Capítulo 78: O Reino de Bhiksha — Crianças no Cozinhado e o Doutor Disfarçado
Os peregrinos chegam ao Reino de Bhiksha onde o rei, seduzido por uma raposa, ordena a extração dos corações de 1111 crianças para fazer medicamento. Sun Wukong disfarça-se de médico para investigar.
Era inverno quando chegaram ao Reino de Bhiksha, e o frio que varria aquelas planícies era do tipo que entrava pelos ossos antes de avisar. A estrada havia estreitado nos últimos dias, os campos ao redor cobertos por uma geada que tornava cada folha de grama uma escultura de vidro. Os peregrinos viajavam com o manto apertado ao corpo, o cavalo branco soprando nuvens de vapor pelas narinas, os quatro em silêncio de quem carregou muito e tem agora apenas o peso dos próprios passos.
Num fim de tarde cor de chumbo, uma cidade apareceu entre colinas — muralha alta de pedra cinzenta, bandeiras que estalavam no vento com cores que os peregrinos não conseguiam identificar a essa distância, portões abertos com guardas que se moviam com a lentidão dos que entraram no ritmo de uma rotina longa demais. Tang Sanzang disse:
— Parece um reino próspero. Vamos buscar carimbo no salvo-conduto e uma noite de descanso com teto e fogo. Meus ossos agradecem.
Mas ao entrarem pelas ruas, Sun Wukong notou algo errado antes que pudesse nomear o que era — um desconforto que chegava pelos sentidos todos ao mesmo tempo, não por nenhum em particular. As casas tinham lanternas acesas muito cedo, lanternas vermelhas que não eram de celebração mas tinham aquela cor de alerta que os pulmões reconheciam antes da mente. E os rostos das pessoas nas janelas — quando havia rostos — tinham a expressão de quem guarda segredo doloroso que ninguém pediu que guardassem mas que não têm como contar.
Os mercados estavam abertos mas vazios de vozes. As crianças que normalmente encheriam as ruas a essa hora não estavam em parte alguma.
Numa esquina, uma mulher chorava com um cesto vazio no colo. Sun Wukong se aproximou, transformando a postura para algo menos ameaçador — havia aprendido que a aparência não lhe favorecia quando queria obter informações em vez de capitulação.
— Por que chora, boa senhora?
A mulher ergueu o rosto enxaguado de lágrimas — um rosto que havia sido jovem não muito tempo antes e que o luto havia envelhecido com pressa cruel.
— Meu filho foi levado para o palácio. Junto com mais de mil outros filhos desta cidade. O rei os recolheu em nome de um remédio...
— Que remédio?
A mulher olhou para os lados com o reflexo aprendido de quem viveu semanas tendo cuidado com o que dizia perto de quem:
— Um demônio que se hospedou no palácio disse ao rei que para curar a doença do soberano é preciso o coração de exatamente mil e cento e onze crianças inocentes, cozinhado com determinadas ervas. O rei mandou recolher todas as crianças da cidade acima de três anos e abaixo de sete. Estão guardadas no palácio em gaiolas de ouro e cestos de prata, esperando que o dia do remédio chegue. Os pais sabem. Não podem fazer nada. A lei do rei é a lei do rei.
A mulher olhou para o cesto vazio como se ainda esperasse que ele pudesse conter o que havia perdido.
Sun Wukong não disse mais nada. Voltou até Tang Sanzang, que havia ouvido o suficiente a distância para que o rosto já estivesse branco.
— Mestre, há seriedade aqui. Precisamos entrar no palácio esta noite.
Tang Sanzang foi apresentar o salvo-conduto ao rei com a compostura de quem carrega por dentro uma agitação que nenhum voto de serenidade consegue completamente silenciar. O rei os recebeu numa câmara de audiência — um homem de aspecto adoentado, os olhos com aquela febre específica de quem está doente há tanto tempo que começa a confundir o ardor da doença com o ardor de viver, que falava com a lentidão deliberada de quem está acostumado a ser obedecido mesmo quando diz absurdos.
— Monge da Grande Tang — disse o rei — você chega em boa hora. Estou preparando um grande remédio que me curará definitivamente. Os ingredientes especiais estão quase prontos. O dia auspicioso foi marcado.
— Que ingredientes são esses, Majestade? — perguntou Tang Sanzang com voz cuidadosa como quem anda sobre gelo que não sabe a espessura.
— Corações de criança. Uma conselheira de grande sabedoria me garantiu que este é o único remédio para minha enfermidade. Um elixir de longevidade que somente pode ser preparado com esse ingrediente específico.
— Que conselheira?
— A senhora Jinzhi. Chegou há três anos, extraordinariamente bela e sábia. Está no palácio conosco, próxima ao trono. Sem ela, eu já teria morrido da doença que me corrói há anos.
