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Capítulo 69: A Pílula de Ouro Negro — Sun Wukong Cura o Rei e Descobre o Segredo do Demônio

Sun Wukong prepara uma pílula extraordinária com ingredientes improváveis, cura o rei do Reino de Zhuzi, e durante o banquete de celebração descobre que a rainha foi raptada por um demônio chamado Saí Taisui.

Sun Wukong Tang Sanzang Reino de Zhuzi Saí Taisui pílula cura rainha raptada

A meia-noite, quando o silêncio cobria as ruas da hospedaria e apenas o som dos grilos atravessava as janelas, Sun Wukong pôs mãos à obra.

Entre os 808 ingredientes enviados pelo palácio — três jin de cada, totalizando mais de duas toneladas de ervas, raízes, minerais e preparos —, ele precisava apenas de dois. Mandou Zhu Bajie moer um liang de ruibarbo e um liang de babaçu — duas ervas simples, uma amarga e fria, a outra quente e picante, cada uma poderosa por si só.

Sha Wujing interveio com voz de estudioso:

— Irmão mais velho, ruibarbo é amargo e frio, sem toxicidade. Sua natureza afunda e não flutua, move mas não se prende. Remove obstruções, pacifica perturbações. Chamam-no de General. Mas para um paciente cronicamente fraco...

— Você não entende o que faço — disse Sun Wukong.

— E o babaçu — continuou Sha Wujing — é picante, quente e tóxico. Dissolve acúmulos, purga o frio profundo dos órgãos, abre caminhos bloqueados. O General da Investida. Não se usa levianamente.

— Também não entende. Moam os dois e me tragam.

Os dois mós fizeram seu trabalho. Zhu Bajie e Sha Wujing entregaram o pó.

— Agora — disse Sun Wukong — tragam-me cinzas do fundo da panela.

— Cinzas? — disse Zhu Bajie.

— As cinzas da panela chamam-se Neve de Cem Ervas. Regulam todo tipo de enfermidade. Vocês não sabiam.

Zhu Bajie raspou meia tigela. Sun Wukong a examinou, satisfeito.

— Agora — disse — precisamos de urina do cavalo.

Silêncio absoluto.

O quê? — disse Sha Wujing.

— Para fazer as pílulas. Normalmente usa-se vinagre de arroz, amido de arroz velho, mel — mas nenhum desses serviria aqui. O cavalo branco não é um cavalo comum. É um dragão do Mar Ocidental que pecou e foi transformado. Se urinar em rio, os peixes do rio se transformam em dragões. Se urinar na montanha, as ervas da montanha se tornam ginseng. A urina de um dragão, aqui, na doença de um rei, é o veículo perfeito.

— Você está inventando isso — disse Sha Wujing.

— Vá buscar o cavalo.

Foram todos ver o cavalo branco, que dormia de lado no estábulo. Zhu Bajie chutou levemente o flanco:

— Acorda, bicho. Precisamos de um favor de natureza delicada.

O cavalo abriu os olhos e ficou imóvel. Esperaram. O cavalo não fez nada.

— Acho que está constipado — disse Zhu Bajie.

Sun Wukong foi ele mesmo. O cavalo, ao ver o dono verdadeiro da situação, se sentou, depois se levantou, depois ficou quieto. E então — com evidente custo de vontade, como quem faz algo que vai contra toda dignidade — deixou cair algumas gotas de ouro líquido na tigela.

— É suficiente — disse Sun Wukong. — Pode levantar.

Zhu Bajie olhou para as gotas:

— Puxa. Se isso fosse ouro de verdade...

Sun Wukong misturou os pós de ruibarbo e babaçu com as cinzas da panela e as gotas de urina dracônica. Amassou com cuidado até obter três bolas do tamanho de uma noz. Colocou-as numa caixinha de flores.

Pílula de Ouro Negro — anunciou.

Zhu Bajie e Sha Wujing riram às escondidas. Ouro negro de cinzas de panela. Mas não disseram nada.


De manhã, os ministros vieram buscar o remédio. Sun Wukong os recebeu com formalidade.

— O nome desta medicina é Pílula de Ouro Negro. Deve ser tomada com água sem raiz.

Os ministros se entreolharam.

— Água sem raiz? O que é isso?

— Em linguagem vulgar, alguns acham que é água tirada diretamente de um poço sem encostar no chão. Isso está errado. Água sem raiz é a água que cai do céu diretamente para a boca, sem tocar o solo. Chuva recém-caída, coletada antes de pousar.

— Mas não está chovendo.

— Façam o rei pedir chuva a um sacerdote, então.

Os ministros saíram perplexos. Sun Wukong chamou Zhu Bajie e Sha Wujing:

— Um de vocês de cada lado de mim, como estrelas auxiliares. Preciso invocar chuva para que o remédio funcione.

