convocados dos céus pela gravidade da situação. Viria com o peso de uma família celestial reconhecendo um de seus membros perdida no erro. Mas isso era o próximo capítulo da história. Por agora, no fim daquela tarde longa na encosta da Montanha Xianku, o Bastão de Ouro brilhava ao sol e Tang Sanzang estava livre, e os quatro peregrinos voltariam à estrada do Oeste assim que o que precisava ser resolvido fosse resolvido da maneira que devia ser.