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Capítulo 81: A Feiticeira Rato — O Mestre Raptado na Noite

Tang Sanzang adoece no Templo Zhenhai e uma feiticeira disfarçada de mulher em perigo rapta o mestre na calada da noite, levando-o para as profundezas da Caverna Sem Fundo.

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Havia algo de errado com o ar naquele trecho do caminho — uma umidade densa que se colava à pele como culpa antiga, uma névoa que não se dissolvia mesmo quando o sol estava alto. Os peregrinos sentiram antes mesmo de chegar ao Templo da Floresta Zen do Mar Tranquilo, o Zhenhai Chanlin Si, que aquele lugar pedia cautela.

Tang Sanzang foi o primeiro a sentir no corpo o que o espírito já havia percebido. Na terceira noite no templo, acordou com febre. Não a febre comum de quem pegou frio numa travessia de montanha — era uma febre estranha, que chegava em ondas e partia deixando o Mestre mais fraco do que antes, como se algo interno estivesse sendo lentamente consumido.

Os monges do templo cercaram-no com chás e compressas e orações, mas Sun Wukong, sentado numa pedra do jardim enquanto polía o Bastão de Ouro com a manga da roupa, não parecia preocupado.

— Não é doença — disse ele, quando Zhu Bajie veio perguntar com aquela expressão de porco genuinamente apreensivo. — É karma.

— Karma? — Bajie franzeu o focinho. — O Mestre tem karma de febre?

— Toda criatura que já nasceu tem karma. — Sun Wukong ergueu o bastão contra a luz e examinou o reflexo. — Quando o Mestre era discípulo do próprio Buda, num tempo tão antigo que nenhum de nós se lembra, adormeceu durante um sermão. Um único instante de descuido diante do Dharma — e um grão de arroz de karma é suficiente para uma doença de três dias.

Bajie ficou em silêncio por um momento, processando isso.

— Então vai passar?

— No quarto dia, quando o karma se esgotar.

E de fato, na manhã do quarto dia, Tang Sanzang acordou com a febre partida e o apetite restaurado. Os monges trataram isso como milagre. Sun Wukong tratou como contabilidade.


Mas o karma da febre não era o único karma que circulava naquela floresta.

Na noite do quarto dia, quando os peregrinos já preparavam a partida para o dia seguinte e o templo havia mergulhado no silêncio das horas pequenas, uma mulher apareceu no portão.

Era jovem — ou parecia ser. O rosto tinha aquela beleza perturbadora que não se explica por nenhuma característica específica mas que aperta o peito de quem olha. As roupas estavam rasgadas e sujas de lama, e ela segurava o portão com as duas mãos como se as pernas mal a sustentassem.

— Por favor — disse ela. — Estou perdida desde o pôr do sol. Há tigres na floresta. Estou sozinha.

Os monges do templo, homens de coração genuinamente bom mas de discernimento limitado em relação ao sobrenatural, abriram o portão sem hesitar. Tang Sanzang, que havia aprendido ao longo das eras que a compaixão não exclui a prudência mas que às vezes a sobrepõe, levantou-se de seu estrado para recebê-la.

Sun Wukong sentiu alguma coisa.

Era difícil nomear o que sentia — não era exatamente cheiro, não era exatamente visão, era algo que os olhos de ouro forjados no forno celestial de Laozi captavam antes que qualquer outro sentido fosse consultado. Havia ali um odor de terra e de sangue e de algo que habitava lugares subterrâneos há tempo demais.

Levantou-se, os olhos estreitados.

— Mestre — disse ele, com aquela voz baixa que usava quando a situação era séria —, não recebais esta mulher dentro do templo.

Tang Sanzang virou-se para ele com uma expressão de suave repreensão.

— Wukong, ela está com frio e com medo.

— Ela está com fome — disse Sun Wukong —, mas não do tipo de fome que um jantar resolve.

A mulher olhou para Sun Wukong com aqueles olhos que não eram olhos de mulher perdida — eram olhos antigos, calculistas, que avaliavam distâncias e forças e possibilidades —, e por uma fração de segundo algo passou por eles que Sun Wukong reconheceu: o reconhecimento mútuo de dois predadores num mesmo espaço.

Depois ela abaixou os olhos e voltou a ser uma mulher assustada, e Tang Sanzang disse ao discípulo que a deixasse em paz.

Sun Wukong não dormiu naquela noite. Sentou-se diante do quarto do Mestre com o Bastão de Ouro atravessado no colo, os olhos abertos na escuridão. Montou guarda com toda a atenção aprendida nas batalhas do Monte das Flores e Frutos, na Grande Confusão do Céu, nas centenas de confrontos pela estrada do Oeste.

