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Capítulo 80: A Toca na Floresta — A Mulher Amarrada e a Armadilha do Demônio

Tang Sanzang encontra uma mulher amarrada a uma árvore e insiste em resgatá-la, contra o conselho de Sun Wukong. A mulher é isca de demônio e Tang Sanzang acaba capturado novamente.

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O inverno havia cedido sem cerimônia, da maneira que o inverno cede quando ninguém está prestando atenção — uma manhã a geada estava lá, na manhã seguinte havia apenas orvalho, e depois disso apenas a memória do frio que tinha estado. A estrada seguiu por planícies abertas e vales de rio onde os salgueiros começavam a mostrar o verde pálido que é a primeira promessa da primavera, e depois por colinas onde os pessegueiros tinham o rosa dos botões que ainda não decidiram se vão abrir.

Os peregrinos caminhavam com algo levemente diferente nos passos — não exatamente alegria, que nunca era garantia naquela estrada, mas a abertura que o fim de uma estação traz, a sensação de que o peso que se carregou sobreviveu a mais um ciclo.

Até que chegaram à floresta.

Era uma floresta densa de pinheiros que tinham crescido por tempo suficiente para desenvolver opiniões próprias sobre o espaço — os troncos eram colunas que se perdiam no alto antes que o olho pudesse acompanhá-los, as copas entrelaçadas criavam um teto que filtrava a luz em fatias finas e oblíquas, o chão coberto de musgos e raízes que se curvavam da terra como dedos de gigantes adormecidos que sonhavam que eram árvores. O silêncio ali era diferente do silêncio das planícies — mais espesso, mais presente, com a qualidade de silêncio que tem coisas nele que apenas esperam.

Tang Sanzang recolheu o manto e olhou para os lados com aquela cautela que havia aprendido ao longo de anos de caminho, a cautela de quem sabe que belas paisagens podem conter perigos proporcionais.

— Este lugar tem uma presença estranha. Sinto algo nos poros da pele que não sei nomear.

Sun Wukong não respondeu imediatamente. Seus olhos de ouro varriam as sombras entre as árvores com a atenção sistemática de quem faz inventário — esta sombra, depois aquela, depois a que está atrás da primeira. Havia energia espiritual difusa no ar, como fumaça de incêndio que passou há tempo suficiente para que o fogo fosse extinto mas não suficiente para que o odor dissipasse.

Algo está aqui. Ou esteve. Ou está esperando.

Avançaram devagar. O caminho entre as árvores era largo o suficiente para o cavalo branco, estreito o suficiente para que as raízes tropeçassem quem não prestava atenção aos pés. O silêncio era completo — nem o canto de pássaro que deveria existir naquela hora da tarde, nem o zumbido de inseto. O tipo de silêncio que acontece quando os animais locais perceberam algo e preferiram sair da linha de visão.

Depois, num tronco de pinheiro retorcido onde a casca havia crescido em espiral como coisa que havia tentado se virar para encarar algo que nunca chegou, Tang Sanzang viu a mulher.

Ela estava amarrada ao tronco com cordas grossas de fibra escura — os pulsos presos acima da cabeça, os pés mal tocando o chão, o corpo suspenso numa posição que deveria ser exaustiva depois de qualquer quantidade de tempo. A cabeça estava baixa, os cabelos soltos e embaraçados cobrindo o rosto com a completude de cortina tirada. As roupas haviam sido boas num tempo que havia passado — a seda agora rasgada em lugares precisos, como rasgo de mão que conhece tecido. Quieta demais para estar dormindo. Quieta da forma que não é escolha.

Tang Sanzang freou o cavalo branco imediatamente, com aquela reação automática de quem foi formado desde a infância pela ideia de que o sofrimento visível pede resposta imediata:

— Discípulos! Há uma pessoa em apuros ali.

Sun Wukong olhou para a mulher. Depois olhou para as sombras ao redor das árvores. Depois olhou de novo para a mulher com os olhos que haviam sido treinados por décadas a distinguir o verdadeiro do falso, o vivo do cultivado, o humano do que usa forma humana como roupa. Estava tentando ler o que havia ali, e o que havia ali era ambíguo de uma maneira que era, em si mesma, suspeita — criaturas demônio normalmente eram legíveis para quem sabia olhar. A ambiguidade podia ser disfarce sofisticado. Podia também ser humano genuíno.

A mulher exalava cheiro humano — suor, medo, o odor específico de alguém que passou dias sem comer. A temperatura era temperatura de ser vivo. Não havia aura de poder espiritual.

Pode ser isca. Pode ser humana de verdade. Se for isca e a libertar, armadilha. Se for humana e não a libertar, o mestre carrega isso por anos.

Mestre, esta floresta tem uma energia que não gosto. A ausência de pássaros é sinal. Não seria prudente parar aqui.