— Como? — perguntou Zhu Bajie.

— Chamando o Rei Dragão.

Sun Wukong formou o selo, recitou o encantamento, e logo uma nuvem escura surgiu no leste. Uma voz:

Grande Sábio! Vim ao chamado.

Era Ao Guang, o Rei Dragão do Mar Oriental.

— Não há grandes necessidades desta vez — disse Sun Wukong. — Apenas um pouco de chuva para um rei que precisa tomar remédio. Você pode...

— Não trouxe os instrumentos de chuva — disse o Dragão. — Sem vento e trovão e relâmpago, não sei fazer chuva do jeito convencional. Mas posso cuspir um pouco de saliva sagrada transformada em garoa. Vai adiantar?

— Perfeitamente.

O Dragão desceu a nuvem sobre o palácio e, ocultando-se das vistas mortais, cuspiu três boas quantidades de saliva transformada em chuva fininha e perfumada. Por uma hora, a chuva mágica caiu sobre o palácio do Reino de Zhuzi, e toda a corte — ministros, conselheiros, damas de honra, eunucos, guardas, cozinheiros, serventes — saiu com bacias e pratos e tigelas e jarros e cálices para apanhar a água antes que tocasse o chão.

Recolheram, no total, três taças de chuva sagrada.


O rei tomou a primeira pílula com uma taça de chuva. O ventre começou a roncar como uma roda de moinho.

Tomou a segunda pílula. Mais ruídos.

Tomou a terceira. Os ruídos eram agora de cascata.

O rei correu para a privada. Três vezes, cinco vezes, saiu e voltou. As damas de honra inspecionaram o que havia saído e relataram:

— Majestade! Havia um nó de arroz glutinoso ali dentro — de arroz que estava preso há três anos!

O rei sentiu o peito se abrir. A respiração ficou mais fácil. A cabeça parou de doer. Ele comeu uma tigela de caldo de arroz e dormiu.

Quando acordou, as pernas respondiam. A pele havia recobrado cor. Ele se vestiu sem ajuda, colocou a roupa de corte, e caminhou até o salão do trono. Quando viu Tang Sanzang, se ajoelhou e tomou as mãos do monge.

Tang Sanzang respondeu com uma reverência rápida:

— Majestade, não devo receber esta reverência. Foi meu discípulo quem—

— Seu discípulo salvou minha vida. Você o criou. Isso me basta.


O banquete foi extraordinário. Quatro mesas vegetarianas para os peregrinos, uma mesa de iguarias para a corte, e centenas de mesas adicionais para os ministros. O rei insistiu em servir vinho ao próprio Tang Sanzang.

— Não bebo — disse Tang Sanzang.

— Apenas um gole, em sinal de amizade?

— O vinho é o primeiro preceito que um monge não quebra. Com a devida licença, Majestade...

— Então seus discípulos bebam em seu nome.

O rei encheu uma taça e entregou a Sun Wukong, que a bebeu sem cerimônia. O rei encheu outra. Sun Wukong bebeu. Bebamos a taça das três bênçãos, disse o rei. Sun Wukong bebeu novamente.

Zhu Bajie, sentado ao lado, estava vendo o vinho passar de mão em mão sem chegar até ele e engolindo em seco repetidamente. Quando o rei encheu mais uma taça para Sun Wukong, Zhu Bajie abriu a boca para dizer algo sobre o remédio que também havia contribuído para preparar —

Sun Wukong lhe enfiou a taça na mão antes que ele acabasse a frase.

Zhu Bajie bebeu em silêncio, feliz.

O rei, curioso:

— Seu irmão ia dizer algo sobre o remédio ter um ingrediente chamado ma?

Sun Wukong interceptou:

— Ele queria dizer que o remédio continha ma dou ling — bagas da erva da cabaça, excelente para tosse, pulmões e retenção de ar. O médico da corte pode confirmar.

O médico da corte confirmou, entusiasmado.

O rei bebeu mais uma taça, satisfeito, e serviu Sha Wujing. Depois, quando todos estavam sentados com as taças cheias, levantou-se e disse:

— Tenho uma confissão a fazer ao Grande Sábio. Uma família não lava sua vergonha na frente de estranhos — mas você não é estranho, é meu salvador. Por que estou doente há três anos?

— Não sei — disse Sun Wukong. — Por isso pergunto.

O rei, com olhos marejados, contou:

Três anos atrás, no Festival de Duanyang — quando as famílias se reúnem para descascar arroz glutinoso e pendurar ervas nas portas, quando os patos-dragão competem nos rios e todos bebem vinho com raiz de íris — ele estava no jardim do palácio com suas três consortes. A consorte principal, a Rainha de Ouro, era de beleza incomparável.