E mesmo assim, a feiticeira o enganou.


Era quase a hora do Galo quando Sun Wukong sentiu o sono chegar — não o sono natural que vem do cansaço, mas aquele sono específico que foi enviado, plantado, construído por mãos que conheciam seu ofício. Lutou contra ele. Piscou. Sacudiu a cabeça.

E naquele momento de distração — uma fração de segundo, menos que isso —, sentiu algo mudar no quarto ao seu lado.

Entrou. Tang Sanzang havia desaparecido. No colchão onde o Mestre dormia, havia apenas um sapato — um sapato de mulher, bordado com flores, que quando Sun Wukong o tocou com o bastão se revelou um pedaço de madeira transformado por magia. O coração do Macaco gelou.

Saiu disparado pelo telhado do templo, os olhos varrendo a floresta em todas as direções. A noite estava densa e sem lua. Em algum lugar lá embaixo, a feiticeira carregava seu Mestre para um destino que Sun Wukong ainda não conhecia.

Transformou-se em Três Cabeças e Seis Braços — a forma de combate total, a que usava quando a situação não admitia economias — e começou a bater nas árvores da floresta de pinheiros com o Bastão de Ouro, uma por uma, até que do chão tremido emergissem dois vultos humildes: o Deus da Terra e o Deus da Montanha local, ajoelhados na lama com expressões de quem preferia estar em qualquer outro lugar.

— Falem — ordenou Sun Wukong. — Para onde ela o levou?

Os dois deuses trocaram um olhar nervoso. Depois o Deus da Montanha falou, com a voz de quem confessa algo que jamais deveria saber:

— É a Feiticeira Rato, Grande Sábio. Ela habita a Montanha Xianku — a Montanha do Espaço Oco —, a mil li ao sul daqui. A caverna se chama Wudi Dong — a Caverna Sem Fundo. Ela tem cultivado por trezentos anos junto à Montanha Espiritual, inalando a sagrada essência do budismo. Tem poder considerável.

— Trezentos anos — repetiu Sun Wukong, catalogando a informação. — E qual é a sua origem?

Novo olhar trocado. O Deus da Terra engoliu em seco.

— Ela é filha do Rei Celestial Tuo Ta — o que carrega a Torre. E irmã de Nezha.

Um silêncio caiu sobre a floresta de pinheiros.

Sun Wukong abaixou os braços extras devagar, como quem precisa de um momento para reorganizar o que sabe sobre o mundo.

— Filha de Li Jing — disse ele, por fim. — Irmã de Nezha. Uma rata que cultivou por trezentos anos junto ao Lingjiu e tem imunidade aos trovões celestiais por causa da linhagem paterna.

— Sim, Grande Sábio.

— E ela levou meu Mestre para uma caverna a mil li daqui.

— Sim, Grande Sábio.

Sun Wukong olhou para o horizonte sul. Depois voltou ao templo, onde Zhu Bajie e Sha Wujing haviam acordado com o barulho e agora estavam no corredor com expressões de confusão sonolenta.

— O Mestre foi raptado — disse Sun Wukong. — Há uma caverna a mil li ao sul. Vamos buscá-lo.

— Agora? — perguntou Bajie, olhando para a escuridão lá fora com evidente falta de entusiasmo.

— Ao amanhecer. — Sun Wukong sentou-se novamente diante do quarto vazio do Mestre. — Precisamos de um plano. E o Bajie vai ser o primeiro a descer.

— Eu? — Bajie apontou para si mesmo com o ancinho. — Por quê sempre eu?

— Porque tens a cara certa para a diplomacia — disse Sun Wukong. — Gorda, inofensiva, com um sorriso que inspira confiança equivocada.

— Isso é um insulto ou um elogio?

— É os dois ao mesmo tempo. As melhores ferramentas geralmente são.

Bajie bufou, mas sentou-se. Havia na sua expressão — por baixo da indignação performativa que era seu modo habitual de protestar — algo mais sério. Olhou para o colchão vazio do Mestre, para o pedaço de madeira que havia fingido ser um sapato de mulher, e disse:

— Ela planejou bem. A substituição do sapato para distrair, o sono enviado para te afastar, a janela de tempo precisa entre a meia-noite e a hora do Galo quando tudo está no seu ponto mais escuro. Não é uma feiticeira comum.

— Não — concordou Sun Wukong. — Trezentos anos de prática junto ao Lingjiu. Filha de Tuo Ta Li Jing, irmã de Nezha. Tem linhagem celestial e prática budista — é uma combinação rara e inconveniente.

