Capítulo 65: O Demônio Cria uma Falsa Pequena Torre do Trovão; Os Quatro Viajantes Sofrem Grande Calamidade
Os peregrinos chegam a um templo que se parece com a Torre do Trovão do Monte Espírito — é uma imitação criada pelo Demônio Maomaozi para atrair vítimas. Tang Sanzang, Bajie e Sha Wujing são capturados ao entrar e adorar. Sun Wukong reconhece o engano mas é aprisionado numa jarra dourada pelo demônio. Wukong parte de dentro, convoca Erlang e os guerreiros celestiais, e expõe a identidade do demônio: um morcego que pratica há mil anos.
A montanha alta surgiu depois de um dia de viagem tranquilo — tranquilo era relativo na jornada ao oeste, mas este dia não tinha tido demônios, e a ausência de demônios era suficiente para qualificar como tranquilo.
Da crista, o que se via no vale abaixo parecia extraordinário.
— Luzes — disse Tang Sanzang.
Havia luzes, de fato — não o brilho acaso de uma aldeia ou a luz estável de uma estalagem, mas a qualidade específica de luz sagrada: difusa, de múltiplas fontes, com a tonalidade dourada que os templos budistas projetavam à noite quando havia incenso e velas corretas.
E havia sons — sinos, o tipo de sino que só os templos importantes tinham, profundo e com uma ressonância que durava mais do que o normal.
— É um templo — disse Tang Sanzang com uma satisfação que Sun Wukong reconheceu como perigosa.
— É algo que parece um templo — disse Sun Wukong, verificando o horizonte com os olhos dourados. Havia uma qualidade na luz que estava errada — não errada como luz de demônio, mais errada como imitação de luz sagrada, o tipo de coisa que funciona para quem não sabe distinguir mas falha sob escrutínio próximo.
— Discípulo — disse Tang Sanzang —, você já viu demônios em templos. Mas certamente nem todos os templos são demônios.
— Correto. Mas este...
— Olhe. Há arquitetura — apontou para os telhados curvados visíveis através das árvores do vale. — Há proporção. Há planejamento. Isso não é uma ilusão rápida.
Sun Wukong olhou mais de perto.
Havia, de fato, proporção. O que estava no vale tinha a planta arquitetônica de um complexo budista sério — portões exteriores, portões interiores, uma torre central, corredores laterais. Não era algo que um demônio de poder médio conjuraria numa tarde.
— Os portões têm quatro caracteres — disse Sha Wujing, que havia descido um pouco pela encosta para ver melhor. — "Pequena Torre do Trovão".
Tang Sanzang desceu do cavalo.
— Há três mil budas nos escritos sagrados — disse ele com a autoridade de quem havia lido os escritos em questão. — A Torre do Trovão no Monte Espírito é o templo principal. Mas outras bodhisattvas guardam santuários em outros lugares. Guanyin está no Mar do Sul, Manjushri na Montanha das Cinco Terras, Samantabhadra na Montanha do Elefante Branco. Uma Pequena Torre do Trovão não é impossível.
— Mestre —
— Meu coração de monge não pode passar por um templo sem oferecer respeito — disse Tang Sanzang, e começou a descer o vale.
Sun Wukong ficou onde estava por um momento.
Depois foi atrás.
O interior do complexo era impressionante.
Cinco mil arhat nas laterais — fileiras de estátuas com a textura e o peso de pedra real, pintadas com a qualidade de trabalho de décadas, não de trabalho rápido. Uma área central com oferendas frescas — frutas, flores de lótus, incenso que havia sido acendido em horas recentes. Uma plataforma de lótus na frente onde, no topo, havia uma figura que Tang Sanzang interpretou como Buda.
Sun Wukong ficou na entrada.
Havia algo na figura no topo da plataforma que era diferente de todas as imagens de Buda que havia visto — não os traços físicos, que eram corretos, mas a qualidade de presença ao redor. Uma imagem genuína de Buda, mesmo de pedra, tinha uma qualidade de quietude que vinha de dentro. Esta tinha quietude que vinha de uma fonte diferente — da mesma forma que uma parede muito sólida transmite quietude, não porque está em paz mas porque está bloqueando.
Tang Sanzang se ajoelhou na plataforma.
Bajie se ajoelhou.
Sha Wujing se ajoelhou.
Sun Wukong não se ajoelhou.
Do topo da plataforma veio uma voz:
— Sun Wukong. Ver o Buda e não se ajoelhar?
Sun Wukong ergueu o bastão.
— Você não é o Buda.
A figura desceu da plataforma com o movimento de alguém revelando algo que havia estado guardando com prazer.
Não era o Buda. Era um demônio de tamanho considerável com a postura de alguém que havia praticado a imitação de autoridade sagrada por tempo suficiente para ser bom nisso — os gestos certos, a voz certa, mas embaixo de tudo isso a qualidade de algo que caça.
— Aprisionem os outros — disse ele.
As fileiras de arhat — que não eram pedra, eram demônios menores em forma imóvel — subiram e avançaram para Bajie e Sha Wujing antes que os dois pudessem reagir. As amarras que saíram dos braços das estátuas eram rápidas e eficientes, e nos trinta segundos seguintes Bajie, Sha Wujing e Tang Sanzang estavam presos no chão.
