Capítulo 60: O Rei Demônio do Touro Recusa a Ajuda — Wukong Rouba o Leque pela Segunda Vez
Sun Wukong encontra o Rei Demônio do Touro em sua festa com uma amante e tenta persuadi-lo a interceder com sua esposa pelo leque. Fracassando, rouba o leque transformando-se no rei.
A segunda visita ao Monte das Nuvens Turquesas foi muito diferente da primeira.
Wukong chegou, a Fada Ferro-Leque o reconheceu imediatamente — havia naquela face de maçãs salientes e olhos dourados algo que não se esquecia depois do primeiro encontro — e o leque foi aberto com o mesmo movimento rápido e definitivo de quem já sabe que funciona.
Desta vez, porém, Wukong havia engolido a pílula do Xian Lingji.
O vento do leque veio com a mesma força devastadora de antes — aquele vento de remoção, de afastamento absoluto, que havia lançado o macaco a cinquenta mil léguas na primeira tentativa. Veio com toda a sua impossível potência e encontrou Wukong parado como uma pedra de granito, com os pés no mesmo lugar onde estavam antes do vento, com a roupa agitando-se violentamente ao redor de um corpo que não se movia um milímetro.
A Fada ficou olhando para ele com uma expressão que cruzava com precisão a linha entre surpresa e irritação.
— Não funcionou — confirmou Wukong, com a serenidade de quem tem a razão e as pílulas certas, mas tomou o cuidado de não sorrir enquanto dizia isso.
Ela agitou o leque de novo. E de novo. Cada agitação com mais força que a anterior, cada uma produzindo um vento que dobrava as árvores da montanha ao redor como juncos num temporal e espalhava pedras pequenas pelo ar como projéteis, e Wukong permanecia imóvel como se seus pés tivessem raízes que chegavam ao centro da terra.
A Fada Ferro-Leque tinha a expressão de quem está revisando a premissa de um cálculo que havia funcionado muitas vezes e agora não funciona.
Então Wukong tirou o bastão.
O que se seguiu foi uma batalha em território que a Fada conhecia — seu próprio patamar, suas próprias pedras, suas próprias regras de distância e ângulo. Ela era formidável de um modo que não dependia apenas do leque: havia séculos de prática de artes marciais na forma como se movia, na economia dos seus golpes, naquela eficiência dos muito experientes que nunca desperdiçam movimento. Mas Wukong tinha o Bastão de Ouro e aquela prática ininterrupta de cinco séculos que incluía batalhas contra todo tipo de adversário concebível, e depois de um número considerável de trocas ela recuou para dentro da gruta e fechou a porta de pedra verde com um som que era tanto físico quanto simbólico.
— Entendemos cada um a natureza do outro — gritou Wukong para a porta fechada. — Empreste-me o leque e poupemos ambos esse desgaste!
— Nunca! — respondeu a voz de dentro, clara apesar da pedra.
Wukong voltou para o acampamento temporário dos peregrinos na beira da Montanha de Fogo e relatou a situação a Tang Sanzang. O mestre ouvia com aquela atenção concentrada que dava a cada relatório a importância de uma consulta médica.
— A mulher não vai ceder — disse Wukong. — Mas há uma alternativa que ainda não tentei. O marido dela, o Rei Demônio do Touro, foi amigo meu nos velhos tempos. Antes da Grande Rebelião, antes de tudo, quando eu ainda estava aprendendo o que significava ter poder e não sabia o que fazer com ele. Éramos dos Sete Irmãos Juramentados.
— Ele vai ajudar? — perguntou Tang Sanzang.
— Não sei. Mas é uma opção que ainda não tentei, e as opções não sobraram.
O Rei Demônio do Touro era famoso no panteão dos demônios poderosos como uma categoria própria — não pelo refinamento nem pela sabedoria, mas pela força pura combinada com aquele tipo específico de inteligência que produz boas decisões táticas e péssimas decisões de longo prazo. Era enorme como uma montanha quando assumia forma plena, com chifres que podiam perfurar nuvens de tempestade, e um temperamento que oscilava entre magnanimidade régia e raiva explosiva com a previsibilidade relativa das tempestades de verão — frequentes, intensas, e geralmente de curta duração.