Wukong, há uma pessoa sofrendo a poucos passos de mim. Não posso passar e ignorar o sofrimento que está vendo.

— Pode ser uma armadilha.

— Pode ser. Mas pode ser uma pessoa inocente em perigo mortal que decidimos ignorar porque tínhamos pressa. Precisamos verificar.

Tang Sanzang desceu do cavalo sem esperar aprovação — era aquele tipo de decisão que o monge tomava com toda a gentileza do mundo, mas que era irrevogável desde o momento em que foi tomada, como pedra que já começou a cair. Foi até a mulher com a postura aberta de quem não pretende ameaçar. Tocou suavemente no ombro dela:

— Irmã, pode me ouvir? Estou aqui. Você está em segurança.

A mulher ergueu devagar a cabeça, com o peso de quem está usando forças que quase se esgotaram. Rosto bonito — não de maneira espetacular, mas com a beleza dos rostos que a vida tratou com algum cuidado antes de tratar sem nenhum. Os olhos estavam inchados de choro que havia cessado por exaustão. As marcas das cordas nos pulsos eram vermelhas e profundas. Quando viu o monge, as lágrimas voltaram, diferentes das anteriores — não de dor mas de alívio que não sabia onde pousar:

— Monge! Ajude-me, por favor! Fui capturada por bandidos que me amarraram aqui e foram buscar mais comparsas. Estou assim há dois dias. Se não me libertar logo, não aguento mais.

Tang Sanzang se virou para Sun Wukong com olhar que não convidava discussão.

Sun Wukong cortou as cordas com um gesto preciso do bastão — não porque estava convencido, mas porque havia aprendido, ao longo de anos, quando a batalha estava perdida antes de começar.

A mulher se levantou lentamente, apertando os pulsos com as mãos como se tentasse convencer a circulação de que havia voltado. Agradeceu efusivamente — palavras que saíam em torrente desordenada, a gratidão de quem estava segurando o descontrole por força pura. Tang Sanzang insistiu em levá-la até o próximo vilarejo. Ela disse que ficava distante e que estava machucada demais para andar aquela distância. Pediu para ser carregada, ou ao menos para caminhar junto ao grupo.

Sun Wukong interveio com a voz que escolhia suas palavras com precisão de quem sabe que tem apenas um argumento antes de o mestre tomar partido:

— O mestre não carrega pessoas. Mas posso guiá-la até a estrada principal, onde encontrará ajuda de viajantes passando.

— Estou com medo de ficar sozinha — disse ela, com a voz reduzida à textura de coisa pequena e assustada. — Há coisas nesta floresta. Senti durante os dois dias. Ruídos. Formas que passavam à noite.

— Nós também somos um pouco coisas que assustam — disse Zhu Bajie, que havia chegado ao lado do grupo com a curiosidade do porco que sempre quer saber o que estava acontecendo a que voltou da coleta de frutas para ver.

A mulher olhou para Zhu Bajie. E foi esse olhar que Sun Wukong notou — não o susto compreensível diante da face de porco e das orelhas que ventilavam sozinhas. Havia no olhar um brevíssimo momento de algo diferente, anterior ao susto: a avaliação. Um instante de medição — tamanho, posição, perigo potencial. A fração de segundo de um olhar que não estava com medo de Zhu Bajie mas estava avaliando se Zhu Bajie era obstáculo ou recurso.

Isso não é medo natural. Isso é reconhecimento seguido de cálculo.

Mas antes que Sun Wukong pudesse agir com base nessa leitura, a mulher caiu de joelhos diante de Tang Sanzang com a dramaturgia dos que sabem que a postura de súplica tem efeito específico em determinados tipos de pessoas:

— Monge sagrado, por favor, leve-me com vocês até a próxima cidade. Não tenho para onde ir. Marido morto, casa perdida, família dispersa pelos bandidos que fazem de conta que são donos desta estrada. Se me deixarem aqui, morrerei assim que anoitecer.

Tang Sanzang ergueu-a com as mãos que havia erguido muita coisa ao longo de muitos anos de caminho — com cuidado, como se o peso tivesse importância:

— Vamos com você. Não se preocupe.

Sun Wukong ficou para trás do grupo, observando. A mulher caminhava ao lado de Tang Sanzang, contando sua história em tom de quem distribui detalhes com atenção — marido morto numa escaramuça de estrada, casa queimada, irmãos dispersos, nenhum parente na direção do oeste. Era uma história triste e coerente demais. As histórias verdadeiramente tristes têm irregularidades, lacunas, detalhes que não combinam porque a memória da dor é assim. Esta história era redonda.

