Capítulo 61: Zhu Bajie Auxilia na Derrota do Rei Demônio — Wukong Usa o Leque pela Terceira Vez
O Rei Demônio do Touro confronta Wukong por ter roubado o leque de sua esposa. Após uma batalha épica com auxílio de guerreiros celestiais, o rei é subjugado e a Montanha de Fogo é finalmente extinta.
O Rei Demônio do Touro chegou como um trovão sobre a planície recém-esfriada.
Antes de ser visto, foi ouvido — aquele som de patas que fazem a terra ressoar a cada passada, aquele mugido que não era o mugido dos bois comuns mas algo mais fundamental, como o barulho que a raiva faz quando tem forma suficiente para produzir som. A sombra chegou antes do corpo: primeiro uma mancha de escuridão sobre o chão que se alargou, e depois a figura do rei na forma de touro de batalha — enorme como a parte dianteira de uma montanha, com a pelagem de um azul-negro que absorvia a luz ao redor em vez de refleti-la, e chifres que eram pilares de osso branqueado polido, apontados para frente como lanças de proporções arquitetônicas.
Wukong ainda segurava o leque que se recusava a ser dobrado.
— Ladrão! — rugiu o Rei Demônio, e o rugido levantou poeira da planície esfriada e fez as pedras menores vibrarem nos seus encaixes. — Você usou meu rosto para enganar minha esposa! Usou minha criatura para percorrer meu próprio caminho às escondidas!
— Usei os recursos disponíveis para uma situação que precisava ser resolvida — respondeu Wukong, recuando um passo enquanto tentava, sem sucesso, dobrar o leque que seguia se abrindo como um mapa que não quer ser fechado. — O resultado beneficia as famílias desta região e a missão sagrada do Mestre Tang.
— O resultado foi você roubando minha propriedade com o meu próprio rosto.
— Emprestando. Com a intenção declarada de devolver.
— Emprestando — repetiu o rei, e havia no tom uma incredulidade genuína diante da escolha de palavra. — Você chama de empréstimo o que não foi pedido, não foi autorizado, e foi obtido por engano.
— Chamo de solução improvisada para um problema urgente.
O Rei Demônio avançou.
O que aconteceu a seguir foi colossal nos dois sentidos — em escala física e em intensidade. O rei usava a vantagem do tamanho, mudando de proporção durante o combate: às vezes se contraindo para ganhar velocidade, às vezes se expandindo para ganhar alcance, com a fluidez de transformação de quem domina a arte há milênios e a usa com a naturalidade de um respiro. Wukong tinha o bastão numa mão e o leque indomável na outra, o que tornava cada movimento mais lento do que o habitual — havia uma diferença entre lutar com as duas mãos livres e lutar com um objeto que insistia em se abrir quando deveria estar fechado.
A planície ao redor deles ficou marcada pelo combate — pedras fraturadas onde o touro havia pisado, sulcos nos lençóis de terra esfriada onde o bastão havia ricocheteado, uma área de desolação crescente ao redor dos dois combatentes que testemunhava a escala do que estava sendo trocado.
Bajie chegou correndo pela beira da Montanha de Fogo com o ancinho de nove pontas a tiracolo e a expressão de alguém que ouviu os sons do combate de longe e decidiu que era melhor chegar cedo do que tarde.
— Deixa eu ajudar! — gritou ele.
— Cuidado com o flanco esquerdo — gritou Wukong.
Bajie era formidável quando havia algo concreto e imenso para golpear. Neste caso, havia. O ancinho de nove pontas — uma arma de peso considerável nas mãos de um ser que tinha a força de um porco celestial — golpeou os flancos do touro com a força de quem não tem escrúpulos sobre onde bater enquanto houver uma boa razão para bater. O Rei Demônio do Touro, que não esperava um segundo atacante vindo da direção que havia deixado desguardada, recuou com um rugido de surpresa que era ao mesmo tempo dor e raiva por ter sido surpreendido.
