Capítulo 66: Os Deuses Sofrem nas Mãos do Demônio — Maitreya Prende o Espírito Maligno
Os guerreiros celestiais enviados para resgatar os peregrinos também são capturados pelo poderoso demônio. Finalmente, o Buda Maitreya desce pessoalmente com sua armadilha dourada e subjuga a criatura.
Wukong havia escapado como mosquito pela abertura de ventilação — tão pequena que nenhum ser humano ou demônio a teria notado como rota possível — e do lado de fora do Pequeno Templo Celestial Falso o mundo continuava com a indiferença que o mundo tem pelos aprisionamentos interiores.
Voou pelos ares em forma de mosquito, que era uma das transformações mais humilhantes do seu repertório mas também uma das mais práticas, e avaliou a situação de cima com os olhos compostos que veem em múltiplas direções ao mesmo tempo. O que viu não era encorajador.
O demônio havia aprisionado o mestre, os dois irmãos, e uma coleção crescente de ser celestiais que haviam sido enviados para resolver o problema e se tornaram eles mesmos parte do problema. Havia nisso uma qualidade de acumulação que seria cômica em qualquer outro contexto.
Veio primeiro Nezha, por ordem do Imperador de Jade, que havia recebido notícia da captura dos peregrinos através dos canais celestiais que monitoram as tribulações dos viajantes em missão sagrada. Nezha desceu com suas seis armas e sua roda de fogo e aquela confiança específica da juventude imortal que nunca havia encontrado uma câmara que pudesse retê-la. O demônio do Pequeno Templo Celestial Falso o recebeu com a cortesia elaborada de quem aprecia receber visitas de alto calibre, e o aprisionou em menos tempo do que havia levado para aprisionar os peregrinos. A roda de fogo de Nezha terminou num vaso de cerâmica azul na entrada do templo como peça decorativa improvisada.
Veio então Li Tianwang com sua torre e sua espada divina — o pai de Nezha, que havia ouvido os relatos da captura do filho com a expressão específica dos pais que amam os filhos mas são incapazes de dizer isso diretamente, e que chegou à batalha com a combinação de missão oficial e motivação pessoal que às vezes produz o melhor resultado marcial e às vezes produz precipitação. O demônio o aprisiona com o mesmo resultado.
O Rei Erlang desceu com seus três olhos e seu cão celestial, que havia devorado demônios de poder consideravelmente superior ao do arqueiro humano médio. Chegou com a calma de um especialista que foi chamado para uma situação que especialistas resolvem. Foi aprisionado também.
Os Quatro Reis Celestiais foram enviados em conjunto, que era a formação para situações onde um ou dois não bastavam. Chegaram ao templo falso num semicírculo coordenado que havia funcionado em outras circunstâncias. Foram aprisionados em conjunto também, com a eficiência desanimadora de quem tem prática suficiente no aprisionamento para torná-lo rotina independente do número de adversários.
Havia nas câmaras do demônio, naquele ponto, uma qualidade de crescente lotação que Wukong — ainda em forma de mosquito, circulando pelas paredes interiores — registrava com a atenção de quem está coletando dados para uma decisão.
Contou as chegadas e os silêncios subsequentes. Percebeu o padrão com a precisão de quem passou décadas desenvolvendo o reconhecimento de padrões de batalha: o demônio tinha um mecanismo de aprisionamento que operava independente da força do aprisionado, que não podia ser vencido por mais poder marcial porque o poder marcial era o que o demônio usava como combustível para o aprisionamento. Era como uma armadilha que se fecha mais rápido quanto mais forte o preso luta contra ela.
— Este demônio tem um princípio diferente — disse Wukong para a parede de pedra, não porque esperava resposta mas porque pensar em voz alta, mesmo em forma de mosquito, às vezes organiza as ideias com mais clareza do que o pensamento interior. — Força física não funciona. Poder celestial não funciona. Precisamos de algo que opere num princípio diferente do poder.
A questão era como chegar a quem tinha esse algo quando estava trancado dentro de um templo falso sob custódia de um demônio que havia acabado de aprisionar metade do exército celestial.
A solução era já estar fora em forma de mosquito.
Wukong saiu pelo mesmo orifício de ventilação, voltou ao céu, e considerou os destinos possíveis. O Imperador de Jade havia esgotado os guerreiros óbvios. Os demônios que havia enfrentado antes e vencido usavam poder marcial por definição — seriam aprisionados da mesma forma. Precisava de algo que não fosse poder mas algo mais estranho, mais específico, algo que existisse numa outra categoria.