Veio um vento. Do céu desceu uma figura que se apresentou como Saí Taisui, habitante da Montanha Qilin na Caverna do獬豸. Disse que sua caverna estava sem dama, que havia ouvido falar da beleza da Rainha de Ouro, e que o rei deveria entregá-la imediatamente. Se em três chamadas a rainha não fosse entregue, ele começaria a devorar o rei primeiro, os ministros depois, e acabaria com toda a população da cidade.

O rei, sem ter como combater o demônio, sem coragem de ver sua cidade devastada, empurrou a rainha para fora da marquise do jardim. O demônio a raptou com um sopro.

Desde aquele dia, o rei não dorme bem nem acorda descansado. O susto ficou preso no corpo. A angústia fermentou como arroz podre. E o médico que tratou a doença do corpo sem tratar o trauma da alma nunca chegaria à cura.

— Hoje — disse o rei — meu corpo curou. Mas a rainha ainda está no cativeiro desse demônio. E sem ela... não há cura completa.

Sun Wukong ouviu tudo isso. Então levantou a taça enorme que o rei havia lhe oferecido, bebeu o vinho dourado de uma só vez, e perguntou com voz tranquila:

— Majestade, quer que eu vá buscar sua rainha?

O rei deslizou do trono e se ajoelhou no chão:

— Se você trouxer minha rainha de volta, darei o reino inteiro ao Grande Sábio e viverei como súdito.

Zhu Bajie, que observava, sacudiu a cabeça:

— Que rei esquisito. Perde a coroa pela mulher...

Sun Wukong levantou o rei com as duas mãos:

— Não quero o reino. Preciso apenas de informação. O demônio ainda aparece aqui?

— Sim. Mandou buscar damas de companhia quatro vezes já. A última vez foi em fevereiro deste ano.

— E você as enviou?

— O que mais eu poderia fazer? Mandei duas cada vez que pediu.

— E construiu uma torre subterrânea para se esconder quando o vento dele sopra.

— Sim. Minha Torre Anti-Demônio. Quando o vento sopra do sul, todos entram.

— Mostre-me essa torre.

O rei saiu do salão tomando o braço de Sun Wukong. Os ministros se levantaram, Tang Sanzang ergueu a cabeça com curiosidade e Zhu Bajie ficou olhando com saudade para as mesas ainda cheias de comida.

— Vamos embora justo agora? — reclamou ele, baixinho.

— Cale-se, porco — disse Sun Wukong sem virar. — Venham todos.

E foi assim que a comitiva foi ao jardim do palácio ver a Torre Anti-Demônio — que na verdade era um fosso de três metros escavado no chão, coberto por uma pedra quadrada que dois eunucos levantavam com barras de laca vermelha. Ali embaixo havia nove câmaras iluminadas por grandes jarros de azeite que nunca se apagavam.

Sun Wukong olhou lá dentro e disse:

— Este demônio não o faria mal mesmo sem a torre. Mas se quisesse, mesmo com ela ele o encontraria.

E então, enquanto todos ainda observavam a abertura da torre, veio do sul um vento. Soprou areia e levantou poeira. Os ministros gritaram todos ao mesmo tempo:

— Esse monge de má-língua! Falou em demônio e o demônio veio!

O rei soltou o braço de Sun Wukong e mergulhou direto no fosso. Tang Sanzang o seguiu. Os ministros desapareceram. Zhu Bajie e Sha Wujing também tentaram entrar.

Sun Wukong os segurou pelos colarinhos com as duas mãos:

— Não fujam. Vamos ver o que é isso.

No céu, entre o vento e a poeira, apareceu uma figura. Sun Wukong olhou fixamente, analisando as feições da criatura: olhos dourados como lanternas, sobrancelhas em chamas, narinas largas, dentes como pregos, braços vermelho-sangue com unhas afiadas como garras. Uma saia de pele de leopardo. Pés descalços e cabelo solto como fantasma.

— Sha Wujing — disse Sun Wukong — você reconhece esse demônio?

— Nunca o vi antes.

— Zhu Bajie?

— Não me diga para chegar mais perto para olhar melhor.

— Parece o espírito guardião da Porta Oriental do Monte Sagrado do Leste — especulou Sun Wukong. — Aquele de olhos dourados.

— Não é — disse Zhu Bajie.

— Como sabe?

— Os espíritos são yin. Só saem depois do entardecer. Ainda é antes do meio-dia. Nenhum fantasma se atreve a voar agora. Este deve ser o próprio Saí Taisui.

— Boa observação, porco gordo — disse Sun Wukong com aprovação genuína. — Então é exatamente quem eu precisava encontrar. Fiquem aqui com o mestre quando ele sair do fosso. Eu vou conhecer esse demônio de perto.

E sem esperar resposta, saltou para os ares em direção à figura que pairava sobre o jardim do palácio.