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Capítulo 79: O Demônio do Vento Lunar — Tang Sanzang Sequestrado de Novo

Os peregrinos enfrentam o Demônio Yin-Yang do Vento Lunar que rapta Tang Sanzang. Sun Wukong descobre que o monstro usa uma campainha mágica e busca ajuda do Bodhisattva da Estrela do Norte.

Sun Wukong Tang Sanzang Demônio do Vento Lunar campainha mágica reino de Bhiksha

O rei de Bhiksha mandou que os peregrinos fossem escoltados a pé por vinte li além dos portões da cidade — uma honra que tangenciava o exagero, mas que Tang Sanzang recebeu com a dignidade paciente de quem nunca aprendeu a dizer a alguém que estava sendo cortês em excesso. Somente quando os muros da cidade haviam desaparecido completamente atrás de uma colina é que o rei, por fim, concordou em virar e voltar, com o rosto marcado por aquela expressão de quem sabe que não merecia o que recebeu e não consegue encontrar palavras proporcionais ao peso disso.

Os quatro viajantes retomaram o caminho. O inverno persistia — não o frio violento da montanha, mas o frio sutil das planícies, que entrava pelos poros sem aviso e se instalava. Tang Sanzang cavalgava com o manto recolhido ao redor dos ombros, em silêncio de quem ainda carrega a imagem das crianças nas gaiolas e sabe que a memória vai demorar para perder a nitidez.

Mas havia algo que ainda precisava ser resolvido — algo que Sun Wukong sabia e havia guardado para o momento certo de dizer. A raposa branca havia chegado ao Reino de Bhiksha em companhia. Havia um demônio maior que a controlava, que a havia enviado como instrumento preciso de um plano elaborado. Um espírito do vento lunar chamado Pimian Hu que habitava as montanhas a nordeste da cidade, em caverna de pedra seca onde nunca crescia musgo e os pássaros desviavam o voo por instinto antigo.

Este demônio havia enviado a raposa como ponta de lança. Quando a raposa morreu e o plano falhou, o demônio soube — tinha sensores de espírito cultivado que funcionavam como nervos, sentindo o que acontecia com as criaturas sob seu controle. E decidiu que viria ele mesmo.

Chegou numa noite sem lua, quando os peregrinos já dormiam a léguas de distância do reino, acampados numa clareira entre pinheiros velhos. O vento passou pela tenda com aquela suavidade de cirurgião — preciso, sem desperdício — e quando passou, Tang Sanzang havia desaparecido do cobertor onde dormia, sem deixar sinal de luta, sem deixar som, como se a noite tivesse simplesmente decidido incorporá-lo.

Sun Wukong acordou com o desaparecimento — havia desenvolvido ao longo dos anos de guardar o mestre aquela vigilância parcial que permitia ao corpo dormir enquanto uma camada da consciência permanecia de plantão, sentindo variações no ar, no cheiro, no silêncio que era diferente do silêncio anterior. Saltou da posição de sono para fora da tenda num único movimento, sem a transição de torpor que aflige os mortais.

No horizonte, uma nuvem escura se afastava rapidamente para o nordeste — muito rapidamente, com aquela velocidade que não é de nuvem mas de coisa que usa a nuvem como disfarce. No centro da nuvem, uma silhueta branca que era o manto de Tang Sanzang.

— Porco! Sha Wujing! Acordem!

Saíram da tenda atordoados — Zhu Bajie com o ancinho já na mão por reflexo, Sha Wujing de pé com o cajado antes que os olhos abrissem completamente. Em dois segundos Sun Wukong havia explicado o essencial com a economia de quem não tem tempo para detalhes, e subiu ao ar perseguindo a nuvem escura.

A nuvem era mais rápida do que qualquer nuvem deveria ser. Sun Wukong colocou toda a velocidade da sua nuvem de nascente — a mais rápida que um ser mortal podia montar, aquela que percorria cem e oitenta mil li num único salto —, e mal conseguia manter a distância constante. Era como perseguir o próprio vento, que não tem forma para segurar nem peso para ancorar.

A nuvem entrou numa montanha de pedra cinzenta e seca que se erguia da planície como dente de animal extinto — sem árvores, sem vegetação, com o aspecto de lugar que nunca foi amigável a nenhuma forma de vida. Sun Wukong havia passado perto dali no dia anterior, em algum momento, e a montanha havia parecido vazia. Vazia da maneira que certos lugares parecem quando aquilo que os habita sabe como fazer-se invisível.

Voou em volta da montanha três vezes, mapeando, os olhos de ouro lendo as superfícies de pedra como texto. Havia uma gruta — uma única entrada, no sopé norte, com portões de pedra que tinham bordas iguais demais para serem obra do acaso. As paredes ao redor tinham marcas de fogo velho, e o chão à frente dos portões tinha a aparência polida de onde muitas patas e pés tinham passado ao longo de muito tempo.

Entrou.