O combate de três ficou mais equilibrado — Wukong na frente mantendo a pressão, Bajie nos flancos aplicando o ancinho com entusiasmo que compensava a falta de refinamento técnico, o rei tentando defender-se em todas as direções ao mesmo tempo com a eficiência reduzida de quem foi concebido para atacar e está sendo forçado a defender. Cada posição que o rei adotava era insustentável depois de alguns segundos, porque a próxima ameaça já chegava de outro ângulo.
Do céu, então, desceu o auxílio que não havia sido pedido mas chegou com o sentido do inevitável: Li Tianwang e Nezha numa nuvem de luz dourada, enviados pelo Imperador de Jade que havia acompanhado a situação através dos meios que o Palácio de Jade tem para acompanhar batalhas de consequências regionais. Li Tianwang carregava sua Torre Celestial e sua espada longa. Nezha assumiu sua forma de três cabeças e seis braços — a forma que tinha aquela qualidade de impossível que funciona como argumento visual contra continuar lutando — e seus seis tipos de armas desceram sobre o Rei Demônio como chuva de metal inteligente, cada uma escolhendo o ângulo que o máximo de atenção do rei não estava cobrindo naquele momento.
O rei, cercado de todos os lados com quatro atacantes que se coordenavam sem sinal visível, ainda lutou. Era a teimosia específica dos muito poderosos que sabem que estão perdendo mas cujo orgulho não tem vocabulário para a retirada honrosa — apenas para a resistência até que a resistência se torne fisicamente impossível, ou até que uma saída se apresente que não pareça derrota.
Li Tianwang ergueu a Torre, que lançou ao redor do Rei Demônio aquele campo de força específico das armas celestiais — não físico mas que opera em algo mais fundamental, na substância de que os seres poderosos são feitos e que, quando comprimida, produz uma imobilidade que vai além do físico.
O Rei Demônio do Touro ficou de pé sob aquela pressão combinada por um longo e orgulhoso momento. A planície ao redor ficou em silêncio — aquele silêncio específico do intervalo entre batalha e resultado, quando o resultado ainda não foi dito em voz alta mas já está determinado.
Então o rei transformou-se de volta em forma humana.
Não com a derrota visível nos ombros curvados nem na voz quebrada — com os movimentos calculados de alguém que faz uma escolha, que decide que este é o ponto onde a resistência se torna desperdício em vez de dignidade. Ficou de pé no meio da planície esfriada, com a veste de batalha intacta e a postura de quem não foi vencido mas escolheu parar, e olhou para cada um dos seus adversários por sua vez com aquela avaliação fria que não encontra apresso em nenhum deles mas reconhece a aritmética da situação.
— O leque — disse ele para Wukong.
— Preciso usá-lo para extinguir completamente a Montanha de Fogo — disse Wukong. — Depois devolvo à sua esposa.
— E minha esposa usa-o para ajudar as famílias desta região?
— Como sempre fez. Esse é o acordo implícito há gerações — ela empresta, elas plantam, a colheita acontece, as oferendas chegam a cada dez anos. Um equilíbrio que funcionava antes desta complicação e pode funcionar depois.
O rei ficou em silêncio por um momento que tinha a qualidade de um cálculo.
— Vá — disse ele. — Extinga o fogo.
Li Tianwang ficou ao lado do rei enquanto Wukong voou com o leque para a Montanha de Fogo, o leque finalmente disposto a ser carregado depois de ter feito o seu trabalho na batalha — como se o objeto tivesse uma noção de quando era o momento de ser usado e quando era o momento de ser transportado. Sete ciclos para o leste, o leque abrindo-se em cada arco com aquela generosidade sobrenatural que distribuía o vento como um presente de dimensões impossíveis. As chamas recuaram da periferia para o centro, o centro para um ponto, o ponto para nada.
Mas havia chamas ainda resistentes nas fissuras mais profundas das pedras — aquelas fissuras onde o fogo havia vivido por milênios e havia cavado para si canais que eram parte da estrutura da rocha. Wukong olhou para cada fissura, verificou, e recomeçou os ciclos.
Mais sete para o leste.
As últimas chamas morreram.