Wukong o rastreou até o Monte da Ferida do Ovo, onde o rei havia estabelecido um segundo lar com uma jovem chamada Princesa Olho de Jade. Encontrou-o numa festa: músicos tocando instrumentos de corda numa alcova enfumegada de incenso, mesas cobertas de pratos elaborados e tigelas de vinho transbordantes, uma assembleia de demônios menores que faziam o trabalho duplo de serviçais e plateia para a generosidade do anfitrião.
A Princesa Olho de Jade estava ao lado do rei com a postura de alguém que aprendeu a tornar-se imprescindível por meios que não deixam rastro óbvio. Era jovem, de uma beleza calculada, com aquele olhar específico de quem observa tudo com atenção e demonstra apenas o suficiente para ser agradável.
Wukong sentou-se sem ser convidado — o tipo de gesto que, feito com suficiente naturalidade, passa de descortesia para intimidade.
— Velho Touro! — disse ele, com o tom jovial de velhos conhecidos que o tempo separou mas não tornou estranhos. — Não te via há quinhentos anos.
O Rei Demônio do Touro levantou os olhos da tigela. Seu rosto passou por várias emoções em rápida sucessão — reconhecimento, memória das coisas que o reconhecimento trazia junto, e depois decisão.
— Sun Wukong — disse ele. — Desde que foste preso sob a Montanha dos Cinco Elementos. — Uma pausa de avaliação. — Os tempos mudaram para ti.
— Para os dois — disse Wukong. — E tu prosperas, vejo. Boa festa. Boa companhia.
A Princesa Olho de Jade sorriu para ninguém em particular com o sorriso de quem ouviu o subtexto e escolheu ignorá-lo.
— O que queres? — disse o rei, direto.
— Uma palavra com tua esposa — disse Wukong. — Estou em jornada sagrada com Tang Sanzang rumo ao Oeste, e a Montanha de Fogo nos bloqueia o caminho. Tua esposa tem o leque que pode apagá-la. Ela recusou me dar por causa do episódio com Red Boy.
O nome caiu sobre a mesa da festa como uma pedra em água parada.
— Red Boy é meu filho — disse o rei, com uma voz que havia ficado mais fria com aquela rapidez específica da frieza que não é calculada mas reflexa.
— Red Boy está vivo, saudável, e sendo educado pela maior das Bodhisattvas — disse Wukong. — Está em caminho diferente do que escolheria por si mesmo, mas é um caminho com tutela, com proteção, com acesso a sabedoria que dificilmente teria noutra circunstância.
— Eu não escolhi esse caminho para ele.
— Ele tampouco escolheu ser um demônio — disse Wukong, e imediatamente percebeu que havia ido longe demais.
O Rei Demônio do Touro ficou de pé com a lentidão deliberada dos muito grandes que querem que o ato de se levantar seja em si mesmo um argumento. Quando um ser daquele tamanho fica de pé numa sala festiva, o teto fica mais baixo e o ar mais escasso.
— Sai.
Wukong tentou mais dois argumentos. O primeiro era sobre as famílias da região da Montanha de Fogo, que sofriam o calor perpétuo sem culpa. O segundo era sobre a missão sagrada de Tang Sanzang, que servia ao bem de todos os seres sensientes. O rei ouviu ambos com a expressão de alguém que está esperando o silêncio para poder falar, e quando o silêncio chegou disse apenas, desta vez para os guardas:
— Tirem.
Os guardas foram mais enfáticos do que o rei sobre o assunto da saída.
Wukong saiu pela porta principal com a velocidade de quem escolhe sair antes de ser carregado, e ficou do lado de fora num pátio de pedras cinzentas avaliando a situação com os braços cruzados.
O rei havia voltado para a festa. A música recomeçara dentro. Havia naquele recomeço uma normalidade calculada — o anfitrião que demonstra que o incidente não o perturbou suficientemente para arruinar a noite.
Mas no pátio, amarrado a uma árvore de casca vermelha, estava o touro mágico do rei — o veículo que o transportava, de pelagem negra que absorvia a luz ao redor, com chifres menores que os da forma de batalha mas ainda assim expressivos. Era uma criatura de poder considerável, claramente bem cuidada, que olhou para Wukong com aquela inteligência animal que vai além do instinto mas fica aquém da linguagem.
Wukong olhou para o touro.
O touro olhou para Wukong.
Uma ideia, pensou Wukong. Uma ideia não exatamente elegante, mas uma ideia.