— Os trovões não funcionam contra ela?

— Imunidade pela linhagem paterna. Os trovões são armas de Li Jing. Não pode alvejar sua própria filha.

— E o Bastão de Ouro?

— Funciona, — disse Sun Wukong, com aquela tranquilidade específica de quem já começou a calcular. — Mas precisamos chegar perto o suficiente para usá-lo, e uma caverna de trezentos li com uma feiticeira alerta não é o tipo de espaço onde entro agitando o bastão sem pensar antes.

Sha Wujing, que havia voltado ao corredor silenciosamente, disse:

— Por isso o Bajie entra primeiro como explorador.

— Por isso o Bajie entra primeiro — confirmou Sun Wukong. — Tu e eu, Sha Wujing, ficamos na entrada. E quando o Bajie sair — ou for capturado, o que é mais provável — eu entro com um método diferente.

— Que método? — perguntou Bajie.

— Ainda estou pensando nisso — disse Sun Wukong.

— Ótimo — disse Bajie. — Vou dormir um pouco. Que alguém me acorde quando tiveres um plano completo.

Zhu Bajie abriu a boca para protestar. Sha Wujing, prudentemente, voltou para o quarto.

A noite continuou, longa e carregada, sobre o Templo da Floresta Zen do Mar Tranquilo. E em algum lugar a mil li ao sul, no ventre escuro de uma montanha chamada Espaço Oco, Tang Sanzang esperava por seus discípulos sem saber que eles já haviam começado a planejar seu resgate.


Os monges do Templo Zhenhai descobriram o desaparecimento do Mestre ao amanhecer, quando o noviço mais jovem foi levar o chá matinal e encontrou o quarto vazio — apenas o pedaço de madeira transformado, que havia voltado à sua forma original quando a magia da madrugada se dissipou com a luz do sol, e que agora era apenas um pedaço de pinho comum no meio de um colchão vazio.

O Abade veio. Outros monges vieram. Todos olharam para o pedaço de madeira com a expressão de quem sabe que algo extraordinariamente mau aconteceu mas não sabe exatamente o quê.

Sun Wukong os encontrou todos no corredor quando voltou da floresta de pinheiros, após o interrogatório dos deuses locais.

— Vosso Mestre foi levado por uma demônio — disse ele, com a diretidade que era sua característica mais consistente. — Estamos indo buscá-lo. Não se preocupem mais do que o necessário.

— Mas — disse o Abade, com uma voz que oscilava entre o espanto e a teologia — como é possível que uma demônio entre nesta terra sagrada e rape um monge de santidade tão elevada, Grande Sábio? Este templo tem sido abençoado por gerações de mestres. As proteções espirituais—

— As proteções espirituais — disse Sun Wukong, com uma paciência que era mais áspera do que suave — não existem para criar bolhas de segurança onde nada ruim jamais acontece. Existem para garantir que, quando coisas ruins acontecem, a pessoa que as suporta tenha o que precisa para atravessá-las. Vosso Mestre tem o que precisa. Tem discípulos.

O Abade ficou em silêncio por um momento, processando essa teologia improvisada.

— E vós — disse ele, olhando para Sun Wukong com uma mistura de temor e curiosidade genuína —, ireis mesmo a uma caverna chamada Sem Fundo para resgatar o Mestre de uma feiticeira que é filha de um Rei Celestial?

— Eu fui ao céu e derrubei metade das estrelas — disse Sun Wukong. — Uma caverna é um trabalho de manhã.

O Abade fez uma reverência profunda. Depois fez mais uma. Depois ficou de pé com a expressão de quem está tentando decidir se isso foi uma resposta tranquilizadora ou a coisa mais assustadora que alguém lhe havia dito.

Zhu Bajie passou por ele carregando o ancinho e deu-lhe um tapinha amigável no ombro.

— Prepara um bom café da manhã quando voltarmos — disse ele. — Vou estar com muita fome.

E assim partiram: Sun Wukong na frente, os olhos dourados fixos no horizonte sul onde a Montanha Xianku esperava; Sha Wujing ao meio com a alabarda prateada; Zhu Bajie no fim com o ancinho de nove dentes e a expressão de alguém que já sabe que vai ter um dia difícil mas decidiu encarar assim mesmo.

O sol estava nascendo sobre as colinas do leste quando as três figuras sumiram no ar, voadasem direção à montanha onde seu Mestre estava preso. Os monges do Templo Zhenhai ficaram na porta, olhando para o céu até que não houvesse mais nada a ver. Depois voltaram para dentro e começaram a preparar o café da manhã.