Mas o que mais prendia a atenção de Sun Wukong eram os olhos. A mulher contava a história para Tang Sanzang e o rosto voltado para o monge tinha a expressão de quem estava sofrendo. Mas quando ela olhava para os lados — para a floresta, para o caminho, para os pontos onde os três discípulos estavam — os olhos tinham outra luz. Não hostilidade visível. Apenas aquela atenção calculista de quem está administrando uma situação, notando quem está onde, medindo distâncias, fazendo geometria de um problema que não era o problema que estava sendo contado.

Vou ficar entre ela e o mestre.

A floresta foi ficando mais densa à medida que avançavam — os pinheiros mais próximos uns dos outros, o caminho mais estreito, a luz da tarde chegando em menos ângulos. E então, num ponto onde as árvores se abriam num círculo que parecia menos abertura natural e mais palco preparado, a mulher parou e disse:

— Estou exausta. Precisamos descansar um momento? Só um momento, prometo.

Tang Sanzang concordou. Os quatro pararam. Sun Wukong foi direto até a mulher, sem rodeios de introdução, e disse em voz suficientemente baixa para que apenas ela ouvisse:

— Você pode enganar o mestre. Não me engana.

A mulher ficou quieta por um instante. Depois sorriu — e este sorriso era diferente do anterior. Não tinha a camada de fragilidade. Não tinha a textura do sofrimento que a voz havia mantido por horas. Era o sorriso de quem estava cansado de manter a performance e encontrou, curiosamente, alívio em poder soltá-la:

— Você é mais atento do que parece, Sun Wukong.

— E você vai agora revelar o que é de verdade, ou vou revelar você.

Ela olhou para Tang Sanzang que estava sentado numa pedra com os olhos fechados em oração, os lábios em movimento silencioso. Olhou para Zhu Bajie que havia encontrado amoras nos arbustos da borda da clareira e estava visivelmente focado. Olhou para Sha Wujing que guardava as bagagens com a atenção de estátua que sonha.

Então, sem aviso, soltou um grito — não um grito de mulher mas o grito de chamado, aquele som específico que não é expressão de emoção mas instrução dirigida a ouvidos específicos.

O chão da floresta tremeu. Das sombras entre os pinheiros surgiram demônios — não muitos, seis ou oito criaturas de formas variadas que eram claramente subordinados e não os principais da operação, rápidos o suficiente para criar confusão mas não poderosos o suficiente para ser a ameaça real. A sua função era atenção dividida, e cumpriram bem.

Tang Sanzang abriu os olhos com o susto de alguém que foi arrancado da oração. A mulher aproveitou o instante de susto e o instante de distração que os demônios menores criaram, e saltou sobre o mestre com uma velocidade que nada tinha de mulher exausta e machucada — a velocidade de predador que havia esperado o momento certo com toda a paciência que a espera exigia.

Sun Wukong girou o bastão e avançou. Mas os demônios menores se atiraram sobre os três discípulos simultaneamente, criando exatamente a dispersão que a operação precisava.

A batalha foi curta — menos de dez minutos, porque os demônios menores eram fracos individualmente e apenas em conjunto criavam pressão real. Sun Wukong, Zhu Bajie e Sha Wujing varreram os seis em sequência rápida, como varrer folhas antes da chuva.

Quando a poeira assentou, Tang Sanzang havia desaparecido. A mulher havia desaparecido. A floresta estava quieta — mais quieta do que antes, se possível, como se a quietude que havia antes fosse apenas preparação para esta.

Sun Wukong olhou para os dois irmãos. Havia no ar aquele silêncio específico de quem sabe o que aconteceu e sabe que é necessário agir antes que o saber vire culpa.

— Vocês precisam parar de olhar para os lados e manter o mestre na linha de visão. Sempre. Em qualquer circunstância.

— Você também olhou para os lados — disse Zhu Bajie, com a honestidade direta de quem não aprendeu a calibrar o que diz com o que convém dizer.

— Eu estava lutando. O que você estava fazendo?

— Também lutando!

— Com quem? Eu vi você socando uma árvore por vinte segundos enquanto o demônio já havia mudado de direção.

Sha Wujing interveio antes que a discussão escalasse para o nível onde nenhuma das partes ouvia mais a outra:

— Onde está o mestre agora?

Sun Wukong farejou o ar — o cheiro espiritual que a demônio havia deixado era sutil, mas estava lá, como pegada em argila que os pés de vento não conseguem completamente apagar. Usou os olhos de ouro para ler o rastro da energia que havia passado por aquele ponto e o vetor que tomara.

— Por ali. Nordeste. Há uma montanha nessa direção que não está nos mapas que conheço, o que geralmente significa que está nos mapas de quem não quer que apareça nos outros.

Vamos.

E foram — os três discípulos deixando a clareira com passos que eram, cada um à sua maneira, a expressão de quem não pode parar de mover-se enquanto o mestre está perdido.