O interior da montanha era elaborado de uma maneira que contrastava com a aridez exterior — corredores com paredes de pedra cortadas em ângulos regulares, tochas que ardiam com uma chama verde que não crepitava, câmaras que se comunicavam por passagens estreitas onde o eco era preciso e incomum. O lugar havia sido construído — ou escavado — por algo que sabia o que estava fazendo.

O demônio do vento lunar estava na câmara central. Era uma criatura de aparência humana mas de natureza claramente outra — o corpo tinha a consistência levemente errada de quem existe simultaneamente em mais de um estado, como névoa que decidiu ter ossos. Os olhos eram como luas cheias, com o brilho frio da luz refletida que não aquece. Os cabelos flutuavam permanentemente mesmo sem brisa dentro da câmara, respondendo a ventos que não existiam no plano físico. Na mão direita, uma campainha de bronze — pequena, do tamanho de uma mão fechada, com entalhes que pareciam escritura de um idioma que ninguém mais usava. Quando tocada, aquela campainha criava vento — não o vento simples de corrente de ar, mas vento com direção e intenção, que carregava qualquer ser para onde o demônio determinasse, independentemente de quanto esse ser resistisse.

Tang Sanzang estava numa câmara lateral, amarrado com cordas de seda trançada que tinham sido impregnadas com algum feitiço de imobilização. Saudou Sun Wukong com os olhos que marejaram, mas sem uma palavra — havia descoberto, nos minutos dentro da gruta, que qualquer som que fizesse era amplificado pela pedra e chegava instantaneamente aos ouvidos do demônio, que usava essa amplificação como sistema de alarme.

Sun Wukong tentou desamarrar o mestre. Antes que o primeiro nó cedesse, o demônio apareceu na entrada da câmara lateral com aquela silenciosidade que os seres de vento têm, que chegam no instante anterior ao som da chegada.

— Sun Wukong — disse o demônio, com aquela voz que era ao mesmo tempo audível e longínqua, como vento que traz palavras de outra direção. — Vim buscar o que a raposa não conseguiu trazer. Não precisas lutar. Deixa o monge e vai. Tua missão pode continuar com outros meios.

— Minha missão continua com este mestre e não com outros — disse Sun Wukong, e o bastão apareceu na mão como extensão do pensamento.

A batalha foi ao ar livre — Sun Wukong empurrou para fora por cuidado com Tang Sanzang, que ainda estava preso e não podia mover-se, e porque a câmara era pequena demais para dar ao bastão o espaço que precisava. Saíram para o sopé da montanha, onde o céu ainda tinha estrelas e a terra tinha espaço.

O demônio tocou a campainha. O som foi pequeno — surpreendentemente pequeno para o que produzia. O vento veio como resposta imediata, não de uma direção mas de todas as direções simultaneamente, com aquela inteligência perturbadora de força física que obedece a intenção. Envolvia Sun Wukong de todos os lados ao mesmo tempo, tentando jogá-lo, girá-lo, desorientá-lo, separar o bastão das mãos pela simples persistência de pressão distribuída.

Sun Wukong resistiu. A nuvem de nascente, que habitava os seus pés mesmo no solo, era mais poderosa que o vento da campainha por alguns metros de distância — enquanto ele estava perto do demônio, o vento se dissipava antes de ganhar força suficiente. Mas a distância cresceu, e quando o demônio tocou a campainha três vezes em sequência rápida, os ventos acumulados somaram-se uns aos outros, ondas que se amplificavam, e Sun Wukong foi arremessado contra o penhasco com a força de coisa que não tem piedade porque não foi feita para ter piedade.

Caiu. A pedra contra as costas foi violenta. Levantou. Havia um corte na testa que sangrava com aquela impassibilidade do sangue, que não sabe distinguir situações.

O demônio voltou para dentro da montanha e fechou os portões de pedra com um som que era também, de certa forma, um comentário.

Sun Wukong ficou diante da montanha fechada, limpando o sangue da testa com o dorso da mão, fazendo o inventário da situação. Precisava de algo que combatesse vento com vento, que pudesse neutralizar a campainha ou torná-la inútil. O Oficial do Vento era subordinado do Imperador de Jade — mas havia pedido ajuda ao imperador recentemente e os resultados haviam sido variáveis. O Rei Dragão controlava água, não vento. Os deuses da chuva controlavam água disfarçada de vento.

Quem controla o vento do norte?

O norte. O polo. Havia no extremo norte celestial um Bodhisattva que habitava a constelação setentrional e tinha domínio sobre os ventos do polo — ventos que eram mais antigos que a maioria das criaturas celestiais, ventos que haviam existido antes de grande parte das formas que conhecia. Subiu às estrelas.

O palácio do Bodhisattva do Norte era feito de gelo — não o gelo frágil e transitório do inverno, mas gelo que nunca derretia porque existia num plano onde as estações não chegavam. O Bodhisattva estava sentado sobre um golfinho negro cujas barbatanas tinham o lento movimento de coisa que nada em água que não é visível para olhos comuns.

Grande Sábio Sun — disse o Bodhisattva, com voz que tinha a temperatura do espaço entre estrelas — você tem a aparência de quem lutou recentemente e saiu com desvantagem.