O silêncio que se seguiu tinha uma qualidade que nenhum dos presentes havia ouvido antes — o silêncio de um lugar que havia rugido com fogo por mais tempo do que qualquer memória humana alcançava e que agora estava quieto pela primeira vez. Era um silêncio que pesava como ausência de algo que havia sido parte da paisagem durante gerações, como o espaço que permanece quando uma árvore muito velha é finalmente abatida.
As pedras que haviam sido vermelhas como brasa começaram a esfriar. Primeiro ficaram cor de carvão. Depois cinza escuro. Depois um cinza-preto que conservava nos relevos a memória do calor como cicatrizes num rosto. A terra, que havia sido impossível de pisar descalço, ficou firme e fria. O ar, que havia sido tóxico de calor, ficou fresco com aquela qualidade do ar de altitude que não havia existido ali antes.
E nas fissuras mais profundas, onde havia milênios de cinzas compactadas pelas chamas, começaram a aparecer as primeiras flores. Pequenas, obstinadas, de uma cor entre âmbar e dourado — como se as sementes houvessem esperado, embutidas nos interstícios da pedra, por toda a duração do fogo, conservando no interior delas a possibilidade do depois.
Wukong devolveu o leque à Fada Ferro-Leque, que o recebeu com a compostura de alguém que ainda não decidiu o que sente sobre toda a situação — havia naquele rosto o processo visível de quem está processando várias coisas ao mesmo tempo e prefere não demonstrar nenhuma delas até ter chegado a uma conclusão.
— Obrigado pela ajuda — disse Wukong.
Ela não respondeu, mas havia nos olhos dela algo que não era inimizade. Talvez apenas o início de uma consideração que precisaria de mais tempo para ser completada.
Tang Sanzang e seus discípulos atravessaram a Montanha de Fogo no dia seguinte, pisando sobre pedras frias que ainda conservavam nas superfícies a memória térmica de eras — o calor residual que estava no interior da rocha e que levaria décadas para se dissipar completamente. Havia flores nas fissuras. Havia pássaros que haviam voltado já, atraídos pelo resfriamento com aquela sensibilidade dos animais para as mudanças de temperatura que vão além do que os sentidos humanos percebem.
O povo da região saiu em multidões para o caminho. Havia nas expressões daquelas pessoas algo que não era apenas gratidão mas um tipo específico de espanto — o espanto de quem viu algo mudar que havia sempre sido imutável, que havia sido tomado como condição permanente da realidade e agora se revelava apenas uma situação que havia durado muito. Crianças corriam ao lado do cavalo branco com aquela leveza de quem ainda não desenvolveu o hábito de guardar emoção para si. Velhos inclinavam a cabeça em reverência ao monge com a expressão de quem viu o suficiente para saber quando está diante de algo que excede a explicação comum.
Tang Sanzang recebeu tudo com a graça serena de um homem que não se considera o agente principal de nada — apenas o instrumento de uma bondade maior que escolheu aquele caminho por razões que não lhe cabia questionar. Bajie recebeu os presentes de comida com entusiasmo que era genuíno e não tinha nada de sereno, e havia nos seus olhos a expressão específica de alguém que considera que a melhor homenagem às famílias que oferecem comida é comê-la com prazer evidente.
Quando finalmente o grupo saiu pela borda oposta da Montanha de Fogo e a estrada para o oeste se abriu de novo à frente, livre de obstáculos até onde a vista alcançava, Sun Wukong fez algo incomum: parou por um momento, virou-se, e olhou para a montanha que havia sido apagada.
Era apenas uma montanha agora. Pedras cinza-pretas que esfriavam. Flores pequenas nos interstícios. O céu acima dela do mesmo azul do céu em qualquer outra parte, sem o vermelho permanente que havia marcado aquele horizonte por milênios.
Nenhum discurso. Nenhum comentário para os outros.
Apenas aquele olhar que era reconhecimento — de uma coisa que havia sido difícil e havia sido feita, de um obstáculo que havia sido maior do que o esperado e havia sido apagado de qualquer forma, de uma forma específica de satisfação que só existe quando o trabalho foi real e o resultado também.
Depois se virou de volta para o oeste e caminhou em frente, o bastão no ombro, os olhos já no horizonte seguinte.