Capítulo 73: O Veneno da Centopeia — Sun Wukong Busca a Mestra Pilan para Quebrar a Luz Dourada
Tang Sanzang e seus discípulos são envenenados pelo Demônio dos Cem Olhos. Sun Wukong, após escapar da armadilha da luz dourada, busca ajuda da Bodhisattva Pilan para salvar o mestre.
Saíram da gruta das aranhas e tomaram a estrada, ainda levando a fumaça do incêndio nas narinas. O sol estava alto quando apareceram diante deles torres e pavilhões entre colinas — uma construção elegante cercada de flores silvestres e salgueiros.
Tang Sanzang disse:
— Aquilo parece um templo taoísta. Vamos descansar um pouco.
Uma placa de pedra na entrada lia: Observatório da Flor Amarela. Zhu Bajie aprovou:
— Templos taoístas são de bom convívio. Embora sejamos de tradições diferentes, todos estamos cultivando o Caminho.
Entraram. No corredor leste, um homem taoísta estava sentado sozinho fazendo pílulas com as mãos — um homem de rosto estranho, nariz grande e pontiagudo, lábios espessos, olhos como estrelas distantes, vestido de negro com bordas douradas.
Tang Sanzang o cumprimentou. O taoísta ficou assustado ao vê-los — mas se recompôs rapidamente e fez uma reverência:
— Monge de terras distantes! Perdão por não ter ido recebê-lo. Entre.
Serviram chá. Conversaram. O taoísta mandou os serventes preparar uma refeição.
O que nenhum dos peregrinos sabia era que nas câmaras traseiras do observatório estavam as sete aranhas que haviam escapado quando Sun Wukong destruíra a gruta. Elas se haviam refugiado aqui — pois este taoísta era seu irmão de estudos, colega dos mesmos anos de aprendizado.
Quando o servente foi buscar o chá, uma das aranhas o interceptou no corredor:
— Há um monge gordo lá fora e um de cara de macaco?
— Sim.
— E o de braços compridos e o de pele escura?
— Todos os quatro.
A aranha — ainda em forma humana — sorriu:
— Perfeito. Diga ao mestre para nos chamar depois de servir o chá.
O taoísta saiu com desculpas de ir ao fundo do observatório e voltou minutos depois com expressão modificada — havia recebido o relato das sete irmãs. Mandou trocar o chá.
Sun Wukong estava com a tigela na mão quando percebeu. A tigela do taoísta estava diferente — dois tâmaras negras em vez de três vermelhas. Disse em voz alta:
— Taoísta, troque minha tigela pela sua. Quero essa.
O taoísta sorriu:
— A minha é inferior. São tâmaras menores porque sou eu quem serve, não o convidado.
— Mas eu prefiro essa.
— Não faz sentido, monge. Beba o que temos.
Tang Sanzang, ao lado:
— Wukong, o anfitrião oferece com generosidade. Não seja difícil.
Sun Wukong pegou a tigela com a mão esquerda, colocou por cima a palma direita, e observou os outros beberem. Zhu Bajie, faminto, engoliu tudo incluindo as tâmaras. Sha Wujing bebeu. Tang Sanzang bebeu.
Momentos depois, os rostos mudaram. Zhu Bajie ficou verde. Sha Wujing chorava sem saber por quê. Tang Sanzang cuspiu espuma.
Todos três desabaram.
Sun Wukong jogou a tigela no rosto do taoísta. O taoísta desviou com a manga, mas a tigela quebrou no chão com um estalo seco. Ergueu-se furioso:
— Você é muito grosseiro, monge. Por quê—
— Veneno — disse Sun Wukong. — Você envenenou meu mestre e meus irmãos. Sei que conhecia as sete aranhas. Sei que elas vieram aqui. E agora eu vou lhe dar o que você merece.
Tirou o bastão de ouro da orelha, fez girar sobre a cabeça.
O taoísta tirou uma espada e atacou.
Eles lutaram. Do fundo do observatório vieram as sete aranhas — que desta vez jorraram fios dos umbigos e lançaram uma teia sobre Sun Wukong. Mas Sun Wukong tinha aprendido. Jogou o corpo para trás, virou uma cambalhota, e saiu pela abertura antes que a teia fechasse.
Ficou fora, ofegante, olhando para o observatório agora coberto de fios de seda — todos os pavilhões, todos os telhados, invisíveis sob a teia branca e brilhante.
— Não posso entrar assim. E meu mestre está lá dentro envenenado. Três dias no máximo antes que o veneno dissolva os ossos.
Voltou ao espírito da terra.
— Quem é esse taoísta?
— É o Senhor dos Cem Olhos. Também chamado de Demônio dos Múltiplos Olhos.
— E as aranhas são irmãs dele?
— Companheiras de estudo, há muitos anos.
— Posso derrotá-lo sozinho?
— Grande Sábio, a luz dourada que ele projeta dos olhos nas costelas — mil raios ao mesmo tempo — é impossível de penetrar. Você precisaria de alguém que quebre essa luz.
— Quem pode fazer isso?
O espírito da terra hesitou.
— Há uma sábia chamada Pilan na Caverna das Mil Flores, na Montanha das Nuvens Púrpuras, daqui ao sul. Ela tem uma agulha de bordar que pode romper qualquer luz dourada.