Sun Wukong pediu licença ao mestre com um aceno de olhos — aquele aceno que os dois haviam desenvolvido ao longo de anos de viagem e que não precisava de palavras porque as palavras teriam sido demoradas demais. Tang Sanzang entendeu e continuou a conversa enquanto Sun Wukong desaparecia.
A forma de abelha era pequena o suficiente para passar pelas frestas das janelas, pelos intervalos entre pedras ornamentadas, pelos corredores guardados sem que os guardas soubessem que estavam sendo guardados. Sun Wukong voou pelos corredores do palácio com o zumbido suave que era invisível no barulho dos passos e das vozes.
Encontrou as gaiolas de ouro onde as crianças estavam — um salão enorme, mal iluminado, que havia sido convertido de sala de recepções a depósito de vidas pequenas. As gaiolas estavam dispostas em filas, cada uma com uma criança dentro. Mais de mil delas, a maioria quieta com aquela quietude que não é paz mas exaustão de chorar. As faces eram pálidas como papel. Algumas dormiam com o corpo dobrado no espaço insuficiente. Algumas seguravam as barras douradas com mãos minúsculas que apertavam e abriam e apertavam novamente. Algumas olhavam para dentro do escuro com olhos que já não esperavam resposta.
Sun Wukong ficou parado no ar por um segundo — apenas um segundo — e nesse segundo houve algo no seu peito que não era raiva ainda mas era a substância de que a raiva seria feita.
Depois voou até o aposento da conselheira Jinzhi.
Era uma mulher de beleza extraordinária — pele como neve de primeira queda, cabelo como nuvem negra bem antes da chuva, lábios vermelhos que não deviam nada a nenhum artifício. Estava sentada olhando para um espelho de bronze polido quando a abelha pousou na borda do aposento, atrás dela, em posição que via o reflexo.
Sun Wukong olhou para o espelho com os olhos que viam além do ver ordinário.
O espelho mostrava, atrás da figura humana elegante, a verdadeira forma — não como sobreposição mas como o que estava por baixo, como a estrutura de um edifício vista através das paredes. Uma raposa velha, de pelo branco como algodão de inverno e olhos amarelos que continham séculos de paciência e cálculo, que havia aprendido ao longo de gerações a se transformar em mulher bela com a mesma facilidade que outros aprendem a escrever o próprio nome. Mil anos de cultivo espiritual haviam feito dela algo quase humano na aparência — mas a aparência nunca chegou ao âmago, e o âmago era raposa.
Sun Wukong voltou para Tang Sanzang antes que o demônio notasse a visita.
— É uma raposa branca de idades, mestre — disse em voz baixa, de modo que apenas o monge ouvia. — Está manipulando o rei. Chegou como presente de um velho disfarçado de taoísta, instalou-se como favorita, adoeceu o rei com seus métodos de absorção vital, e agora precisa dos corações para algum elixir que completa o processo. As crianças não serão tocadas se eu resolver isso primeiro.
— Como você vai resolver?
— Da maneira habitual.
Tang Sanzang colocou a mão no braço do discípulo — um gesto que havia se repetido muitas vezes ao longo de anos de caminho, e que carregava em si toda a história desses anos:
— Wukong. As crianças primeiro. Qualquer coisa que ameace machucá-las, você impede antes de tudo. O rei e o demônio depois.
— Entendido. Mas as crianças precisam sair desta cidade esta noite, antes que o rei envie alguém buscá-las para o remédio amanhã de manhã. Preciso do auxílio dos deuses locais.
— Faça o que for necessário.
Naquela noite, enquanto Tang Sanzang, Zhu Bajie e Sha Wujing ficavam em oração ritmada — Namo ao Buda da Medicina, salvai as vidas —, Sun Wukong subiu ao ar e invocou com um assovio as divindades menores que guardavam aquele território. O deus da cidade compareceu. Os deuses locais dos cinco pontos cardeais compareceram. Os guardiões menores do templo compareceram. Sun Wukong explicou brevemente e deu instruções precisas.
Um vento frio e suave desceu pelas ruas do Reino de Bhiksha. Não o vento violento de tempestade, mas o vento cuidadoso de quem transporta coisa frágil. As lanternas balançaram. As portas rangeram. E das gaiolas de ouro do palácio, as mais de mil crianças foram retiradas gentilmente, gaiolas e tudo, e levadas para vales e bosques ao redor da cidade, onde os deuses guardiões ficariam de vigia até que o perigo passasse, com frutas à mão e a instrução de não deixar nenhuma criança ter medo.
Quando os pais acordaram de manhã, as gaiolas nas suas portas estavam vazias. Havia pânico no palácio antes que o sol chegasse ao alto.
Sun Wukong voltou ao palácio, desta vez sem disfarce, e foi direto até o rei com a postura de quem tem autoridade que não depende de permissão:
— Majestade, ouvi dizer que Vossa Excelência procura remédio para sua enfermidade. Sou médico de grande reputação e experiência. Posso curar qualquer mal sem necessidade de ingredientes tão extremos quanto os que lhe foram receitados.