Sun Wukong girou o bastão, criou o turbilhão de cópias que dispersava exércitos, e chegou à frente do demônio-chefe.
O demônio tirou algo da manga — uma jarra de ouro, do tamanho de uma caçarola, com a abertura larga voltada para cima.
— Sua arma primeiro — disse ele.
O bastão foi sugado para dentro da jarra por uma força que Sun Wukong reconhecia vagamente de um encontro anterior num contexto diferente — o mesmo tipo de força que havia capturado o bastão na montanha do Rei Búfalo de Chifre Único, mas diferente na textura, mais fina, mais específica.
Sem o bastão, Sun Wukong ficou parado.
O demônio jogou a jarra para baixo, aberta, sobre Sun Wukong.
A jarra o capturou.
Não era uma captura física — era uma captura de campo, como estar dentro de algo que dobrava o espaço ao redor de si mesmo. Sun Wukong podia mover-se dentro da jarra, podia falar, podia transformar-se, mas cada transformação encontrava as paredes da jarra exatamente onde deveria, e as paredes não cediam.
— Este é o Calabaço de Ouro — disse o demônio de fora. — Diferente do que os Irmãos de Ouro e Prata usavam, mas da mesma família de tesouros. Você pode transformar-se o quanto quiser. A jarra acompanha.
Sun Wukong ficou em silêncio.
Depois disse:
— Você vai sair daqui em algum momento.
— Estou confortável onde estou — disse o demônio.
— Eu também — disse Sun Wukong.
Por dentro da jarra, Sun Wukong transformou-se num inseto de comprimento mínimo e encontrou a única saída que uma jarra tem — a abertura no topo, por onde havia entrado. Estava vedada, mas a vedação tinha a qualidade de algo que podia ser forçado com pressão molecular suficiente.
Levou tempo. Horas, talvez — sem referência exterior, era difícil calcular.
Saiu pela vedação como vapor.
Reconstitui-se no ar do lado de fora do templo, longe o suficiente para não ser detectado imediatamente.
O problema seguinte era o bastão. Estava na jarra. E sem o bastão, Sun Wukong perdia a maioria das opções de confronto direto com um demônio de poder suficiente para conjurar um falso complexo budista de dois quilômetros quadrados.
Voou para norte até encontrar Erlang Shen, que estava novamente em trânsito de regresso de uma caçada.
A conversa foi curta.
— A criatura fez uma imitação da Torre do Trovão num vale ao sul daqui — disse Sun Wukong. — Aprisionou o meu mestre, os dois discípulos, e o meu bastão.
— Que tipo de criatura?
— Ainda não sei. Mas tem capacidade de criar ilusão de escala considerável e tem um calabaço de ouro que captura armas.
Erlang pensou nisso.
— Um calabaço de ouro de qualidade suficiente para capturar o bastão do Grande Sábio... há um único tipo de praticante que pode conjurar um artefato assim por refinamento próprio, sem roubar de outro. — Fez uma pausa. — Morcego.
— Morcego?
— Um morcego que pratica por milênios bebe luz de luar. A luz da lua tem uma qualidade que, em quantidade suficiente, permite a conjuração de ouro refinado. Se este demônio tem mil anos ou mais de prática...
— Tem — disse Sun Wukong. — A qualidade do complexo. Isso não é obra de um século.
Erlang chamou os seis irmãos. Desceram juntos ao vale.
O ataque foi de múltiplas direções — os seis irmãos pelos flancos, Erlang pelo centro, Sun Wukong de cima. O demônio-morcego lutou bem, era rápido e sabia usar o espaço do complexo que havia criado. Mas não havia sido treinado para um combate de oito contra um.
Quando ficou claro que não conseguia ganhar, tentou voar — e os cães do palácio de Erlang, que haviam ficado de guarda no alto, o interceptaram.
O calabaço de ouro caiu quando o demônio foi imobilizado.
Sun Wukong recuperou o bastão.
O demônio-morcego, na forma verdadeira, era exatamente o que Erlang havia dito — um morcego de proporções consideráveis, com a tonalidade de pele de alguém que passou milênios em cavernas e um par de olhos que refletiam luz como espelhos pequenos. Mil e trezentos anos de prática.
— Onde está guardando meus companheiros? — disse Sun Wukong.
O demônio indicou a estrutura central — havia uma câmara abaixo da plataforma de lótus com os três.
Tang Sanzang saiu com a dignidade intacta e a expressão de alguém que havia ficado preso num templo falso e estava adicionando isso à lista de coisas de que precisaria conversar com Sun Wukong sobre julgamento de templos.
— Disse que era demônio — disse Sun Wukong.
— Disse — concordou Tang Sanzang. — Estava certo.
— Sim.
— A próxima vez que disser —
— Ouvirá?
— Farei o meu melhor — disse Tang Sanzang, que era um homem honesto sobre os limites do próprio caráter.
Erlang partiu com seus irmãos e o demônio-morcego capturado para ser entregue às autoridades celestiais.
Os quatro peregrinos encontraram o caminho de volta à estrada principal e continuaram para o oeste, deixando para trás o vale onde um falso templo havia estado por tempo suficiente para se tornar convincente.