Decidiu ir à Montanha dos Abutres.
O Buda Tathagata ouviu o relatório com aquela atenção que não tem pressa porque não precisa — a atenção de quem processa informação num ritmo diferente dos que estão urgentes.
— Há apenas um ser com poder adequado para esse demônio específico — disse o Buda. — E não sou eu, neste caso.
— Então quem? — perguntou Wukong, com a urgência de quem tem mestre e irmãos aprisionados e um demônio acumulando inventário celestial na câmara ao lado.
— Maitreya. O Buda do Futuro. Ele existe num ponto da linha do tempo que está além do presente, o que lhe dá acesso a ferramentas que os presentes não têm. Tem uma armadilha dourada que foi forjada especificamente para conter seres cujo poder é o próprio aprisionamento. Vá ao Céu de Tushita Externo.
Wukong foi.
O Céu de Tushita Externo tinha uma qualidade diferente dos outros reinos celestiais que havia visitado ao longo da jornada. Não era mais luminoso no sentido físico — a luminosidade vinha de dentro das coisas e não de nenhuma fonte dirigida — e havia nele uma quietude que era a quietude da plenitude e não da ausência. As formas eram as mesmas do mundo comum mas com algo a mais, como um texto normal escrito numa caligrafia que transforma o que diz.
Maitreya era uma figura de imensidade gentil — grande mas não ameaçadora, com aquele riso que parecia ser a expressão natural do rosto em estado de repouso, como se o padrão de base daquele ser fosse a alegria e tudo o mais fosse variação temporária sobre esse padrão.
— Sun Wukong — disse Maitreya, com a voz de quem recebe uma visita esperada. — Já estava esperando por você.
— Sabe o que aconteceu?
— Sei o que vai acontecer — disse Maitreya, com a serenidade específica de quem existe numa relação com o tempo que permite ver à frente sem a urgência de quem ainda não sabe o resultado. — Tenho o que você precisa.
Tirou de dentro de sua veste um objeto de geometria notável. Parecia uma caixa de todos os ângulos ao mesmo tempo — havia nele superfícies que não eram exatamente planas nem exatamente curvas, e quando Wukong tentava contar os lados perdia a conta porque os lados pareciam mudar dependendo do ângulo de observação. Quando estava fechado, não tinha arestas identificáveis, não tinha superfícies com começo e fim determinados, não tinha forma que pudesse ser completamente descrita em palavras.
Era a ausência de forma como forma. Era um vazio com estrutura.
— Como funciona? — perguntou Wukong, que havia visto muitos objetos mágicos ao longo de uma vida que era mais longa do que parecia, mas nunca havia visto nada exatamente assim.
— A força aprisionadora do demônio opera por um princípio de espelho — disse Maitreya, com a clareza de quem explica algo que considera óbvio mas tem paciência suficiente para detalhar. — Usa o poder do aprisionado para amplificar o aprisionamento. Quanto mais forte a criatura aprisionada, mais eficaz se torna o mecanismo. Mas essa força aprisionadora é ela mesma uma forma de ligação. Basta abrir a armadilha dourada na presença do demônio. A sua própria natureza de aprisionamento será atraída para dentro como a água para um canal — não por força externa mas pela lógica interna do que ele é.
— Elegante — disse Wukong, com admiração genuína. Havia algo no princípio que o satisfazia de uma forma que a força bruta nunca satisfazia — a elegância de usar a natureza de uma coisa contra si mesma era uma solução de qualidade diferente.
— A maioria das melhores soluções são — concordou Maitreya.
Desceram juntos para o mundo. Na porta do Pequeno Templo Celestial Falso — aquela estrutura de pedra branca que imitava a arquitetura sagrada com a precisão do detalhe correto mas o espírito errado —, Maitreya ficou enquanto Wukong entrou correndo.
— Demônio! — gritou Wukong, com a voz projetada para carregar pelas câmaras interiores. — Você capturou meu mestre, capturou meus irmãos, capturou metade do panteão celestial incluindo os Quatro Reis e o filho do Li Tianwang. Mas me perdeu.
A voz ecoou pelas câmaras vazias onde os aprisionados não podiam ouvir mas o demônio sim.
— Você não me perdeu — disse o demônio, aparecendo pelo corredor central com aquela qualidade de confiança dos que têm muito poder concentrado num espaço pequeno. — Você simplesmente ainda não estava no lugar certo.
