Capítulo 70: As Armas do Demônio Disparam Fumaça, Areia e Fogo — Wukong Planeja Roubar os Sinos de Ouro
Wukong enfrenta o demônio da montanha que retém a rainha, mas descobre que suas três armas lançam fumaça, areia e fogo invencíveis. Ele planeja infiltrar-se na caverna para roubar os sinos dourados que são a fonte do poder inimigo.
A montanha ao norte do reino era de aparência bastante comum.
Pinheiros na encosta — aquele verde escuro que não muda com as estações e que acumula nos galhos mais velhos uma qualidade de permanência que as folhosas não têm. Pedras cinza em afloramentos irregulares que a erosão havia esculpido com a paciência de milênios. Um riacho que descia pela encosta com o som pacífico de água sobre pedras — um som que Wukong havia aprendido, ao longo da jornada, a não tomar como indicador confiável de sítio pacífico. Os lugares mais perigosos da rota para o oeste tinham frequentemente o som mais agradável.
O demônio que vivia nesta montanha havia capturado a rainha do Reino Purpúreo Carmesim há três anos. Três anos de um rei governando sozinho com aquele tipo específico de presença ausente que cria ao redor de si — a cadeira vazia ao lado do trono, os assuntos de estado tratados com eficiência crescente que não conseguia esconder o propósito que a eficiência servia: preencher com trabalho o espaço onde havia alguém.
Wukong encontrou a caverna atrás de uma formação de pedras que parecia casual mas havia sido arranjada com atenção suficiente para enganar qualquer olhar que não soubesse o que procurar. Bateu.
O demônio saiu com o ar de quem foi arrancado de algo agradável — robusto, de uma presença física que transmitia potência acumulada, com aqueles olhos que avaliavam visitantes com o cálculo rápido dos que estão acostumados a decidir rapidamente entre ameaça e oportunidade.
— O que quer? — disse ele.
— A rainha do Reino Purpúreo Carmesim — disse Wukong, sem preâmbulo. — Que está aqui há três anos.
O demônio olhou para o macaco de olhos dourados com a expressão de alguém que reconhece um tipo de visitante específico e está ajustando as expectativas.
— E se estiver? — disse ele, com o tom de quem já sabe que a conversa vai terminar em batalha mas ainda tem interesse em saber o que o outro lado pensa que vai conseguir.
— Então precisa ser devolvida ao rei que a espera.
— Por que eu devolveria algo que tomei?
— Porque é o correto — disse Wukong — e porque, se não for pelo correto, será pela força.
O demônio riu. Era um riso curto que terminou num avanço.
O primeiro confronto foi razoavelmente equilibrado enquanto durou — o demônio tinha força considerável e havia desenvolvido ao longo de três anos de domínio da montanha a confiança dos que nunca foram seriamente desafiados no seu território. Wukong tinha o bastão e aquela prática de cinco séculos que tornava o território irrelevante porque o bastão era eficaz em qualquer superfície.
Mas então o demônio sacou as armas.
Três vasos de metal — de aparência modesta, com tampas bem assentadas, sem ornamento que anunciasse o que continham. Foram abertos em sequência, e o que saiu de dentro era diferente de qualquer coisa que Wukong havia encontrado antes: fumaça negra que bloqueava a visão não como fumaça comum mas como uma escuridão que tinha substância, que aderia e não dispersava com o vento; areia vermelha que não era areia de praia nem de deserto mas algo entre metal e mineral que cortava como vidro em pó e que se movia com uma inteligência direcional, encontrando olhos e bocas e fissuras na armadura; e fogo que não era apagado por água nem por vento nem pela ausência de combustível, porque não dependia de combustível — dependia de algo mais fundamental que não tinha nome nos idiomas disponíveis.
Wukong recuou com os olhos irritados pela areia e tossindo na fumaça, com aquela consciência específica de quem acabou de encontrar um princípio de batalha que não reconhece e que portanto não pode contrariar ainda.