Sun Wukong subiu para os ares em golpe de nuvem e chegou à Montanha das Nuvens Púrpuras num instante. A Caverna das Mil Flores era um lugar de beleza tranquila — flores em todas as estações, bambus e pinheiros murmurando, nenhum ruído humano. No interior, uma mulher sentada num tablado — cabelo enfeitado de flores, rosto sereno como lua de outono, voz de andorinha.
— Grande Sábio Sun Wukong — disse ela antes que ele falasse — venha. Sabia que chegaria.
— Bodhisattva — disse Sun Wukong, curvando-se — como conhece meu nome?
— Quando você incendiou o Céu, seu retrato circulou por todo o cosmos. Quem não conhece sua face?
— Então sabe por que vim. Meu mestre foi envenenado pelo Senhor dos Cem Olhos. Preciso da sua ajuda para derrotar os raios dourados dele.
Pilan levantou-se, serena:
— Posso ir. Mas quem lhe disse onde me encontrar? Faço trezentos anos que não saio daqui.
— Descobri sozinho. Tenho meus meios.
Pilan olhou para ele por um momento longo:
— Não foi você. Alguém te mandou aqui. Não importa — aceito vir ajudar.
— E qual é sua arma? — perguntou Sun Wukong. — Preciso saber para me preparar.
— Uma agulha de bordar.
Sun Wukong não conseguiu segurar o sorriso:
— Agulha de bordar! Eu tenho centenas dessas na cauda se precisar!
— As suas são de aço ou ferro ou algum metal. A minha foi forjada nos olhos do meu filho durante muitos anos de prática.
— Seu filho é...?
— A Estrela Mão de Galo. O Oficial do Dia Marcial.
Sun Wukong ficou quieto. A Estrela Mão de Galo era um galo celestial. E galos celestiais dominavam centopeias — da mesma forma que galos comuns dominam cobras.
— Ah — disse Sun Wukong. — E o taoísta...
— É uma centopeia gigante. Uma centopeia de séculos, que aprendeu a imitar a forma humana e cultivou poderes espirituais. Meu filho o domina naturalmente.
— Então por isso a agulha quebra a luz.
— Isso.
— Por que não disse logo?
— Porque você não perguntou.
Foram juntos. Do alto, Sun Wukong viu o reflexo da luz dourada — o observatório coberto pela teia das aranhas ainda brilhava como um farol. Pilan tirou do colarinho uma agulha de bordado — coisa de cinco centímetros, fina como cabelo, que parecia não ter peso algum.
Ergueu a agulha acima da cabeça e a jogou na direção do brilho.
Um clique. E a luz se apagou.
Sun Wukong correu para dentro. Encontrou o taoísta parado no centro do pátio com os olhos fechados, sem conseguir se mover — os mil olhos nas costelas cegos e inúteis.
— Você está fingindo de cego — disse Sun Wukong.
— Não estou — disse o taoísta.
Sun Wukong levantou o bastão. Pilan chegou a tempo e segurou:
— Espere. Veja seu mestre primeiro.
Sun Wukong correu para a sala onde Tang Sanzang, Zhu Bajie e Sha Wujing estavam no chão. Pilan abriu a bolsa que carregava e tirou um embrulho de papel velho com três pílulas vermelhas do tamanho de grãos de pimenta.
— Coloque uma em cada boca.
Sun Wukong abriu as bocas dos três e colocou uma pílula em cada. Em segundos, os corpos tremeram. Zhu Bajie foi o primeiro a sentar:
— Que tontura horrível!
Tang Sanzang e Sha Wujing também acordaram, confusos. Sun Wukong deu a notícia brevemente:
— Vocês foram envenenados. Pilan nos salvou. Agora vamos agradecer.
Todos se curvaram diante de Pilan.
Zhu Bajie foi direto para o centro do pátio onde o demônio ainda estava parado:
— Você nos envenenou! Por que?
Sun Wukong resumiu a história — as aranhas, o observatório, o veneno por vingança das irmãs.
— Então ele é parente das aranhas — disse Zhu Bajie. — Merece.
Levantou o ancinho.
Pilan o parou:
— Espere. Não vou deixar vocês o matarem. Posso levá-lo para guardar minha gruta.
— Bodhisattva — disse Sun Wukong — se quiser levá-lo, devo respeitar. Mas pode ao menos mostrar a forma verdadeira dele para nós?
— Fácil.
Pilan apontou o dedo para o taoísta. A figura humana se dissolveu. No chão havia uma centopeia — sete pés de comprimento, escamas de aço verde, antenas como hastes de bambu.
Pilan a levantou pelo dedo mínimo e a carregou como se fosse uma pena.
Zhu Bajie ficou olhando com admiração:
— Como essa velhinha domina uma criatura dessas?
Sun Wukong explicou a ligação entre galos e centopeias. Sha Wujing coçou a cabeça:
— Então ela é uma galinha?
— Galinha celestial — corrigiu Sun Wukong. — É diferente.
Pilan foi embora levando a centopeia. Os peregrinos saíram do observatório. Sha Wujing encontrou arroz e legumes na cozinha e preparou uma refeição. Zhu Bajie comeu como se não tivesse comido em uma semana, o que não estava longe da verdade.
Sun Wukong ateou fogo ao observatório.
Seguiram viagem.