Verificou que não havia guardas visíveis no pátio — estavam todos dentro com a festa. Desatou o touro com a dexteridade de quem sabe que velocidade e silêncio precisam ser combinados na proporção certa. Transformou-se no Rei Demônio do Touro com a precisão do seu repertório de transformações mais difíceis — mesma enormidade, mesmo rosto de chifres, mesma aura de autoridade que os séculos constroem sem que o dono perceba —, montou no touro que agora estava desorientado mas não resistente, e foi de volta ao Monte das Nuvens Turquesas.
A Fada Ferro-Leque recebeu quem pensava ser seu marido com a ternura contida de uma esposa que desenvolveu ao longo de anos uma indiferença estratégica sobre as ausências e aparições do marido. Havia naquela ternura contida algo de mais honesto do que o afeto desimpedido teria sido — o amor que sobreviveu às circunstâncias mas não pôde deixar de registrá-las.
— Voltaste cedo — disse ela. — A festa acabou?
— Tive uma conversa que me deu a pensar — disse Wukong, com a voz do rei e aquele acento geral de autoridade conjugal que aprendera ao longo da observação dos últimos minutos. — Sobre Red Boy. Sobre o leque. Sobre a situação na Montanha de Fogo e o monge que precisa de passagem.
A Fada ficou mais receptiva do que Wukong esperava. Havia ali, percebeu, uma mulher que havia guardado o leque e a mágoa como se fossem a mesma caixa, e que esperava há tempo que chegasse a chave não de fora mas de dentro do casamento.
— Você quer que eu empreste o leque? — disse ela, com uma voz que tinha nela não capitulação mas consideração genuína.
— Quero que você considere — disse Wukong, com a voz mais suave que conseguia produzir na forma do Rei Demônio do Touro, que não era naturalmente suave mas podia ser moderada.
Ela foi buscar o leque. Voltou com ele dobrado nas mãos, as folhas de bananeira-que-não-era-bananeira pressionadas umas contra as outras com aquela compactação sobrenatural que tornava o imenso em portátil.
— Sete ciclos para o leste, três para o oeste — disse ela, entregando o objeto. — As chamas da Montanha de Fogo se extinguirão. Mas traga de volta quando terminar. Este leque é meu, e foi meu antes de existir Montanha de Fogo para apagar.
— Obrigado — disse Wukong, e pegou o leque com as duas mãos.
Estava fora da gruta e voando antes que ela pudesse notar qualquer coisa estranha na saída sem despedida, na velocidade incomum, no detalhe específico de que o marido que havia entrado não era exatamente o marido que ela conhecia.
Voltou ao acampamento com o leque na mão e aquela expressão de quem conseguiu o que queria mas sabe que ainda há etapas.
— Conseguiu? — disse Tang Sanzang, de pé, com o rosário parado nos dedos.
— Consegui — disse Wukong. — Pela via indireta, mas consegui.
Voou até a Montanha de Fogo com o leque e começou os ciclos. Sete vezes para o leste, o leque abrindo-se em cada movimento para uma dimensão que não cabia na geometria comum, e as chamas começaram a recuar da base para o centro como uma maré que cede. Três vezes para o oeste, e ventos frios desceram sobre a pedra escaldante com aquela qualidade do frio que não é apenas ausência de calor mas presença de algo diferente — a sensação da terra lembrando o que era antes do fogo.
Mas quando Wukong tentou dobrar o leque para guardá-lo, descobriu que não conseguia. Era enorme demais, continuava a se desdobrar como um pergaminho que rejeita ser fechado, como se o leque tivesse a memória do seu trabalho e não quisesse ser guardado antes de terminar.
E enquanto ele lutava com o leque desobediente, um trovão distante anunciou a chegada do problema seguinte.
O Rei Demônio do Touro havia descoberto o roubo. Havia descoberto também que seu touro havia sido usado como montaria sem permissão e sua identidade havia sido usada como disfarce sem pedido. As duas descobertas chegaram provavelmente ao mesmo tempo, e o efeito combinado estava agora cruzando a planície recém-esfriada na forma de um touro de proporções impossíveis, com chifres que chegavam à altura das nuvens baixas e patas que faziam a terra ressoar a cada passada.
Wukong segurou o leque que continuava a se expandir e encarou a tempestade que vinha.
A batalha pela Montanha de Fogo ainda não havia terminado — estava apenas entrando na sua fase mais interessante.