Tentou de novo com abordagem diferente. Transformou-se num ser sem substância física — pura essência de vento, sem corpo sólido que a areia pudesse cortar ou a fumaça pudesse asfixiar. A areia e a fumaça passaram através dele. Mas o fogo — aquele fogo de princípio desconhecido — seguiu a essência com a precisão de quem rastreia não o corpo mas o que o anima, e Wukong saiu do segundo confronto com a queimadura invisível de quem foi atingido em algo que não é físico mas dói da mesma forma.
Bajie tentou também. Mesmos resultados, mais barulho.
Sha Wujing tentou com o cajado. Idem, mais dano na encosta.
Sentados na pedra plana de uma encosta a distância segura da caverna — com a distância específica que leva em conta a extensão máxima que a areia vermelha percorreu no segundo confronto mais a margem de segurança —, os três discípulos avaliaram a situação com a seriedade que ela merecia.
— Esses vasos são o problema — disse Wukong. — Enquanto ele tiver acesso a eles, não há forma de enfrentá-lo diretamente. Qualquer poder que trazemos se torna inútil na presença da fumaça e do fogo.
— Então como chegamos aos vasos? — disse Sha Wujing.
— Roubamos — disse Wukong.
Bajie olhou para a caverna com aquela expressão de avaliação prática.
— A caverna está vigiada por algo que lança fogo, fumaça e areia. Roubar os vasos significa entrar na caverna, encontrar onde estão guardados, apanhar os três, e sair antes que alguém perceba o que aconteceu. — Uma pausa. — Como?
— Me transformando em algo que não é suspeito dentro de uma caverna cheia de demônios.
— O demônio nos viu os três. Me viu, viu Sha Wujing, viu você — a face mais reconhecível do grupo. Qualquer transformação em algo que se pareça connosco será identificada.
— Não em algo que se pareça conosco — disse Wukong. — Em algo que se pareça com eles.
Ficou observando as entradas e saídas da caverna durante as horas seguintes com a atenção de quem não está apenas observando mas catalogando. Havia um ritmo nas movimentações dos demônios menores — saídas em grupos para buscar provisões e água, retornos em grupos no final das missões, um padrão de horários que se repetia com a regularidade dos hábitos consolidados.
No meio da tarde, um grupo de quatro demônios menores voltou de uma missão de coleta com cestos de provisões às costas e o andar dos que completaram um trabalho esperado. Eram demônios de tamanho médio, com aquela aparência genérica dos subordinados que não foram concebidos para se destacar mas para funcionar.
Wukong transformou-se em quinto membro do grupo — mesma estatura, mesma coloração de pele, mesma postura levemente curvada dos que carregam cesto às costas. Mesclou-se ao final do grupo com a naturalidade de quem sempre esteve ali e foi distraído por alguma coisa na encosta.
Entraram juntos.
O interior da caverna era maior do que parecia de fora — havia câmaras múltiplas em ângulos que não seguiam a lógica da montanha exterior, como se o espaço interno tivesse sido expandido por alguma arte que dobrava o relacionamento entre dentro e fora. Os demônios menores se dispersaram por suas câmaras de função com a eficiência de quem conhece o caminho de memória e não precisa pensar nos passos.
Wukong caminhou com propósito — não rápido o suficiente para atrair atenção, não lento o suficiente para parecer perdido. Havia aprendido ao longo de décadas de infiltrações que a velocidade média de um ser com um destino claro era a velocidade invisível, aquela que não se distingue do fluxo ao redor.
Encontrou o quarto de armas depois de dois corredores errados corrigidos sem hesitação visível. Os três vasos estavam em prateleiras de madeira escura com trapos de seda entre eles para evitar choques — tratados com o cuidado dos objetos valiosos por quem sabe que são valiosos mas não os revere, que os usa sem os entender completamente. Pareciam inocentes. Três vasos de metal comum com tampas bem assentadas.