O rei olhou para ele com desconfiança temperada pela desesperança de quem está doente há tempo demais para ter o luxo de ser exigente:
— Minha conselheira Jinzhi garantiu que somente o coração de criança inocente poderia—
— Sua conselheira está enganada. Ou pior — e Sun Wukong disse isso com a precisão de quem escolhe palavras como cirurgião escolhe instrumentos — está enganando-o de forma deliberada para fins próprios.
Um sussurro percorreu a corte. A conselheira Jinzhi, que havia entrado no salão com aquela elegância que ela controlava como instrumento, ergueu a cabeça com uma serenidade que era quase admirável — a serenidade de quem treinou por séculos para não mostrar o que está sentindo.
— Este monge é um intruso — disse ela, suave como veneno em mel, com a voz que havia seduzido o rei por três anos. — Como ousaria questionar meu conselho, dado com décadas de estudo das artes medicinais?
— Porque sou mais velho que seus estudos, mais que seus séculos, e porque conheço o que você é por dentro mesmo que por fora pareça humana. — Sun Wukong pausou apenas um instante, calculando o efeito. — E porque a prova está no espelho de bronze que guarda em seu aposento privado.
O silêncio na corte foi absoluto. Aquele tipo de silêncio que tem peso.
O rei disse devagar, com a hesitação de quem não quer saber e sabe que precisa:
— O que há num espelho?
Dois guardas foram enviados. Voltaram com o espelho de bronze. O rei o olhou, procurando o que devia procurar. No bronze polido, a figura de Jinzhi aparecia — mas ligeiramente deslocada de si mesma, como se a superfície reflexiva conhecesse a verdade que os olhos mortais não conseguiam decifrar. Uma forma animal pulsando por baixo da forma humana, como brasa sob cinzas que ainda não esfriaram.
Jinzhi percebeu que havia perdido o jogo antes que o rei terminasse de olhar. Saltou da cadeira como mola de aço comprimida, transformou-se na raposa branca gigante em plena queda — três metros de comprimento, pelo branco como algodão, cauda em leque amplo — e correu pela janela do salão com uma velocidade que fez os guardas recuarem instintivamente.
Sun Wukong a perseguiu pelos corredores do palácio com a determinação simples de quem não tem outros planos mais urgentes. Ela era rápida — séculos de cultivar a forma física haviam tornado aquela raposa algo entre animal e vento. Mas Sun Wukong era mais rápido, e mais importante, conhecia os padrões: as criaturas que fogem em linha reta quando entram em pânico, e as que fazem curvas. Ela fazia curvas. Ele antecipou.
Na muralha do palácio, quando ela estava a meio salto da liberdade e da fuga para as montanhas onde poderia esconder-se por outros séculos, o bastão de ouro atingiu suas pernas traseiras com a precisão de quem está, precisamente, onde precisa estar.
A raposa caiu. Rolou. Se transformou de volta em mulher com uma rapidez que era desespero disfarçado de elegância, ajoelhou-se, e começou a pedir misericórdia com a voz que havia convencido um rei por três anos.
— Eu não ia machucar as crianças de verdade. Era apenas pressão necessária para conseguir outros objetivos. Há equívocos que podem ser explicados—
— Você passou três anos planejando a morte de mais de mil crianças — disse Sun Wukong.
— Os objetivos eram apenas a absorção da essência yang do rei para completar meu cultivo. As crianças eram... método. Há outros métodos.
— Seus objetivos acabaram aqui — disse Sun Wukong, e golpeou.
As crianças foram devolvidas às famílias naquela mesma noite — os deuses guardiões trazendo cada gaiola de volta ao lar correspondente com aquela precisão silenciosa que é o sinal das divindades menores que levam o trabalho a sério. O som que se espalhou pela cidade era composto de choro — mas choro diferente do que havia durado semanas, choro de quem reencontrou o que havia perdido e não consegue parar de verificar se é real.
O rei, libertado da influência que havia consumido três anos de julgamento junto com a saúde, curvou-se diante de Tang Sanzang com uma vergonha genuína e sem adornos — não a vergonha performática dos que querem aparecer arrependidos, mas a vergonha silenciosa de quem entende o que fez e não tem como desfazê-lo completamente.
Tang Sanzang o absolveu com a gentileza de sempre — aquela gentileza que não era fraqueza mas escolha ativa e repetida, todos os dias da viagem, de tratar cada ser humano como capaz de mais do que havia feito.
Partiram na manhã seguinte. O salvo-conduto estava carimbado. O sol havia saído de uma camada de nuvens de inverno com aquela luz oblíqua que era, naquela hora, a coisa mais bela da paisagem. E do lado de dentro das muralhas da cidade que ficava para trás, o som de mães reunidas com filhos ecoava pelas pedras como alguma coisa que não precisava de nome para ser reconhecida.