— Ainda não estava — concordou Wukong. — Mas estou chegando.
E recuou em direção à entrada, o que era a direção onde Maitreya aguardava com a armadilha dourada aberta numa das mãos de proporções imensuráveis.
O demônio seguiu — porque seguir Wukong era o que o demônio havia aprendido a fazer ao longo daquelas horas de aprisionamento progressivo, porque cada vez que o macaco aparecia havia algo a capturar e o mecanismo do demônio respondia a isso com a automaticidade de um reflexo.
Chegou à entrada.
Maitreya abriu a armadilha.
O demônio sentiu a atração antes de entender o que era — uma força que não era física nem celestial mas que operava em algo mais fundamental, na substância mesma do que era ser um ser que aprisionava. A força aprisionadora que havia cultivado em si mesmo ao longo de eras, que havia usado contra os peregrinos e os guerreiros celestiais e que havia se tornado o centro da sua identidade — essa força encontrou o interior da armadilha e reconheceu nele não uma prisão externa mas um espelho, e o espelho atraiu o que se parecia com ele.
O demônio entrou.
A armadilha fechou sem som.
Por um momento houve apenas o silêncio e a luz da tarde sobre a planície fora do templo.
E depois, de dentro do templo, um som progressivo: o som de mecanismos de aprisionamento se desfazendo um por um, como fechaduras que abrem na ordem inversa à que foram fechadas. Os selos das câmaras desapareceram simultaneamente. As paredes que haviam sido impenetráveis tornaram-se apenas paredes.
Tang Sanzang saiu da câmara de jade negro com o passo cuidadoso de quem verifica antes de confiar o peso do corpo a um chão que esteve proibido. Olhou para o céu visível pela porta aberta com a expressão de alguém que está verificando se o mundo real ainda está no lugar correto, e havia no olhar aquela qualidade do reconhecimento que é também gratidão — sim, o céu ainda está azul, sim, a luz é a luz certa, sim, estamos do lado de fora.
Os guerreiros celestiais foram libertados um por um. Nezha saiu com a dignidade inabalável de quem definitivamente não esteve num vaso de cerâmica. Li Tianwang saiu com a expressão de alguém que está calculando como controlar quem sabe o que aconteceu e chegou a conclusões pessimistas sobre a abrangência desse grupo. Os Quatro Reis saíram juntos e separaram-se em quatro direções diferentes com a rapidez de quem tem outros assuntos a atender e prefere que os outros assuntos sejam a conversa disponível.
Maitreya partiu com a armadilha dourada e seu conteúdo, de volta ao Céu de Tushita Externo onde o demônio ficaria contido até que a roda do karma decidisse o que fazer com um ser cuja única habilidade havia sido usada contra si mesmo.
Tang Sanzang reuniu seus discípulos no pátio do templo, que já começava a ter aquela qualidade de abandono que os espaços têm quando a força que os manteve é removida — pedras que pareciam mais soltas, paredes que pareciam mais finas, a arquitetura sagrada-falsa que havia parecido imponente agora apenas parecendo elaborada.
— Estão bem?
— Bem — disse Wukong, que havia ficado de pé à parte observando o processo de libertação com aquela atenção de quem cataloga o que aconteceu para referência futura.
— Irritado, mas bem — disse Bajie, com a honestidade específica de quem não vê razão para fingir que a experiência de ser aprisionado num espaço fechado com demônios foi neutra emocionalmente.
— Bem — disse Sha Wujing, com a brevidade de quem expressa o máximo com o mínimo.
O templo falso começou a desmoronar ao redor deles com a gradualidade de uma estrutura que perde o princípio que a mantinha — não com explosão mas com o cedimento progressivo de cada pedra que havia estado no lugar por força de uma intenção que já não existia. Revelou ao desmoronar o terreno comum de uma montanha comum sob uma luz de tarde completamente ordinária: pedras, erva seca, o céu azul sem os ornamentos arquitetônicos que o templo havia interposto.
Era bom estar de volta ao ordinário. O ordinário, depois do extraordinário intenso, tem uma qualidade de presente que é fácil de esquecer enquanto o extraordinário está acontecendo mas que fica muito clara quando o extraordinário acaba.
A estrada para o oeste continuava adiante, firme e visível, esperando com a paciência de quem não tem pressa porque o destino não vai a lugar nenhum.