Wukong os colocou num saco que havia trazido dobrado nas dobras da roupa, com a delicadeza de quem sabe que não quer testar o que acontece se uma tampa escorregar.
E começou a sair.
Foi reconhecido na passagem para a câmara central.
Um demônio de porte maior do que os comuns — um supervisor, pelo jeito, com aquela expressão de quem foi designado para notar o que os outros não notam — fixou-o com olhos estreitos.
— Você é novo.
— Fui transferido — disse Wukong, com o tom de quem recita um fato administrativo.
— De onde?
— Da ala leste.
— Não há ala leste.
— Então recebei informação errada sobre o nome.
O demônio abriu a boca e Wukong estava correndo antes que a primeira sílaba saísse.
A saída foi menos elegante que a entrada — havia bastão envolvido, e vários demônios que estavam no corredor central aprenderam a importância da saída rápida de trajetos que um macaco de olhos dourados com três vasos de metal num saco percorre a alta velocidade. A porta principal da caverna ofereceu resistência por um segundo e depois cedeu da forma que portas cedem ao bastão de treze mil quilos.
Do lado de fora, Wukong correu pela encosta com o saco e parou a distância segura. Abriu o saco. Verificou os três vasos. Tampas intactas.
O demônio saiu da caverna atrás dele.
Mas sem os vasos — sem a fumaça, sem a areia vermelha, sem o fogo de princípio desconhecido — o demônio era apenas um demônio forte. Forte de uma forma que exigia atenção e técnica, mas forte de um modo que o repertório disponível sabia como abordar.
Bajie e Sha Wujing estavam esperando na encosta com a expressão dos que ouviram o tumulto e tiraram conclusões corretas sobre o resultado, mas ainda queriam confirmação visual.
A batalha que se seguiu foi curta e teve a qualidade das batalhas onde uma das partes perdeu a sua principal vantagem antes do início. Wukong atacou pelo ângulo alto. Bajie pelos flancos com o ancinho. Sha Wujing fechou a saída traseira com o cajado. O demônio tinha força mas não tinha profundidade — quando cada direção estava bloqueada e nenhum dos três vasos estava disponível para abrir, restava apenas a força bruta contra três adversários com vantagem de posição, e isso não era aritmética favorável.
A rainha foi encontrada numa câmara no fundo da caverna. Havia passado três anos num espaço que era confortável da forma que os cativeiros confortáveis são: sem sofrimento físico imediato, mas com a consciência permanente de não estar onde deveria estar, de ser troféu em vez de pessoa, de existir no presente sem o futuro que havia imaginado. Estava pálida com aquela palidez específica dos interiores prolongados, com os olhos que continham algo entre esperança e a proteção que se constrói quando a esperança foi decepcionada algumas vezes.
Wukong a escoltou de volta ao Reino Purpúreo Carmesim com a atenção do guardião que não faz perguntas desnecessárias durante o caminho porque o silêncio às vezes é o que a pessoa que acabou de ser libertada mais precisa.
O rei estava no portão quando a procissão se aproximou. Havia algo na postura dele — aquela imobilidade específica de quem reconhece algo ao longe e para o corpo inteiro enquanto confirma o que os olhos estão dizendo — que era visível de longe.
A rainha desceu do palanquim.
O rei deu um passo à frente.
Os peregrinos se afastaram com o tacto de quem reconhece que está na presença de algo que não precisa de audiência. Tang Sanzang virou-se discretamente para o horizonte e ficou olhando para ele com a concentração de alguém que está apreciando genuinamente o paisagismo.
— Às vezes as histórias fecham-se bem — disse o monge, em voz baixa.
— Às vezes — concordou Wukong, ao seu lado, com os olhos também no horizonte.
E havia nos dois aquele silêncio compartilhado dos que viram o suficiente para saber que os fechamentos felizes não são garantidos, e que por isso mesmo merecem ser reconhecidos quando acontecem — não com fanfarra, mas com a atenção quieta que é a forma mais honesta de gratidão.