— Lutei e levei o pior. Há um demônio do vento lunar no sudoeste que sequestrou meu mestre com uma campainha mágica que cria vento com intenção. Preciso de algo capaz de neutralizar esse vento ou de inverter seu efeito.

— Tenho um animal que pode ajudar com isso. — O Bodhisattva assoviou — um som que era ao mesmo tempo humano e completamente não humano. Do exterior do palácio de gelo veio um pássaro de penas pretas como carvão de pedra, olhos dourados que tinham no centro uma faísca vermelha, com algo na postura e na qualidade do ar ao redor que fazia pensar em trovão que escolheu a forma de pássaro temporariamente. — Este é o Corvo da Tempestade Polar. Quando grita, o vento contrário para. Qualquer vento artificial — feitiço, campainha, instrumento de demônio — dissolve-se ao contato com o grito deste corvo. É a qualidade específica deste animal.

— Posso levá-lo de volta comigo?

— Ele vai com você. Mas volta quando o trabalho acabar. Não é animal de empréstimo permanente.

O Corvo da Tempestade Polar voou ao lado de Sun Wukong de volta ao sul com aquela serenidade das criaturas que são poderosas o suficiente para não precisar de pressa. Quando chegaram à montanha de pedra seca, Sun Wukong bateu nos portões de pedra com o bastão e chamou o demônio com os insultos específicos que sabia que faziam o tipo de criatura orgulhosa sair.

O demônio saiu. Tocou a campainha. O vento veio como antes, de todos os lados, com aquela inteligência perturbadora.

O corvo soltou um grito.

Não era som de pássaro — era algo entre trovão distante e instrumentos de bronze tocados ao mesmo tempo por músicos que não se ouvirão entre si. O grito percorreu o vento como calor percorre metal — de ponta a ponta, instantaneamente — e o vento da campainha dobrou sobre si mesmo como coisa que perdeu a instrução, dissipando-se em todas as direções sem destino.

O demônio ficou parado, olhando para a campainha com a expressão de quem descobre que o instrumento em que confiava não é mais confiável. Aquela pausa durou apenas um instante — mas Sun Wukong havia passado anos aprendendo a usar o instante.

Atacou. Sem o vento para interferir, o bastão de ouro era o que sempre havia sido — a arma de quem havia lutado os generais celestiais, tinha a força de quem carregava montanhas, e nunca havia aprendido a segurar. Três golpes — o primeiro desequilibrou, o segundo derrubou, o terceiro fechou o argumento.

O demônio estava no chão com o bastão horizontal sobre o peito.

— Onde está meu mestre?

— Câmara das pedras brancas — disse o demônio, com a voz que havia perdido toda a qualidade longínqua. — Ao fundo da segunda galeria à esquerda. Nas cordas de seda. Vivo.

Sun Wukong correu. Os corredores da gruta eram longos mas havia aprendido a topografia na visita anterior. A segunda galeria à esquerda, as pedras brancas que contrastavam com a pedra cinzenta habitual da montanha. Tang Sanzang estava ali, exatamente como descrito — de pé contra a parede, amarrado com cordas de seda que tinham resistido às tentativas anteriores mas cederam ao bastão de ouro aplicado com precisão cirúrgica.

O mestre ficou quieto por um momento quando as cordas caíram. Depois disse, com aquela voz que é de alguém exausto mas que ainda encontrou algo para ser wry a respeito:

— Sempre que adormeço em campo aberto, algo acontece. Começo a pensar que deveria simplesmente parar de dormir.

— A próxima vez que for dormir, amarre uma corda no meu tornozelo — disse Sun Wukong.

— Isso não é muito prático.

— Não, não é. Vamos embora antes que esse demônio recobre o juízo.

Saíram pela entrada principal. O Corvo da Tempestade Polar esperava do lado de fora com a paciência de quem não tem pressa porque o trabalho já estava feito. Sun Wukong agradeceu ao pássaro com uma reverência — havia aprendido, ao longo dos anos, que as criaturas poderosas apreciavam gestos de reconhecimento mais do que as criaturas fracas. O corvo abriu as asas enormes, bateu uma vez, duas, e subiu em direção ao norte com aquele voo que não lutava contra o ar mas usava o ar como escorregador.

Zhu Bajie e Sha Wujing os esperavam na estrada com o cavalo branco e a bagagem intacta. Zhu Bajie havia comido metade das provisões de viagem enquanto esperava — mas havia deixado a outra metade com uma consciência que, para ele, equivalia a heroísmo.

— Tinha fome — explicou ele, sem nenhuma inflexão de culpa. — Além disso, pensei que talvez o mestre não voltasse e fosse desperdício.

— Que raciocínio reconfortante — disse Tang Sanzang.

— Sempre tento — disse Zhu Bajie.

Seguiram para o Ocidente antes que o dia terminasse. A estrada à frente estava clara. O frio persistia mas havia na luz da tarde algo diferente — uma qualidade de fim de estação, como se o inverno começasse a fazer as contas e perceber que já havia cobrado o suficiente.