Capítulo 62: Purificar a Mente é Como Varrer uma Torre — Subjugar Demônios é Cultivar o Ser
Os peregrinos chegam a um reino onde dois demônios roubaram uma pagode sagrada. Wukong e seus irmãos são encarregados de recuperar o tesouro e capturam os ladrões com a ajuda do dragão do rio.
O reino de Jisai recebeu os peregrinos com uma hospitalidade que tinha por baixo a textura da angústia disfarçada.
O rei, um homem de barba branca e olhos que não descansavam, os recebeu no salão principal com o protocolo adequado — chá, cortesias, o reconhecimento formal dos documentos de viagem carimbados pela rainha do País das Mulheres. Mas havia nos movimentos dos cortesãos uma tensão que não combinava com a cerimônia, e nos olhos do rei um peso que ia além das preocupações administrativas usuais.
Tang Sanzang, que havia desenvolvido ao longo de anos na estrada um sexto sentido para o sofrimento disfarçado de decoro, perguntou:
— O que aflige Sua Majestade?
O rei precisou de um momento para responder.
— Nossa pagode sagrada — disse ele, por fim. — Há séculos é o tesouro mais precioso deste reino. Contém artefatos sagrados da fundação do Estado. Na semana passada, dois demônios desceram sobre ela à meia-noite e a levaram.
— Toda a pagode? — disse Bajie, com a entonação de quem está calculando o volume de um objeto.
— Toda a pagode — confirmou o rei. — Trinta e dois andares de ouro e jade, com os tesouros de inúmeras gerações. Levaram tudo. Os monges que cuidavam dela foram... os que sobreviveram dizem que os dois demônios riam enquanto carregavam.
Tang Sanzang virou-se para seus discípulos.
Sun Wukong já estava de pé.
— Onde foram vistos por último?
— Voando para norte — disse um dos conselheiros. — Em direção ao território além do Grande Rio.
Wukong, Bajie e Sha Wujing partiram naquela mesma tarde. Tang Sanzang ficou no palácio, onde o rei o instalou nos melhores aposentos com uma deferência que continha uma esperança tão grande que seria cruel decepcioná-la.
Os três discípulos encontraram a pagode depois de uma busca que levou boa parte da noite — estava instalada num terreno árido ao norte do rio, rodeada por sentinelas demônicas que patrulhavam com a displicência de quem não espera visitas.
A situação exigiu reconhecimento antes de ação. Wukong transformou-se num besouro verde e voou pelo perímetro, avaliando os defensores e suas armas, a disposição das sentinelas, os pontos fracos na proteção.
Os dois demônios que haviam roubado a pagode eram os chefes — um longo e fino como uma lança, o outro curto e largo como um tonel. Os dois tinham o estilo de quem está confortável com o que roubou e não espera que ninguém venha reclamar.
Wukong voltou para seus irmãos.
— Há uma dúzia de sentinelas, dois chefes, e a pagode está intacta no centro. Entramos direto ou tentamos o engano?
— Direto — disse Bajie, com o entusiasmo de quem tem preferência por problemas simples.
— Direto — concordou Sha Wujing, que era um ser de poucas palavras quando havia batalhas envolvidas.
Entraram em três direções diferentes, e o que começou como uma escaramuça disciplinada tornou-se rapidamente a confusão de uma batalha noturna — tochas caindo, sombras se movendo em direções inesperadas, o som do ancinho de Bajie e do cajado de Sha Wujing e do bastão de Wukong criando uma sinfonia de impactos que acordou todos os que dormiam num raio de várias léguas.
Os dois chefes demônios eram mais capazes do que suas pretensões os fariam parecer. Lutaram bem, em conjunto, usando a diferença de seus tamanhos como vantagem — o alto atacava de cima enquanto o baixo atacava os tornozelos.
Mas Wukong era Sun Wukong, e Bajie e Sha Wujing eram o Marechal do Pilar Celestial e o General das Areias do Rio, e depois de uma batalha que foi longa o suficiente para ser satisfatória mas não tão longa que virasse problema, os dois chefes demônios estavam em fuga, correndo em direção ao rio.
Mergulharam na água.
Wukong os perseguiu até a margem e parou. Havia aqui uma questão de jurisdição — o rio era o domínio do Dragon King local, e invadir sem cerimônia era o tipo de coisa que criava rancores entre espíritos da água que podiam durar séculos.
— Djinn do rio! — chamou Wukong, com a formalidade adequada. — Sun Wukong solicita assistência!
O Dragon King emergiu com a velocidade de quem estava esperando ser chamado.
— Grande Sábio, o que posso fazer por você?
— Dois demônios ladrões fugiram para seu domínio. Um longo, um curto. Foram eles que roubaram a pagode sagrada do reino de Jisai.
O Dragon King franzou a testa com a expressão de alguém que acabou de descobrir que há intrusos na sua casa.
— Ladrões no meu rio? — disse ele, com uma indignação que era genuína. — Vou cuidar disso.
Cuidou. Os guardas aquáticos do Dragon King eram adaptados ao ambiente e os dois fugitivos não o eram. A captura durou menos tempo do que a batalha em terra. Os dois demônios foram entregues a Wukong com a eficiência de quem gosta de manter o próprio território em ordem.
De volta ao reino de Jisai, com a pagode recuperada e os demônios entregues à justiça real, o rei recebeu Tang Sanzang e seus discípulos com um banquete de gratidão que durou até tarde da madrugada.
Bajie comeu com toda a dedicação que o evento merecia.
Tang Sanzang recitou sutras de proteção para o palácio e para a pagode, para que nenhum espírito maligno pudesse aproximar-se dela novamente.
E na manhã seguinte, com presentes de viagem e bênçãos reais, os quatro peregrinos partiram de novo para o oeste.
— Uma coisa positiva nessa história — disse Bajie, mastigando uma última noz de que o rei o havia provisionado. — A pagode foi recuperada sem que precisássemos perguntar a nenhum Buda nem a nenhum Imortal.
— Desta vez — disse Wukong.
— Desta vez — concordou Bajie, com satisfação modesta.